a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

terça-feira, 31 de maio de 2005

Manter As Aparências

Desço o Parque Eduardo VII com um sorriso estúpido na cara e um enorme saco da Bertrand na mão. Por fora lê-se

DAN BROWN

IRRESISTÍVEL E IMPARÁVEL O NOVO BEST-SELLER MUNDIAL DO AUTOR DE

O CÓDIGO DA VINCI

lá dentro baloiça

ALEXANDRE HERCULANO

IRRESISTÍVEIS E IMPARÁVEIS OS VELHOS

Opúsculos. Questões Públicas, Tomo I

Opúsculos. Questões Públicas, Tomo II

DO AUTOR DE LENDAS E NARRATIVAS

adquiridos ao preço de €1,68 cada. Sim, €1,68 cada.

segunda-feira, 30 de maio de 2005

Cousin Manuel

Manuel tem mais de quarenta anos e é militar. Alta patente do Exército. É casado e tem um par de filhos adolescentes. Não sei se é gordo, se fuma, se lhe custa acordar de manhã, se é feliz. Não o conheço porque não é do mesmo país ou continente que eu. No dia 11 de Setembro de 2001, Manuel estava em reunião numa das arestas do polígono mais conhecido do mundo. Depois de o saber inteiro e de boa saúde a sua mãe, Eva, sentou-se e rezou mais um bocadinho. Acalmou-se, pegou na caneta e escreveu duas folhas a uma das suas primas de véu ocidentalmente aceitável. Sabendo-a devotada às coisas de Deus, não teve vergonha de desabafar a íntima convicção de que o seu rapaz fora salvo por intercessão da mãe de Jesus.

domingo, 29 de maio de 2005

Lisboa, Rua D. Luís I

Estes dias é que são,
cheira a calor
no exacto início da noite.

(O c
hilreio afoga a praça,
cala o sobrante.)


Como Disse?

Ainda não li o suficiente para ter opinião quanto a uma hipotética Constituição Europeia.

Quem Fala Verdade Não Merece Castigo

Ainda não li o suficiente para ter opinião quanto à Constituição Europeia.

sábado, 28 de maio de 2005

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior - Cueca de Homem

O mundo da cueca máscula não é muito complicado. Bikini, boxer-shorts e slip - eis o triunvirato nacional. Valesse a verdade, teria de acrescentar a tanga e o fio dental, mas estas versões, tidas como excêntricas, provocam ainda sincera desconfiança à genitália lusa. O algodão 100% domina (ainda dizem que os machos são parvos...) e o bikini é o pomo de todas as concórdias: mantém o homem seguro, confortável e pronto para uma jornada profissional ou desportiva. O boxer foi introduzido há poucos anos (15? 20?), substituindo com sucesso, paulatinamente, as antigas trousses (parentes das ceroulas, nascidas no tempo d' El-Rei D. Sebastião), espécie de calção acarinhado pelos mais novos e menos preocupados com a temperatura ideal à reprodução da espécie. O slip é o mistério dos mistérios: para que quererá um homem um bikini com abertura diagonal dianteira? Será claustrofobia? Será o cúmulo do comodismo?
O mundo do bikini e do slip é quase monótono. Apresenta-se-nos numa variação de cores simples que replica a das peúgas - lá vem o verde, o azul, o cinzento, o creme, o preto e o branco.... Os números vão do 4 (XS) ao 7 (Xl, com a possibilidade de encontrar o XXL e o XXXL). Chegados ao sector cor+padrão tudo muda: há um número infindo de desenhos bizarros que parecem querer replicar o pior papel de parede dos loucos anos setenta; losangos, rosáceas, círculos dentro de círculos, cornucópias, tartans em amarelo, cinzento, castanho, laranja e verde-bandeira, ptiuuuuuuiiiiiii, ptiuuuuuuiiiiiii! Os boxer's, dirigidos a um público tendencialmente mais jovem, evitam estes desvarios pictóricos, mas caem noutros: tirando as risquinhas e quadradinhos, é olhar a profunda - ainda que por vezes divertida - foleirice dos coraçõezinhos, das estrelinhas, dos porquinhos e gatinhos a copular, dos carrinhos F1, das motas, tudo isto para adultos.
No princípio dos anos noventa o sr. Calvin Klein (às vezes os trend-setters acertam na mosca) repôs internacionalmente a roupa interior não-apalhaçada, propalando a sobriedade e virilidade da cueca, contagiando até a lingerie feminina. A combinação com a recém-descoberta lycra ajudou à festa, tornando os calções e bikinis pretos, brancos e cinza, sinuosos, justos, atraentes aos olhos de qualquer um e qualquer uma.
Faz-me muita confusão que as mulheres - mães, namoradas e esposas - tenham ainda poder quasi-absoluto sobre a compra de roupa interior masculina. Chego a perguntar-me se os homens vestem o que realmente gostam ou se simplesmente aceitam o que elas trazem para casa, vencidos pela preguiça ou pelo cansativo espectro de mais um pé-de-vento. Em suma, sei lá eu o que os homens gostam de usar junto a si, nem sequer tive um episódio de vendas embaraçoso com nenhum deles...

sexta-feira, 27 de maio de 2005

No Meu Quarto

De humanidade aprendi com quem teve um fim angustiantemente prolongado. Anos. Com dignidade, mas com tudo o que implica morrer com o espírito quebrado por uma doença que leva a cabeça. Durante esse tempo não me importei nada de ouvir histórias repetidas. A vontade de contar era tanta, que eu ficava de roda a ouvi-la dizer coisas que já sabia ou não sabia. Num dos dias piores, em que havia um ai aflito de manhã à noite, entrei no meu quarto, que então era o seu, e vi-a caída no chão. Eu devia ter dez anos, e penso que nesse exacto momento só eu e ela estávamos em casa. Não sei como consegui pô-la de volta à cama. Ela olhou para mim e reconheceu: reconheceu-me a mim, quando já não sabia quem era quem dos mais novos, e percebeu-me naquela dificuldade e atrapalhação. E eu vi isso, e isso não esqueço.

quinta-feira, 26 de maio de 2005

Working Girls

"The working girls in the morning are going to work--
long lines of them afoot amid the downtown stores
and factories, thousands with little brick-shaped
lunches wrapped in newspapers under their arms.
Each morning as I move through this river of young-
woman life I feel a wonder about where it is all
going, so many with a peach bloom of young years
on them and laughter of red lips and memories in
their eyes of dances the night before and plays and
walks.
Green and gray streams run side by side in a river and
so here are always the others, those who have been
over the way, the women who know each one the
end of life's gamble for her, the meaning and the
clew, the how and the why of the dances and the
arms that passed around their waists and the fingers
that played in their hair.
Faces go by written over: "I know it all, I know where
the bloom and the laughter go and I have memories,"
and the feet of these move slower and they
have wisdom where the others have beauty.
So the green and the gray move in the early morning
on the downtown streets."
Carl August Sandburg, Chicago Poems [1912?, 1916?].

A Minha Cabeça É Um T1

Ainda bem que a consciência vive com a saudade. Sempre que quero saber notícias poupo uma visita.

No Dizer Tão Certo De Outro

Como pode ser um verso estranho quase meu? Talho, como ovo, e a custo me recomponho. Largo-o, razôo – sou eu só, outra vez.

terça-feira, 24 de maio de 2005

Six Feet Above?

Se o buddy-boy não está doido, a Lisa está viva? Que é do Arthur? Como pode a Fisher & Diaz funcionar sem ele? Não há mais Billy Chenowith? Quase me rendo à leitura do que há-de vir. Mas ainda não.

Restantes e caros afic(c)ionados: O argumento é sempre bom, ou muito bom. O génio vejo-o sobretudo nos episódios realizados pelo Miguel Arteta, ou pelo Michael Cuesta.

Nessa Epocha Era Bem Diferente XII

[Circular Nº 2/11, Lº 90, Ministério do Interior / Direcção Geral da Administração Política e Civil]

Exmo Senhor Governador Civil do Distrito de Santarem

Havendo o Exmº Ministro do Interior concordado com a licença concedida pelo Exm.º Minsitro da Guerra até 4 dias, sem prejuizo[sic] do serviço e sem dispêndio algum para o Estado, a todos os oficiais do Exército ao serviço do Ministério do Interior que pretendam visitar o Algarve, conforme se expõe na nota que a seguir se transcreve, assim venho comunicar a V.Exª para conhecimento dos oficiais que estejam exercendo cargos administrativos nêsse[sic] Distrito e pretendam aproveitar-se de tal concessão:

“Tendo vários oficiais manifestado o desejo de conhecer o Algarve, principalmente na época em que as amendoeiras se encontram floridas oferecendo então a linda provincia[sic] um aspecto mais atraente, sendo no entanto a menos conhecida no País, principalmente do elemento militar, muito conveniente se torna por todas as razões e por patriotismo facilitar essa visita e assim encontrando-se o presente quartel deste Regimento em condições de poder alojar grande número de oficiais, por ter recebido camas novas e outro material, podendo também fornecer banhos a qualquer temperatura e não havendo possibilidade de instalar em qualquer local da provincia[sic] uns 100 oficiais rogo a V.Exª se digne solicitar a necessária autorização para poder fazer essa instalação no quartel deste Regimento durante a noite de 17 de Fevereiro próximo, tomo a liberdade de sugerir a concessão por S. Exª o Sr. Ministro da Guerra duma licença especial até quatro dias, sem prejuizo[sic] do serviço e sem dispêndio algum para o Estado, a todos os oficiais que pretendam visitar a provincia[sic] do Algarve devendo os mesmos sairem[sic] de Lisboa no rapido[sic] das 8,25 do referido dia 17 de Fevereiro. O Comandante (a) António Vaz Velho da Palma. Coronel.”

Saúde e Fraternidade

Direcção Geral da Administração Política e Civil, em 4 de Fevereiro de 1932.

O Director Geral,

[assinado] José Martinho Simões

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1932), vol. 1, Ofício Nº 144.

Estava-me Mesmo A Apetecer...

1. Uma bola grande de chocolate belga.

2. Dar um mergulho no Azibo;

3. Acordar amanhã com menos 6 quilos;

4. Não ter batido com nariz na porta do S. Luiz (cavalheiros, exijo indemnização: assim de repente pode ser um perna-de-pau contra-apresentação de bilhete de metro, na próxima data do "..., estúpido!").

segunda-feira, 23 de maio de 2005

Cerejas

Da Beira. Brancas e vermelhas, mas sobretudo pretas. Das que deixam o polegar e o indicador tintos como os dos frades envenenados pelo medo do riso, n’O Nome da Rosa.

domingo, 22 de maio de 2005

SLB

Parabéns aos benfiquistas, pois claro. Metade da minha família deserdava-me se eu não me esforçasse nisto do fair-play.

22 de Maio, 1940

Si j’étais antiquaire, je n’aurais d’yeux que pour les vieilles choses. Mais je suis historien. C’est pourquoi j’aime la vie.

Marc Bloch, Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien, 1949 (ed. post.)

O Professor participava agora no último esforço da Campagne du Nord. Lá estava, apesar de seu crónico reumatismo e 54 anos de idade, como tinha estado aos 28 na Grande Guerra. A marcha da 19ª do Panzer Korps, de Abeville a Boulogne, de Calais a Dunkerque, não pôde ser evitada. A 2 de Julho Pétain assinaria o Armistício com o Reich. Alguns meses depois, não fosse o seu prestigiado estatuto académico, a origem judaica da família Bloch ditaria a sua exclusão do mundo universitário e exoneração da função pública. Vichy permitiu-lhe recolocação em Estrasburgo, primeiro, e em Clermont-Ferrand e Montpellier, depois. Entre o Armistício e Setembro escreveu um testemunho que não quis ver publicado antes da libertação da França. Acreditava e trabalhava para essa libertação. Enquanto sua mulher, Simmone, recuperava de doença na amenidade do Midi, trabalhou na Universidade de Montpellier e iniciou contacto com vários grupos resistentes. Teve a oportunidade de seguir para os Estados Unidos com Simmone e os filhos mais novos, mas recusou-se a deixar os rapazes maiores e sua mãe, ainda viva. Em 1943 passou à clandestinidade: tornou-se membro do Directório Regional da Resistência Unida, em Lyon, e como “Chevreuse”, “Arpajon” e “Narbonne” ajudou à constituição de grupos de libertação nos 10 departamentos que dependiam do directório a que pertencia. A 8 de Março de 1944 foi preso. Durante os três meses seguintes a Gestapo interrogou-o e torturou-o. A 16 de Junho seguiu com outros companheiros para Saint-Didier-de-Formans, onde foi fuzilado.
O manuscrito L’Étrange Defaite esteve desde 1940 ao cuidado do Dr. Canque, no subúrbios de Clermont-Ferrand e em Orcine, depositado por um companheiro do grupo clandestino Franc-Tireur, Philippe Arbos. Sobreviveu ao lixo a que foi votado por militares alemães,
ao zelo colaboracionista da polícia e ao enterramento prolongado num jardim. Após a libertação foi entregue à família do historiador, sendo publicado em 1946.

Nada angustia como saber que há quem tenha morrido pelo que temos sem se saber vitorioso.

sexta-feira, 20 de maio de 2005

Quem Pede Assim, Arrisca-se A Ouvir Sim...

Na Rua Capelo e Ivens, pleno centro de Santarém, há uma loja de roupa chamada BURLAMAQUI.

estação

Esperar ou vir esperar querer ou vir querer-te
vou perdendo a noção desta subtileza.
Aqui chegado até eu venho ver se me apareço
e o fato com que virei preocupa-me, pois chove miudinho

Muita vez vim esperar-te e não houve chegada
De outras, esperei-me eu e não apareci
embora bem procurado entre os mais que passavam.
Se algum de nós vier hoje é já bastante
como comboio e como subtileza
Que dê o nome e espere. Talvez apareça
Mário Cesariny de Vasconcelos, Pena Capital, 1957 a 2003.

quinta-feira, 19 de maio de 2005

Menções Honrosas II

Categoria “Sou Magnânimo”


"É, diga-se, muito curioso que um dos autores do Gato Fedorento se professe de direita, visto que esta filosofia do programa é eminentemente anarquista ou, pelo menos, anti-elitista. Pois, tal como nos Estrunfes não existem classes, no Gato Fedorento não existem divisões entre ridicularizadores e ricularizados. Existe apenas o ridículo."

Locução de Continuidade

A bola no Olival é a minha caderneta de colecção, no momento. N'A Memória Inventada, entre outras coisas.

O Tejo VI

As vogais, abertas até Alverca, começam a arquear a sério de Santarém para cima. Ao chegarem a Abrantes já vão completamente circunflexas.

Erros Favoritos III

Imolação > Emulação

Ilustres Desconhecidos – Cigano Bilas

Na Damaia, entre os arcos do aqueduto e a ferrovia, há agora uma rampa mais ou menos relvada que serve de sanita aos caniches e cockers dos senhores que não acreditam em sacos de plástico. Dúzias de barracas ocupavam ainda há dez anos essa fatia de declive. Uma sobressaía, ainda que fosse feita do mesmo travejado de madeira preta que as outras, ratado aos barracões de depósito e manutenção que pontuavam o percurso. É preciso ter viajado sempre a dormir para nunca ter dado pelas letras – gigantescas e brancas – pintalgadas num alçado virado à linha. Lia-se “CIGANO BILAS”, ou “CASA DO CIGANO BILAS”, ou “AQUI MORA O CIGANO BILAS”, já não sei muito bem. O que sei é que ali morava um homem de quem contavam histórias. Que era gatuno, que vendia na feira, que rogava pragas, que era pai de família, que matava à facada, que era da droga, que não era cigano nenhum. Alguém havia de o conhecer, mas nenhum de nós o conhecia, o que só inflamava o mito. Não o resolvendo, passámos a alcunhar o espertalhaço do momento em honra do ilustre desconhecido.
A barraca do senhor Bilas lá acabou por ir ao chão; o anti-herói manhoso, criado pelas nossas cabeças que adolesciam, também. Resto eu na carruagem com gaiola ao fundo, ora olhando as letras garrafais, ora olhando o pendura com poupa e cigarro, sentado no estribo.

quarta-feira, 18 de maio de 2005

Verde À Mesma

Um beijinho ao Visconde de Alvalade, um beijinho à claque na bancada, um beijinho ao homem da queijada que pára a cada lance perigoso, um beijinho ao plantel, um beijinho ao lema no listel, um beijinho ao Paulinho Roupeiro, outro ao Belarmino Peseiro, um beijinho ao blogueiro doente, outro ao torniquete que só deixa passar um de cada vez - e a tudo o resto que é Sporting Clube Português.

Fisher & Diaz

Continuam quase todos à pesca de alguém que os não desaponte. Federico, esse, mareia.

terça-feira, 17 de maio de 2005

Fobias

Há medos(ou ódios?) para todos os feitios, na lista desenterrada pelo berra-boi. Medo de mulheres bonitas, medo de sapos, medo de alemães, medo de bombas atómicas, medo de sexo, medo de coisas enxutas. É escolher.

We Get To Carry Each Other

Não quero saber que sejam demasiado populares, vagamente decadentes, saloiamente suburbanos, ou que já tenham sido melhores do que são. Continuam juntos, continuam sinceros, continuam a fazer canções (várias boas). Eu continuo a ouvi-los. Estou com eles. Estou por eles.

Post Meridium

Depois de ter feito mais uma intervenção em favor daquela pessoa que irrita toda a gente, a minha amiga sai-se com um antológico e para sempre repetido:


- Sim, Cláudia, mas tu não tens critério, tu gostas de quase toda a gente!


Feita parva coro muito, como se aquilo fosse um elogio.

Ante Meridium

Calor à noite, dias grandes, água morna, cigarras, estrelas evidentes. Um Verão para breve.

Homens II

A face interior do braço, toda ela. Mais macia e clara que o resto.

segunda-feira, 16 de maio de 2005

Pa(ra)ís(o)

Acordar. Viajar. Entrar no café, trocar um bom-dia honesto. Trabalhar. Sair, olhar rua e aproveitar o vento do fim da tarde. Viajar. Ler e conversar qualquer coisa boa.

Português Partido VIII

Acatrapado, adj. m. (etim. obscura) 1. Ajoujado. 2. Que se encontra à beira da imobilidade. 3. Atrapalhado; embaraçado.

Simples É Difícil

Fosse todo o amor simples como este.

domingo, 15 de maio de 2005

Lisboa, Avenida 5 de Outubro

Jacarandá cá cantam. Há quem tenha reparado antes de mim, mas não no mesmo lugar.

Fancy Day

"The first-fruits of his perseverance were that, on turning the angle on the nineteenth journey by that track, he saw Miss Fancy's figure, clothed in a dark grey dress, looking from a high open window upon the crown of his hat."

Thomas Hardy, Under The Greenwood Tree or The Mellstock Quire, Part The Second: Spring, 1872.

sábado, 14 de maio de 2005

sexta-feira, 13 de maio de 2005

Starlet Johansson

Se a inveja matasse [a invejosa], eu estava na UCI.

Austeriana

O último documento de hoje. Cheira ao pó acamado em setenta e quatro anos, quatro meses e cinco dias. De todas as datas do mundo, acontecer neste dia. Perplexa, leio o requerimento de um jovem homem que, como eu, é português; que, como eu, tem vinte e sete anos; que, como eu, estuda outro tempo. O último documento de hoje é o seu pedido de autorização à leitura dos papéis que neste exacto momento seguro com a mão esquerda. Ao canto, em cima, a tinta permanente, negam-lhe autorização para ler o que neste exacto momento seguro com a mão esquerda. A tinta permanente não; a tinta.

Há Ideias Que Só Se Expressam Em Madeira©

EDITAL

Adriano da Conceição, Oficial do Ministerio do Comercio e Comunicações e Administrador do Concelho de Vila Nova de Ourem:

FAÇO SABER:

- É abulido[sic] o uso do Cacête em todo o Concelho -

Que, tendo-se ultimamente notado varias agressões neste Concelho, na sua generalidade com cacetes e sendo necessario acabar-se com esses abusos duma vez para sempre, determino:

1º - Fica expressamente prohibido o uso de cacêtes em todo o Concelho;

2º - É permitido o uso de pau, áqueles que, pelas suas condições fisicas, necessitem dele para se ampararem;

3º - É punido com a multa de 10$00 Esc.[n.b.: equivalente a mais de ½ mês de salário de um jornaleiro], todo aquele que fôr encontrado munido de varapau que lhe é também apreendido;

4º - Em caso de reincidência, a multa será de 30$00 Esc. Pode ndo até ser preso se a autoridade o julgar conveniente;

5º - Deve ter-se em linha de conta, as pessôas extranhas[sic] ao Concelho, quando se prove a sua ignorancia no cumprimento deste editál[sic], os quais serão avisados, mas mantendo-se a apreensão do pau;

6º - Ficam responsaveis pela execução destas determinações, os regedores e seus subordinados, na area de cada uma das suas freguezias;

7º - Egualmente[sic]fica a Guarda Republicana com os poderes precisos para fazer cumprir o que se determina neste edital;

8º - O producto[sic] das multas a que se referem os artigos 3º e 4º deste edital, é destinado 75% para a Assistencia Publica e 25% para o autuante.

O que para constar e ser do conhecimento publico e ainda para que seja cumprido rigorosamente, mandei passar este e outros de egual[sic] teor para serem afixados nos lugares do costume.

Administração do Concelho de Vila Nova de Ourem,

(a) Adriano da Conceição”

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1930), vol. 1, Edital apenso ao Ofício Nº 638.

No Universo

"Creio, primeiro, que o mundo em nada nos melhora, que nascemos estrelas de ímpar brilho, o que quer dizer, por um lado, que nada na vida vale o que somos, por outro lado que homem algum pode substituir a outro homem. Penso, portanto, que a natureza é bela na medida em que reflecte a nossa beleza, que o amor que temos pelos outros é o amor que temos pelo que neles de nós se reflecte, como o ódio que lhe sintamos é o desagrado por nossas próprias deficiências, e que afinal Deus é grande na medida em que somos grandes nós mesmos: o tempo que vivemos, se for mesquinho, amesquinha o eterno. E penso, quanto à segunda parte, que todo o homem é diferente de mim, e único no Universo; que não sou eu, por conseguinte, que tem de reflectir por ele, não sou eu quem sabe o que é melhor para ele, não sou eu quem tem de lhe traçar o caminho; com ele só tenho o direito que é ao mesmo tempo um dever: o de o ajudar a ser ele próprio; como o dever essencial que tenho comigo é de ser o que sou, por muito incómodo que tal seja, e tem sido, para mim mesmo e para os outros."

George Agostinho Baptista da Silva, A Educação em Portugal, 1970.

quinta-feira, 12 de maio de 2005

Abluta

Lavo o corpo
cambado pelo dia
lavo o dia
pela cara
lavo a cara
pela água
lavo o dia
largo o dia
escorro suavemente pelo ralo.


Nessa Epocha Era Bem Diferente XI

Administração do Municipio de Tomar


Serviço da República

Tomar, 28 de Janeiro de 1930.

Exmº. Snr. Governador Civil do Distrito de

Santarem

Acusando a recepção do mui digno oficio de V. Exª. Nº 42 (1ª secção), de 25 do corrente mês e dos 28 pacotes de tabaco que o acompanharam, agradecendo a V. Exª., em nome dos contemplados, a generosidade da oferta, cumpre-me informar que foram distribuídos: 15 aos doentes pobres internados no Hospital da Misericórdia, e os restantes 13, por não haver outra casa de beneficiencia, a alguns dos presos indigentes e a um indigente louco, também na cadeia desta cidade.

Saude e Fraternidade

O Administrador do Concelho,

[primeiro nome ilegível] Antonio [apelido ilegível], cap.

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1930), vol. 1, Cópia do Ofício Nº 80.

quarta-feira, 11 de maio de 2005

Lisboa, Rua dos Fanqueiros

O gerente da loja de ferragens do senhor Anastácio Verde é já há algum tempo o José Joaquim. Tem um destes ares ingleses: fato azul, olhos azuis e cabelo alourado. O movimento está fraco; finca os cotovelos no balcão e olha uma caixa de pregos fasquiados, enquanto cisma numa coisa qualquer.

Let's Go Co-Ed

À terceira ou quarta vez que ouvi o argumento deixei de o recusar com tanta força, porque de há uns tempos para cá comecei a testá-lo observando toda a automobilista em situação de trânsito animado. Tem de se reconhecer que é verdade: nós, mulheres, raramente damos a vez ou facilitamos a manobra de um outro condutor. Quando o fazemos os homens hesitam por momentos, a ver se o nosso carro foi abaixo. É óbvio que a descortesia feminina na estrada não é fruto de uma inabilidade específica para pilotar, mas de um encostanço a séculos de senhores a abrir portas, a carregar pesos, a segurar sacos, a dar lugares. Não é que o cavalheirismo não seja agradável, porque um beijinho na mão é sempre agradável. Mas se calhar na estrada podíamos acabar com isso de vez, não?

Esternocleidomastóideo

Ai, que já há data, São Vasco Santana me valha...

terça-feira, 10 de maio de 2005

A Mulher

Vejo este blog muito, para estar a par da bitola. A maior parte das vezes rio. De mim, sobretudo. Delas também me rio às vezes, da sua sofisticação linda e fantasiosa. Outras vezes choro.

Meter A Colher

Mme. Charles, não há cara como a do Peter Krause desde a do Paul Newman. Não é loucura, é a desfaçatez e a honestidade em pessoa/personagem. Contudo, deposito afectuosas esperanças no Joe-Doe. Justin Theroux merece.

Áquela Estrela

Uma da matina, no cimo dos Penedos Pardos. Borrados de medo de falhar a prova de 2ª Classe, apontávamos o céu escuro de forma vaga, confiantes que o nosso chefe não percebia. Duro, adulto, inacessível, filho de poeta, perguntava, descrente:

- Então, onde está Orion?


E nós, sem querer, descobríamos a resposta certa.

Porque Detesto o Hip Hop

Porque não chega a ser música - é ritmo, excepção aos Beastie Boys, ao JayZ, ao Senhor Marshall Mathers e a mais uns quantos pró-melódicos - e contagia toda a gente como se fosse.

Porque Adoro o Hip Hop

Há-que-décadas que as mulheres não podiam ter rabo.
"O que faz andar o barco não é a vela enfunada, mas o vento que não se vê."
Platão [In Citador]


Wee Hours

Chove inesperadamente. Eu fico à escuta.

segunda-feira, 9 de maio de 2005

Geração

Sou de setenta de vinte
nem vencida nem convencida
digo,
somos de setenta de vinte
nem vencidos nem convencidos.

Mapa das Estradas

Como é estreita a porta e que apertado é o caminho que guia para a vida e como são poucos os que o encontram!

Mt. 7, 14


Reflectem, vestidos em coletes amarelos e cor-de-laranja. Cada um vai ao seu passo. Seguem para a Cova da Iria por estradas de muito movimento e por estradas de pouco movimento.

domingo, 8 de maio de 2005

Sortes Virgilianae

"All things can tempt me from this craft of verse:
One time it was a woman's face, or worse -
The seeming needs of my fool-driven land;
Now nothing comes but readier to the hand
Than this accustomed toil. When I was young,
I had not given a penny for a song
Did not the poet sing it with such airs
Than one believed he had a sword upstairs;
Yet would be now, could I but have my wish,
Colder and dumber and deafer than a fish."

William Butler Yeats. All Things Can Tempt Me (The Green Helmet and Other Poems), 1910.

Mais Um Aniversário

Parabéns a toda a tripulação.

Dias Em Que Soube Que Já Não Era Pequena II

Faz frio, faz sol, e o meu amigo continua a conduzir. Vai-me contando, sem amargura nem artifícios, o pedaço de vida adolescente acontecida lá pelo fim do casamento dos seus pais, há uma década. Porque o ouço reparo-me cheia de um pai aliviado e feliz ao abrir a porta de casa. Não sabia. Estamos próximos da A1 e faremos mais três horas de caminho. Cada qual se vira para o seu silêncio, limpo de cálculo e embaraços. Adiante falaremos mais.

sábado, 7 de maio de 2005

sexta-feira, 6 de maio de 2005

Trem-Lag X

Um bocadinho antes de Vila Franca, vejo pela primeira vez na vida um campino juntar toiros. Um bocadinho depois de Vila Franca, vejo pela primeira vez na vida um windsurfer deslizar sobre o rio.

Iconumia

Duas raparigas com idade para votar falam num português desenvolto sobre os problemas do país. Discutem com ardor o estado da economia. Passam vinte minutos desde que comecei a cuscar a conversa e, com excepção de importação e mão-de-obra, conseguiram errar as definições de todos os conceitos abordados: alfândegas; aposentação; câmbios; colecta de impostos; moeda... Assim de relevante, fiquei a saber que o vinho francês mais vendido no mundo é Região Demarcada de Champignon.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior - Soutien

Não há outra peça que diga tanto de gostos e fases da vida da mulher como o soutien – ele sustenta, por uma vida, o peso do potencial alimento de outrem e do potencial prazer da própria. Assim se explica a existência do soutien para desporto, para prótese, para aleitamento, para sexo e para o dia-a-dia sem história. Feito em algodão e elastano ou em elastano e outros poliamidas, pode ter alças ou não (quando não tem chamam-lhe cai-cai, mas a mim nunca me caiu), pode ter meio-cós (o usual, termina por cima do estômago) ou cós-alto (também designado corpete, ou corset, cintando o estômago até abaixo do umbigo), porque seios são como pessoas – cada qual tem o seu feitio. Daí decorre que as copas ou meias-copas de soutien se encontrem no mercado em formatos A, B, C e D. A numeração clássica europeia começa no pubescente 28 e termina no mastodôntico 58 (algumas marcas produzem um tamanho ainda maior, espécie de XXL; este sim, é verdadeiramente parecido com um pára-quedas). O standard a que todas aspiram é o 36, como nas calças de ganga. Vende-se hoje em muitas cores e padrões (no mass market português o padrão floral e geométrico só se vulgarizou nos últimos três anos), opacos ou transparentes, lisos, rendados, bordados, ou com aplicações. Os franceses têm fama e proveito na lingerie et corsetterie: há décadas que se mantêm originais no desenho e cuidadosos na produção; os portugueses também não são nada maus, sobretudo no cuidado com a produção, porque com excepção dos cartazes com a Isabel Figueira, padecem, como no caso das meias, de crónica falta de hype.
É muito pouco dotada ou rara a mulher (reza a lenda que é o caso desta senhora) que no seu quotidiano sente ou manifesta conforto sem o seu soutien. Tal feito requer a combinação de doses maciças de auto-estima, extroversão, boa condição física e conhecimento de artes marciais para uso em meios saturadamente testosterónicos.
Não tive nenhum episódio de vendas particularmente pitoresco envolvendo soutiens. Só a ocasional velhota desesperada por encontrar o seu modelo favorito (as empresas preconizam de há uns anos para cá a “descontinuação” de produto, favorecendo a implementação de novos desenhos para dar resposta às exigências das mais jovens e compulsivas compradoras), que à pergunta da referência numérica ou onomástica do artigo desejado responde não saber. Não haveria nada de traumatizante a assinalar, se na própria zona de atendimento não tivesse visto resolver o dilema, mais que uma vez, com a exibição súbita do exemplar que a própria trazia vestido.

A Rapariga dos Bilhetes

Devo tê-la visto muitas vezes. Agora, claro, parece-me outra pessoa. Achava-a nada simpática, com pinta de rapariguinha do shopping, ar enfadado e pouca vontade de trabalhar. No cais, uma passageira conversadeira, para desenjoar da espera pelo nosso autocarro, começou por se me lamentar do milésimo desconto a sofrer no salário. A meio do rosário cansou-se, mudou de assunto e apontou com o queixo para o guichet; que a moça, coitada, ai, foi um escândalo, só há dias substituíram a porta aberta pela cabine de segurança, dois malandros assaltaram a bilheteira e ela não lhes quis dar o cofre-portátil, esteve à morte, passou o Natal no hospital, e não é que já aí está outra vez, faz o que tem a fazer como se não tivesse sido nada?

Encavei, mais uma vez, o justo valor das minhas primeiras impressões.

Letra

Desde que aprendi a escrever que há quem diga que não tenho a letra certa. A verdade é que nem sempre a percebo.

Bom Dia!

October, 22. 1837.

"What are you doing now?", he
[R.W.Emerson] asked. "do you keep a journal?" So I make my first entry to-day...
Henry David Thoureau, The Journal of Henry D. Thoureau (1837-1862), 1906.

A hora não é de acordar, mas aqui ficam sinceros votos de parabéns ao diarista aniversariante. Que tenha muitos e bons dias.

Monomanias

Os doidos andam muito de comboio. Apercebi-me quando a minha mãe me levou à Baixa para a sacramental ronda aos saldos, aos nove anos. Vínhamos de regresso, e a meio da Praça do Rossio começou a ecoar um som esquisito. Virei-me, parei e fiquei a ver correr rumo à estação um homem que ladrava em bom som e sem parar.
Tempos depois, houve a velha do galãozinho. Todos os dias lá corria ela as carruagens a agarrar-se aos braços das senhoras, exigindo a sua moeda ("dá! dá para o galãozinho!"). Era de então o rapaz que morava no Cacém e se embalava cada vez que o comboio iniciava marcha. Sentado na ponta do banco, parecia um pica-pau: oscilava para cima e para baixo, primeiro devagar, depois mais e mais depressa, até suar em bica. Mais que uma vez o vi dar cabeçadas nos recheios dos decotes de jovens mulheres, que se levantavam coradas e fingiam sair na estação seguinte.
Só há umas semanas percebi que o africano alto vestido de soldado não se encontra permanentemente constipado. Simplesmente tem de espirrar sobre os outros passageiros. Espirra para todo lado, de poucos em poucos segundos, mais ou menos como se fosse um aspersor de relva. Tem por alvo preferencial quem vai distraído ou ignora a sua passagem. Desce na minha estação e segue não sei para onde, anunciando em altos gritos o fim do mundo.

quinta-feira, 5 de maio de 2005

Questões Verdadeiramente Fracturantes

Gosto muito mais do Camilo Castelo Branco que do José Maria Eça de Queirós.

quarta-feira, 4 de maio de 2005

Jornais De Graça

Quem diz que os portugueses não lêem jornais não anda de transportes públicos há uns tempos. É ver o freakolé, a beta, o obreiro, o reformado, a administrativa mãe-de-filhos e o seu rapaz de 12 anos agarrados ao Metro [o meu favorito], ao Destak [ó senhor Franscisco Pinto Barbosa, tendo em conta que tem 166.000 leitores/dia, não será possível desencantar um nome melhorzinho para o líder de mercado?], à Dica da Semana e ao Jornal da Região. Sim, há anúncios da Telepizza (de 2 páginas) e dos clarividentes professores Alaje & Karamba (de 1/2 página). Há também notícias frescas da Agência Lusa e da Reuters, resenhas despretensiosas de eventos musicais e literários – coisas relevantes. Dadas. À Borla. Grátis. O reformado não vai a tempo de mais, mas o rapazolas está só a começar.

A Plural E O Singular

Parecem Testemunhas de Jeová em Pin y Pon, meias-lecas coloridas. Não têm mais de quatro anos; encarreiradas em parelha, dão passos curtos e trazem a pastora-educadora atrás. Tão calminhas, só podem estar no parque a fazer passeio digestivo minutos antes da sesta. Pela conversa vêm aos gelados e aos baloiços. A educadora pára diante do mostruário e aponta o Epá, o Perna-de-Pau e o Calippo. Com gentileza, junta molhos de meninos à medida que os gostos vão sendo expressos por braço no ar. Sobra um Tomás. Enquanto me pergunto se é partidário do voto secreto, a educadora pergunta-lhe qual dos três gelados prefere, afinal. Ele hesita; quase não se ouve, quando diz:

- Eu queria era um Feast...

A senhora manda vir a peça única, muito dentro do orçamento. Pegajosos e contentes, correm até aos baloiços para estoirar os minutos que sobram.

terça-feira, 3 de maio de 2005

Fisher & Sons

Ainda ouço o Nate gritar no escuro de um monte californiano, por isso dou a estrada a uma carreta de linhas modernas e vidros fumados. De lado, a meio da porta, um logótipo dominado por louros e letras douradas

Agência Funerária Campeão

Espero que seja o apelido do dono, que a travessia não tem vencedores. Tem desgraçados, expectantes e cumpridos.


Rosas de Sta. Teresa

Pequenas, silvestres e muitas; em bardos de casas abandonadas, em latadas, em muros de hortas absurdas de tão urbanas. Inevitáveis na cor do seu nome, vermelhas, brancas. Sobretudo brancas. Intenso, o seu perfume não baixa cabeça a nada. Vivem umas semanas, desorientando quem passa.

E Às Vezes Ainda Empaco

[Duas irmãs tentam ensinar à primita uma palavra]

- Outra vez, vá: alcatifa.

- Alcapifa!

- Al-ca-ti-fa.

- Al-ca-pi-fa!

- Al…

- Al…

- ca…

- ca…

- ti…

- ti…

- fa.

- fa!

- ALCATIFA.

- ALCAPIFA!

- …

Homens I

De onde quer que se olhe, começa no fim da orelha a mais bela linha. Percorre o pescoço, segue a vertente de um ombro e morre imperceptivelmente na sua curva.

domingo, 1 de maio de 2005

Plus Philinte Qu' Alceste

[Philinte]

"Lorsqu'un homme vous vient embrasser avec joie,

Il faut bien le payer de la même monnoie,
Répondre comme on peut à ses empressements,
Et rendre offre pour offre et serment pour serments."

Molière, Le Misanthrope. Acte I, Scène I. L.35-40, 1666.

Instinto

Estava quase nos quarenta, e circunstancialmente longe de casa. Ao final do décimo quinto dia ficou sem leite para a recém-nascida. Na manhã seguinte, enquanto a cunhada entretinha o mais velho, preparou o primeiro biberão. Havia algo de errado com a tetina, mas só deu por isso depois de a criança puxar dois ou três golos, muito sôfregos. A menina engasgou-se e não emitiu mais nenhum som. Ficou vermelha, e a mãe branca. Agitou-a levemente, na esperança de a ver bolsar. Nada. A menina começou a perder cor. A mãe abanou-a mais, com mais força, e tapeou uma palmada seca nas pequenas costas. Nada. A cunhada entrou em pânico e disse para correrem ao hospital. A bebé não dava sinal. Mais de um minuto. Num impulso, virou-a cabeça abaixo, amparou-lhe o pescoço e segurou-a pelos pés, sacudindo-a como a um coelho. Tossiu, chorou, vomitou. Correram ao tal hospital, a umas centenas de metros dali, para ela ser vista pelo pediatra de serviço.

- Fez o quê? Se devia não sei, mas salvou-lhe a vida. Ela está bem. Podem ir para casa.

Signos

Toda a gente fala de astrologia e eu, totó, não percebo nada de astrologia. Decidi pesquisar sobre signos. Googlei Caranguejo, para começar, e apareceu-me:

"CARANGUEJO

caranguejo mole - caranguejo eremita - caranguejo da rocha - caranguejo vulgar

O caranguejo pode usar-se inteiro (vivo) ou partido em pedaços. É um isco extremamente eficaz, mas que exige uma certa prática para iscar. A dourada, que tem dentes muito fortes, acha o caranguejo um petisco irresistível, bem como as ferreiras e os sargos. Encontra-se com facilidade à beira-mar, junto às rochas ou em buracos. É, a par da camarinha, o melhor isco para o Rio Tejo em Lisboa. Bastante caro, não se encontra à venda com facilidade, pelo que o melhor é mesmo apanhá-lo, o que requer algum treino e técnica."


Isto é uma previsão, ou quê?