Terça-feira, Janeiro 31, 2012

Wee Hours

Uns dizem que acontece mais na mudanças da folhas, outros nos extremos das estações. Por mim não sei, sei lá eu. Isto a despropósito da coincidência dos últimos que vi partir, estranhamente ao ritmo desta vaga noticiosa dos tristemente encontrados. Acordei uma destas manhãs muito transpirada, num mal-estar geral; levei vários minutos a perceber que tinha sido um sonho, e nele uma vertigem de solidão.

Quinta-feira, Janeiro 05, 2012

O Doutor

, Fred Wachsmann - médico alemão lusificado Alfredo Vasques Homem - escreveu estas linhas a meio da década de cinquenta. O título e capa quasi-pulp de uma das obras que deu à publicação,

chegaram-me à mão via tia-avó das Avenidas Novas, mulher que dava mais de um filme. Incumprindo mais ou menos conscientemente todas as indicações do naturófilo centro-europeu, esta tia acabou por me legar uma pipa livresca de valor variado, entre a qual salvei um Orlando em segunda edição, benza-a Deus. Isto para dizer que a ideia de alguém ter dado à luz o conceito de 'grito alérgico' me toca fundo.

Terça-feira, Janeiro 03, 2012

Wee Hours

Assim me soa o adjectivo du jour: e-que-nómico para cá, e-que-nomicamente para lá. No outro dia estava já tão baralhada que julguei ouvir uma peça sobre a saciedade de informação e conhecimento.

Domingo, Janeiro 01, 2012

Augúrios

Desde que tenho memória nunca (ou)vi tanto compatriota em estado de alerta & prontidão às portas de um ano. Há quem ache ansiogénico. A mim, todos estes olhos bem abertos deixam-me um bom bocado mais descansada.

Sábado, Dezembro 31, 2011

Bom 2012, malta.

Lisboa, Largo do Picadeiro

Já depois do Natal fui trocar uma prenda e comprar um bolo-rei. A seguir passei pelo São Luiz e estive lá um grande bocado. O Pedro Mexia, como moderador, não só deu o pontapé de saída como foi o trinco durante todo decorrer da conversa, posição em que se sai bem. A Aldina Duarte é sempre boa de ouvir: transmite um encantamento meio infantil com o que vai descobrindo, estudando, e isso hoje é tão raro e mal entendido. O João Lopes foi quem mais me intrigou: guardei as suas citações, perguntas, a sua inconforme memória de juventude. A Patrícia Pascoal, no ingrato papel de técnica de serviço, lá tentou não tipologizar demasiado o fenómeno, mas estava difícil. A Sónia Balacó pareceu-me escalada para ler; não sei se a pouca expressividade com que o fez se deveu à natureza dos textos que ouvi (diálogos dos Morangos com Açúcar), presumo que não (também leu um poema da Adília e outro do Yeats, se não erro). Ah, o tema era o amor. A sala estava cheia de gente.

Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

Dois Mil e Onze (Ego Trip-Top)

O Pior
Crescimento - Menos oportunidades de aprender.
Sustento - Quarenta dias sem trabalho. Trinta dias de férias compulsivas, não pagas. 
Sentimento - Vário medo de arriscar ainda por perder.
Entretenimento - Nenhuma grande viagem.

O Melhor
Caros diários - Ter os meus bem, não longe.
Malabarismos culinários - Folhado de queijo de cabra da Soalheira e maçã de Esmolfe; Lasanha de frango, grelos de couve-nabo e queijo da Ilha de São Jorge;  Bolo de chocolate (Lindt, cacau a 85%).
Males necessários - Acarear a fraqueza, a falha, a falta e, finalmente, não querer desaparecer.
Lampejos refractários - Corar ainda, como aos quinze anos, diante de um rapaz interessado e interessante.

Quinta-feira, Dezembro 29, 2011

Oitava do Natal

A Faithfull está hoje de parabéns. Tinha-me passado despercebido até agora, este seu álbum de 2009 2005. Tomai lá de prenda atrasada estes dois incrivelmente bem coados rock'n'rollers.

Lisboa, Avenida Cidade do Porto

No aeroporto a disposição torna-se mais evidente, é só isso. Ansiamos pela chegada dos que nos são queridos com a noção clara de que os dias, estes dias, passam a correr.

Quarta-feira, Dezembro 14, 2011

Little Portugal

A Vicky Pollard cá do bairro costuma estar pela bomba de gasolina derramada na cadeira do namorado, o rapaz que faz o turno da noite. Enquanto ali está vai disparando sms para a estratosfera; a sua expressão frente a qualquer cliente é quase nula, a topografia de um frete. Pela hora de jantar de ontem, já corrido o gradeamento de segurança, fiz o pagamento através do vidro. Pouco depois de dar costas ouvi uma repreensão em voz grave, masculina. A ver o que havia, virei-me: era a Vicky, esboçando um sorriso desafiador ao namorado. Havia decidido do alto dos seus oito  meses de gestante abrir o gradeamento de segurança e fumar uma valente cigarrada.   

Segunda-feira, Dezembro 12, 2011

In the days still left


[Eva Cassidy, Fields of Gold, (v. 1996; or. 1993)]

O Professor

Os quinze anos que levo de leitora da Biblioteca são os que tenho de o ver seguir a passo ligeiro, rumo à fila A, lugares dez, doze ou catorze; há meia dúzia deles doou parte do seu acervo à instituição, ainda que não só. Está a chegar aos noventa mas não os aparenta. Quem o tenha estudado dificilmente o pode admirar mais pelo entusiasmo vital e surrealista dos vintes do que pelo lastro erudito e depurado dos oitentas. Apostolado intelectual puro e duro, sem fatuidades, o do Professor França.     

Domingo, Dezembro 04, 2011

Ἀκάθιστος

Remonta ao século sétimo, este hino. Ninguém sabe se foi composto em hora de aflição ou de agradecimento. A época foi a do cerco a Constantinopla, e o canto dirigido à mãe de Jesus pelos seus seguidores. Depois disso quase tudo mudou na cidade, até o seu nome.  

Sexta-feira, Dezembro 02, 2011

A Balsa ou a Vida

Claro que me comoveu, esta volta de maré. Lembrou-me o bolero do Preisner, aquele ponto vermelho ainda à tona, intacto num tão duro mar de Dezembro. Ao perto não é bem vermelho, pelo menos não tanto quanto os anoraques dos bombeiros que os levaram ao hospital, ou as camisolas dos miúdos que são e torcem pelo clube da sua terra. Caxinas há muito que merecia um dia pródigo. Nós outros também. 

Sábado, Novembro 26, 2011

Com a Força da Maré


[Sétima Legião, Sete Mares (Mar d'Outubro), 1987]

Quarta-feira, Novembro 23, 2011

Évora, Estrada de Alcáçovas

Há quase ninguém na estrada, em qualquer um dos sentidos. A água que cai está bem fria. O gel e os eléctrodos que se lhe seguem, aparato críptico e medicinal de qualquer entidade patronal prevenida, também. Nada como conhecer o coração, sim.

Terça-feira, Novembro 22, 2011

Wee Hours

Espero sempre. Mesmo quando não há retorno, quando falta a rede ou quando rebenta o disjuntor. O meu superego sofre de excesso de peso, o que não impede que tente encontrar verdade na boca de quem mal acredita nela.   

Segunda-feira, Novembro 21, 2011

Lisboa, Rua Guilhermina Suggia

Tenho os dias cheios de Sul, e isso é bom. Lisboa é agora a primeira e última estação da semana. Caminho sem pressa. 

Quarta-feira, Novembro 16, 2011

Comboio, Poceirão

Nem de propósito, o livro começa com o personagem a apear-se numa estação. Ninguém veio ao combinado, por isso pôs-se ele a caminho, mai-la mala.  

Segunda-feira, Novembro 14, 2011

EN-10, Km 72

E aqui estamos nós. Muito mudou, mais permanece constante. Tento tomar sentido em tudo, como se a chave  de alguma coisa estivesse ao meu alcance. Não a encontro. Salto por cima dos métodos naturais de orientação, programo um itinerário virtual, mas pouco depois dou por mim perdida, sem noção de lugar. Esta é a vez de esperar.  

Quarta-feira, Novembro 09, 2011

Complexo Histórico-Geográfico

[Bruce Springsteen, The River, 1981.]

Gosto de quem tira os óculos de sol para conversar com quem tem à frente (excepção aos graduados). Gosto de quem não enfia uma reunião entre reuniões para o caso de se correr mal se pôr a fancos depressa; o mesmo vale para almoços, cafés, colóquios, etc. Gosto de quem reconhece quem vai conhecendo. Gosto muito de quem tem paciência para os tímidos, tanto quanto de quem trata crianças e velhos como indivíduos, não como quem tem a idade que tem.    

Quinta-feira, Novembro 03, 2011

Se ouço

alguém à distância de um braço fazer outro arremedo de trocadilho envolvendo a conjuntura actual e as milenares artes de palco gregas, pespego-lhe com o guarda-chuva de dezasseis varas em cima do lombo. Que despropósito pateta, chato e repetitivoivoivo.

Quarta-feira, Novembro 02, 2011

Os melhores círculos

não sei se Portugal os tem - ave, Cohen -, mas locativos tão figadais quanto os nossos deve ser difícil haver quem tenha. Os meus favoritos são: Sarilhos Grandes, Angústias, Violência, Paraíso, Imaginário, Espalhafatos e Aliviada.

Domingo, Outubro 30, 2011

Ao de baixo

Anteontem fiquei quase uma hora na bicha (bichabichabicha, não sei dizer fila) e no breu dentro do túnel da João XXI. Sou muito paciente e pouco dada à claustrofobia, por isso não tenho a certeza da razão pela qual fiquei tão angustiada. Nem os gaiatos que no carro atrás do meu saltaram para o tejadilho em exótica pausa para fumo aliviaram a situação. Provavelmente foi de ali ao de baixo me ocorrer a dona Paula, viúva do senhor Matos relojoeiro, uma das nossas vizinhas mais antigas. Anos de contacto próximo, memórias africanas, fotos de netos e bisnetos, e também algumas tensões por conta de avisos recentes à família por causa do filho doente deixado ao cuidado da octogenária. A mesma família que não informou quem quer que fosse da morte desta, parece que há um mês. Naquele párarranca esta triste maneira de viver a vida e morte também me fez lembrar a Maya, há uns dias na televisão, pintada e estofada numa cadeira frente ao Daniel Oliveira, a resumir toda uma visão do culto dos mortos assim:  

- Não gosto de ir a funerais.

Quinta-feira, Outubro 27, 2011

Raro não é o homem que consegue fazer a mulher rir

, raro é o que é inspirador da efusão do seu sentido de humor.   

Risco Sistémico

Não estou a achar graça, pás: primeiro o fim tácito dos R.E.M, depois o pause indeterminado dado a conhecer pelos Sonic Youth, agora a sombra da dúvida sobre os U2. Mau, mau. Vamos lá ver como é.  

Quarta-feira, Outubro 26, 2011

Comboio, Benfica/Santa Cruz-Damaia

O rapaz que acaba de se sentar no lugar do canto, aquele encostado às portas que ligam as composições e nos dá onde tombar o ombro e a cabeça, deve ser recém-chegado ao Técnico. Esteve em pé, de volta da Física, com um colega que saiu mesmo agora. Iam numa daquelas sabatinas rápidas e animadas que só quem fez toda a faculdade de transportes conhece. No exacto lugar onde este rapaz alto e aloirado está a começar a descansar, vinha até há minutos sentado um outro rapaz da mesma idade, magro, moreno, pedrado. Derramou uma verborreia de queixas sobre um conhecido seu, que nem sei se tentou empatizar: ele era o sistema informático da esquadra em baixo, a perda de tempo, as algemas muito apertadas, a impossibilidade de ir levantar o rendimento à conta daquele atraso.

Sábado, Outubro 22, 2011

Uma Estação Refractária

e polissémica, esta. Em não se sabendo se o siso também estiola, pede-se um mazagran, que Lisboa ainda cumpre certos preceitos com o aprumo de quem lava e passa a camisa puída, para que ninguém tenha a dizer. Mazagran, passei a saber, é não só nome de terra argelina e refresco de conversa lusa como copo alto de loiça francesa.   

Sexta-feira, Outubro 21, 2011

Comboio, Entrecampos/Amadora

Os que não seguem sob encanto do telemóvel contam-se pelos dedos das mãos. Há quem circule sempre ou quase concentrado na edição de bolso do seu livro sagrado, quem leia os vários diários gratuitos ou o romance da lista por trinta minutos de cada vez, quem precise de falar com alguém aquele bocadinho, pelo menos aquele bocadinho. E quem não peça nada à viagem senão o tempo de olhar em redor, de estar, de se aperceber.   

Wee Hours

Entre o que não entendo e me perturba fundo está o linchar de quem quer que seja, sobretudo quando guarnecido de louvores a Deus.

Terça-feira, Outubro 18, 2011

Ginástica Cueca


Acho que uma das formas possíveis de explicar os próximos anos à malta é através da Parábola da Ginástica Cueca. O Vasco Santana é Portugal e o Ribeirinho os Outros que Ainda nos Querem Ver Subir Escadinhas e Calçadas sem Esticar o Pernil, pode ser?
A ginástica dói? Dói que se farta. Há o perigo de sair tudo cá para fora? Há. Depois melhora? Talvez sim, se não se desistir.

Malhão e Meio

A distopia é sempre certa, lá pela biblioteca. Por estes dias, bem a meio da leitura geral, tem estado um estudioso de certa idade a quem parece dar uma regular quebreira lá pelas duas e meia, três da tarde. Um tão singelo facto da Natureza passaria justamente despercebido, claro, não fosse o seu ressonar optimizado pela circunstância do lugar.

Lisboa, Avenida dos Combatentes

Calha que nos últimos tempos tenha saído à rádio portuguesa um naipe de vozes masculinas quase todas elas ali entre tenor e o contratenor. Talvez por isso o contraste com a do Luís Caetano a torne tão mais-melhor de ouvir. Vinha para casa sintonizada na Última Edição e a pensar o bem que até a ler a bula do xarope para a tosse este cavalheiro deve soar.

Sábado, Outubro 15, 2011

IC - 19, Km 4.5

Gosto de circular pelas duas rotundas quase esquecida da razão pela qual ali estão, ou então de passar ao largo e evitar olhar o estacionamento, os lugares. Habitualmente, este é o caminho da cidade dos amigos de sempre. Não agora. Por mais que saiba que este sacana deste mal lavra em qualquer um, tia, tudo isto apanha de surpresa, todas as vezes. Como não posso fazer mais nada, olha, rezo aos nossos que intercedam para que voltes melhor.    

Domingo, Outubro 09, 2011

Almoçageme, Praia da Adraga

Ouvi hoje pela primeira vez a expressão  

- Aquele vai em fato de ver a Deus, olha para ele.

mas não a entendi logo. Se à segunda alcancei que a dita tinha que ver com roupa melhorada, aquela que antes se poupava para a missa de domingo e para dias especiais, à primeira nada disso - a coisa soou-me ao traje que toda a gente traz quando chega ao mundo.  

Quinta-feira, Outubro 06, 2011

Boletim Rural



O tempo está a comprometer a azeitona. As borboletas, as camélias e os narcisos estão convencidos de que é Primavera. As rosas floram num só dia. Maçãs, marmelos e uvas não ficam à espera, perdem-se pelo chão - um calor imprevisto não é só mais mar, também é isto.

Sexta-feira, Setembro 30, 2011

Four Measures (And Some Clean Cut Enunciation)

[Frank Sinatra, It Was A Very Good Year, v. 1965, or. Ervin Drake]

Segunda-feira, Setembro 26, 2011

Barreiro, Rua Professor Joaquim Vicente França

Tantas pessoas mesmo interessantes, afinal. Tive a sorte de conhecer ou conhecer melhor algumas delas neste ano, coisa que há muito não acontecia. Valeu por bem mais, mas assim só já estava cumprido, este mais um.     

  [Auto-retrato #2, Setembro de 2011]

Quinta-feira, Setembro 22, 2011

[Foto: R.E.M. por Anton Corbijn, c.1997]

Quarta-feira, Setembro 21, 2011

Sete Rios, Estação do Jardim Zoológico

Em altura/não distante/final do dia/descia/à gare e sentia-me/uma grande grande/porcaria,/por minha culpa,/minha tão grande culpa,/e os painéis não/apagavam nada disso,/pelo contrário,/diziam que/nada acabava ali,/que a fauna e flora/fl(u)oresciam/mais ou menos/alheias aos meus/infortúnios como/num Malick de guerra,/e isso tornava/tudo aquilo/um pouco menos extremo, absurdo, cediço.
  
[Júlio Resende, 1917-2011]

Terça-feira, Setembro 20, 2011

Mação, Fonte da Ladeira

A mulher alta - a mais mexida das vestidas de preto - ainda cuida da criação, dos almeirões e das couves-nabas. É a espalha-brasas da aldeia, quem não conhece não diz que perdeu o homem para o cancro e está às voltas com ele também. Manda-nos entrar para mostrar as obras do fumeiro enquanto os outros irmãos e irmãs, despachados os filhos e netos de regresso à semana, se juntam no pátio para jantar. Espero que a gente descubra fibra desta em nós. Não muito tarde.   

Segunda-feira, Setembro 19, 2011

A felicidade dos outros

às vezes faz-nos um bocadinho felizes, também. Ler blogues ao longo de anos gera um senso de familiaridade um bocado descalibrado, sim, mas que fazer quando se dá pelo entroncamento de alguns dos que acompanhamos sem conhecer, lá de longe, senão torcer da bancada, desejar bom caminho, sorrir?

Sexta-feira, Setembro 16, 2011

Um blogue que podia frequentar a segunda classe

Sete anos de Quatro Caminhos. A pé, à boleia, à tabela ou à beira do ataque de nervos, menos palavroso mas não menos presente. Um abraço à dúzia de passageiros do costume.

Quarta-feira, Setembro 14, 2011

Queluz, Rua 31 de Janeiro


Pensando bem, passei uma boa década com corte de cabelo à Coleen; as botas de atanado e as peças avulsas dadas pela Anti-Aérea ao Agrupamento reforçaram o estilo, mas só. Muita guerra vi nessa altura.

Segunda-feira, Setembro 12, 2011

Belas, Estrada das Águas Livres

O Paulo tinha feito há poucos dias trinta anos. Viveu doente vinte e três, ainda que o prognóstico menos conservador lhe negasse dois. Deu-se um azar da Natureza daqueles em mil e ele retornou a criança de alcofa. O seu padecimento prolongado pôs à prova as convicções de todos, não há outra maneira de o dizer. Uma coisa assim é um mistério, é difícil encontrar sentido ou dar-lhe um. A alguma distância, percebo agora, a família, os amigos e a comunidade do bairro passaram a ver na sua sobrevivência um indício luminoso. Foi-lhes dado tempo de aprender.

Quarta-feira, Setembro 07, 2011

Scissorshop®

[Auto-Retrato #1, 2011. Foto s/Peggy Shackman]

Terça-feira, Setembro 06, 2011

Wee Hours

Não existe cooptação mais surpreendente e comovente do que a amizade, graças a Deus.

Segunda-feira, Setembro 05, 2011

Leiria, Avenida das Comunidades Europeias

Ao rés dos oitenta a tia M. começou a recear que lhe escapasse o que lhe haviam confiado, não à puridade, como aos padres,  pelo contrário, para salvação do esquecimento. As páginas de certo bloco de notas Firmo guardam linhagens de pessoas e acontecimentos conexos, e têm início na recordação da senhora E, conterrânea a quem a dita tia acompanhou no leito de morte. A forma, neutra e aparentemente distanciada, não afaga o conteúdo:
Dona E., 103 anos. Filha de exposto. Foi vendida quatro vezes em praça.

Sábado, Setembro 03, 2011

O Cromo de Raul Machado

[Aleixo na Escola #09, Gana Produções]

Sexta-feira, Setembro 02, 2011

Lisboa, Rua Garrett

Acho que sou analfabeta funcional de pessoas, só consigo ler as que têm semblante claro, as que não temem nada nem ninguém, as que não estão escaldadas ou as que já não se importam com o que os outros pensam. As outras todas não sei, engano-me ou não consigo decifrar.

Terça-feira, Agosto 30, 2011

Deixar Ir

[Adele, Someone Like You (21, 2011)]

Aproximadamente

dois mil e muitos quilómetros depois, de autocarro, carro, comboio e barco, ficam o nevoeiro e o arroz de marisco da Vieira, ambos densos; o mar manso de Santa Luzia e de Almograve; o aparatoso trambolhão em Moura; o ataque de riso familiar no Alqueva; a desgarrada de bandas em Barrancos; as glicínias de papel em Campo Maior. Poucos livros, alguns gelados, muita conversa e bastante improviso.

Quarta-feira, Agosto 17, 2011

Professore di Storia

Gino Paoli em fundo num dos filmes de Nanni Moretti (Bianca, de 1984), com Giorgio Viterbo a fazer de conta que poderia tratar das avaliações e actas de departamento disfarçado de agente de jogadores de futebol.

Este post teve apoio à produção de

sacos para cubos de gelo Dia e Fenistil Gel, porque  quando entre outras coisas se restaura um dos barris de vinho do avô no jardim, de rabo para o ar, pode sempre vir uma abelha da banda das figueiras e sim, isso mesmo, nesse mesmo lugar.

Domingo, Agosto 14, 2011

Carvoeiro, Praia Fluvial

Ando a banhos. Mesmo. Saneamento termal da canalização respiratória, mergulho profiláctico no açude da ribeira, reposição dos níveis de Confiança em dose certeira.

Segunda-feira, Agosto 08, 2011

Também


 [Samuel Úria, Deus Também Anda de Comboio (O Caminho Ferroviário Estreito) 2003, Ed. FlorCaveira)]
De manhã entrou um pastor alemão estabanado pelo supermercado, magro, quase tanto quanto o arrumador janado que deveria cuidar dele e acabou invectivado em flagrante delito por uma das donas da loja de animais, a qual lhe aviou uma desanda pública por negligência. Ele para ela que não lhe falasse assim, que tinha o décimo segundo ano, que se tivesse feito mais três era doutor, respeitinho. Chega o comboio - ouve-se daqui.

Domingo, Agosto 07, 2011

Bossa Vega

[Suzanne Vega, Caramel, in Nine Objects of Desire, 1996 (Versão de 2010).]

Wee Hours

O sentido de humor continua ser nacionalmente tomado por leviandade, não percebo bem porquê. Guardava uma pessoa alguns dos dias de descanso para levantar alcatifas, pintar paredes, coser bainhas e botões - entre outras tarefas que a prudência mandou deixar de externalizar - e ainda haveria de ter de tirar a boina à sisudez dos opinadores de salão, não?

Sexta-feira, Julho 29, 2011

Oslo, Frognerseteren

Fazíamos de conta que não estava frio mas estava, bastante. O bolo de maçã do Seterstua revelou-se à altura da fama, tanto que sustentou a passada de descida para lá da capela de Holmenkollen. Por todo o caminho vimos gente de todas as idades, sem grandes gadgets nem sofisticações fluorescentes a albardar. Também vimos muros cujos donos os vão guarnecendo de fruta, caso a algum desavisado apeteça merendar.    

Sexta-feira, Julho 22, 2011

Long Dream

The Mountain Goats, The Black Ice Cream Song [Zopilote Machine, 2005].

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXXIII

Todo e qualquer programa de apanhados, esse confrangedor instrumento de embaraço em segundo grau. Por mim, podem desriscá-los de vez do ar.