Terça-feira, Maio 06, 2008

Masurca Fogo

Ali está a Watling, duas ou três filas atrás do Grandinetti. Como não querer ver o que eles viram? Que interessa onde, ou quanto tempo depois?

Ana Bólica

Os primeiros racontos de mitologia grega que ouvi em miúda provocaram-me uma certa indignação. Não tinha como assimilar aquele cenário de volubilidade, manipulação, passionalidade e desmando entre deuses e homens - até aí só conhecia a narrativa bíblica, que apresentava mortais e imortais em coreografia bem mais hierática. Ainda hoje me exaspero ao tentar entender como pôde Ariadne ter expectativas tão exageradas em relação a Teseu, ou como conseguiu encontrar tão bom esposo em Dionísio.

Verificação de Palavras

Seduzem-me os exercícios criptográficos desde que sei ler. Uns dias fazem-me sentir burra, outros paranóica, outros capaz. As recentes alterações na verificação ortográfica do Blogger, porém, só me fazem sentir pitosga.

Ana Tomista

Não, o mundo não se divide entre os que falam e os que fazem. Para além dos que falam e não fazem e dos que não falam e fazem, há os que fazem e falam, os que falam e fazem, os que não fazem e não falam, e claro, os que não falam nem fazem.

Domingo, Abril 27, 2008

Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen


Gustav Mahler ainda não tinha chegado aos trinta anos quando compôs a primeira versão desta sinfonia em Ré Maior. Ao nada consensual e também muito germânico Christoph Eschenbach, vemo-lo aqui em plena condução da Orchestre de Paris. Curioso: só percebi realmente a crónica contida num post de há tempos, que me pareciam poucos, depois de ouvir este terceiro movimento.

Sábado, Abril 26, 2008

The Jezebel Spirit*

As mulheres são acometidas de fortes embirrações em relação a outras mulheres. Inveja, ciúme, insegurança, outra coisa primitiva ou simples senso comum? Não sei. Mais vale ter noção da afecção e cortar as vazas ao impulso insidioso, mesmo quando pretensamente inofensivo. Com os homens, se há equivalente fenómeno, desconheço-o. Aqui fica o exorcismo (borderline misógino, eu sei) de algumas implicâncias epidérmicas:

A escrita de Ana Anes.

A pose da jovem apresentadora do Rock in Rio.

A voz de Maria Emília Correia.
*D. Byrne/B. Eno, 1981.

Terça-feira, Abril 22, 2008

Lisboa, Avenida António Augusto Aguiar

Um pensamento azulejante compunha-se há metros. Era ao modo de Resende, ou como nos filmes - forma, cor e relevo aguardando exame no juntar das peças.

Sexta-feira, Abril 18, 2008

A estação é a estação (Com Chuva ou Não)

Venho só declarar que aprovo o actual corte toureiro das calças de giro da Divisão de Segurança a Transportes Públicos.

Quarta-feira, Abril 16, 2008

Massamá, Rua Natália Correia

Não era Julho, eu só estava assim desde o São João e ela ainda andava nas festas com a banda. Entrou-me pelo quarto já muito vermelha, pensei que do calor ou do peso-pesado do acordeão, desconforme a ela, tão magra. Sentou-se, baixou a cabeça e chorou um choro longo. Não precisei de perguntar; li nos seus olhos roxos de azuis a vermelhos ter desistido de resistir ao outro rapaz. Perguntava-me que fazer agora, que dizer ao namorado. A mim, ali deitada, já enjoada de livros, de cãibras, de flores de cabeceira, da arrastadeira, dos chocolates, de olhar para o tecto e para os Jogos de Barcelona, sem saber ainda o que aí vinha. Não sei que disse. Sei que, por qualquer razão, o seu sofrimento me pareceu mais relevante que tal insensibilidade ao meu.

Aqui entre nós

, que ninguém nos ouve, fica coisa de inspirar guarda-cacifos. Para dias em que só Carly, mesmo.


Terça-feira, Abril 15, 2008

Homens IX

Capazes de arriscar humor no mais melindroso dos cenários, sabendo que o mais certo é a coisa correr mal.

História é nosso medo do Escuro

Do que conheço da bloga portuguesa e brasileira, mantenho a mesma impressão há anos: regra geral, somos todos uns transatlânticos bastante ensimesmados. Por isso não sei se estão a ver quem é a Fal*, assim de repente. Se disser que ela foi rapariga de Cidades Crónicas e há anos que oferece Drops, alguns de vós saberão. Gosto muito de lê-la. Não consigo descrever bem o seu registo: nenhum artifício, por vezes crueza, dias de coloquialismo e neologismo gargalhal, outros de classicismo em comoção. Entre uma coisa e outra, dei ontem com este post, tão mais que uma definição disciplinar. Outro não poderia vir mais ao encontro dos trabalhos e dos dias que são actualmente o meus. Obrigada, Fal (muita força para ti).

* alias Fábia Vitiello, alias Fal Azevedo, alias Fábia Vitiello de Azevedo Cardoso (n.1971), autora de Crônicas de Quase Amor e O Nome da Cousa.

Segunda-feira, Abril 14, 2008

Wee Hours

Um rumor colorido passa a acender as manhãs - passarada que folheia entre figueiras, sem cuidados.

Sábado, Abril 12, 2008

Reservoir Jim

O universo de Ballard atrai-me e repele-me na mesma medida - muito. Já em casa, metro e meio escapada à colisão em curso, resisto a admiti-lo.

Terça-feira, Abril 08, 2008

Que Fazer ao Que nos Contam? (12)

Vinte e dois dias foi quantos esteve na Conde Ferreira, nem mais um. Houve que guardar cabras em freguesia afastada, até poder com a roçadoura. Não entende por que lhe vem isto à tona. Clareia a garganta e a ideia, recompõe-se. O irmão chama-o; está pronto o corte da meia-peça de fazenda dada pela tia. Agradece, abraça-o, que venha por lá depois, ao tinto novo. Torna a casa. Amanhã mesmo cuidará da pele de coelho para os punhos e gola da menina. A mulher costurará o feitio nos próximos dias. Uma só cachopa entre cinco gaiatos. E está tão grande.

Sábado, Abril 05, 2008

We'll always have Rome

, New Canaan, New Jersey, L.A., quem sabe até cidades futuras, caso nos dê para tal adiante. Era só para dizer que tem sido muito bom poder-vos ler ao longo destes anos, em colóquio e solilóquio. Isto em jeito de desculpem-os-parabéns-tão-atrasados, estimados Luís e Carla.

Terça-feira, Abril 01, 2008

Ana Léxica

Esperava, com esta idade, saber muitas palavras. Mas cada vez consulto mais o dicionário.

Segunda-feira, Março 31, 2008

Os posts dos outros

Gosto dos acabadinhos de publicar, apanhados numa actualização casual. Dos de título comprido. Dos que só à força de muito Google. Dos que aparecem e desaparecem. Dos três ou quatro de enfiada escondendo um importante. Dos com música ou fotos mesmo bonitas. Dos que acabam com uma ausência de muito tempo. Dos que dizem o que ia a dizer. Dos que dizem o que já disse. Dos que se fossem para mim, nem sei. Dos a horas quase certas. Dos com adenda na caixa de comentários. Dos que salvam sem querer. Dos tal e qual. Dos que nos querem convencer que são ficção.

Quarta-feira, Março 26, 2008

Um difuso floral-estar

Sente-se por estes dias na sociedade portuguesa um floral-estar difuso, que alastra e mina a desesperança essencial ao pessimismo nacional. Um escândalo, a primavera persistir nestas tomadas de posição.

Terça-feira, Março 25, 2008

Amadora, Avenida Gago Coutinho

Foi o primeiro filme de crescidos que nos deixaram ver. Sim, já nos tinham levado ao Amoreiras a ver uma comédia com o Eddie Murphy que me meteu medo porque tinha maus, e eu não estava à espera que tivesse, mas esse não contou. Naquele dia este era o único em cartaz, por isso fomos, e os pais aproveitaram para ir comprar não sei quê. Sabia lá a gente que a língua daquela canção existia, que haverias de fazer amigos dos dois lados da vedação, que aquela cidade passaria a dizer-nos um pouco de respeito. Mas gostámos muito, e falámos do que não tínhamos percebido durante vários dias. Passaram vinte anos, acreditas?

Quinta-feira, Março 20, 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LIV

Telejornais em longa-metragem. Peças de quarto de hora sobre o mau tempo ( tudo o que não sejam vinte e dois graus de céu limpo). Jornalistas empeçando peões com questões sobre o efeito da chuva nos planos de fim-de-semana.

São Francisco de Sales nos poupe ao infotenimento.

Quarta-feira, Março 19, 2008

Lisboa, Rua Professor Francisco Lucas Pires

Sol que estava, nem era preciso alcançar a esquina para começar a sentir o jasmim. Agora chuva. Vai nada temporã, a estação.

Segunda-feira, Março 17, 2008

Do domínio da língua

Depois de todo aquele tempo ali estão, entre sorrisos e temores sincopados. O mesmo desejo de ouvir, maior dificuldade em dizer.

Sexta-feira, Março 14, 2008

Lisboa, Avenida Professor Gama Pinto

Vinte e um anos e a vontade de arriscar a primeira rejeição. Tarde, talvez. Que fora um texto muito discutido pela Direcção, mas que não. Tudo num humilhante tom de compadecimento. Uma revista de faculdade com algumas pérolas e bastante porcaria não aceitava o conto mediano, pensava, enquanto sentia o refluxo de desilusão.

Quinta-feira, Março 06, 2008

Ana Crónica Redux

A fábrica das bolachas está desde ontem que parece a ponte de comando da USS Enterprise (pessoa passa torniquete, pessoa senta-se no terminal, faz login, escolhe lugar e pede livros num ápice de clicadelas). Em contraste, tenho a conta de google com e-mails em atraso e o meu telemóvel está sem funcionar há quase dois dias (a menina Vodafone foi simpática, mas disse-me que não tinha ali à venda baterias para modelos nokia com mais de ano e meio, remetendo-me para o indiano do bairro. Au.) Espero poder voltar a comunicar com alguma normalidade até amanhã ao final do dia. Aqui a autista pede sinceras desculpas a quem está por levar resposta.