a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

quinta-feira, 30 de junho de 2005

Mais Que Sangue

Um irmão é a melhor hipótese de um amigo para sempre. Não compreendo quem a deita fora.

Poesia In Forma Di Rosa

"Poesia in forma di rosa
La persecuzione"
Pier Paolo Pasolini, II. Poesia in forma di Rosa, 1964.

quarta-feira, 29 de junho de 2005

Estamos Quites

Eu levava comprovativo, mas é claro que não me ofereceram um perna-de-pau. É a crise, é a crise. Não faz mal, porque a sessão foi excelente (boa, vá): o "É a Cultura, Estúpido!" em torno da obra "Portugal Contemporâneo", com o painel habitual e António Costa Pinto + Rui Ramos, foi substancial, informal e bem-disposto. Bem vistas as coisas, é caso para dizer que acabou tudo em bem.

Fisher, Diaz & Chenowith

Imagina o meu sorrisinho parvo, Charles; quando a Claire o olhou à entrada da sala, a minha cabeça linkou de imediato a escolha de fotografias na mesa da morgue, para o Billy a tentar dizer-lhe quão bonita ela é. Mais bonita, só a Ruth.

Em Dia

"Possuindo uma tão alta esperança, actuamos com plena liberdade."
2 Cor. 3; 15.

terça-feira, 28 de junho de 2005

Contas São Contas

Eu levo o bilhetinho; espero que alguém se chegue à frente com a indemnização.

Quack?

Topa-se quem leu muita BD na adolescência pelo uso frequente de interjeições onomatopaicas. Soam mais ou menos indecifráveis a não-iniciados porque se formaram a partir de fonemas estrangeiros, sobretudo ingleses. Foram traduzidas de forma literal - e muito comic…a - pelas editoras brasileiras Abril e Morumbi, sobretudo ao longo da década de oitenta, e consumidas por cá em doses semanais a algumas dezenas de escudos; de caminho contagiaram-nos para sempre com expressões do calão brazuca como não 'tá no gibi!, 'tá na hora do pau!, pé na tábua! ô, guri! cacilda!. Os puristas absorveram-nas directamente dos originais da Dark Horse da Disney, da DC, ou da Marvel, entre outras. No meu mundo aos quadradinhos os belgas e franciús eram recessivos: pouf!, *caugh*, pow!, bleargh!, glup?, *sigh*, ptuii!, quack? passaram dos balões nas vinhetas para a minha boca, e para a boca de mais uns quantos de nós.

E Deus Criou O Owen

Mais vale dizê-lo com todas as letras: há já uns tempos foi encontrada a Mónica Belucci das luso-hetero-blogueiras. Quais Cruise, quais Pitt, quais quê – Mr. Owen é que é. O Macho Alfa.

Adaptação

George Bernard Shaw publicou Pygmalion em 1913. Ante a resistência generalizada ao final da sua peça, fez questão de deixar bem claro ser adverso a qualquer adaptação que a desrespeitasse - Eliza Doolittle e Henry Higgins não pertenciam um ao outro. Meia dúzia de anos após a sua morte, My Fair Lady (1956) tornou-se êxito de bilheteira, seguido de uma tão ou mais amada transposição para cinema (1964). Ambas feriram de morte a versão original da trama, desencantando um destino delicodoce para os seus protagonistas.
É pena.

segunda-feira, 27 de junho de 2005

A Missão

"Por nós, ou por você mesmo, vai embora. Mas se foi Deus que lhe enviou, então fica."
Já não o via há três anos, parece tão diferente. Logo à primeira, está pela metade; sotaque novo, pele tisnada, um sorriso que já não é omnipresente. Falou-nos pausadamente sobre a esperança entremeada no diário medo de morrer, sobre justiça e falta dela. Como será o mundo depois de o sabermos mais que aqui?

Erros Favoritos IV

Uso Campeão > Usucapião

sexta-feira, 24 de junho de 2005

Ilustres Desconhecidos – O Cossaco

Topete daqueles nunca havia visto. Nem deve haver outro, do Danúbio para cá. Se fosse só a cabeleira a figura passaria despercebida, tendo em conta a quantidade de gente singular que sempre frequentou a Biblioteca Nacional. Como lhe acrescia uma compleição alva e castrense, um cinto apertado acima do umbigo e um bigode basto, era impossível não registar a sua presença. Ainda mais no meio de tanto silêncio e imobilidade. Na falta do nome verdadeiro, o figurão de trinta e poucos anos era para nós o cossaco. Intrigava-nos o aspecto, claro, tão discordante da sua idade e do seu tempo, mas especulávamos sobretudo acerca do que faria ali alguém que se limitava a bordejar as prateleiras dos Usuais sem fins específicos, mãos atrás das costas, sacando este ou aquele volume. Estaríamos a assistir à forma de lazer de um herdeiro rico vivendo de rendimentos? Durante o tempo em que por lá andou habituámo-nos a vê-lo ler alguns minutos sobre Arte, bocejar, desentorpecer as pernas rumo à cafetaria e conversar em voz baixa com alguma colega ou conhecida; regressado à sala repetia o ciclo, saindo duas horas antes do encerramento.

Já ninguém dá por ele há muito, pelo que imaginamos que os tempos descuidados do nosso cossaco acabaram. Dirigirá agora os negócios da família com punho firme, secretamente saudoso do seu remanso na Sala de Leitura Geral?

Gato Corpulento

SOCIEDADE PROTECTORA DOS ANIMAIS

Instituída em 28 de Novembro de 1875

Legalisada por alvará de 8 de Janeiro de 1876

Declarada de Utilidade Publica por Decreto de 16 de Março de 1914

Sede: Rua de S. Paulo, 55, 2º Dto – Lisboa – Telef. 23851

Nº343

Lisboa, 3 de Setembro e 1934

Exº Senhor Governador Civil do DIstricto Administrativo de SANTAREM

Para conhecimento de V. Exª e solicitando as providencias que V.Exª tiver por conveniente, de harmonia com a lei, temos a honra de transcrever a comunicação que nos foi endereçada pelo nosso Delegado na Cidade, Exº Senhor Adolfo Branco Nunes Correia [cirurgião-dentista].

““À Digª Direcção da Sociedade Protectora dos Animais. Exs. Senhores. Acabo neste momento, 13 horas, de sair do comando da Policia Civica, aonde fui apresentar uma queixa contra um individuo residente nesta Cidade, de nome Benjamim Grego, barbeiro, que é acusado de matar a tiro um gato francez [sic] todo branco, com coleira de cabedal e um guizo, edade [sic] de 2 anos, e de grande valor estimativo, muito limpo e bastante corpolento [sic], pois era lindamente tratado. Este gato vivia com os seus donos e seus amigos num predio desta Cidade, na Avenida 5 de Outubro, 30, 1º, Dº. Como o 1º andar tem quintal, o gato às vezes ia para o quintal tomar o sol e saltava para as ameias [do castelo] que fazem a parede do quintal e ali se deixava estar, mas na 6ª feira, 24, saltou as ameias, atravessou uma propriedade com residencia dos seus proprietarios, que neste momento estão na praia e desceu a uns terrenos, propriedade da Camara e até hoje não apareceu mais em casa. De principio julgou-se que o gato que dava nas vistas de toda a gente teria sido roubado por alguém. No Sabado foi-me dito por um sujeito de nome Pedro Gerardo Freire, casado, comerciante e residente em Santarem, que o gato que se procurava, tinha sido assassinado a tiro, pelo barbeiro Benjamim Grego, residente nesta Cidade, barbeiro e caçador, mas tambem caçador de gatos, pois já há muitos anos, tem o costume de andar pelas muralhas e terrenos circumvisinhos [sic] pertencentes à Camara e com conhecimento desta, a caçar gatos a tiro, a pretexto de livrar a caça, coelhos bravos, de serem comidos pelos gatos chamados vadios. Ora o gato francez [sic] que ele matou bem tratado, limpo, com coleira e todo branco, não estava nas condicções [sic] e ele bem disso tinha a certeza; porque depois de o matar tirou-lhe a coleira e fez desaparecer o cadaver [sic]…………………………………”

Com os nossos respeitosos cumprimentos, emitimos as expressões da nossa mais elevada e distincta [sic] consideração.

A Bem dos Animais.

Pelo Presidente da Direcção,

[assinado] SousaFMorgado

(Vice- Presidente)

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1934), vol. 3, Ofício Nº1189-B.

E que tal um sketch de época, meus senhores?

[Sugestão Ao Calhas]

O Barbeiro – Assassino: Zé Diogo Quintela

O Dentista – Zoófilo: Tiago Dores

O Comerciante – Bufo: Ricardo Araújo Pereira

O Governador Civil – Justiceiro: Miguel Góis

quinta-feira, 23 de junho de 2005

Parêntese

[Verdadeiro parêntese

(ninguém está a ver,

podes enganar-te à vontade)

é o isolamento]

quarta-feira, 22 de junho de 2005

Esta Frase Fez-Me II

- Vai ver à enciclopédia.

Esta Frase Fez-Me I

- Vai ver ao dicionário.

Avatar

Em maré de aniversários, assinalar que o Avatares De Um Desejo completou mais um ano. Sinceros parabéns. Textos há que não poderiam ter outro dono.

terça-feira, 21 de junho de 2005

Haja Vitamina

É muita fruta. Este cavalheiro não tem paranço.

Maltesia de Segunda (Feira)

Concordo. Da minha antologia constarão os momentos Federico vs. Ruth e Joe (ó Joe, ó Joe, ó Joe...) vs. Brenda. No primeiro, tanto carinho mútuo e mutuamente admoestador. No segundo, tanta razão e desgosto a um, tão pouca e tão pouco a outra (gostemos ou não da outra).

P.S.1. Batuqueira-batukada, sou mesmo naïve: nem a fuga da Ruth previ, quanto mais o poder hetero-foleiro-magnético da (ptttttuiii!) Celeste...

P.S.2. Em redor da fogueira, Luís. Nunca como quando em redor da fogueira.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XIII

Que quase ninguém assobie canções, rua acima, rua abaixo.

The Wanderer

"I went out walking through streets paved with gold
Lifted some stones
Saw the skin and bones of a city without a soul
I went out walking under an atomic sky
Where the ground won't turn and the rain
It burns like the tears when I said goodbye

Yeah I went with nothing
Nothing but the thought of you
I went wandering

I went drifting through the capitals of tin
Where men can't walk or freely talk
And sons turn their fathers in
I stopped outside a church house
Where the citizens like to sit
They say they want the kingdom
But they don't want God in it
I went out riding down that old eight lane
I passed by a thousand signs
Looking for my own name
I went with nothing
But the thought you'd be there too
Looking for you

I went out there in search of experience
To taste and to touch and to feel
As much as a man can before he repents

I went out searching, looking for one good man
A spirit who would not bend or break
Who would sit at his father's right hand
I went out walking with a bible and a gun
The word of God lay heavy on my heart
I was sure I was the one
Now Jesus, don't you wait up
Jesus I'll be home soon
Yeah, I went out for the papers
Told her I'd be back by noon

Yeah, I left with nothing
But the thought you'd be there too
Looking for you
Yeah, I left with nothing
Nothing but the thought of you
I went wandering"
U2, Zooropa, Island Records, 1993.

Na voz de Johny Cash, caso raríssimo de uma guest-star num álbum dos U2. Uma das poucas que poderia conferir auctoritas suficiente a um trecho tão sanjoanino, tão apocalíptico.

Aqui fica a minha contribuição para o rol.

Calor

Todas as dobras do corpo o acusam. Na pele, o mundo provoca um baixo-relevo instantâneo.

sábado, 18 de junho de 2005

Ginecoqualquercoisa

Eu, abaixo assinada, subscrevo.

Gerontologia

[Santo António, 4:00h, Campo das Cebolas. Marialva de 70 anos passa cantiga a loira de 29]

- A menina é do Sporting, não é?
- Sim.

- Eu vi logo. As mulheres do Sporting são as mais bonitas!
- ...

[30 minutos depois, marialva volta à carga.]

- Olha, não queres o meu número de telefone?
- Não.

- Eu sei, eu sei. Tens medo de gostar de mim, não é?
- ...

Efebologia

[6ª feira, 19:00h, Oriente. 1 tardo-adolescente inquire outro sobre o blind date do dia anterior.]

- E que tal era ela, afinal?
- Ó pá, havias de a ver...

- Boa?
- Boa? 'Tás a ver aquele pilar ali? Quando cheguei estava lá encostada. Era ela por ele...

sexta-feira, 17 de junho de 2005

Metro

Quando era pequena nunca vinha de carro a Lisboa, ou se vinha, vinha a dormir. Andava de metropolitano e julgava que a cidade existia em episódios. Havia o do Rossio, o da Praça de Espanha, o do Campo Grande, cada um deles preenchido com o que eu lá ia fazer. Do novelo fantasia-realidade que há nossa cabeça até aos 10 anos só me sobrou isto. O resto é demasiado concreto para não ser anacrónico.

Porta De Aviz

Parabéns ao Aviz. Estou grata ao Francisco José Viegas porque foi por aqui que entrei, quando há pouco mais de ano e meio comecei a cirandar pela blogosfera. Passava a porta, lia as últimas, olhava as tabuletas alinhadas na lateral e tomava o caminho de um nome qualquer, tivesse ou não lá ido anteriormente. Familiarizei-me primeiro, fidelizei-me depois. Voltei sempre ao Aviz, não fosse lá contada, mais uma vez, A Noite, O Que É? Que conte muitas mais.

quinta-feira, 16 de junho de 2005

Blooming

E se ele tivesse sangue de uma das famílias olissiponenses expulsas no final de 1496? Afinal, uma fatia da comunidade embarcada rumo a Cork (ponto de acolhimento da primeira colónia judaica na ilha após o séc. XI) estender-se-ia algumas décadas mais tarde à capital da Irlanda. Entenderíamos melhor Leopold Paula Bloom, se ele fosse remotamente um de nós?

[E mais logo ½ pint de Ale. Ou de Lager. Ou de Stout.]

I Wonder How Many People In This City

"I wonder how many people in this city
live in furnished rooms.
Late at night when I look out at the buildings
I swear I see a face in every window
looking back at me
and when I turn away
I wonder how many go back to their desks and write this down."

Leonard Cohen, The Spice-Box of Earth, 1961.

terça-feira, 14 de junho de 2005

Six Feet Away

Não vi e não pude gravar. Valham-me vocês, que o resumo sabe a diospiro verde.

Dias De Verão

O nosso calor é forte e seco, coagula o senso num minuto; é doce, cheira a madressilva.

Céptica I

Se me olham não olham mesmo, olham porque olhei. Ou não me olham, olham outra pessoa.

Hageografia I

Hesitei, mas respondi a Baptiste que sim, seguiríamos na visita por ele guiada. Tínhamos acabado de entrar na igreja abacial de Sainte Croix, uma das várias réplicas do Santo Sepulcro de Jerusalém. Começámos por torneá-la lentamente, olhando este e aquele pormenor de um todo alto, branco e circular. Descemos depois à cripta. À cabeça de uma de três estreitas naves encontrámos um abade taumaturgo de meados de mil; Gurloës ganhou fama, mesmo fora da Bretanha, de curar males de ossos e afecções de cabeça. Mais que a descrição dos rituais prescritos para cada situação, impressionou-me que três dias antes, dezassete anos depois de ter recebido uma graça, um homem no fim da vida tivesse regressado ao jazigo e chorado, ainda, de alívio. Baptiste contou isto sem ironia nem pietice. Contou, apenas. A chuva que nos tinha empurrado templo adentro aguardava-nos, na mesma cadência, à saída. Despedimo-nos do nosso jovem guia, que ficou a explicar a quem chegava, num redondo sem hora, os detalhes de um pilar por cada apóstolo. Deixámos Quimperlé e seguimos para Norte.

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Crédula I

Há poemas, canções e posts que foram escritos só para mim.

Nessa Epocha Era Bem Diferente XIII

S[erviço da]. R[epública].

Constância, 2 de Janeiro de 1933

Exmº Snr. Governador Civil do Distrito de

SANTAREM

Em resposta ao assunto do oficio de V. Exª nº780-1ª, de 29 de Dezembro último, informo V. Exª que no dia 18 de Dezembro ultimo, apareceu aqui um guarda fiscal, acompanhado da G.N.R. de Abrantes, e de 2 contrabandistas, pedindo-me auxilio para guardar uns fardos de contrabando que tinham apreendido, visto não estar n’esse dia o Snr Secretario das Finanças, por ser domingo.

Acedendo ao pedido, mandei guardar os fardos, e quanto aos contrabandistas declarei-lhe que não podia responsabelisar-me [sic] pela sua prisão visto a cadeia não oferecer segurança alguma, respondendo o fiscal que isso não tinha importancia, visto que ao Estado só interessava a apreensão do contrabando.

Apesar dos contrabandistas serem dois, o fiscal apenas mandou deter um, entregando os cavalos ao outro para cuidar d’eles até ao dia seguinte que o assunto se resolvesse na Repartição de Finanças.

Depois dos cavalos tratados apareceu-me o contrabandista que ficou solto, pedindo-me para dormir na prisão com o pai, ao que anui por não ver n’isso inconveniente.

Fugiram n’essa noite da cadeia, e arrombaram a cocheira onde se encontravam os cavalos que levaram. Se não houve pois mais precauções deve-se única e exclusivamente ao guarda fiscal visto ele afirmar perante testemunhas que, como já disse, a prisão dos homens não interessava ao Estado, visto que a condenação d’eles implicava mais despesas para o Estado.

Saúde e Fraternidade
O Administrador do Concelho
[assinado] João Lopes Godinho"

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 2ª Secção, (1933), vol. 1, Ofício Nº 8.

sexta-feira, 10 de junho de 2005

CAQ

O meu computador puuufff outra vez, nem acentos me restam. So ca posso voltar la para terca feira.

Submeto me e vos a esta mortificacao ortografica porque o Atletico e campeao nacional de basquetebol. Quando nada havia em Massama alem do chafariz, do apeadeiro longinquo e de dois ou tres predios e moinhos, o medico e o cinema eram em Lisboa, as compras na Amadora, o desporto, a catequese e os escuteiros em Queluz. Eu fui ginasta do Clube Atletico de Queluz. Poucos anos, pouco talento, muito divertimento, mesmo quando o treinador me emparelhava com o gorducho que insistia em nao me amparar a tempo, duas e tres vezes por esquema.

Viva o CAQ!

quinta-feira, 9 de junho de 2005

"I Forgot To Pray, Can You Believe It?"

Ainda pensei cancelar este post, depois de ter lido o muito mais relevante Sete Palmos de Terra, do Miguel Marujo (já vou tarde, mas de tomo o modo parabéns pelo Cibertúlia) no último Terra da Alegria. Também eu guardei o momento em que o David desabafou com Claire o perigo de morte em que se viu metido, e de como lhe faltou tudo, até uma oração. Um crente vive sempre na ilusão que à ultima da hora se virará serenamente para Deus; tal qual o David, quando me vi um dia em perigo não me lembrei de rezar. Safei-me, e como a ele sobrou-me uma espécie esquisita de culpa.

Sei que vocês não concordam, mas tenho frequentemente a sensação que a Claire Fisher (ou, se calhar, a Lauren Ambrose) derrapa nas curvas. Olho para ela, sobretudo nesta quarta série, e vejo mais "alheamento" que "quietude", relembrando a exposição de auto-retratos. Só que o cabelo da Claire, o cabelo da Claire é o cabelo da Ruth. Mais adiante o Nate e o David, lado a lado, com o mesmo cruzar de braços, sem terem de falar. E como é que a Justina Machado, com aquela secundária Vanessa, rouba quase todas cenas em que entra?

quarta-feira, 8 de junho de 2005

Animação de Rua

Ao vivo e em directo, assisto ao primeiro remake de Matarruanos Dão Indicações©. E sigo, sigo, sigo.

Homens III

Ligeiramente gordos ou ligeiramente magros. Muito desajeitados e cientes de si, em calções de banho.

terça-feira, 7 de junho de 2005

Um Outro 16 de Junho

Dois dias depois da queda de Paris, Bordéus voltou ser capital de França. Nessa manhã de 16 de Junho de 1940, Aristides de Sousa Mendes abriu a porta do quarto onde se havia recolhido por três dias e três noites. Era domingo. À porta do nº 14 do Quai Louis XVIII, milhares de pessoas o esperavam. O cônsul arranjou-se, rumou ao escritório e informou os circunstantes ter ouvido uma voz, que tanto podia ser a da sua consciência quanto a de Deus. Sentou-se, empunhou a caneta e assinou. Assinou vistos sem parar, nesse dia, no outro, no outro e no outro.

[Esta quarta feira, em Nova Iorque, relembrar-se-á um dos mais consequentes actos de desobediência da nossa história recente.]

segunda-feira, 6 de junho de 2005

Manhãs Brumosas

"Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.

Que línguas fala? Ao ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa azul, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época de banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.

As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstracta, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-me o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.

Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.

E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda."

Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde, 1886.

Pessoas Interessantes

Gosto de amadores. Pessoas interessadas são pessoas interessantes. Dedicadas ao jardim, à genealogia, à direcção da colectividade, aos livros, ao ciclo-turismo. Que não deixam morrer o entusiasmo nos braços da vida real.

sexta-feira, 3 de junho de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XII

Alguém cá comemora o Bloomsday?

Fábulas

Era uma vez um pisco novo que engoliu um baguito de uva do mesmo tamanho que ele. Ficou tão satisfeito, tão satisfeito, tão satisfeito, que se deitou de costas no ninho, virou as patas para o ar e piou:

- Venha o mundo, que agora posso com ele!

quinta-feira, 2 de junho de 2005

O Saber Ocupa Lugar

Mas precisamente o de todos os possíveis posts, entre hoje e amanhã à mesma hora. Vou ali estudar e já venho.

quarta-feira, 1 de junho de 2005

Generalização, Displicência, Leviandade

Certa vez, um Dr. António Lobo Antunes já muito maçado disse ao entrevistador da ocasião que uma pessoa não tem de ter opinião sobre tudo. Não há, por estes dias, coisa mais desconcertante a professar entre adultos informados. É como se toda a gente que discute com ar sério tivesse realmente feito o trabalho de casa, com tempo e diligência suficientes para conhecer a fundo o que quer que esteja em discussão ou soe a importante. Pelo sim, pelo não, leio umas coisas sobre isto da opinião instantânea: quem não cai nunca na generalização, displicência e leviandade não precisará de ler. Eu cá desconfio que, uns mais que outros, somos todos um bocado canastrões.

Da Bondade De Estranhos

Foi muito bom e muito mau, Luís.

Estive até ao último minuto à espera que o David acordasse. E pensar que um bocado antes ele se mortificava com a ausência do displicente Keith. Enquanto foi buscar o corpo - estupidamente morto - de uma jovem mulher para a Fisher & Diaz, a sua mãe insistiu em tentar desentorpecer o Nate e emparelhar o filho do George com uma balconista. Como sempre, o que teve a dizer não foi entusiasticamente acolhido.
A Claire aproveitou para largar de fininho a conversa de volta do matacão persa e foi às aulas: expôs(-se n)uma série de auto-retratos à crítica da restante classe, para ela "quietos" para os demais "calculados", "alheios" e "vazios". A Brenda também foi à escola, almoçando uma salada com a sua indigesta mãe. (O Rico mareia mais, sereia mais.)
Nada disto interessa realmente, porque o episódio foi o regresso do David a casa. Porque raio haveria ele de ajudar quem vive da bondade de estranhos? O rapaz da beira da estrada pôde tudo, esteve para o matar três vezes. Eu reprimi um acorda!, acorda!, é um pesadelo!, como se a morte não fosse possível, como se morte não fosse verdade, como se escapar no último segundo fosse inevitável.

Desta vez foi.