a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

segunda-feira, 30 de junho de 2008

London, Tottenham Court Road

"The compensation of growing old, Peter Walsh thought, coming out of Regent’s park, and holding his hat in his hand, was simply this; that the passions remain as strong as ever, but one has gained - at last! - the power of taking hold of experience, of turning it round, slowly, in the light."

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, 1925.



Acaba-se o mês dos dias em livro, comum a Joyce e Woolf.

domingo, 29 de junho de 2008

Mão Mole

Mais vale um sorriso desguarnecido ou uma palmada nas costas que um aperto de mão frouxo. Que raio, em termos de coreografia social não há gesto mais poucachinho e desinspirador.

sábado, 28 de junho de 2008

Lisboa, Rua Barata Salgueiro

Ai que nervos, não ter podido ir ver disto.

Que fazer ao que nos contam? (13)

O varejo num dos pedaços a poente demorou bem mais que o costume, passava-se a hora de cear. Até ao segundo entroncamento os primos seguiram também, mas agora havia que galgar o Corgo Fundeiro. Não que fosse de aflições (ainda era pequena quando a mãe da mãe lhe tinha ensinado o conjuro quem vai, vai, quem está, está, para qualquer caso sem explicação), ou que o burro não soubesse o caminho, não era isso. Era o nenhum costume de ir sozinha por volta tão evitada. De que tivesse conta, mais contornado que aquele vale de pedra solta só o rocio da Venda, ou talvez a ponte do Estreito. Desses ainda havia quem repetisse qualquer coisa de má memória, mas dali não, ninguém parecia lembrar a razão de tal fama. Nisto, feito o vau, quando se preparava para deixar de tentear o carreiro à frente do animal, deu por um estranho brilho a meia encosta. Estacou.
Fez por respirar.
Pensou voltar para trás, mas levava mais de meio regresso. Decidiu avançar sem fixar aquela terrível espécie de favo prateado, suspensa no nada. Passou. Ia já uns bons passos acima quando não aguentou: agarrada ao arreio e a um responso involuntário, virou os olhos para o que afinal era reflexo do quarto crescente numa imensa teia de aranha, coberta de orvalho. Teria observado melhor, mas ouviu algo. Picou por aí a cima o quanto pôde, até estar segura de que o vento trazia mesmo o eco de quem gritava o seu nome. Encontraram-se quase no planalto. O regedor vinha à frente, a seguir os irmãos, os vizinhos, só depois mãe e pai - não fosse haver o pior.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Wee Hours

Por aqui continua a apresentar-se uma curva de aprendizagem de tipo 's'. Nada de sofisticado, pois.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Lisboa, Praça do Chile

Facto é que os amigos demoram. Vim por aí acima a pensar que depois da empatia tem de haver muito mais, e tempo há menos - o mesmo que nos vai tirando os que conseguimos fazer. Lá está: há que teimar.

Rima

, ainda por cima.

sábado, 21 de junho de 2008

Skating Around the Truth



[Winter (Little Earthquakes, 1992) Tori Amos.]

Existem outras por onde escolher, mas gosto bastante desta versão. Amos é (mesmo agora, numa fase heteronímica e transitória para sabe-se lá onde) estranhamente comovente. Ou pelo menos a mim comove-me, a capacidade de voltar por outros caminhos ao próprio cancioneiro.

Lisboa, Rua Castilho

Por várias razões todas elas tão justificadas que dá para apresentar comprovativo carimbado, não consegui ver um só jogo da selecção do princípio ao fim. Pude, porém, cruzar quarteirões à escuta deste Portugal a duas velocidades, dando por uma das únicas coisas fixes que os pobres (sans-cable) recebem primeiro que os ricos (avec-cable) - os golos.

Sexto Dia

Recebestes de graça, dai de graça.
Mt. 10, 8.

Que dizer do cavalheiro que sabia versos de cor? Como honrar o homem que escolheu viver a sua vida connosco de roda? Pouco sei. A ti (que mais que todos perguntarás: quem poderá oferecer aos que vierem depois o que ele, na sua ternura meio solene, deu de tão boa vontade?) pedi uma faixa preta; a ti abracei, e cosi uma igual na manga errada (ainda bem que também quiseste vestir este passado presente); a ti, sobretudo, ouvi (falámos de nobreza, de quem como ele discretamente luta pelo que não quer ver esquecido, acho eu). Depois, chegados à música púrpura que quase todos conhecem mas só nós sabemos ter nascido aqui, falhou-me a voz.

sábado, 14 de junho de 2008

Dia Onze Mil Duzentos e Vinte e um

A mesma teima no detalhe. Maior dificuldade com a ternura. Saudades de praticar yoga. Um pouco mais no comprimento de onda do resto do mundo.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LVI

O calor faz quem está badocha sentir-se incrivelmente badocha.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Transbordo

Estação de Entre-Gentes

À entrada da rua com nome de flor está um marco postado pelo Senado de Lisboa. Vinca o termo da capital na qual os que agora e aqui passam fazem vida, sem vagar para atentar num traço antigo, que não se vê. Os que vão e vêm por este caminho que já não é real, ou pelo caminho férreo, os que cruzam bairros nascidos sobre searas e olivais, esses vivem agora e aqui outros traços. São gente que apanha o comboio em Queluz-Belas, ou em Agualva-Cacém, gente que não lamenta horário trabalhador-estudantil, gente que preferia não ir ao Hospital Amadora-Sintra, gente que troca de metro na Baixa-Chiado, que regressa demasiado depressa pelo IC-19, gente que não se entende no seu modo luso-afro-sino-russo-brasileiro. Gente na corda bamba da urbanidade - que faz cidade entre esta estação e a que se lhe seguirá.

[Não costumo republicar o que escrevo noutras paragens (no caso, um post-encomenda para o Corta-Fitas), mas esta composição cheia de traços foi feita em espírito de lugar. Por isso aqui fica.]

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Já que entramos no mês das quadras

, aqui fica esta de Pessoa:

O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.

É que pode não estar calor, mas finalmente bebi o meu primeiro capilé. Sempre há dias em que a discronia compensa.

domingo, 1 de junho de 2008

Da adultícia

É de manhã, dá-se pela luz esquiva, pelo vento forte. Sorri-se. Porque se vai poder despachar umas três máquinas de roupa.