a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

terça-feira, 28 de fevereiro de 2006

Portugália Monumenta Futurologica

Está uma pessoa no restaurante, levanta-se, vai à casa de banho e dá de caras com um professor Alaje em formato A5, muito solene e africano. A pessoa faz o que tem a fazer um bocadinho encolhida, enquanto lê

A sua ex-colega resolveu todos os problemas comigo, sabia?
[blá,blá, contactos & consultórios]

Não, não sabia. Dinheiro, saúde ou amor?

Haltere Ego

Pergunto-me se serei tão forte quanto os que se dizem fortes.

domingo, 26 de fevereiro de 2006

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XXII

É para aí o meu terceiro Entrudo sem festarola. Já me mascarei das clássicas minhota, espanholita e dama antiga, mas também de lua em quarto crescente e de prédio. Dançar de prédio, como foi possível?

Está No Ar

a Rádio-Pirata. Sintonizem.

Nem Sei

que vos diga. Sincero obrigada.

sábado, 25 de fevereiro de 2006

Gramática

Gosto particularmente da forma como o artigo definido trata o nome.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Lança-Perfume

Muito proibido pelos Governadores Civis portugueses durante as primeiras décadas de novecentos, fui à pesca dele. Até perceber que um lança-perfume era acessório indispensável nas batalhas carnavalescas brasileiras e portuguesas, sofisticadamente manufacturado na Suíça pela RODO, vieram ao anzol um disco da Rita Lee e várias ampolas de droga. A polissemia dá-me cabo da cabeça.

Massamá É Uma Palavra Árabe Estragada Que Quer Dizer Lugar Onde Se Bebe Água

Passam-se mais ou menos trinta mil almas, talvez desconhecidas do lisboeta esclarecido, descontando um ex-ministro das Obras Públicas, dois jornalistas e três músicos ligeiros. Todos vivos. Não é propriamente uma localidade simpática, simpática é a Foz do Douro, ou a Lapa, ou assim. Passam-se lusos, cabo-verdianos, ucranianos, chineses, angolanos, indianos, brasileiros, russos, moçambicanos, moldavos, guineenses, espanhóis, venezuelanos, sul-africanos, franceses e outros, umas vezes da cabeça, outras convivendo em esforçada harmonia. Passava-se por um coreto pintado de verde, que entretanto foi substituído por um coiso em madeira debaixo do qual uns quantos velhotes compõem kantianamente o centro antigo. Passa-se a esta e outras ruas. De tão etimológico, o chafariz ainda lá está, a fazer companhia ao marco do Termo de Lisboa. Que Lisboa acabou aqui.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

Casa de Banho Vitoriana II

Outras não tinham marido, tinham visita uma vez por semana. No prédio em frente a morena gritava muito alto, mais ou menos à mesma altura que chamava o filho para jantar. Fazíamos que não ouvíamos, até ela parar. Havia também a loira, que tinha quem fumasse em tronco nu à janela, olhando longamente o estendal de meninas conversadoras depois da rua e do banho. Fazíamos que não víamos, até ela o puxar para dentro.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

Caracóis, Sandálias e Traições

Barthes das Mythologies, Luís? Venham o intérprete, o exegeta e o caça-significados, que séculos e séculos depois, bom jeito darão. Há lá coisa mais difícil que dar à tela um mundo não-judaico, pré-cristão, pré-islâmico, pré-ateu? Fosga-se.
Inesperada, esta Átia: a hesitação na escolha do traje (tão in só poderia resultar out), a insegurança frente à snobbery de Servília e Calpúrnia, a sincera e funda necessidade em agradar ao tio. Percebe-se-lhe melhor a prole, descoberta esta face.
Que dois ariscos, Bruto e Cícero; que dois obtusos, Quinto e António. Bons augurii à força [ai, o que me irrito quando eles se esfumam no publishing, Luís!, ultimamente faço sempre ctrl+c antes], assim como quem calca a sorte a toque de maço no mosaico da vitória. César deixa nada sem cálculo, só não controla o que não pode (ninguém controla a morbus comitialis). Pulo, o detemido, Voreno, o temente: um ri-se à Fortuna, outro reverencia Janus. Tão frágil, Janus.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2006

Dos Cinquenta Mil

O meu avô era o ferreiro da aldeia. Tinha aprendido com o pai, que tinha aprendido com o pai, que tinha aprendido com o pai. As poucas semanas na Conde Ferreira lá da vila não o agarraram às letras, já o mundo ganho durante a tropa, esse sim. Para saber dele, comprava o Diário de Notícias todos os santos domingos, lia-o de cabo a rabo, mesmo durante o racionamento.

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (4)

As primeiras imagens dos Aliados viu-as no largo, projectadas contra a parede da capela. Alguém lhe disse que aquilo era a guerra, a que o seu pai dizia em voz alta, saída do jornal. Afinal era verdade.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006

Tudo Tem O Seu Lado Positivo

Um adenovírus, por exemplo, tem três: primeiros, nenhum antibiótico lhe faz a barrela (os antibióticos não matam vírus, pá!), pelo que a conta da farmácia é muito mais em conta; segundos, perde-se por completo o apetite, inaugurando-se a saison da dieta sem o habitual sacrifício; terceiros e últimos, as inalações de vapor salgado, obrigatórias, têm por efeito secundário uma limpeza facial profunda.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Caracóis, Sandálias e Traições (Act.)

Roma mais pintada e mais suja que nos anteriores episódios, mais real. Átia punindo o portador das más notícias à chibatada. Em estação de defeso bélico, toda as movimentações são difíceis de prever. Em redor de César há-os mais cesaristas que ele. Pompeu precipita-se: retirada estratégica quer também dizer toda uma cidade deixada à sua sorte, ressentida. Catão e Cícero sabem-no e reclamam, debalde. Atirem-me ao rio Letes, nem assim olvidarei Tito Pulo ministrando rudimentos de Mentalidade e Anatomia da Fêmea a Lúcio Voreno. Os Júlios ensaiam o seu suicídio colectivo; Octaviano quer morrer homem, reclama o direito a tratar de si. Noutra parte da cidade, preces a Vénus, preces aos Lares. Pulo tropeça na Fortuna encarnada num carro de bois teimosos.

Adenda:
O grito catónico só podia ser esganiçado - razão sem força alguma vez havia curado, ou alguma vez curaria, os males da república romana?

terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

A Rua

Em pequena tive / um sonho muito vívido. / Entro na rua, /na minha rua, / reconhecido o declive / mais o bordo do passeio, / e encontro-a / maravilhosamente mudada: / um lago no lugar / da torre nova; / três árvores grandes e floridas / (uma cor-de-rosa, outra vermelha, outra amarela) / na vez do couval; / erva onde tudo / era alcatrão.

Não sei como / permanece.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2006

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XXI

Gosto, mas acho estranho não haver dia que algum lusoblogueiro não poste um Chagall. É que é certinho.

sábado, 11 de fevereiro de 2006

Queluz, Rua Paulo Reis Gil

Um aniversário, duas bandeiras, três homenagens. Carne, osso e alma. Não nascemos nem morremos sozinhos. Hoje fui feliz.


[por todas as razões e mais uma]

"O portugal futuro é um país
aonde o puro pássaro é possível
e sobre o leito negro do asfalto da estrada
as profundas crianças desenharão a giz
esse peixe da infância que vem na enxurrada
e me parece que se chama sável
Mas desenhem elas o que desenharem
é essa a forma do meu país
e lhe chamem elas o que lhe chamarem
portugal será e lá serei feliz
Poderá ser pequeno como este
ter a oeste o mar e a espanha a leste
tudo nele será novo desde os ramos à raiz
À sombra dos plátanos as crianças dançarão
e na avenida que houver à beira-mar
pode o tempo mudar será verão
Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz
mas isso era o passado e podia ser duro
edificar sobre ele o portugal futuro"


Ruy Belo, Portugal Futuro, in Homem de Palavra[s], 1969.


sexta-feira, 10 de fevereiro de 2006

Massamá, Cerrado da Bica

Para poente do cerrado está a única colina limpa de casas. Antes de ser noite, de roda de um poste de alta tensão, dois cavalos pastam com vagar.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2006

Três Panos

A bandeira é um país todo, do antes ao porvir. É isto que queimam, quando a queimam. Aceito que haja quem não se reveja em nada exterior à sua pessoa. Mas não consigo entender.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Convulsa

Um dos aspectos mais injustos da tosse é que ela não deixa que os outros se compadeçam de nós. Como incomoda toda a vida humana num raio de cem metros, impede que se receba a quantidade de festas e chazinhos reservados à febre, por exemplo. E agora vou-me embora, elidindo a descrição do estado em que deixei o monitor LCD.

Comic(s) Relief

O homem fazia disto às dúzias, aqui há uns anos. Os alvos eram os próprios amigos, que riam às custas uns dos outros de boa vontade. O traço continua...âââââââ...depurado, mas o comic relief está todo lá.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Casa de Banho Vitoriana I

[e vai disto]

Sou das que escreve abraços enquanto não há cônfia para beijos. Em letra, o abraço implica um pouco mais de cordialidade que o passou-bem, juntando-se-lhe a vantagem de ter coreografia previsível, à prova de tresleituras. Um abraço é um encostanço fraterno. Já o beijo (qual?), os beijinhos (quantos?), ou o até breve (quando?) bolinam, esses sim, entre a cortesia e a intimidade. É preciso conhecer bem o destinatário de um beijinho, não vá ele parar a lugar imprevisto.

Caracóis, Sandálias e Traições

Marco António ungido Tribuno do Povo, ou de como há sempre alguém que acha a tradição pura fantochada, alguém que acha que o mundo começou consigo. Átia recebendo Lúcio e Tito, demonstrando porque é Júlia dos quatro costados: sedutora no trato, rápida no pensamento e na acção, aptíssima a antecipar meios para a sua sobrevivência e a dos seus. Octaviano observando, absorvendo, sobretudo.O Senado e a importância sagrada da voz. Está dito, está dito. Pompeu equivocando-se sobre César, et vice versa. Lúcio e Niobe ainda se conhecem? Sete anos é muito tempo. Não se regressa, muito menos de uma guerra. Começa-se outra vez. E às vezes as primeiras impressões são correctas.

Adenda: A sobranceria de Catão frente à popularidade (ou populismo?) de César e da sua Legio XIII é tão suicidária que custa a crer que tenha ocorrido assim. Quanto às cenas de debate no Senado, o que imediatamente me ocorre são flashes de Taiwan e da Geórgia, é irreprimível.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2006

Como Fugir Ao Essencial Da Questão

Cartunes? Acabaram-se as caricaturas?

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (3)

Descamisavam o milho sem rádio nem concertina. Ao fim de muitas horas gastavam o cancioneiro, punham-se com vagares, acabavam por adormecer. O mais velho despertava-os recorrendo sempre ao mesmo estragema: troava o hino.

Uma Janela

Não eram seus. Numa crónica dizia tê-los copiado para um caderno (para o coração) ainda rapaz. Repetia-os a cada parágrafo


"há sempre no fundo do sofrimento uma janela aberta uma janela iluminada"


tinham-lhe valido quando deles precisou. Encontrei-os inteiros há pouco, longa vida aos motores de busca:

"La nuit n'est jamais complète

Il y a toujours puisque je le dis

Puisque je l'affirme

Au bout du chagrin une fenêtre ouverte

Une fenêtre éclairée

Il ya toujours un rêve qui veille

Désir à combler faim à satisfaire

Un coeur généreux

Une main tendue une main ouverte

Des yeux attentifs

Une vie à se partager."

Paul Éluard, Et Un Sourire. In La Phénix, 1951.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2006

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (2)

Era nova e bonita. Dava aulas naquele buraco da serra, espancando alunos sem olhar a classes. Não era ela que batia, entenda-se: tomava-os pelos pulsos, obrigava-os a esbofetearem-se a si mesmos.

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (1)

Uma vez, ainda na monarquia constitucional, um homem de ideias avançadas viu o filho livre da morte por vontade de um facultativo extremamente conservador. Chegadas as eleições, não hesitou: cortou o voto ao meio.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Lisboa, Avenida Fontes Pereira de Melo

O ilhéu entre as faixas de rodagem é estreito, entre um semáforo e outro não cabem meia dúzia de peões. Mau para quem tem a vertigem da velocidade. Peões. Espanto o tédio, deslocando A Inaudita Guerra um bocadinho mais para aqui. Taxistas aos berros, polícias escondidos atrás dos balcões dos cafés, mouros de alfange em punho, militares a abanar lencinho branco. Clio anda com insónias, tough luck.

You're Not Right In The Head

Quatro horas de neve na lezíria, mesmo assim vês o primo regressar com trinta tordos. Aí está, pensas, trabalhar toda a semana a toque de Moz. E não é que resulta?

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XX

Decidir se transformo Casa de Banho Vitoriana, cuja demanda levou um diligente usuário do Google até aqui, numa série higienista, desbragada ou intimista.

Wee Hours

Dói-me o siso.