a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Seis

- Seis.

- Seis não, cinco.

- Seis. Tive seis.

Ele não percebeu logo, pensou que era da doença. Chamou-a mãe desde o dia do casamento, e não o fazia por ser costume. Gostava mesmo dela, tinha-lhe muita admiração. Não lhe faltou no fim, quando já não se parecia com o que tinha sido. Enquanto a mulher dava de jantar aos miúdos, ele ia ao quarto, falava-lhe um bocadinho para a acalmar. Se sabia onde estava, se sabia quem ele era. Dias sim, dias não. Nesse perguntou-lhe quantos filhos tinha tido. Pensou que a resposta era da doença, não dela, mas a sua mulher lembrou o irmão mais novo, o que não chegara ao ano de vida.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

Planeta Nacional

Está bom de ver que nem só eu lá topo com ilustres desconhecidos. Outra história sobre o Planeta Nacional e seus habitantes, por Rui Branco, na prateada Noite Americana.

Homens V

Embaraçado, apanhado a vê-la passar.

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Aquilo da Informação

Tive uma ideia. Caso alguém passe por aqui, seja jornalista e não lhe tenha ocorrido, faça o favor de a apanhar. Não é original, mas é boa. Se servir de caução adicional, cá vai: lá fora faz-se muito. Vêm aí as presidenciais. Há um número razoável de pessoas que gosta de se informar antes de cruzar o boletim de voto. Desse número razoável de pessoas, umas são bastante mais jovens que os candidatos, pelo que curiosas e (mais ou menos) desconhecedoras dos percursos profissionais e cívicos daqueles; as outras, suas contemporâneas, talvez fossem surpreendidas por uma investigação crítica e abrangente sobre essas mesmas personalidades, repensando alguma ideia feita.

Porque recorrem quase exclusivamente os media portugueses à entrevista e ao debate? Na mais personalista das eleições, que tal não deixar a informação toda à mercê das prendas retóricas de cada candidato? Que tal biografar?

terça-feira, 27 de setembro de 2005

Às Vezes Não Há Beleza

Já as portas apitam e continuam a entrar na carruagem tanto sono, tanto nervoso, tanto choro, tanto cansaço, que não consigo ver mais nada. Não cabe mais nada.

Ontem Fiz Anos

Gosto que ela mo tenha contado sem flores. Num lugar acidental tricotava uma camisola de lã preta. Às sete horas da tarde percebeu que as dores batiam com a lua, como com o primeiro. Estava relativamente calma; vestiu-se, chamou um táxi, verificou a mala. O trabalho foi rápido, muito a contento da enfermeira-parteira que a cumprimentara com um "vá, vamos lá, está quase a começar a Gabriela".

sábado, 24 de setembro de 2005

Carnivàle Lights II

3. Tipton

Nos sonhos vêm respostas aos pedaços. Travestido de si, Ben é o protagonista da farsa milagreira. Quem não quer um milagre? Rebecca. Afinal Ben não cura, afinal tira e dá - transporta .


4. Black Blizzard

Alimenta e asfixia, a terra. No dia da nata de dez mil quintas pelo ar, Ben Hawkins não decide se quer saber o que é. No dia da nata de dez mil quintas pelo ar, Justin Crowe é possuído pela cólera de todos os males do mundo. Nenhum talento permanecerá enterrado.


Adenda(27.09.2005): Este é, para mim, um dos mistérios deste par de episódios, Carla: porque se comportam Samson, Lodz, Lila e Apollonia como se soubessem muito do que está para vir? A ele se junta o do talento de Justin Crowe: qual a sua natureza, Luís, porque não o teme, porque dele não duvida o seu detentor?

Coisas Más I

Quem me conhece, conhece a minha tosse irritativa. Quando chega a Primavera, ou Outono, perguntam-me sempre por ela. Com o adjectivo em CAPITAIS & bold.

Coisas Boas I

É raro esconder dos outros o que não sei.

sexta-feira, 23 de setembro de 2005

Carnivàle Lights I

[Não consegui chegar à hora combinada, fizeram muito bem em ir entrando, meus caros.]

1. Milfay / 2. After the Ball is Over

A falta. De comida, de roupa, de água. De vida. Terra em tudo, em todo o lado, mas mais nas caras e no vento. Medo, muito, do desconhecido em cada tenda, em cada um. Cortinas vermelhas na Direcção, cortinas vermelhas no templo do Irmão Crowe, cortinas vermelhas no Chin's. O que dá e o que tira Ben, quando cura? O que vê Iris? O que não quer Samson?
P.S. Obrigada a ambos pelos cartões de parabéns!

quarta-feira, 21 de setembro de 2005

O Método da Triangulação

A adolescência, inventámo-la. Há a puberdade, sim, e três ou quatro dias que nos fazem adultos, aqueles em que triangulamos do mundo a disposição para aceitar o acaso, os defeitos dos outros, a inevitabilidade de sermos responsáveis por nós. Muito há quem envelheça e nunca aqui chegue, sim, e a mim o acaso ainda me custa - não sei se já cresci.

terça-feira, 20 de setembro de 2005

A River Runs Through It

Que confusão me faz quem se comporta como se a vida fosse uma sequência de fases eliminatórias, infância, adolescência, juventude, maturidade, meia-idade, velhice, cada momento anulando o momento anterior. Como se cada pessoa fosse diferente pessoa em cada um deles. Como se a gente não tivesse uma mesma alma, como se a gente não se acumulasse, não se guardasse do tempo.

sábado, 17 de setembro de 2005

Outono Temporão

Piu, piu, ai as florzinhas, quase levei com uma castanha na carola.

sexta-feira, 16 de setembro de 2005

Nascente

A Nacional (also known as Fábrica das Bolachas) lá me irá acolher de novo. Por uns tempos.

Norte

Reinventar a rotina, dar novos bons-dias.

Poente

Lá se vai o apito do chefe da estação.

Terminei há bocado uma empreitada de investigação centrada nas décadas de 20 e 30 do século passado. Com ela acabaram-se os trem-lags Ribatejo-Grande Lisboa, a ciranda nas ruas de Santarém, a orelha à coca no comboio tomarense. Despedi-me das competentes (e afectuosas) funcionárias do Arquivo Distrital, da esmerada D. Zinda do café, dos pardais gorduchos da esplanada nas Portas do Sol. Foi processo longo e assoberbante, normal na vida de um trolha da construção intelectual. Lá me aproximei da história de uma fatia de país muito pobre mas rijo, de bastante ricos e de jornaleiros, bem mais dependente da diligência e da probidade dos que trabalhavam na administração pública e na política do que eu supunha. É certo, muita violência e desmando, mas também funcionários de administrações concelhias com setenta anos a darem horas extraordinárias, delegados de governo a custearem deslocações em serviço de Estado, beneméritos a financiarem discretamente obras sociais na sua terra de nascimento.

Somo hoje tão cépticos e tão desligados. Que mal pergunte: quando, quando é que o sentido de dever se tornou expressão antiquada?

Sul

Sei que não é Verão quando janto de noite.

A Escola Toda

Quem quiser mesmo saber como é ser adulto e regressar às aulas, leia Henrique Fialho.

Post 451

Informamos os senhores passageiros que o apeadeiro de Quatro Caminhos entrou em funcionamento há um ano; a administração agradece a todos, frequentes ou ocasionais, as c.10 000 viagens efectuadas.


...mesmo ao ente que aqui veio parar após ter digitado "papel de parede com bombas atómicas" no Google.

quinta-feira, 15 de setembro de 2005

Traumatismo Ucraniano

I
Alverca, comboio regional Tomar-Santa Apolónia, 8:00 p.m. Um angolano, um português e um ucraniano discutem o dia na obra.

Português - Já lá vamos caminho de casa!

Ucraniano - ...

Angolano - ...


Ucraniano -Cyinco myinutoj, cyinco euroj, fuod#-ze!

Angolano - Faz como eu fiz em Palmela, máno, mexe nos números do cártáão...


Ucraniano - Nom dá, fuod#-ze!, este assyina primêrro! Eu atrazaduo cyinco myinutoj, ele tira-mye uma horra! Cyinco euroj!

Angolano - Cábráão...

Português -[estalido de língua no palato]!


Ucraniano - Uma horra! Cyinco euroj! Syemana que vêm patrão nom êstá, pyego martelu PÁJZ! Eu dyigo: pyego martelu... PÁJZ! PÁJZ no cabyeza secretáriu!

Português - - PÁJZ, PÁJZ!!

Angolano - PÁJZ, PÁJZ!!
[loop alarve de risota, até Lisboa-Oriente]

Homens V

O sorriso que sobra, depois de uma gargalhada incontida.
De que terra sou não sei, um dia saberei.

quarta-feira, 14 de setembro de 2005

terça-feira, 13 de setembro de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XVI

Porque é que os góticos só andam com góticos, os freaks com freaks, os betos com betos? O jogo não se chama Os Opostos Atraem-se?

Homem-Terceto II

E inspiro

E expiro

E inspiro.

Homem-Quadra II

Tracciono, incessante,

Um peso de mundo,

É vau, adiante,

ou pego sem fundo?

Homem-Terceto I

E expiro

E inspiro

E expiro.

Homem-Quadra I

Movo a sangue

O dia, o presente,

Virtude?

Só ser valente.

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Wee Hours

Sentia-me insegura, mesmo sabendo que havia carta-prego. Alguns códigos pareciam impossíveis de quebrar em tão pouco tempo, impossíveis de quebrar ao sol, de barriga vazia. Perdíamos se a abríssemos, e contudo lá estava a resposta que nos fazia seguir caminho.

sábado, 10 de setembro de 2005

Donas de Casa Desesperadas [Português (Portugal)]

I
Interior do comboio inter-regional Tomar-Lisboa, 8:20 a.m. Plano americano enquadrando ribatejana quarentona com cabelo pintado de loiro (RQCCPDL) e ribatejana quarentona com cabelo pintado de ruivo (RQCCPDR), sentadas lado a lado, malas e sacos de plástico no colo.

RQCCPDL – Já passei quase uma máquina de roupa, hoje.

RQCCPDR - Olha, também eu; ontem à noite também passei, não conseguia dormir nem com aqueles comprimidos de flores.


RQCCPDL – És muito complicada, tu para ti os comprimidos da ervanária não dão, acho eu.

RQCCPDR – É capaz.


RQCCPDL – Li que o Tião vai ser ferido de morte.

RQCCPDR – Tu não me digas! É o que mais gosto da América!


RQCCPDL – É, e depois não sei, acho que fica t...tetraplégico, ainda não li o resumo até ao fim.

RQCCPDR – Ontem nem pude ver, o meu João pôs-se fisgado naqueles documentários da Dois...


RQCCPDL – Horríveis! O Manel também vê, e vê os do Canal História, não posso com aquilo! Vou para a cozinha, mas depois ele queixa-se que não lhe faço companhia, que os filhos não lhe fazem companhia, o que é que tu queres?

RQCCPDR – São com’ás crianças!

RQCCPDL –Tal qual!


RQCCPDL – Sabes quem também ficou tetraplégico? O homem do café Outeiro.

RQCCPDR – Então?


RQCCPDL – Estava bebido, quis bater outra vez na mulher, mas desta vez caiu das escadas.

RQCCPDR – E ficou logo assim?


RQCCPDL – Não, depois parece que ainda caiu da cama.

RQCCPDR – Bem feita! Bem feita!


RQCCPDL – O teu tio Mateus é tetraplégico, não é?

RQCCPDR – É, acho que é.


RQCCPDL – Não mexe nada os pés?

RQCCPDR – Mexer, mexe, mexe um bocadinho.


RQCCPDL – Coitado…

RQCCPDR – É assim a vida.


RQCCPDL – Pois é.

RQCCPDR – Pois é.

Count Me In

Carnivàle às portas da cidade e eu sem saber, Luís. Vamos lá ver das luzes, dos sustos, dos jogos. E obrigada pelo convite guardado à entrada. Encontramo-nos lá.

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Na Sala De Dentro

Queimaram-nos, que o gelo era muito, as pinhas molhadas nem sempre chegavam para ateio. Sabiam que as cestas de cabulo vindas da casa dos tios padres valiam, mas o ar - mesmo na sala de dentro - não se aquecia disso. Livros com ss em ff no inverno de pés nas lousas.

O Tejo, VII

Vem com força, denso, pardacento. Soltaram Tajo, há Tejo.

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Escuteiro

"Nessa tarde faltei em que
ensinaram os nós (cego, duplo,
de correr) e agora memória
e esperança a cada momento
se desatam como atacadores
de feira, no meio da gente"

Pedro Mexia, Em Memória, 2000.

Missa Est

Esqueci-me, e não há perdão. Na boda minhota faltou-me ser mulher obesa, infantil ou velha, fraca. Deus lhes valha. Deus me valha, deus afaste a indiferença.

Wee Hours

Não saberia defender-me do elogio, não gaguejar, lembrar o obrigada, nem mesmo se mulher de livro Frank Gold, olhos gatos, cabelos fartos.

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Wake Me Up When September Starts III

Bom, bom, é haver mais (e melhor) quem regresse.

The Discovery Channel

Não podemos adivinhar a vida. O que a torna mesmo muito interessante.

Salvados

Mais jorna que sorna, o meu agosto deste ano. Dez dias mal contados, todos cá. O cá que para tantos é fastio e desilusão, e para mim não. Eu gosto do meu país, das pessoas, do chão, eu sei o que ele é e o que ainda não, eu rio cúmplice a quem quer lá saber de conversas de fim de mundo e adiante. Quem não quiser nadar, não chore por terra.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Wake Me Up When September Starts II

Vivam o sol vencido, o vento, o recomeço.