Paul Newman fez ontem 80 anos. Perguntaram-lhe recentemente, maaaais uma veeeez, qual a razão para a longevidade do seu casamento (47 anos, a celebrar amanhã) com Joanne Woodward. Assim sem mais, respondeu:
"Se tenho um bife em casa, porque hei-de andar por fora a comer hamburgers?"*
[Eu já gostava muito dele, mas agora...]
*Apud GOBERN, João - "Galã, Activista e Octogenário". In Revista Sábado, Nº 38, p.108.
a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória
sexta-feira, 28 de janeiro de 2005
terça-feira, 25 de janeiro de 2005
Hipótese B
Saiam à rua com gorro e cachecol? Bebam e comam coisas quentes? Não façam exercício físico violento? Usem várias peças de roupa umas por cima das outras?
Mas quem é que manda na Protecção Civil, o chefe ou a mãe dele?
Mas quem é que manda na Protecção Civil, o chefe ou a mãe dele?
domingo, 23 de janeiro de 2005
Uma Loa Que Seja
Pela náuseagésima vez um escritor descreve, solene, o prazer sensual de poisar a caneta de tinta permanente na folha de papel branco e solto; outro exibe, tímido, letras cifradas num caderninho de bolso; outro calca, comovido, a máquina de escrever de sempre. Assim, tudo parece concorrer para o adiamento de uma loa que seja ao processador de texto. Não mais! Lá porque o nome soa mal, porque não tem a patine do tempo, ou porque pode deitar a perder tudo o que uma pessoa fez (sem grande explicação), o processador não deixa de ser o mais perfeito instrumento de trabalho de um ente escrevente.
Para quem gosta das coisas ditas de outra maneira: há lá coisa mais bonita que desenhar uma oitava de piano com a mão que tecla um comando?
Transferência
Tenho tido horríveis dores na cervical, coisa habitual nos cabeçudos que passam muito tempo a ler, escrever e alombar com o portátil. Como eu, quantos se debruçarão num certo travesseiro, a ver se elas passam?
sábado, 22 de janeiro de 2005
Nessa Epocha Era Bem Diferente III
“Serviço da Republica
Ministerio do Interior
Direcção Geral da Administração Politica e Civil
Direcção Geral da Administração Politica e Civil
Ex.º Sr.[Governador Civil]
Acontecendo algumas vezes que[rasurado] os secretarios gerais dos governos civis terem de assumir funções de governadores civis por estes terem abandonado os cargos antes de lhes ser concedida a exoneração, abonando-se aos mesmos secretarios gerais os respectivos vencimentos, que mais tarde são reclamados por esses governadores civis, que por qualquer circunstancia voltam ao exercicio dos cargos, pondo a 3ª repartição de Contabilidade em dificuldades, visto que tais abonos só devem ser feitos a quem exercer o cargo, o Exc.º Ministro do Interior, por seu despacho desta data determinou o seguinte, para ter execução no districto a seu digno cargo:
Os cidadãos que estando exercendo função de governadores civis, quando[sic] abandonem os cargos entregando os governos aos secretarios gerais, nenhum direito teem a ser abonados dos respectivos vencimentos desde a data do abandono até à concessão da exoneração, ou aguardando que esta seja publicada no D.º G.º [i.e., Diário do Governo].
No caso de essa exoneração se não efectivar, voltando ao exercicio das funções, egualmente não terão direito ao mesmo abono relativo aos dias que não exerceram os cargos.
Saúde e Fraternidade
Secretaria do Ministerio do Interior, 13 de Setembro de 1920
Servindo o Director Geral
O 1º Oficial Chefe de Secção,
J. F[ilegível].” *
* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 3ª Secção, Maço Nº 1 (2 de Setembro a 31 de Dezembro de 1920), Cópia do Ofício Nº 896.
J. F[ilegível].” *
* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 3ª Secção, Maço Nº 1 (2 de Setembro a 31 de Dezembro de 1920), Cópia do Ofício Nº 896.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2005
Hoje Brinquei Muito
O meu primeiro registo diário fez-se na edição inaugural d' "A Minha Agenda RTP" (havia um jingle recorrente no Natal "a minha agenda, a minha agenda, tralalalalá", alguém ainda se lembra?), espécie de almanaque de lavores + borda d'água + destacável pedagógico pontilhado de quadrados com cinco linhas e ilustrações garridas. Do fundo de 9 ou 10 anos, óculos & aparelho, lá fui experimentando fazer cubos de gelo a saber a laranja, frases e pasta de papel para marionetas. Quando estava cansada ou tinha preguiça deixava passar uns dias em branco; pesava-me a consciência e desatava a preencher de rojo os quadradinhos. Invariavelmente, saía-me um "Hoje brinquei muito". Mais tarde recebi um diário com cadeado e só escrevi, quase sem falhar, coisas sérias e certas.
Hoje estou cheia de sono, mas não quero deixar de postar. Hoje brinquei muito.
Hoje estou cheia de sono, mas não quero deixar de postar. Hoje brinquei muito.
A Mafalda Era Um Bocado Infantil
Li a Mafalda toda lá pelo final dos anos 8o, e gostei à brava. Já tinha começado a consumir doses consideráveis de Disney, Marvel e DC. Em contraste, as tiras mafaldinas souberam-me a coisa familiar, próxima do ambiente de crise que por cá havíamos vivido entre 1983 e 1984. Só tive que fazer um esforço empático considerável [treta, desisti logo] para contornar uma falha importantíssima no carácter da morenita, o asco à mais bela síntese culinária até ao presente - a Sopa. Nunca compreendi tal desafecto. Talvez fosse apenas uma atitude um bocado infantil da parte dela, enfim, como diz o outro [senhor, que eu tenho maneiras], Frodo explica[ria].
Serve pois, todo este arrazoado, para deixar em acta que:
- Ofereço o meu reino por um prato de boa sopa;
- Gostava de ter sido a visionária fundadora da ["franchisável", e tudo] "Loja das Sopas";
- Me pesa a consciência por ter sido Cid, o Campos (repopularizado por um alter ego de Calcanhotto), e não eu, a musicar um hino à sopa;
- Pretendo, até ser velhinha, fazer sopa tão boa como a da minha mãe.
Para a comer e dar a comer, acabada de fazer. Quentinha.
sábado, 15 de janeiro de 2005
O Palavrinho
Enchem-me de nervos (os médicos amam esta expressão) as pessoas que usam a asneira fraca. Ao contrário, o palavrão, quando utilizado por um ente civilizado e frugal, é forma muito eficaz de impedir actos materiais de violência contra pessoas e bens. Como desde o princípio dos tempos há quem utilize o palavrão para fins menos benignos (por exemplo, como forma muito eficaz de acicatar actos materiais de violência contra pessoas e bens), o asneiredo é mal visto. Sobretudo se saído de uma boca fêmea - se rapariga é uma peixeira, se mulher é uma camionista. Podia arrolar aqui os mais dispensáveis casos de vernáculo mole (com presença confirmada do pôssas! e do canudo!), mas prefiro partilhar um caso da vida, que sempre tem um fundo exemplar, ao fazer crer que o palavrinho é danoso à saúde.
Na empresa em que um meu amigo contabilista trabalhou havia uma colega muito paciente, muito doce, muito bem-educada, que - claro - não fazia conversa de caserna. Chegou uma daquelas semanas em que as coisas correm muito mal a toda a gente, e ela não foi excepção. A princípio andou muito vermelha e com dores de cabeça. Na quarta-feira chorou. No dia seguinte, a meio da tarde, não aguentou mais: levantou-se da cadeira, cerrou punhos contra o tampo da mesa, susteve por segundos a respiração e, fora de si, soprou audivelmente
- CAAAAA…QUINHA !!!!!!!!!!!!!!.
Como não podia dizer nada pior, desenvolveu gastrite.
Epílogo - Esta história é verídica, e ainda por cima passou-se mais ou menos assim . Não posso deixar de dizer que, enquanto os outros colegas riam, o meu amigo, exasperado com tanto pudor vernacular, disse-lhe, um bocado alto
- NÃO É CAQUINHA, É MERDA, PÁ!.
Não sei se se falam, mas o meu amigo é a cara chapada do bem-estar.
Nessa Epocha Era Bem Diferente II
“S[erviço]. [da] R[epública].
Administração do Concelho da Barquinha
Barquinha, 16 de Julho de 1921
Ex.mo Governador Civil do Distrito de Santarém
Com muita preocupação minha, continuam armazenadas nesta administração, algumas bombas que, ha meses, foram encontradas na marjem[sic] do Tejo.
Como isto possa representar perigo, tanto mais que estão no meu gabinete, onde, diariamente, entra muita gente, rogo a V.ª Exc.ª o favor de promover as necessarias diligencias para remoção do caixote onde as bombas se encontram.
Saude e Fraternidade
O Adm.or int[erino]. do Concelho
(a) E[ilegível] Coelho” *
Como isto possa representar perigo, tanto mais que estão no meu gabinete, onde, diariamente, entra muita gente, rogo a V.ª Exc.ª o favor de promover as necessarias diligencias para remoção do caixote onde as bombas se encontram.
Saude e Fraternidade
O Adm.or int[erino]. do Concelho
(a) E[ilegível] Coelho” *
* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Livro de Correspondência Recebida – 2ª Secção, Nº 2 (11 de Maio a 23 de Setembro de 1921), Cópia do Ofício Nº 769.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2005
É Bolo
O meu progenitor não é homem de doces, é homem de fruta. Abre excepção à honrosa trindade composta por Maçã Assada, Pudim Molotoff (Molotov?) e Leite Creme. Como a restante doçaria (conventual, regional, trendy ...) é aos seus olhos mundo de muito pouco interesse, designa qualquer exemplar que lhe aparece defronte por bolo. O bolo é torta, tarte, bavaroise de ananás, biscoito, bolacha, crepe, bolo-de-facto, etc. Só os componentes da trindade têm individualidade, o resto é massa de forma vária, mas indistinta.
Tudo o que não nos interessa é bolo, não é?
Trem - Lag IV, "Make It A Double"
Todos (mas todos) os dias os passageiros do tomarense levam com as vivaldinas Quatro Estações (deve ser uma corporate joke); todos os dias os passageiros do suburbano têm de se contentar com o ruído do ar condicionado.
O pica do comboio tomarense larga o serviço e vira uma bucha de papo-seco e saca da coxa de frango embrulhadinha em papel de alumínio; o pica do suburbano Alverca-Meleças atura impropérios a um passageiro histérico e é sombreado por dois agentes da PSP.
Nessa Epocha Era Bem Diferente I
“Serviço da República
Administração do Concelho de Tomar
Tomar, 24 de Março de 1921
Ex.mo Governador Civil do Distrito de Santarém
Tive já a honra de pessoalmente informar V.ª Exc.ª das dificuldades que se me apresentam para de prompto remover as meretrizes, que são em grande número, e cuja instalação na rua Pedro Dias é quase secular. Logo após a minha posse do logar de Administrador deste concelho tive ocasião de verificar a inconveniencia da sua premanencia [sic] naquela rua que de facto é muito central e onde também habitam pessoas de toda a respeitabilidade que devem sentir-se mal com uma tal visinhança.
Mas como remediar o caso se na unica rua onde se impunha a sua instalação não ha casas desabitadas e os moradores junto dos quaes algumas demarches já fis, se não dispõem à troca? Por agora e logo que retome o meu logar, o que se me afigura facil é por fora deste concelho aquelas cujo comportamento mais impõe essa medida
O Senhor Carlos de Campos Gavino é sob todos os pontos de vista um verdadeiro cavalheiro a quem por varias vezes tenho procurado atender. Mas a verdade e isto é bem notado é que tendo o mesmo Senhor sido Administrador deste concelho desde 16 de Maio de 1914 a 14 de Março de 1915 não conseguiu o que presentemente reclama; talvez porque agora mora na citada rua e pelos livros archivados nesta administração facilmente se verifica que já então às meretrizes impunha a sua saída da referida rua. Ser Administrador nessa epocha era bem diferente do que se-lo presentemente que lhe cumpre cuidar da alimentação dos seus administrados que lhe toma imenso tempo e o força a trabalho extenuante.
Saude e Fraternidade
O Administrador do Concelho,
(a) Guerra Semedo” *
* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Livro de Correspondência Recebida – 2ª Secção, Nº 1 (2 de Janeiro a 11 de Maio de 1921), Cópia do Ofício Nº 272.
Tive já a honra de pessoalmente informar V.ª Exc.ª das dificuldades que se me apresentam para de prompto remover as meretrizes, que são em grande número, e cuja instalação na rua Pedro Dias é quase secular. Logo após a minha posse do logar de Administrador deste concelho tive ocasião de verificar a inconveniencia da sua premanencia [sic] naquela rua que de facto é muito central e onde também habitam pessoas de toda a respeitabilidade que devem sentir-se mal com uma tal visinhança.
Mas como remediar o caso se na unica rua onde se impunha a sua instalação não ha casas desabitadas e os moradores junto dos quaes algumas demarches já fis, se não dispõem à troca? Por agora e logo que retome o meu logar, o que se me afigura facil é por fora deste concelho aquelas cujo comportamento mais impõe essa medida
O Senhor Carlos de Campos Gavino é sob todos os pontos de vista um verdadeiro cavalheiro a quem por varias vezes tenho procurado atender. Mas a verdade e isto é bem notado é que tendo o mesmo Senhor sido Administrador deste concelho desde 16 de Maio de 1914 a 14 de Março de 1915 não conseguiu o que presentemente reclama; talvez porque agora mora na citada rua e pelos livros archivados nesta administração facilmente se verifica que já então às meretrizes impunha a sua saída da referida rua. Ser Administrador nessa epocha era bem diferente do que se-lo presentemente que lhe cumpre cuidar da alimentação dos seus administrados que lhe toma imenso tempo e o força a trabalho extenuante.
Saude e Fraternidade
O Administrador do Concelho,
(a) Guerra Semedo” *
* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Livro de Correspondência Recebida – 2ª Secção, Nº 1 (2 de Janeiro a 11 de Maio de 1921), Cópia do Ofício Nº 272.
domingo, 9 de janeiro de 2005
Denegação
Foi no primeiro dia de férias do Verão de '92. Subia, contente da vida, uma calçada próxima do Palácio da Independência porque se impunha a compra de um fato de banho novo. Ia haver actividade de preparação do Acampamento Nacional do CNE, e eu não queria parecer mais foleira do que de facto era. A caminho da loja segui por um passeio tão apertadinho que só havia espaço para a minha mãe atrás de mim; uma Ford Transit das antigas passou a abrir, bateu-me com o espelho, eu caí e a roda de trás passou-me por cima das pernas. Lembro-me de estar calma, no chão, e da minha mãe estar a gritar qualquer coisa. A carrinha parou bem mais à frente, e dela saiu um casal de velhotes ciganos e um pseudo-motorista (o rapaz, soube depois, tomou o lugar do velhote cigano, que não teria a carta e tresandava a vinho...). A velhota cigana aproximou-se de mim, olhou-me a perna direita, fez menção de lhe tocar - a minha mãe rosnou e afastou-a - e disse, convicta: "Vêm? Vê-se que não está partida! Vê-se logo que não está partida! ". É claro que o fémur estava partido. À força de muita chicha e muita sorte, não se partiu mais nada, só o meu plano de férias.
Na sexta-feira passada, à hora de almoço, passeava por Marvila de Santarém e cruzei-me com uma velhota nativa. Dois cães saíram do prédio ao lado para a defender do mal que nas suas alucinadas e atrofiadas mentes eu lhe iria fazer, e enquanto eu parava para a deixar passar ela disse, convicta: "Eles não mordem, eles não mordem! Não tenha medo, que eles não mordem!". Enquanto isto, o cão de água lanzudo fincava o dente no meu rechonchudo gémeo direito.
Isto da denegação no feminino é o quê? Doença geriátrica?
terça-feira, 4 de janeiro de 2005
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