a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

segunda-feira, 31 de março de 2008

Os posts dos outros

Gosto dos acabadinhos de publicar, apanhados numa actualização casual. Dos de título comprido. Dos que só à força de muito Google. Dos que aparecem e desaparecem. Dos três ou quatro de enfiada escondendo um importante. Dos com música ou fotos mesmo bonitas. Dos que acabam com uma ausência de muito tempo. Dos que dizem o que ia a dizer. Dos que dizem o que já disse. Dos que se fossem para mim, nem sei. Dos a horas quase certas. Dos com adenda na caixa de comentários. Dos que salvam sem querer. Dos tal e qual. Dos que nos querem convencer que são ficção.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Um difuso floral-estar

Sente-se por estes dias na sociedade portuguesa um floral-estar difuso, que alastra e mina a desesperança essencial ao pessimismo nacional. Um escândalo, a primavera persistir nestas tomadas de posição.

terça-feira, 25 de março de 2008

Amadora, Avenida Gago Coutinho

Foi o primeiro filme de crescidos que nos deixaram ver. Sim, já nos tinham levado ao Amoreiras a ver uma comédia com o Eddie Murphy que me meteu medo porque tinha maus, e eu não estava à espera que tivesse, mas esse não contou. Naquele dia este era o único em cartaz, por isso fomos, e os pais aproveitaram para ir comprar não sei quê. Sabia lá a gente que a língua daquela canção existia, que haverias de fazer amigos dos dois lados da vedação, que aquela cidade passaria a dizer-nos um pouco de respeito. Mas gostámos muito, e falámos do que não tínhamos percebido durante vários dias. Passaram vinte anos, acreditas?

quinta-feira, 20 de março de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LIV

Telejornais em longa-metragem. Peças de quarto de hora sobre o mau tempo ( tudo o que não sejam vinte e dois graus de céu limpo). Jornalistas empeçando peões com questões sobre o efeito da chuva nos planos de fim-de-semana.

São Francisco de Sales nos poupe ao infotenimento.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Lisboa, Rua Professor Francisco Lucas Pires

Sol que estava, nem era preciso alcançar a esquina para começar a sentir o jasmim. Agora chuva. Vai nada temporã, a estação.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Do domínio da língua

Depois de todo aquele tempo ali estão, entre sorrisos e temores sincopados. O mesmo desejo de ouvir, maior dificuldade em dizer.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Lisboa, Avenida Professor Gama Pinto

Vinte e um anos e a vontade de arriscar a primeira rejeição. Tarde, talvez. Que fora um texto muito discutido pela Direcção, mas que não. Tudo num humilhante tom de compadecimento. Uma revista de faculdade com algumas pérolas e bastante porcaria não aceitava o conto mediano, pensava, enquanto sentia o refluxo de desilusão.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ana Crónica Redux

A fábrica das bolachas está desde ontem que parece a ponte de comando da USS Enterprise (pessoa passa torniquete, pessoa senta-se no terminal, faz login, escolhe lugar e pede livros num ápice de clicadelas). Em contraste, tenho a conta de google com e-mails em atraso e o meu telemóvel está sem funcionar há quase dois dias (a menina Vodafone foi simpática, mas disse-me que não tinha ali à venda baterias para modelos nokia com mais de ano e meio, remetendo-me para o indiano do bairro. Au.) Espero poder voltar a comunicar com alguma normalidade até amanhã ao final do dia. Aqui a autista pede sinceras desculpas a quem está por levar resposta.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Barreiro, Avenida do Bocage

Um dia tirei do quarto daquele primo dois pequenos blocos de notas. Estavam guardados debaixo da cama, numa caixa com à vontade uma dúzia. Já não lembro por que haveria ele de não estar, e não percebo o que fariam ali aquelas folhas perfumadas, tão de menina, num sítio assim meio escondido. Encontrei-as depois de brincarmos ao quarto escuro. Não sei como escondi o par de caderninhos. Seriam prenda para a irmã, quase de certeza. As nossas visitas não eram muito habituais, e tirando o tio, amigo a sério, nenhum dos outros nos recebia com prazer. Éramos os que não eram ricos na família, e para aqueles, felizmente só para aqueles, isso parecia importar. Acho que não dormi. A culpa começou logo a lavrar. Sabia que era roubo, ainda por cima a quem não nos queria. Escondi os blocos na segunda gaveta por um tempo, depois não consegui aguentar. Levei-os para a escola e dei-os a duas das minhas três amigas. À outra, para que não achasse que gostava menos dela, dei um em forma e cheiro de morango, acabado de receber da minha mãe. Tinha seis anos.
De então a agora tem sido o mesmo - por mau feito, continua a não haver alívio no prejuízo.