Quarta-feira, Dezembro 30, 2009

Den Haag, Korte Vijverberg

[Gerard ter Borch II, De briefschrijfster, c. 1655]

No último andar da casa do Conde de Nassau, mesmo à direita daquela rapariga do brinco de pérola, está uma outra bem mais discreta, pequena, mal iluminada. Pintou-a Borch, num enquadramento mínimo. Dir-se-ia que essa mulher debruçada sobre a escrivaninha não sabe ou não quer saber que é observada. Por que escreve ela? O que reescreve, naquela folha dobrada em quatro?

Sábado, Dezembro 26, 2009

Anos Carrosséis


Este foi um.

Quarta-feira, Dezembro 16, 2009

Comboio, Campolide

Ainda não deram as dez da noite. Nem sequer há lua cheia e mesmo assim é isto. Penso se a quadra não lhes quadra. Ali zanza o doido atarracado, o que acende cigarros na carruagem e vem às portas dela intimar o segurança. Daquele lado senta-se a cinquentona xanáctica, de telefone sempre em riste, sacos de compras aos pés e chamadas imaginárias todo o caminho. No meu, à coxia, vai o velho crioulo, o que insiste em disfarçar a tosga com um delicado assobio. Segue também o construtor que destrata alguém incrivelmente alto, noutra língua. E vou eu - jogando ao faz-que-lê-mas-ouve-e-vê.

Wee Hours

Tenho gravado a reposição daquela adaptação que a BBC fez nos early seventies da Guerra e Paz. No meio de muita fancaria hd, ali há uma boa contextualização do período, bons actores, realização, montagem. E aquela voz off, existencialista que nem sei.

Terça-feira, Dezembro 15, 2009

Num Lá Maior

Em memória da Elizabete Dias.


Quando escreveu esta bagatella, Beethoven lutava já há algum tempo contra uma doença que não procurara, e que o afectaria irreversivelmente. Isso não o impediu de teimar na composição por mais de uma dúzia de anos, sobrevivendo ao cerco napoleónico, à crise económica e financeira, à perda de favor patronal, a terríveis disputas por (e com) Karl, o sobrinho. Esta sua peça, muito breve e simples, está aqui porque não sei de que outro modo posso celebrar alguém que partiu com o respeito e pudor que lhe é devido, e que me foi tangente neste mundo em teia. Que emanava dignidade e alegria, e por isso estará não num Lá menor, como na peça, mas num Lá maior.

Sexta-feira, Dezembro 11, 2009

Σοφíα

Tento imaginar João César Monteiro, homem que a documentou contando histórias aos filhos, um tanto enrascado. É difícil. Como seria, estar em presença de uma mulher que quase nunca era tratada por tu?

Quinta-feira, Dezembro 10, 2009

Devidamente Malandrinho

Terça-feira, Dezembro 08, 2009

Baruc 5, 1-9

Uma das senhoras com as quais me costumo cruzar ao final do dia fez a leitura inicial. Acho que foi a primeira vez. Deslizou as mãos pelos signos, um tanto à pressa. Talvez sentisse os olhares curiosos. Nem por isso deixou menos claras as palavras ditas antes de Paulo, então preso, antes de Lucas, sobre João Baptista. Falavam de nós agora, aqui no futuro.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

IC-19, Km 1

Por aqui o sturm und drang segue ao ritmo habitual - em lata e sangue, isso mesmo. Todos os dias esta gente conduz da mesma maneira que se conduz. É que não aprendem, c#r#lho. Para abafar as sirenes nem uma integral chegava. Ainda assim o aniversariante ajudou. Muito. Lá cheguei inteira a casa, ao som d'"O Cavaleiro" pelo Contrapunctus (em directo na Antena 2, a partir da Casa da Música, grande paio o meu). De agradecida, deixo-vos um naco de um movimento da Hob. I, 105 (a Sinfonia Concertante, pelos solistas da Orchestre de Paris à paisana) intensa e armilar como nenhuma outra.

Sexta-feira, Dezembro 04, 2009

Sintra, Rua José Bento Costa

Da varanda víamos o campo, um pelado poeirento ou enlameado, conforme o tempo, e as outras ruas com os outros miúdos nos outros prédios. A avó ainda estava doente. Espreitávamo-la à porta e ela sorria, branca de papel. Comíamos torradas de mafra na chapa, espalhávamos cebolas e maçãs pelos gavetões dos lençóis, jogávamos ao dominó, ao ludo, às copas na alcatifa. A nossa grande preocupação eram aqueles cinco minutos. Só mais cinco minutos. Nunca achávamos que ficava tudo mesmo bem brincado.

Quinta-feira, Dezembro 03, 2009

Mistério da Educação

Não sei se é coisa de classe, geração ou geografia, mas a minha relação com os pronomes de tratamento permanece contenciosa. O exemplo mais vezeiro é o ‘você’. Quando me chamam assim e já me conhecem, é como se me fechassem a porta e deixassem apenas um postigo aberto, por seca civilidade.

Quarta-feira, Dezembro 02, 2009

Ministério das Finaças

O nexo entre o muito que algumas mulheres investem na aparência e os resultados pelas mesmas auferidos é descoroçoante. Não falo de mínimos – banho, esfoliante, hidratante, fio dental, amaciador, corrector, etc – sobre os quais estaremos de acordo. Falo do verdadeiro (en)cargo que são saltos altos, penteado impactante e full make-up todos os dias; depilação, máscara capilar e mani-pedi profissionais todas as semanas; coloração e spa todos os meses. Como congénere, tenho certa admiração por quem se esforça tanto. O problema é que a distância entre a sofisticação e a elegância permanece a mesma.

Apontamentos Europa-América #1

James escreveu o que houve a escrever sobre a doença do solipsismo - por cada John Marcher que se aguenta, há uma May Bartram que escorrega ou cai.

Entre outras coisas, nestes dias aprendi uma expressão nova

- Desimagina-te disso, menina.