«Por um singular mecanismo interior, cujo segredo a psicanálise poderá talvez desvendar, a sociedade teima em ensinar às criancinhas exactamente o contrário daquilo que pratica, sem reparar que pode haver uma ou outra que pode levar isso tudo a sério. O pior acontece um dia quando qualquer paizinho pacato, estabelecido ou não, resolve ter com o ‘maluco' do seu filho a tal conversa de homem para homem de que andava a fugir e que lhe sai normalmente nestes termos: "Tu és um idealista e a vida não é nada disso. Não é com essas coisas em que perdes o teu tempo que vais ganhar a vida e preparar o teu futuro. Deixa-te de politiquices e literaturas, porque não é com isso que resolves os problemas que te esperam no escritório. Precisas é de tirar o teu curso, tornares-te um homem e ganhares dinheiro para poderes casar e tratar da vida."
Este tipo de conversa é extremamente grave porque podemos estar a matar em alguém a fonte duma grande vida. Hoje estou certo que, se vivemos sem assumir na sua essência a nossa condição humana,
- sem participar, sem amar, sem conhecer, sem criar, sem alegria ou sem dor – se dá, na economia duma história de homem, aquilo a que se chama ‘tempo morto’, 'tempo de homem morto'.»
António Alçada Baptista, Peregrinação Interior (...), Vol.1, Cap.8, 1971.