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sábado, 3 de janeiro de 2009

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (15)

Um dos mais pequenos fungava baixo, à beira do lume, e o tio do meio deu por isso. Antes de tornar com os outros à eira quis saber porque estava ele tão aguado. A resposta deu azo a uma daquelas piadas repetidas por gerações. Até chegar àquela que nunca teve o muito pouco por facto da vida. Que houvera, que entretanto perdera a graça? Um miúdo a chorar num dia de malha, por não conseguir dar conta do prato de rancho melhorado.

3 comentários:

Anónimo disse...

Junto forças para perguntar: o que é um «dia de malha»?

Ana Cláudia Vicente disse...

Anónimo,
digo malha como quem diz a debulha de cereais. Acho que assim seria conhecida na maior parte do país (não só aquele de onde eu e os meus vimos).
Os dias de malha eram - ainda serão, em algum lugar do globo - na vida de qualquer aldeia pré ( proto ou peri) industrial, dos de maior sacrifício físico. Existiam poucas eiras, por vezes uma por aldeia, outras nem isso (ia-se ao povoado contíguo). Combinavam-se as horas para a vez de cada família, chamavam-se vizinhos e pagava-se uma ou duas jornas a rapazes de outras paragens para ajudarem. Traziam-se os medas (feixes de cereal) da terra de cada um, desatavam-se, alinhavam-se contra a pedra (ou a terra batida, ou o mais moderno cimento), e batiam-se em cadência regular, ao som de uma melopeia qualquer, até a palha se separar do grão. As crianças reordenavam o que ficava por desprender, os rapazes e homens descansavam um pouco, as mulheres varriam a palha solta. As mais velhas ou as mocitas faziam as duas principais refeições do dia para mais gente que o costume. Para além do Natal, de Todos-os-Santos, do Entrudo e da Páscoa, a malha estival era uma das raras oportunidades em que o alimento não escasseava, para celebrar e compensar a violência de um considerável esforço colectivo.

Anónimo disse...

Ali o anónimo agradece reconhecido.