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sábado, 16 de dezembro de 2006

Depois de Uma Madrugada De Inalações

de vapor de água, e de, não querendo deixar a fama de trangalhadanças em mãos alheias, queimar o meu papudo queixo com um salpico, optei deixar de me assoar e tossir, e passar a assoar-me, tossir e rir ao mesmo tempo, com a inestimável ajuda da minha prosa diarística pré-adolescente. Este excerto é dedicado aos que neste momento padecem de uma enorme quantidade de ranho dentro de si. Riam-se: não alivia nada, mas ajuda a passar o tempo.


"5 Dez 89 Terça Muro de Berlim caiu

Querido Diário, hoje recebi o teste de Inglês, tive 'Elevado' o melhor da turma [oh, a modéstia a guarnecer a falta de pontuação]. Recebi esta carta* em baixo [e três setinhas indicam um bocado de papel agrafado à página; e a pontuação, que é dela?] não sei de quem. Hoje 'vi-o' [quem? e este persistente problema de pontuação?]. Acabou uma telenovela chamada 'Sassaricando' [aposto que chorei com isto, e com o Muro não]. Tenho de estudar, para o ponto de Português [pois bem precisava, Nossa Senhora das Vírgulas!] por hoje é tudo, adeus até amanhã [estaria a treinar para pivot?].

[assinatura arrebicada]


*Bilhetinho anónimo dactilografado, deixado no meu lugar da sala por algum colega (?), suponho que com intenções românticas, ou esquisitas, ou gozonas, ao qual acrescentei de forma manuscrita e preocupada sete '?' e dois 'hã?' :

"PARA ANA CLAUDIA

Amo-te como se ama Deus

Como a mãe ama seu filho
Como o irmão a irmã
Eis deste amor o seu brilho"


E rima.

10 comentários:

ana disse...

:) e as melhoras

Ana Cláudia Vicente disse...

Aninha, obrigada :) Ah, e não faço ideia por que terei escrito "Muro de Berlim caiu", tendo em conta que ele tinha sido deitado abaixo em 9 de Novembro anterior. Enfim, mistérios de uma cabeça com uma dúzia de anos.

Anónimo disse...

Deve ter sido um anónimo daqueles que vivem nas caixas de comentários do Corta-Fitas.

Salustio disse...

Há muito que não via a palavra "trangalhadanças" usada com tanta mestria e saber.

Cumprimentos daqui até ao Monte Abraão.

upalalá disse...

eu invejo o teu diário (nunca consegui escrever um) e o teu bilhete recebido!

Anónimo disse...

Suminhos de laranja diários, e não precisarias de bisbilhotar essas prosas alheias (sim, porque a nossa infância e adolescência pertencem a pessoas autónomas de nós).
As melhoras!
Emanuel

Capa Rota disse...

Nunca ninguém me escreveu uma coisa tão linda!

Anónimo disse...

Adenda: a prosa alheia era o teu diário mesmo, não o bilhete :)
Emanuel

João Villalobos disse...

Ah, ah, ah! E a idadezinha, qual era?

Ana Cláudia Vicente disse...

Anónimo,

Interpretação A)no tempo dos diários de papel (com cadeado) não havia comentadores nem hackers que lhes chegassem, a culpa/graça/canhestrez do que lá está é toda nossa.

Interpretação b) Nunca comentei anonimamente no Corta-Fitas. Nunca comentei anonimamente em lado nenhum. Manias.

Salustio,
há palavras que merecem sacudidela de pó, e esta é uma, concordo. Cumprimentos, também.

Leandro,
os meus diários foram de pouca dura, só uns quatro anos. Boas fotos.

Emanuel,
tenho-me atuchado de kiwis, a ver se a coisa se vai depressa. Quanto à prosa de antes, surpreende-me (pela positiva e negativa), mas não a entendo completamente alheia, não a sinto longe.

Capinha,
não acredito que não te tenham escrito quadras assim, idólatras e edipianas a preço de uma rima, és uma mentirosona.

João,
12 anos e (quase) 3 meses de muita TV Globo, Enid Blyton, Paramount e Marvel Comics.