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sábado, 2 de abril de 2005

Wojtyla, Ou A Sucessão De Pedro Na Cidade Dos Homens

Peço a paciência da minha dúzia de leitores, que isto vai ser longo. Este assunto é complexo e ultrapassa-me muito, pelo que vou tentar ser clara sem ser simplista. Citarei algumas das frases do bicho-da-seda para explicitar os pontos de discordância e concordância com o referido post.

Karol Woytila representou um enorme retrocesso na Igreja Católica.(…) Karol Woytila e os seus acólitos do fundo da alma empenharam-se em erradicar da Igreja Católica Apostólica Romana o que restava da esperança aberta pelo Concílo Vaticano II, nos remotos idos do começo dos anos sessenta do século passado.

Não me parece. A 22 de Outubro de 1978, Karol Joséf Wojtyla foi entronizado como João Paulo II, 264º sucessor de Pedro e, daí em diante, primeiro-pastor do católicos. Eleito dias antes pelos seus pares do colégio cardinalício, ao cabo de oito escrutínios, o arcebispo de Cracóvia não tinha o perfil de um expectável Bennelli, primaz de Florença, nem de um Siri, primaz de Génova, que é o mesmo que dizer que era não era visto nem como progressista, nem como integrista. Herdou a liderança de uma realidade tríplice, que existia antes dele e depois dele continuará a existir. A Igreja Católica contemporânea comporta, sobretudo no seio da sua hierarquia sacerdotal, enormes tensões: o meio geográfico, étnico, histórico e económico do qual vêm os seus membros é, sobretudo desde o início da segunda metade do séc. XX, grande como o mundo; estas pessoas foram doutrinadas de várias maneiras, politizadas de várias maneiras, aculturadas de várias maneiras. Penso que para compreender este pontificado é útil relembrar a diferença entre Igreja, Santa Sé e Estado do Vaticano. Este último é o instrumento político usado para manter a soberania da segunda, que é a instância superior da comunidade mundial de crentes, a primeira. As três são o que são na cidade dos homens, não na cidade de deus. O catolicismo é múltiplo, o que não facilita a luta de todos os dias por guardar o depósito da fé em Cristo, missão principal confiada pelo Papa João XXIII ao Concílio Vaticano II. É bom não esquecer que Wojtyla, então bispo, esteve entre outros dois mil no dia 11 de Outubro de 1962; participou nos trabalhos dos anos seguintes e teve influência directa na discussão de dois dos seus temas, a liberdade religiosa e o papel eclesiástico dos leigos. Já Papa, foi responsável por encíclicas como O Trabalho Humano (‘79) ou A Solicitude Social da Igreja (‘87), O Esplendor da Verdade (‘93), que propõem que se leve mais longe a doutrina social da Igreja na defesa do trabalhador, que refreiam a tendência partidarização dos católicos em torno da democracia-cristã, que reflectem sobre a forma de comunicar e viver as verdades da fé num contexto de extrema liberdade. Apoiou movimentos espirituais encabeçados por leigos e sacerdotes, promoveu o Encontro Mundial da Juventude. É isto obra de um reaccionário?

O ecumenismo evangélico presente na doutrina, discurso, prática oficiais é mera fachada para soberba e pesporrência inconsequente de converso ignaro.

Qualquer católico que tenha um contacto, ainda que superficial com a dinâmica de Taizé, ou que, como eu, já tenha dado por si numa oração ecuménica organizada numa qualquer pequena cidade (no meu caso foi em Newcastle, com baptistas, católicos, anglicanos e luteranos), sabe que o ecumenismo é, sobretudo na Europa, uma realidade praticada muito a sério, por via da oração e por força de todos os que nela se envolvem. Acontece porque os crentes o desejam e porque, no caso dos católicos, O Apelo à Unidade dos Cristãos (‘95) não foi um texto inconsequente. Estamos muito longe de uma mítica reunificação, mas o chão nunca esteve tão maduro.

Uma das imagens sacramentais que conservo do consulado do Papa polaco é a sua vigorosa admoestação, que obviamente fez questão que fosse pública, que ficasse registada e documentada, de Leonardo Boff, a principal figura da Teologia da Libertação. Após esse episódio, nunca mais aquele padre pôde continuar o seu trabalho verdadeiramente cristão de não ignorar os assuntos da Cidade(…).

Não conheço a fundo a Teologia da Libertação, mas é impossível não reconhecer a sua carga ideológica e politológica, mais que eclesiológica. Como também desconheço as consequências reais da censura que foi feita ao dominicano [corrijo, franciscano] Boff, não me alongo aqui e vou procurar saber mais sobre esta questão.

Isto enquanto, a contraponto demasiado flagrante para poder ser imperfeição relevada, na Santa Sé, prosseguia business cardinalício as usual, bancos ambrosianos, bênçãos aos mais hediondos ditadores e tanto, tanto mais (…).

Aqui tenho uma sensibilidade semelhante, e voltemos à questão do catolicismo tríplice. Enquanto instrumento político da Santa Sé, o Estado do Vaticano é, a meus olhos, uma dimensão (instituição?) difícil de compreender e até de aceitar como tal: representa para mim a “romanicidade”, a Igreja-Poder, que não sei até que ponto é necessária e até que ponto impede mudanças pastorais e eclesiásticas relevantes. Eu creio que a eleição de Wojtyla foi a expressão real de uma alteração – que, veremos, poderá ou não ser reversível – na “romanicidade” vincada inerente ao papel Sumo Pontífice. Pessoalmente (ingenuamente?), desejo um outro tipo de “braço político-diplomático”: não são públicos os balanços do Istituto per Opere de Religione (o Banco do Vaticano), mas pensa-se que é um dos poucos estados com superavit (vide sobre o assunto os estudos do fiscalista jesuíta americano Thomas Reese), ainda que com pouca liquidez; O Vaticano é um dos maiores investidores em Itália e 1/3 das suas receitas provém de investimentos bolsistas. Poderá, desde a fiscalização da sua contabilidade pela Price WaterHouse suíça, em 1994, ter-se tornado mais impermeável a lavagens de dinheiro, mas não ser tornou mais transparente. Não se pagam impostos no Vaticano, e os religiosos que estão na Santa Sé, c. 2300, ganham de €12 000 a €30 000/ano. Dá que pensar. Quanto aos encontros com ditadores [Marcos(‘81), Ortega(‘83),Pinochet(‘87), Castro(‘98)], poderei estar a ser apologética, mas atribuo-os à realpolitik: como visitar comunidades oprimidas sem visitar o seu Chefe de Estado? Mas não tenho certezas neste capítulo.

Não, não diabolizo Karol Woytila. É polaco. A tragédia da Polónia (…) conferiu ao catolicismo, a um catolicismo radical, inflexível e implacável, um lugar central na identidade polaca. Radicando nessa sobreposição, só por ingenuidade se poderia esperar que Karl Woytila, no desempenho papal, fosse capaz de romper com a dogmática católica mais retrógrada.

Um polaco não-comunista nunca se lembraria de dizer tal coisa. Ainda bispo, e mais tarde Cardeal, foi muitíssimo criticado no seu país por ser pragmático e estar interessado em dialogar com os seus opositores; sempre foi visto como um pró-conciliar e por alguma razão tem o rancor de tantos integristas. Contudo, há matérias em que sempre foi irredutível, sobretudo as relacionadas com a Vida. Já antes de ser Papa colaborou na redacção da encíclica Humanae Vitae (‘68) que manteve a recusa da esmagadora maioria dos métodos contraceptivos existentes. Não compreendo a validade das bases teológicas e pastorais desta posição, e espero por uma rápida alteração a este respeito, como acerca da impossibilidade de ordenação feminina ou celibato obrigatório dos sacerdotes. Mas nada disto erradica a sua devoção real à oração, a procura da fidelidade aos Evangelhos, o apoio às missões, a luta pela paz, pela dignidade humana, pelo respeito entre diferentes credos. Foi o grande líder religioso do seu tempo. Ninguém resolve os males do mundo de uma vez. É bom esperar muito do Papa; é mau esperar tudo do Papa. Porque a Igreja não é só (talvez nem sequer sobretudo) o seu líder, é a massa espiritual e intelectual, o ethos e a praxis dos seus membros.

Acabo por onde começaste aquele teu post, bicho-da-sedadesejando ao sucessor de Pedro pacífico descanso.

Datas, números e conceitos aqui apresentados podem ser encontrados em obras acessíveis e com boa divulgação, e aqui ficam três simples exemplos :

A.A.V.V. – História Religiosa de Portugal. Vol. III. Coord. António Matos Ferreira e Manuel Clemente. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.

Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1993.
MANDT, Jorg; MOSER, Ulrike; SHINDE, Sonia – João Paulo II. Crónica em Imagens. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004.

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