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terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Português Partido XII

Ser desta idade é saber os lugares quase só dos banhos, quase só do Verão. Atrás da barqueira vejo a margem precisa desse escapar ao sequíssimo calor da serrania, e demoro-me nela. Mas a mole lembrança do entrar na água é quebrada pela voz da mulher que conta e se conta, da mulher que fez do tempo em que partiu e arriscou lema para quem o quiser, da mulher que transporta agora esta incrível palavra:

- Se a gente quer viver, se a gente quer mais do que o que tem, tem de se

afuturar, v. refl. (do Lat. futuru) 1. lançar-se ao futuro. 2. aventurar-se. 3. fazer acontecer.

5 comentários:

carneiro disse...

também reparei no "antes do alago".

JPG disse...

Não encontrei o verbo nem no Houaïss nem no PE e, é claro, isso não tem nada a ver com o ano de edição (respectivamente, 2004 e 1998).
Extraordinária personagem, a barqueira. Declinou mesmo o dito verbo num espantoso aforismo: "Quem nunca se afuturou, nem perdeu, nem ganhou".
E ainda aquela expressão quase cénica, recordando a decepção que foi a sua primeira visita à capital, as mãos tapando o rosto e o sorriso comprometido: "ó homem, deixa-me lá voltar a cavar batatas e a roçar mato!"
A ver se caço o vídeo, o documento, para o publicar na net.

Ana Cláudia Vicente disse...

Carneiro, a língua que é quase dialecto talvez explique as legendas, que de qualquer maneira me parecem tão estranhas; já não sei onde pus um post sobre isso, sobre a língua falada ali me ser cerrada em pequena. Mas sinto uma alegria parva por ouvir palavras inventadas que casam com quem as diz.

JPG, extraordinária; como muitas mulheres dali, endurecida, mas não amarga. Ambas as minhas avós assim eram. Talvez por isso me comova a senhora barqueira.

Bruno Duarte Eiras disse...

Cláudia,
Ao ver esta reportagem também me lembrei da minha avó! E que bem que soou aquele afuturar.
Para quem quiser aqui fica o endereço do vídeo - http://videos.sapo.pt/y9BkqIWcEgPcKY94QggI

Ana Cláudia Vicente disse...

Caríssimo,
muito obrigada!