a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

segunda-feira, 8 de agosto de 2005

A Divina Previdência

[Este post parte de um comentário por mim deixado na caixa do Miniscente, em conversa com Luís Carmelo e José Pimentel Teixeira. Aqui fica sua transcrição, e mais qualquer coisa.]
Há dois anos, com todo um concelho em chamas (acabou por arder mais de 85% do seu território), sem água na torneira ou número de bombeiros suficiente, o Estado não teve como acudir à segunda habitação da minha família, acabadinha de fazer bem no centro do país. Os velhos da aldeia foram evacuados, o gado morreu ou cegou, os palheiros e algumas outras casas arderam. Tudo isto apareceu nos noticiários, com banda sonora e tudo. Defenderam a dita casa os seus proprietários, que tiveram sucesso por três simples razões: porque conseguiram sair suficientemente rápido de Lisboa para a poder defender; porque tiveram acesso a água que não a da rede pública; porque o terreno em torno estava convenientemente limpo de mato e de arvoredo. Ao contrário das duas primeiras, a última razão não foi fruto do acaso ou da Providência, antes da previdência. Muita gente chorou, reclamou. Muita dessa gente, passados dois anos, não se dignou ainda mandar cortar os pinheiros e eucaliptos queimados, que enquanto aqui escrevo caem de podres sobre estradas, carros, cabos telefónicos e muros de outras propriedades, continuando a fazer estragos e despesas; muita dessa gente não se dignou também mandar cortar silvas, capim e tudo o que nasce da fértil cinza, ao menos à beira do seu local de habitação ou férias. Mas a malta continua a afligir-se com os noticiários, com banda sonora e tudo.
Há cerca de vinte anos, o mesmo concelho esteve em chamas, com pouca água na torneira e sem número de bombeiros suficiente. O incêndio começou num primeiro dia de férias em casa dos meus avós; nós, pequenos, fomos evacuados a pé para o centro paroquial, a dois quilómetros dali. Os adultos saíram para fazer aceiros e transportar os mais velhos nos poucos carros disponíveis. Nessa mesma noite, vi pela primeira vez toda a vertente de um eucaliptal a arder; o barulho não se esquece, nem o medo indisfarçado na cara dos adultos. Tudo isto apareceu no Telejornal. Muita gente chorou, reclamou.

Adenda [09-08-2005; 20:30h]: No Substrato, pela mesma hora, publicava-se este post. Especial atenção para o último comentário, que linka "A Indústria dos Incêndios" publicado uns dias antes na Sic Online, por José Gomes Ferrreira.

2 comentários:

Cor_e_Forma disse...

Às vezes, muitas, a Divina Providência não é bom sapador.

Já agora, a este propósito, também não resisti a escrever qualquer coisa no meu espaço:
http://coreforma.blogspot.com/

Costumo usá-lo como registo de impressões de viagem e forma de partilhar sensações e fotografias. Abri, com esta escrita de opinião, uma excepção.

Ana Cláudia Vicente disse...

Daí, o título.