Podemos trocar o verbo morrer por outros menos exactos e duros, como partir, desaparecer. Sinto-me todas as vezes tentada a fazê-lo. Depois, cabeça e coração a latejar a compasso, digo a palavra certa com uma surpresa sem sentido.
terça-feira, 25 de fevereiro de 2014
O Ver Morrer
Esse tempo desmedido, quanto baste para cansar tanto o estar sentado quanto o caminhar, para arrefecer as mãos e os pés junto à porta de entrada, para telefonar ou ver fumar, é do tamanho do que não podemos fazer por quem nos está a deixar. Ver alguém querido no fim da vida, em sofrimento, é de emudecer.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
Wee Hours
Sempre gostei muito da expressão burocrática 'em tempo' mais justa do que um lacónico p.s.. Ainda a uso nas actas e cartas.
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
De que serve ler
Camilo em conversa com o seu grande amigo Ouguela tem sido ainda mais difícil do que esperava. É um carteado de coração na boca, muitos desabafos sobre maleitas próprias, o enlouquecer do filho, a morte súbita do enteado, os gostos e desgostos com 'tudo isso' lá de Lisboa, a neta pequena. Por isto fica a pessoa transida, quando por entre a escrita da tristeza cintila algo assim:
[Seide, finais de 1877]
(...) Este mau tempo, em aldeia, é pior que o inferno cristão, onde há o ranger de dentes, ainda mesmo para os que morreram desdentados. Imagina-me ou na cama ou no escritório, e as ramarias a rugirem como vagalhões de folhas e as vidraças a arquejarem, e eu a ver quando elas me fazem estilhaços na cara. Eu, se conhecesse um poeta bucólico, batia-lhe. Nesta casa só se divertem os patos que estão sempre em semicúpio nos tanques. Tenho um peru pequeno que treme de frio como um sabiá das trovas cariocas do Gonçalves Dias. Meto-o na cama comigo, e a Ana Plácido dá-lhe sopas de vinho para o aquecer.
(...) Depois, volto-me para os horizontes pardos onde as nuvens se retravam e despedaçam como grandes mastodontes, e pergunto aos céus de que serve ler.
(...)
(...) Este mau tempo, em aldeia, é pior que o inferno cristão, onde há o ranger de dentes, ainda mesmo para os que morreram desdentados. Imagina-me ou na cama ou no escritório, e as ramarias a rugirem como vagalhões de folhas e as vidraças a arquejarem, e eu a ver quando elas me fazem estilhaços na cara. Eu, se conhecesse um poeta bucólico, batia-lhe. Nesta casa só se divertem os patos que estão sempre em semicúpio nos tanques. Tenho um peru pequeno que treme de frio como um sabiá das trovas cariocas do Gonçalves Dias. Meto-o na cama comigo, e a Ana Plácido dá-lhe sopas de vinho para o aquecer.
(...) Depois, volto-me para os horizontes pardos onde as nuvens se retravam e despedaçam como grandes mastodontes, e pergunto aos céus de que serve ler.
(...)
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
Lisboa, Rua do Arco da Graça
Calhou ser atropelada no último dia de aulas, início dos anos noventa. O pai e o irmão trouxeram da arrecadação a cama articulada em que a mãe da mãe viveu nos últimos dias de um Verão não muito anterior.
Leu. Enjoou às olimpíadas nos dois canais de televisão. Foi à fisioterapia.
O medo do lugar do pendura pesou durante muito tempo, tanto quanto o do condutor. Tirou a carta tarde. Apeada, atravessava as ruas só ao fim de um bocado, quase sempre a correr.
Trabalha longe, hoje. Em quelha estreita ou auto-estrada ainda acusa a vertigem da velocidade.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Continuando
, chamo a atenção de quem desistiu da rtp2 para a aparição semanal da versão do Stoppard de Parade's End. Não serei o que recentemente se convencionou chamar uma cumberb#tch, mas aprecio um trabalho bem feito.
terça-feira, 31 de dezembro de 2013
Mons, Rampe Sainte-Waudru
Da torre sineira à colegiada o caminho é curto, um pouco íngreme. Penso no que quero para mim, sem costume. É boa hora.
Richebourg, Rue du Grand Chemin
[Dezembro, '13]
Passando o portal, o canteiro de lápides difíceis de ler tem por ponto de fuga esta haste. A dignidade do lugar é mantida pelos que foram ver de vida em França, o que diz muito de nós.
Custa que a cor erodida seja a dos que compareceram à chamada. Resta-nos estar à altura do verde que há.
quarta-feira, 25 de dezembro de 2013
Aachen, Annastraße
Antes de ser catedral, esta era a capela palatina do homem a quem chamaram pai da Europa. Imagino-o quase como o dizem as crónicas: alto, sólido, atento, obstinado. Duro. Ali está, na abside de um dos mais belos polígonos que já vi, um desconcertante encontro entre levante e poente. Por que terá rezado ele, aqui? Por quem?
Lá fora fecham um mercado sazonal à moda teutónica - brinquedos em madeira, vinho quente, bolinhas de porcelana, couve-flor frita. Cirando, peço pelos meus, por quem passa, por nós, por todos.
Lá fora fecham um mercado sazonal à moda teutónica - brinquedos em madeira, vinho quente, bolinhas de porcelana, couve-flor frita. Cirando, peço pelos meus, por quem passa, por nós, por todos.
Feliz Natal.
segunda-feira, 23 de dezembro de 2013
Wee Hours
"And now the sun has broken through, it looks like it will stay
Just can't have you comin' home on such a rainy day
The train is leaving Ellensville, unless my watch is fast
The kids are comin' home from school, must be quarter past
So many changes since you've been away, and there's so many things to say
This time around you'll want to stay, 'cuz I've had so many nights to find the way
Even bought that summer cottage yesterday, pretty soon I'll be close to you
And it will be so good, we'll talk about the part of you I never understood,
And I will take good care of you, and never let you cry
We will look so much in love to people passing by
So many changes since you've been away, and there's so many things to say
I wrote so many times and more, but the letters still are lying in my drawer
'Cuz the morning mail had left some time before
All the passengers for Allentown wait closer to the track
It's hard for me to realize you're really coming back
The crossing gate is coming down I think I see the train
The sun has gone and now my face is wet with heavy rain
The passengers for Allentown are gone, the train is slowly moving on
But I can't see you any place, and I know for sure I'd recognize your face
And I know for sure I'd recognize your face."
Just can't have you comin' home on such a rainy day
The train is leaving Ellensville, unless my watch is fast
The kids are comin' home from school, must be quarter past
So many changes since you've been away, and there's so many things to say
This time around you'll want to stay, 'cuz I've had so many nights to find the way
Even bought that summer cottage yesterday, pretty soon I'll be close to you
And it will be so good, we'll talk about the part of you I never understood,
And I will take good care of you, and never let you cry
We will look so much in love to people passing by
So many changes since you've been away, and there's so many things to say
I wrote so many times and more, but the letters still are lying in my drawer
'Cuz the morning mail had left some time before
All the passengers for Allentown wait closer to the track
It's hard for me to realize you're really coming back
The crossing gate is coming down I think I see the train
The sun has gone and now my face is wet with heavy rain
The passengers for Allentown are gone, the train is slowly moving on
But I can't see you any place, and I know for sure I'd recognize your face
And I know for sure I'd recognize your face."
Robert Gaudio / Jake Holmes ( 'The Train', gravada em 1970 para 'Watertown', por F. Sinatra)
Montemor-o-Novo, Rua dos Almocreves
Não encontrei piquete à entrada, só desapontamento e sarcasmo. Deixei-me avaliar durante as avaliações dos miúdos, as actas, os ensaios e as planificações por saber que desperdiçar oportunidades de trabalho futuras não é luxo ao meu alcance. Não tendo nada contra avaliações, tenho muito contra políticas às três pancadas, pagamentos à cabeça, matrizes sem cotação, componentes comuns que exibem dois terços de cálculo contra um terço de língua. A má fé e a miséria executiva desaguaram nisto, na minha sala: uma descompensada a chamar filha da p#ta a uma das vigilantes ainda antes de tomar o lugar, telemóveis a tocar, gente que continuou a conversar depois do toque. Depois desse dia amo tanto o meu país quanto até então. Mas com um amor mais cansado.
quarta-feira, 4 de dezembro de 2013
segunda-feira, 2 de dezembro de 2013
Ouvidoria
No fim de semana, durante os concertos da escola, fui tomada por um nervoso miudinho muito parecido com o dos saraus, agora em segunda mão. As saudações de princípio e fim de acto, na sua coragem e desamparo, dizem volumes sobre cada músico.
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Wee Hours
"Todas as mensagens". Sempre que regresso ao Blogger isto é o que o écran me devolve: "Todas as mensagens". As que leio, as que só entendo depois de escrever, as que emendo, as que guardo.
terça-feira, 26 de novembro de 2013
Prova de Bala
Richard Castle é uma das minhas mais recentes pessoas ficcionais preferidas. Há qualquer coisa suavemente deslocada na sua situação, no seu penteado, nas suas piadas. Muito cativa quem não é de modas.
terça-feira, 19 de novembro de 2013
Andaimes
E agora sem rodinhas, sem aparelhos, sem andaimes. Anos físico-químicos tombados em arquivo. Campo aberto, e quase tudo por andar.
Punxsutawney, Barclay Square
[Dir. Harold Ramis, 1993]
Só há poucos dias vi o Groundhog Day. Quero dizer, ver já o tinha visto, mas não tinha entendido grande coisa. Aconteceu-me recentemente o mesmo com o Rocky. O que ainda não alcancei é se é com o passar do tempo que as coisas ganham um sentido, se é por causas delas que o conseguimos apurar.
segunda-feira, 4 de novembro de 2013
Queluz, Rua Alfredo Keil
Ontem ao final da tarde andei a pé por Queluz. Há algum tempo que não o fazia. Se calhar, muito. Não tenho real noção. Por mais que tivesse dado pelas mudanças, admito que não as tinha guardado. Cruzei os Quatro Caminhos da Avenida da República à António Enes sem os entender: a falta que o renque de plátanos - que ia dali ao topo da Miguel Bombarda - faz. Lixo aos cantos; o casarão do colégio Almeida Garret devoluto, guarnecido de matagal; um marasmo estranho na praça da estação. Iluminação fraca. Seguranças, vários.
Passear por um lugar tão querido, familiar, tão destratado, aperta o coração.
Passear por um lugar tão querido, familiar, tão destratado, aperta o coração.
Wee Hours
Um dos verbos mais intrigantes do nosso léxico é conjurar: como pode a palavra que nos diz uma coisa e o seu contrário esclarecer?
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