a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

domingo, 30 de outubro de 2011

Ao de baixo

Anteontem fiquei quase uma hora na bicha (bichabichabicha, não sei dizer fila) e no breu dentro do túnel da João XXI. Sou muito paciente e pouco dada à claustrofobia, por isso não tenho a certeza da razão pela qual fiquei tão angustiada. Nem os gaiatos que no carro atrás do meu saltaram para o tejadilho em exótica pausa para fumo aliviaram a situação. Provavelmente foi de ali ao de baixo me ocorrer a dona Paula, viúva do senhor Matos relojoeiro, uma das nossas vizinhas mais antigas. Anos de contacto próximo, memórias africanas, fotos de netos e bisnetos, e também algumas tensões por conta de avisos recentes à família por causa do filho doente deixado ao cuidado da octogenária. A mesma família que não informou quem quer que fosse da morte desta, parece que há um mês. Naquele párarranca esta triste maneira de viver a vida e morte também me fez lembrar a Maya, há uns dias na televisão, pintada e estofada numa cadeira frente ao Daniel Oliveira, a resumir toda uma visão do culto dos mortos assim:  

- Não gosto de ir a funerais.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Raro não é o homem que consegue fazer a mulher rir

, raro é o que é inspirador da efusão do seu sentido de humor.   

Risco Sistémico

Não estou a achar graça, pás: primeiro o fim tácito dos R.E.M, depois o pause indeterminado dado a conhecer pelos Sonic Youth, agora a sombra da dúvida sobre os U2. Mau, mau. Vamos lá ver como é.  

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Comboio, Benfica/Santa Cruz-Damaia

O rapaz que acaba de se sentar no lugar do canto, aquele encostado às portas que ligam as composições e nos dá onde tombar o ombro e a cabeça, deve ser recém-chegado ao Técnico. Esteve em pé, de volta da Física, com um colega que saiu mesmo agora. Iam numa daquelas sabatinas rápidas e animadas que só quem fez toda a faculdade de transportes conhece. No exacto lugar onde este rapaz alto e aloirado está a começar a descansar, vinha até há minutos sentado um outro rapaz da mesma idade, magro, moreno, pedrado. Derramou uma verborreia de queixas sobre um conhecido seu, que nem sei se tentou empatizar: ele era o sistema informático da esquadra em baixo, a perda de tempo, as algemas muito apertadas, a impossibilidade de ir levantar o rendimento à conta daquele atraso.

sábado, 22 de outubro de 2011

Uma Estação Refractária

e polissémica, esta. Em não se sabendo se o siso também estiola, pede-se um mazagran, que Lisboa ainda cumpre certos preceitos com o aprumo de quem lava e passa a camisa puída, para que ninguém tenha a dizer. Mazagran, passei a saber, é não só nome de terra argelina e refresco de conversa lusa como copo alto de loiça francesa.   

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Comboio, Entrecampos/Amadora

Os que não seguem sob encanto do telemóvel contam-se pelos dedos das mãos. Há quem circule sempre ou quase concentrado na edição de bolso do seu livro sagrado, quem leia os vários diários gratuitos ou o romance da lista por trinta minutos de cada vez, quem precise de falar com alguém aquele bocadinho, pelo menos aquele bocadinho. E quem não peça nada à viagem senão o tempo de olhar em redor, de estar, de se aperceber.   

Wee Hours

Entre o que não entendo e me perturba fundo está o linchar de quem quer que seja, sobretudo quando guarnecido de louvores a Deus.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Ginástica Cueca


Acho que uma das formas possíveis de explicar os próximos anos à malta é através da Parábola da Ginástica Cueca. O Vasco Santana é Portugal e o Ribeirinho os Outros que Ainda nos Querem Ver Subir Escadinhas e Calçadas sem Esticar o Pernil, pode ser?
A ginástica dói? Dói que se farta. Há o perigo de sair tudo cá para fora? Há. Depois melhora? Talvez sim, se não se desistir.

Malhão e Meio

A distopia é sempre certa, lá pela biblioteca. Por estes dias, bem a meio da leitura geral, tem estado um estudioso de certa idade a quem parece dar uma regular quebreira lá pelas duas e meia, três da tarde. Um tão singelo facto da Natureza passaria justamente despercebido, claro, não fosse o seu ressonar optimizado pela circunstância do lugar.

Lisboa, Avenida dos Combatentes

Calha que nos últimos tempos tenha saído à rádio portuguesa um naipe de vozes masculinas quase todas elas ali entre tenor e o contratenor. Talvez por isso o contraste com a do Luís Caetano a torne tão mais-melhor de ouvir. Vinha para casa sintonizada na Última Edição e a pensar o bem que até a ler a bula do xarope para a tosse este cavalheiro deve soar.

sábado, 15 de outubro de 2011

IC - 19, Km 4.5

Gosto de circular pelas duas rotundas quase esquecida da razão pela qual ali estão, ou então de passar ao largo e evitar olhar o estacionamento, os lugares. Habitualmente, este é o caminho da cidade dos amigos de sempre. Não agora. Por mais que saiba que este sacana deste mal lavra em qualquer um, tia, tudo isto apanha de surpresa, todas as vezes. Como não posso fazer mais nada, olha, rezo aos nossos que intercedam para que voltes melhor.    

domingo, 9 de outubro de 2011

Almoçageme, Praia da Adraga

Ouvi hoje pela primeira vez a expressão  

- Aquele vai em fato de ver a Deus, olha para ele.

mas não a entendi logo. Se à segunda alcancei que a dita tinha que ver com roupa melhorada, aquela que antes se poupava para a missa de domingo e para dias especiais, à primeira nada disso - a coisa soou-me ao traje que toda a gente traz quando chega ao mundo.  

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Boletim Rural



O tempo está a comprometer a azeitona. As borboletas, as camélias e os narcisos estão convencidos de que é Primavera. As rosas floram num só dia. Maçãs, marmelos e uvas não ficam à espera, perdem-se pelo chão - um calor imprevisto não é só mais mar, também é isto.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Four Measures (And Some Clean Cut Enunciation)

[Frank Sinatra, It Was A Very Good Year, v. 1965, or. Ervin Drake]

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Barreiro, Rua Professor Joaquim Vicente França

Tantas pessoas mesmo interessantes, afinal. Tive a sorte de conhecer ou conhecer melhor algumas delas neste ano, coisa que há muito não acontecia. Valeu por bem mais, mas assim só já estava cumprido, este mais um.     

  [Auto-retrato #2, Setembro de 2011]

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

[Foto: R.E.M. por Anton Corbijn, c.1997]

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sete Rios, Estação do Jardim Zoológico

Em altura/não distante/final do dia/descia/à gare e sentia-me/uma grande grande/porcaria,/por minha culpa,/minha tão grande culpa,/e os painéis não/apagavam nada disso,/pelo contrário,/diziam que/nada acabava ali,/que a fauna e flora/fl(u)oresciam/mais ou menos/alheias aos meus/infortúnios como/num Malick de guerra,/e isso tornava/tudo aquilo/um pouco menos extremo, absurdo, cediço.
  
[Júlio Resende, 1917-2011]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mação, Fonte da Ladeira

A mulher alta - a mais mexida das vestidas de preto - ainda cuida da criação, dos almeirões e das couves-nabas. É a espalha-brasas da aldeia, quem não conhece não diz que perdeu o homem para o cancro e está às voltas com ele também. Manda-nos entrar para mostrar as obras do fumeiro enquanto os outros irmãos e irmãs, despachados os filhos e netos de regresso à semana, se juntam no pátio para jantar. Espero que a gente descubra fibra desta em nós. Não muito tarde.   

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A felicidade dos outros

às vezes faz-nos um bocadinho felizes, também. Ler blogues ao longo de anos gera um senso de familiaridade um bocado descalibrado, sim, mas que fazer quando se dá pelo entroncamento de alguns dos que acompanhamos sem conhecer, lá de longe, senão torcer da bancada, desejar bom caminho, sorrir?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Um blogue que podia frequentar a segunda classe

Sete anos de Quatro Caminhos. A pé, à boleia, à tabela ou à beira do ataque de nervos, menos palavroso mas não menos presente. Um abraço à dúzia de passageiros do costume.