a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Sete Rios, Estação do Jardim Zoológico

Em altura/não distante/final do dia/descia/à gare e sentia-me/uma grande grande/porcaria,/por minha culpa,/minha tão grande culpa,/e os painéis não/apagavam nada disso,/pelo contrário,/diziam que/nada acabava ali,/que a fauna e flora/fl(u)oresciam/mais ou menos/alheias aos meus/infortúnios como/num Malick de guerra,/e isso tornava/tudo aquilo/um pouco menos extremo, absurdo, cediço.
  
[Júlio Resende, 1917-2011]

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Mação, Fonte da Ladeira

A mulher alta - a mais mexida das vestidas de preto - ainda cuida da criação, dos almeirões e das couves-nabas. É a espalha-brasas da aldeia, quem não conhece não diz que perdeu o homem para o cancro e está às voltas com ele também. Manda-nos entrar para mostrar as obras do fumeiro enquanto os outros irmãos e irmãs, despachados os filhos e netos de regresso à semana, se juntam no pátio para jantar. Espero que a gente descubra fibra desta em nós. Não muito tarde.   

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

A felicidade dos outros

às vezes faz-nos um bocadinho felizes, também. Ler blogues ao longo de anos gera um senso de familiaridade um bocado descalibrado, sim, mas que fazer quando se dá pelo entroncamento de alguns dos que acompanhamos sem conhecer, lá de longe, senão torcer da bancada, desejar bom caminho, sorrir?

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Um blogue que podia frequentar a segunda classe

Sete anos de Quatro Caminhos. A pé, à boleia, à tabela ou à beira do ataque de nervos, menos palavroso mas não menos presente. Um abraço à dúzia de passageiros do costume.

quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Queluz, Rua 31 de Janeiro


Pensando bem, passei uma boa década com corte de cabelo à Coleen; as botas de atanado e as peças avulsas dadas pela Anti-Aérea ao Agrupamento reforçaram o estilo, mas só. Muita guerra vi nessa altura.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Belas, Estrada das Águas Livres

O Paulo tinha feito há poucos dias trinta anos. Viveu doente vinte e três, ainda que o prognóstico menos conservador lhe negasse dois. Deu-se um azar da Natureza daqueles em mil e ele retornou a criança de alcofa. O seu padecimento prolongado pôs à prova as convicções de todos, não há outra maneira de o dizer. Uma coisa assim é um mistério, é difícil encontrar sentido ou dar-lhe um. A alguma distância, percebo agora, a família, os amigos e a comunidade do bairro passaram a ver na sua sobrevivência um indício luminoso. Foi-lhes dado tempo de aprender.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Scissorshop®

[Auto-Retrato #1, 2011. Foto s/Peggy Shackman]

terça-feira, 6 de setembro de 2011

Wee Hours

Não existe cooptação mais surpreendente e comovente do que a amizade, graças a Deus.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Leiria, Avenida das Comunidades Europeias

Ao rés dos oitenta a tia M. começou a recear que lhe escapasse o que lhe haviam confiado, não à puridade, como aos padres,  pelo contrário, para salvação do esquecimento. As páginas de certo bloco de notas Firmo guardam linhagens de pessoas e acontecimentos conexos, e têm início na recordação da senhora E, conterrânea a quem a dita tia acompanhou no leito de morte. A forma, neutra e aparentemente distanciada, não afaga o conteúdo:
Dona E., 103 anos. Filha de exposto. Foi vendida quatro vezes em praça.

sábado, 3 de setembro de 2011

O Cromo de Raul Machado

[Aleixo na Escola #09, Gana Produções]

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Lisboa, Rua Garrett

Acho que sou analfabeta funcional de pessoas, só consigo ler as que têm semblante claro, as que não temem nada nem ninguém, as que não estão escaldadas ou as que já não se importam com o que os outros pensam. As outras todas não sei, engano-me ou não consigo decifrar.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Deixar Ir

[Adele, Someone Like You (21, 2011)]

Aproximadamente

dois mil e muitos quilómetros depois, de autocarro, carro, comboio e barco, ficam o nevoeiro e o arroz de marisco da Vieira, ambos densos; o mar manso de Santa Luzia e de Almograve; o aparatoso trambolhão em Moura; o ataque de riso familiar no Alqueva; a desgarrada de bandas em Barrancos; as glicínias de papel em Campo Maior. Poucos livros, alguns gelados, muita conversa e bastante improviso.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Professore di Storia

Gino Paoli em fundo num dos filmes de Nanni Moretti (Bianca, de 1984), com Giorgio Viterbo a fazer de conta que poderia tratar das avaliações e actas de departamento disfarçado de agente de jogadores de futebol.

Este post teve apoio à produção de

sacos para cubos de gelo Dia e Fenistil Gel, porque  quando entre outras coisas se restaura um dos barris de vinho do avô no jardim, de rabo para o ar, pode sempre vir uma abelha da banda das figueiras e sim, isso mesmo, nesse mesmo lugar.

domingo, 14 de agosto de 2011

Carvoeiro, Praia Fluvial

Ando a banhos. Mesmo. Saneamento termal da canalização respiratória, mergulho profiláctico no açude da ribeira, reposição dos níveis de Confiança em dose certeira.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Também


 [Samuel Úria, Deus Também Anda de Comboio (O Caminho Ferroviário Estreito) 2003, Ed. FlorCaveira)]
De manhã entrou um pastor alemão estabanado pelo supermercado, magro, quase tanto quanto o arrumador janado que deveria cuidar dele e acabou invectivado em flagrante delito por uma das donas da loja de animais, a qual lhe aviou uma desanda pública por negligência. Ele para ela que não lhe falasse assim, que tinha o décimo segundo ano, que se tivesse feito mais três era doutor, respeitinho. Chega o comboio - ouve-se daqui.

domingo, 7 de agosto de 2011

Bossa Vega

[Suzanne Vega, Caramel, in Nine Objects of Desire, 1996 (Versão de 2010).]

Wee Hours

O sentido de humor continua ser nacionalmente tomado por leviandade, não percebo bem porquê. Guardava uma pessoa alguns dos dias de descanso para levantar alcatifas, pintar paredes, coser bainhas e botões - entre outras tarefas que a prudência mandou deixar de externalizar - e ainda haveria de ter de tirar a boina à sisudez dos opinadores de salão, não?

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Oslo, Frognerseteren

Fazíamos de conta que não estava frio mas estava, bastante. O bolo de maçã do Seterstua revelou-se à altura da fama, tanto que sustentou a passada de descida para lá da capela de Holmenkollen. Por todo o caminho vimos gente de todas as idades, sem grandes gadgets nem sofisticações fluorescentes a albardar. Também vimos muros cujos donos os vão guarnecendo de fruta, caso a algum desavisado apeteça merendar.    

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Long Dream

The Mountain Goats, The Black Ice Cream Song [Zopilote Machine, 2005].

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXXIII

Todo e qualquer programa de apanhados, esse confrangedor instrumento de embaraço em segundo grau. Por mim, podem desriscá-los de vez do ar.

domingo, 17 de julho de 2011

Coisas Que Desconhecia

Os K-100 são muito mas muito mais confortáveis e arejados do que os Chucks. Um dos meus bisavôs teve durante bastante tempo uma saboaria. As piscinas insufláveis não divertem somente as criancinhas.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Çarandilha, ai és

La Çarandilheira é uma das mais bonitas melopeias que conheço. Nesta versão de 1994 Né Ladeiras (Traz os Montes, EMI-VC) faz-lhe inteira justiça. Ouço-a e deixo-me ir som de uma força muito antiga, mineral. Benigna.    

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Lisboa, Rua do Jasmim

Fiquei tão contente por encontrar o amigo que acabara de repetir uma finta ao além que só me ocorreu mesmo um abraço. Ia ter com ele para agradecer um acto de generosidade recente, mas naquele repente escapou-se-me quase tudo. Não o essencial, espero.

"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XXIV

Pedro Cabrita Reis. Grande pinta. Pun intended.

' Matter of Fact

, penso ter ouvido pela primeira vez esta canção no cinema, ao ver uma das longas dos X-Files. Como o Mulder e a Scully, aguentará o teste do tempo.
[Foo Fighters, The Colour and the Shape, 1997 ('Walking After You', Versão Acústica)]

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Na RTP Memória

passou hoje um filme que há muito queria ver.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

K 100-103

Ontem fui brindar ao senhor José 'Ramiro', um amigo de família que diz que a receita é trabalho, sopa de legumes e abafado. Entretanto calcei uns Sanjo.

Os melancoólicos são dados a estas cousas.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Pet Peeve

Tenho uma embirração com a Paz de la Huerta, sin duda. Pode ser por causa daquela réstia de soberba aristocrática, não sei. O mais provável é que seja do aparente excesso de auto-estima. Se calhar por razão nenhuma. Lembrei-me dela ao ver a última grande youtubada da Charlotte Young via Today I Made Nothing.

terça-feira, 28 de junho de 2011

São Lourenço, Convento de Nossa Senhora da Arrábida

O senhor Q. mostra aquilo que retínhamos de forma vaga por causa do filme. À medida que nos questiona vai dando o flanco, mas pouco. Aponta a figueira de geração espontânea, as avencas, o relógio já reparado.
A vertente sul é quente, mas lá em baixo a água estará muito fria. Aguardarei mais uns dias para mergulhar.

sábado, 25 de junho de 2011

Lisboa, Avenida João Cristóstomo

Como Urgeghe ou Wiborg, Hestnes soava-me distante. A própria cidade o seria ainda por bom tempo. Foi preciso ver e ouvir  tanta coisa até me sentir parte.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Wee Hours

Ouvia uma das canções da Aldina enquanto lia diferenciais sobre um antigo aluno. Acabou por se diagnosticar.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

A Limenina

, que para além de cool e essas coisas é mesmo fixe, desafiou-me há dias a responder àquelas perguntas que andam aí a rodar sobre livros. Aqui fica o que de momento me ocorre:


1 - Existe um livro que lerias e relerias várias vezes?
Como acontece com muitas outras pessoas, há um conjunto de livros que releio continuamente - a Bíblia. É batido mas paciência, é verdade.


2 - Existe algum livro que começaste a ler, paraste, recomeçaste, tentaste e tentaste e nunca conseguiste ler até ao fim?
 O Outono em Pequim (Boris Vian). Não sei porquê, mas desta vez vou tentar não sobreanalisar. Mentira. Provavelmente vou.

3 - Se escolhesses um livro para ler para o resto da tua vida, qual seria ele?
Não escolheria um livro para ler para o resto da minha vida.

4 - Que livro gostarias de ter lido mas que, por algum motivo, nunca leste?
Um grande livro de ficção científica portuguesa. Porque ainda não dei com ele.

5- Que livro leste cuja 'cena final' jamais conseguiste esquecer?
A Fera na Selva (Henry James). Dói-me a barriga quando penso nesse fim.

6- Tinhas o hábito de ler quando eras criança? Se lias, qual era o tipo de leitura?
Sim. Primeiro lia colecções como as da Anita, muita bonecada e pouca letra; depois vieram os contos tradicionais portugueses e germânicos (achava tudo violento, chorava muito e tinha pesadelos e tal); depois passei para os livros das primas mais velhas (coisas da Enid Blyton como as Gémeas no Colégio das Quatro Torres, onde aprendi tudo o que sei até ao presente acerca de merengues e lacrosse); de seguida derivei para a BD (Marvel, DC, DarkHorse) do meu irmão.
Isto explicará o tutti-frutti que ainda hoje caracteriza as minhas escolhas.

7. Qual o livro que achaste chato mas ainda assim leste até ao fim? Porquê?
O Memorial do Convento (José Saramago). Foi antes do Nobel e à terceira tentativa, mas achei que tinha de ser. Por teimosia. Ou pressão de pares, não sei (andava na Faculdade de Letras...). Acabei por achar relevante tê-lo lido, mas não tive prazer em fazê-lo.

8. Indica alguns dos teus livros preferidos.
Agora não.
[em actualização. ihih]

9. Que livro estás a ler neste momento?  
O Filho de Campo de Ourique (António Figueira). Voyeurismo blogosférico, suponho.
Eminent Edwardians (Piers Brendon). Trabalho/Investigação.

10. Indica dez amigos para o Meme Literário:
É só um bocadinho.
[em actualização. eheh]

Quem sabe se antes do Natal

...cá chega esta marretada valente. Isso é que era. 
Neurotípicos e outros, estamos todos precisados.

terça-feira, 14 de junho de 2011

Iceberg, Carlsberg

As ameixas ainda não estão maduras, os vizinhos dizem que este ano só lá pelo São João. Um vez comi tantas amêijoas que adoeci, e por aproximação homófona enjoei à fruta, também.

sábado, 11 de junho de 2011

Atalhos

Rolho o que penso com menos frequência, mas ainda o faço. Muito custa a uma pessoa apartar-se dos erros conhecidos.

Quem se mete por

Já passou quase um mês sobre o Meek's Cutoff e ainda me apetece pedir o dinheiro de volta. Entrada directa para o top três dos filmes mais frustrantes que já vi.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXXII

Será que as casas vão valorizar? Será que as rendas vão aumentar? É a desarrumação de todo um estereótipo socio-economico-suburbano-cultural. 

quarta-feira, 1 de junho de 2011

"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XXIII

Rufus Sewell, um dos estrábicos mais atraentes que as tábuas inglesas já projectaram para o [grande e pequeno] écran. Ocorre-me isto porque ando a ver no AXN The Pillars of the Earth, sim, mas sobretudo porque vi Dark City numa idade impressionável.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

The Big Chill

Sendo que o mortinho é a Coluna Infame, o público da velada toma o lugar dos amigos do senhor Cooper e a Almedina fica no Sul da Carolina. Credo. Até rimei.

chiça

, arrisca uma rapariga o vestidinho de algodão e as sandálias e vai uma carga de água que mais fica a parecer o cão do Presidente dos Estados Unidos da América.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Queluz, Rua Vasco da Gama

É tão frágil, a promessa de uma vida futura. Fazemos o que podemos para a conjurar e é só. Quase tudo escapa ao nosso controle.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Dizem que

com a idade a timidez melhora, mas eu continuo a atada arquetípica.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XXII

Alexander Waugh. Digamos que não li o livro mas vi o filme.

Lisboa, Rua Heliodoro Salgado

Desço a calçada não segura, as pedras estão muito polidas. Escorrego sem cair uma mão cheia de vezes. Aperta-se-me o coração quando vejo estas senhoras tão velhas e frágeis a enfrentar o passeio, os outros, a manhã.   

Reestruturação da Dúvida

Quanto mais quero menos pergunto.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Lisboa, Praça da Figueira

Vinha a pensar no cartaz do Look Obama, barbeiro neo-castiço da Almirante Reis, quando um dos malucos mais jovens da praça, barba cerrada em metro e noventa, se debruçou e me soprou ao ouvido: 

- Vá, diz lá, qual é a diferença entre justiça e vingança?


Só assim. Depois deu costas e deixou-me ir.

sábado, 30 de abril de 2011

Na Alergia e na Tristeza

Lá se foi o bom tempo até ninguém sabe quando. Bem bonito o sorriso do casal do dia, ainda assim. 

terça-feira, 26 de abril de 2011

Alegria ao Pólen

Depois da chuva em pedra veio esta pouca de calor, daí que as alvéolas e os pardais tenham andado num fadário tal que desassossegaram os grilos antes do anoitecer. Enquanto acabo de ler o brinde sobre a vida do bom doutor Freud dou pela vaga recordação da pele assim, ao ar da tarde. Espirro. Retorno à leitura. 

domingo, 24 de abril de 2011

Sardoal, Rua Gil Vicente

A trovoada não deixou ver os fogaréus, ainda assim não se perdeu a caminhada. Cirandávamos quando ela parou e apontou o sítio exacto onde entrara ao voltar do cativeiro serviçal lisboeta. Anos de saias compridas, trabalho duro e olhos baixos na vez de um curso, de aprender coisas novas. Regressou numa das carreiras, entrou, cortou o cabelo e tirou novo retrato.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Ana Eróbia

Pois, quer-se dizer, se calhar quando o clínico geral, a alergologista, a otorrinolaringologista e outros que tais nos mandam encolher, se calhar a coisa tem razão de ser.   

'da-se.

Termo Incerto

A escola, os miúdos. Estive ao largo uns anos, mas ando nisto desde os dezassete. Algumas coisas mudaram para melhor, outras não. Já não há furos, a papelada é mais que muita, o fundamental é o mesmo. Pessoas quase crescidas aprendem connosco - muito pouco tempo, tempo de menos se estamos de passagem - e depois seguem caminho. Continua a custar-me o de sempre, o adeus temporão. Já dizia o outro: é a vida.    

Monte Abraão, Rua Doutor António Correia de Sá

Os nossos ramos foram apanhados nas traseiras com o habitual sem-preparo, mas ao meu lado passou um senhor de porte balanta com uma palma entrançada em cruz.  

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Between two waves

[Between Two Waves of the Sea, c. 2004]
Ainda bem que tropecei neste texto de Makoto Fujimura sobre Georges Rouault. Acabou por tornar melhor esta Quaresma.

terça-feira, 12 de abril de 2011

No tempo em que


o Tim Booth tinha cabelo, ouvi-o dizer que não sabia se gostava do nosso país; o filho - muito pequenino - tinha adoecido durante um dos primeiros concertos lusos e quase tinha morrido. Nem todos têm coração para mais, mas ele voltou e voltou a voltar.

domingo, 3 de abril de 2011

Massamá, Praceta Henrique Medina

Não me recordo de alguma vez ter visto fechar tanta coisa ao mesmo tempo. Até o Shopping parece estar a atingir o nadir. Primeiro foram as deslocalizações de galerias e livrarias (Arte Periférica, Teorema, etc), depois o fecho dos mini-mercados, lojas de decoração e electrodomésticos, seguido da mudança de quase todas as agências bancárias para espaços mais pequenos. Nem algumas das lojas chinesas se têm aguentado. Os cafés sim, ainda que neles entrando tudo soe a rés-do-não.

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXXI

Como é que convencemos alguém de que estamos a ser verdadeiros quando estamos a ser verdadeiros? A verdade chega?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Como num espelho


Canção para a unificação da Europa, Z. Preizner, 1993.
Orquestra Sinfónica de Varsóvia [dir. Wojciech Michniewski], Coro Filarmónico da Silésia com Elzbieta Towarnicka [soprano].

quarta-feira, 30 de março de 2011

N8, Km 35

Quem segue pela Caneira Nova não pode ir depressa, daí que tenha a oportunidade de olhar os pomares que guarnecem o caminho. O mais que há por estes dias são as flores brancas das pereiras, pequeninas, bem mais discretas que as da amêndoa ou da maçã. Abro a janela e não lhes sinto nenhum perfume, por isso não sei se são alguma coisa às que põem no meu Chipre Flores. Em chegando a casa lavo as mãos com Confiança, o que tem graça, mas não me rio porque me ocorrem o Martin Donovan e a Adrienne Shelly muito novos - ontem deu o Retrato de Uma Senhora, e ali estava ele outra vez.

segunda-feira, 28 de março de 2011

Doze e Doze

Mesmo que não fique bem sinto-me melhor assim, de cabelo comprido. A rapariga  que me vendeu o gancho também o tinha, e quase da mesma cor. Começou a trabalhar aos doze,no Algarve. Enquanto eu pagava desabafou que tinha acabado de perder a paciência com uma das quatro ou cinco do dia, currículo nem vê-lo, só sorrisos de pedido do carimbo para a segurança social ver.

domingo, 27 de março de 2011

domingo, 20 de março de 2011

Da Terra

Olho o pai do meu, mesmo atrás do dele, em inícios da nova república velha. Um dos irmãos encomendara retratos para oferecer à família e levar para América. Que achariam eles da terra, agora? E de nós? 

domingo, 6 de março de 2011

Vila de Rei, Vale de Linho


 À curva, o tojo e a margaça não são menos que the grass na boca de Burton.

Wee Hours

Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.

Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?

Pedro Tamen, "Amigo, a que vieste?" in Horácio e Coriáceo, 1981.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

In The face of all Aridity

Maximilian Ehrmann, Desiderata, 1927 
[Voz de Richard Burton].

Chacun a sa Massamá

Em modo de subsídio para o Portugaliae Monumenta Blogospherica, ocorre-me que o que em tempos o Vasco questionou o Pedro experimenta agora a seu modo responder. Ainda não acabei o livro, mas desde já acho que há uma serendipidade fixe nisto tudo.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

Soares Dias (Filho)

A arbitragem do último SCP vs. SLB foi extremamente paliativa.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Anjinho da Guarda, és um fixe


Mais ou menos assim mas com granizo, relâmpagos e em circuito aberto.

Devo ter feito bem a alguém.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Estrela do Levante

Umm Kulthum, Enta Omri, 1964 [Gravação ao vivo, Paris, 1967].

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Em cada mulher uma D. Ema

No fundo, é para isto que as senhoras atafulham as malas.

Corpo em Câmara Lenta




TTT, Zap Canal,1996.

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXX

Por que é que quase todos os boys têm aquele ar bochechudo de criança sobrealimentada?

Santarém, Largo dos Capuchos

Para a Guida

Tocava a sair e ela pensava no contente que o faria um dia assim. Debaixo de um sol tão concreto continuava a acreditar que quem é para rir deve ser para chorar.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Catarina de Penha Garcia


Trabalhai, quebrai o corpo, do trabalho nasce a honra, da honra o bem querer, cantava ela.
E bem.

domingo, 30 de janeiro de 2011

An homme jeune serieux homme

, arriscou Graham diante de uma merenda muito desconsolante e inglesa. A educação de Jenny Mellor poderia ter começado ali mesmo, à vista de um coração na manga, à mesa.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

, muitos anos de vida

domingo, 23 de janeiro de 2011

Português Partido VIII

Olhem, chamaram-me

Trenga
 
Etim. obscura
adj. fem. Beirão, Prov. Que aborrece, importuna, maçadora.
adj. fem. Minhoto, Prov. Pessoa acanhada, sem préstimo, atada.


, o que não é mal visto.

sábado, 22 de janeiro de 2011

Mértola, Rua dos Bombeiros Voluntários

Ontem lembrei-me de um episódio arqueológico. Tive latim no liceu, dois anos.  Tentava ensinar-nos o Manuel Pereira, beirão providencialmente talhado à medida dos bárbaros que éramos. Metade conseguiu passar. No primeiro ano mandou-nos à Mértola, no segundo à Mérida - nós merecíamos. Antes da faculdade ainda juntámos dinheiro para dez dias entre Roma e Florença, e isso mudou muita coisa. Nesse primeiro ano alimentava uma paixão platónica por um palerma meio pétreo, feita estóica; chegámos à vila acompanhados por uma turma de Carcavelos, e eu saí a toda a velocidade do autocarro, a caminho das muralhas, desculpando-me com o preenchimento da ficha-roteiro. Não me apeteceu fazer de conta que aquela cena na parte de trás do autocarro - ele agarrado a uma  Ana Cláudia baixa, loira, betonça e de olhos azuis - me era completamente indiferente. 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

São João do Peso, Rua Professor Oliveira Brás

Do lameiro ouvia-se um latido vago, mais nada. O nevoeiro cobria tudo. O escritor não se sentia bem ali - a terra do sangue era mais consumição que outra coisa. Quando alguém andava em parte incerta era de uso dizer-se

-  anda na várzea, esse

 como se ela fosse causa da baralhação.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Tempo Comum

À saída da vila está um daqueles bazares bastante afreguesados que vendem quase tudo, como no resto do país. Chama-se Balato. Self-deprecating tlansfolmado em chamaliz luclativo tem uma celta glaça. Cá ao bairro regressou já o senhor que surtou num dos feriados de Dezembro. Consegui meter a colher a tempo. Voaram pelas janelas manteiga,  pão, pratos e facas, jornais, um penico, mas mais tampa menos tampa toda a gente saiu viva. Os  putos perguntam-me se Portugal foi sempre assim e eu digo-lhes que não. Depois falo-lhes do futuro, e acredito no que digo. 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Façamos por isso

Um muito feliz 2011.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

No Credential Here

Na vida real tudo é mais lento, mais sinuoso, mais afiado. Mais valioso.

sábado, 25 de dezembro de 2010

Parvae Stellae

Quando ela chegou o pai da mãe tinha partido há meses. Uma natividade sem plano,  a sua, em pleno tumulto social e familiar, muitas horas de avião, países a nascer. Levaria tempo a  entender que também tinha lugar.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Wee Hours

Palavras precisas, mais e mais as procuro.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Serra da Pena


Enquanto guardavam as cabras, cansados dos pífaros e do jogo das pedrinhas, procuravam as plantas que cresciam à sombra das estevas. Quase todos faziam comparações, mas ela não. A boca dizia-lhe que as coisas do pinhal  valiam tal qual, na sua  doçura silvestre.     

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

domingo, 5 de dezembro de 2010

Dubbelbild

 [August Strindberg (óleo s/tela), 1892]

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A8, Km 27

Pontuado a novos moinhos, o fio das vertentes mal se vê. Ida e volta acontecem às escuras, entre hortaliça e gado. É caminho que leva algum tempo, com espaço à antecipação da jornada. Há solavancos e trem-lags, gente muito cansada, cores a descombinar. Nada como pensei, mas pela primeira vez em muito tempo acho que nem tudo correrá mal.  

domingo, 21 de novembro de 2010

Lisboa, Avenida Frei Miguel Contreiras

Com a cidade por conta, mudo de faixa e contorno sem pressa os ramos, as folhas, as poças mais fundas. Levo o Atlas na ideia, e lembro a Orval de há muitos meses, coberta de neve (o hastear do dia, a bruma vinda das Ardenas,  o eco dos cânticos a dissipar-se pelo horto). O semáforo muda, os poucos carros em redor seguem caminho.  Demoro uns momentos a arrancar.   
      

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Sardoal, Rua do Paço

Nunca tinha colhido, escolhido e retalhado azeitonas, não sabia que largavam um vermelho tão venal. Ficarão a adoçar no tanque, junto à nascente. Terei as mãos tintadas por muitos dias. 

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

La Suggia, 1927


Para ser honesta, acho que foi uma chamada de atenção no JPP para com Guilhermina e os seus, há já uns anos, que me despertou curiosidade sobre um nome não mais que familiar. Em 2010 cumprem-se sessenta  anos sobre o seu desaparecimento. Não sabia que a sua irmã, Virgínia, em tempos internacionalmente tida por tão virtuosa quanto ela, lá pelos vintes, lhe anunciou algo como antes amor que música. Guil não quis saber.  Eis uma das suas poucas audio-gravações, sob o signo do sagrado Yom Kippur.
[Imagem: Augustus John, 1920-23]

Manifestações Não-Violentas

Nada como um gatito para aumentar o grau de querideza de um weblog.

domingo, 14 de novembro de 2010

Wee Hours

Há muito que não me irritava assim: acenem-me com uma consoante muda frente à tromba que logo descobrem o que é acção directa,  damas e cavalheiros.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXIX

É de levar mais a sério quem convida como quem ameaça ou quem ameaça como quem convida?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pagar a Conta


Ainda bem que a canção se popularizou (nunca fui dos que vibram quando dão por que os outros ainda não conhecem o que eu ). Eis tele-coisa de José Pinheiro, insuspeito mínimo denominador comum, uma vez mais. Muito adequada às momices antiteresaterminassianas destes dias, não?  

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Queluz, Largo do Palácio


O rapaz que é chamado ao altar flecte um braço em saudação e  estende o outro sobre as bandeiras. Promete dar do que recebeu e não espera  recompensa. Ouvem-no os que com ele aprendem e os que o ensinaram, como eu. E festejam. O futuro e o passado só são reais assim, quando o presente os encarna.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Que Fazer ao Que nos Contam? (16)

A septuagenária que convidamos para a mesa cora, acanhada. Não foi bonita, não o é agora. É, isso sim,  uma das  faces do bom que o presente traz: tão poucos sobram que o que antes eram deixou de importar. A filha do ferreiro está como a do presidente, a neta do médico é mulher do filho do filho de um jornaleiro,  a sobrinha da dos maus favores conta histórias à afilhada mais nova do vigário. Aquela, a que se junta a nós para o café, lembra o tempo em que o feitor pagava a um dos sacristães para adiantar o romper das avé-marias e atrasar o pôr das trindades um bom quarto de hora. Não chega a chorar, explica que não havia quem se pudesse dar ao luxo de os justiçar, aos fracos, como quem perdoa.