sexta-feira, 13 de maio de 2011
"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XXII
Alexander Waugh. Digamos que não li o livro mas vi o filme.
Lisboa, Rua Heliodoro Salgado
Desço a calçada não segura, as pedras estão muito polidas. Escorrego sem cair uma mão cheia de vezes. Aperta-se-me o coração quando vejo estas senhoras tão velhas e frágeis a enfrentar o passeio, os outros, a manhã.
quarta-feira, 11 de maio de 2011
Lisboa, Praça da Figueira
Vinha a pensar no cartaz do Look Obama, barbeiro neo-castiço da Almirante Reis, quando um dos malucos mais jovens da praça, barba cerrada em metro e noventa, se debruçou e me soprou ao ouvido:
Só assim. Depois deu costas e deixou-me ir.
sábado, 30 de abril de 2011
Na Alergia e na Tristeza
Lá se foi o bom tempo até ninguém sabe quando. Bem bonito o sorriso do casal do dia, ainda assim.
terça-feira, 26 de abril de 2011
Alegria ao Pólen
Depois da chuva em pedra veio esta pouca de calor, daí que as alvéolas e os pardais tenham andado num fadário tal que desassossegaram os grilos antes do anoitecer. Enquanto acabo de ler o brinde sobre a vida do bom doutor Freud dou pela vaga recordação da pele assim, ao ar da tarde. Espirro. Retorno à leitura.
domingo, 24 de abril de 2011
Sardoal, Rua Gil Vicente
A trovoada não deixou ver os fogaréus, ainda assim não se perdeu a caminhada. Cirandávamos quando ela parou e apontou o sítio exacto onde entrara ao voltar do cativeiro serviçal lisboeta. Anos de saias compridas, trabalho duro e olhos baixos na vez de um curso, de aprender coisas novas. Regressou numa das carreiras, entrou, cortou o cabelo e tirou novo retrato.
sábado, 23 de abril de 2011
terça-feira, 19 de abril de 2011
Ana Eróbia
Pois, quer-se dizer, se calhar quando o clínico geral, a alergologista, a otorrinolaringologista e outros que tais nos mandam encolher, se calhar a coisa tem razão de ser.
'da-se.
Termo Incerto
A escola, os miúdos. Estive ao largo uns anos, mas ando nisto desde os dezassete. Algumas coisas mudaram para melhor, outras não. Já não há furos, a papelada é mais que muita, o fundamental é o mesmo. Pessoas quase crescidas aprendem connosco - muito pouco tempo, tempo de menos se estamos de passagem - e depois seguem caminho. Continua a custar-me o de sempre, o adeus temporão. Já dizia o outro: é a vida.
Monte Abraão, Rua Doutor António Correia de Sá
Os nossos ramos foram apanhados nas traseiras com o habitual sem-preparo, mas ao meu lado passou um senhor de porte balanta com uma palma entrançada em cruz.
sexta-feira, 15 de abril de 2011
Between two waves
[Between Two Waves of the Sea, c. 2004]
Ainda bem que tropecei neste texto de Makoto Fujimura sobre Georges Rouault. Acabou por tornar melhor esta Quaresma.
terça-feira, 12 de abril de 2011
No tempo em que
o Tim Booth tinha cabelo, ouvi-o dizer que não sabia se gostava do nosso país; o filho - muito pequenino - tinha adoecido durante um dos primeiros concertos lusos e quase tinha morrido. Nem todos têm coração para mais, mas ele voltou e voltou a voltar.
domingo, 3 de abril de 2011
Massamá, Praceta Henrique Medina
Não me recordo de alguma vez ter visto fechar tanta coisa ao mesmo tempo. Até o Shopping parece estar a atingir o nadir. Primeiro foram as deslocalizações de galerias e livrarias (Arte Periférica, Teorema, etc), depois o fecho dos mini-mercados, lojas de decoração e electrodomésticos, seguido da mudança de quase todas as agências bancárias para espaços mais pequenos. Nem algumas das lojas chinesas se têm aguentado. Os cafés sim, ainda que neles entrando tudo soe a rés-do-não.
Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXXI
Como é que convencemos alguém de que estamos a ser verdadeiros quando estamos a ser verdadeiros? A verdade chega?
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Como num espelho
Canção para a unificação da Europa, Z. Preizner, 1993.
Orquestra Sinfónica de Varsóvia [dir. Wojciech Michniewski], Coro Filarmónico da Silésia com Elzbieta Towarnicka [soprano].
quarta-feira, 30 de março de 2011
N8, Km 35
Quem segue pela Caneira Nova não pode ir depressa, daí que tenha a oportunidade de olhar os pomares que guarnecem o caminho. O mais que há por estes dias são as flores brancas das pereiras, pequeninas, bem mais discretas que as da amêndoa ou da maçã. Abro a janela e não lhes sinto nenhum perfume, por isso não sei se são alguma coisa às que põem no meu Chipre Flores. Em chegando a casa lavo as mãos com Confiança, o que tem graça, mas não me rio porque me ocorrem o Martin Donovan e a Adrienne Shelly muito novos - ontem deu o Retrato de Uma Senhora, e ali estava ele outra vez.
segunda-feira, 28 de março de 2011
Doze e Doze
Mesmo que não fique bem sinto-me melhor assim, de cabelo comprido. A rapariga que me vendeu o gancho também o tinha, e quase da mesma cor. Começou a trabalhar aos doze,no Algarve. Enquanto eu pagava desabafou que tinha acabado de perder a paciência com uma das quatro ou cinco do dia, currículo nem vê-lo, só sorrisos de pedido do carimbo para a segurança social ver.
domingo, 27 de março de 2011
domingo, 20 de março de 2011
Da Terra
Olho o pai do meu, mesmo atrás do dele, em inícios da nova república velha. Um dos irmãos encomendara retratos para oferecer à família e levar para América. Que achariam eles da terra, agora? E de nós?
domingo, 6 de março de 2011
Wee Hours
Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?
Pedro Tamen, "Amigo, a que vieste?" in Horácio e Coriáceo, 1981.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Chacun a sa Massamá
Em modo de subsídio para o Portugaliae Monumenta Blogospherica, ocorre-me que o que em tempos o Vasco questionou o Pedro experimenta agora a seu modo responder. Ainda não acabei o livro, mas desde já acho que há uma serendipidade fixe nisto tudo.
quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011
Anjinho da Guarda, és um fixe
Mais ou menos assim mas com granizo, relâmpagos e em circuito aberto.
Devo ter feito bem a alguém.
sábado, 12 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Coisas Que Só a Mim Apoquentam LXX
Por que é que quase todos os boys têm aquele ar bochechudo de criança sobrealimentada?
Santarém, Largo dos Capuchos
Para a Guida
Tocava a sair e ela pensava no contente que o faria um dia assim. Debaixo de um sol tão concreto continuava a acreditar que quem é para rir deve ser para chorar.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
An homme jeune serieux homme
, arriscou Graham diante de uma merenda muito desconsolante e inglesa. A educação de Jenny Mellor poderia ter começado ali mesmo, à vista de um coração na manga, à mesa.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
domingo, 23 de janeiro de 2011
Português Partido VIII
Olhem, chamaram-me
Trenga
Etim. obscura
, o que não é mal visto.
Trenga
Etim. obscura
adj. fem. Beirão, Prov. Que aborrece, importuna, maçadora.
adj. fem. Minhoto, Prov. Pessoa acanhada, sem préstimo, atada.
, o que não é mal visto.
sábado, 22 de janeiro de 2011
Mértola, Rua dos Bombeiros Voluntários
Ontem lembrei-me de um episódio arqueológico. Tive latim no liceu, dois anos. Tentava ensinar-nos o Manuel Pereira, beirão providencialmente talhado à medida dos bárbaros que éramos. Metade conseguiu passar. No primeiro ano mandou-nos à Mértola, no segundo à Mérida - nós merecíamos. Antes da faculdade ainda juntámos dinheiro para dez dias entre Roma e Florença, e isso mudou muita coisa. Nesse primeiro ano alimentava uma paixão platónica por um palerma meio pétreo, feita estóica; chegámos à vila acompanhados por uma turma de Carcavelos, e eu saí a toda a velocidade do autocarro, a caminho das muralhas, desculpando-me com o preenchimento da ficha-roteiro. Não me apeteceu fazer de conta que aquela cena na parte de trás do autocarro - ele agarrado a uma Ana Cláudia baixa, loira, betonça e de olhos azuis - me era completamente indiferente.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
São João do Peso, Rua Professor Oliveira Brás
Do lameiro ouvia-se um latido vago, mais nada. O nevoeiro cobria tudo. O escritor não se sentia bem ali - a terra do sangue era mais consumição que outra coisa. Quando alguém andava em parte incerta era de uso dizer-se
- anda na várzea, esse
como se ela fosse causa da baralhação.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
O Tempo Comum
À saída da vila está um daqueles bazares bastante afreguesados que vendem quase tudo, como no resto do país. Chama-se Balato. Self-deprecating tlansfolmado em chamaliz luclativo tem uma celta glaça. Cá ao bairro regressou já o senhor que surtou num dos feriados de Dezembro. Consegui meter a colher a tempo. Voaram pelas janelas manteiga, pão, pratos e facas, jornais, um penico, mas mais tampa menos tampa toda a gente saiu viva. Os putos perguntam-me se Portugal foi sempre assim e eu digo-lhes que não. Depois falo-lhes do futuro, e acredito no que digo.
sexta-feira, 31 de dezembro de 2010
segunda-feira, 27 de dezembro de 2010
sábado, 25 de dezembro de 2010
Parvae Stellae
Quando ela chegou o pai da mãe tinha partido há meses. Uma natividade sem plano, a sua, em pleno tumulto social e familiar, muitas horas de avião, países a nascer. Levaria tempo a entender que também tinha lugar.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
Serra da Pena
Enquanto guardavam as cabras, cansados dos pífaros e do jogo das pedrinhas, procuravam as plantas que cresciam à sombra das estevas. Quase todos faziam comparações, mas ela não. A boca dizia-lhe que as coisas do pinhal valiam tal qual, na sua doçura silvestre.
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
A8, Km 27
Pontuado a novos moinhos, o fio das vertentes mal se vê. Ida e volta acontecem às escuras, entre hortaliça e gado. É caminho que leva algum tempo, com espaço à antecipação da jornada. Há solavancos e trem-lags, gente muito cansada, cores a descombinar. Nada como pensei, mas pela primeira vez em muito tempo acho que nem tudo correrá mal.
domingo, 21 de novembro de 2010
Lisboa, Avenida Frei Miguel Contreiras
Com a cidade por conta, mudo de faixa e contorno sem pressa os ramos, as folhas, as poças mais fundas. Levo o Atlas na ideia, e lembro a Orval de há muitos meses, coberta de neve (o hastear do dia, a bruma vinda das Ardenas, o eco dos cânticos a dissipar-se pelo horto). O semáforo muda, os poucos carros em redor seguem caminho. Demoro uns momentos a arrancar.
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Sardoal, Rua do Paço
Nunca tinha colhido, escolhido e retalhado azeitonas, não sabia que largavam um vermelho tão venal. Ficarão a adoçar no tanque, junto à nascente. Terei as mãos tintadas por muitos dias.
segunda-feira, 15 de novembro de 2010
La Suggia, 1927
Para ser honesta, acho que foi uma chamada de atenção no JPP para com Guilhermina e os seus, há já uns anos, que me despertou curiosidade sobre um nome não mais que familiar. Em 2010 cumprem-se sessenta anos sobre o seu desaparecimento. Não sabia que a sua irmã, Virgínia, em tempos internacionalmente tida por tão virtuosa quanto ela, lá pelos vintes, lhe anunciou algo como antes amor que música. Guil não quis saber. Eis uma das suas poucas audio-gravações, sob o signo do sagrado Yom Kippur.
[Imagem: Augustus John, 1920-23]
domingo, 14 de novembro de 2010
Wee Hours
Há muito que não me irritava assim: acenem-me com uma consoante muda frente à tromba que logo descobrem o que é acção directa, damas e cavalheiros.
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXIX
É de levar mais a sério quem convida como quem ameaça ou quem ameaça como quem convida?
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
Pagar a Conta
Ainda bem que a canção se popularizou (nunca fui dos que vibram quando dão por que os outros ainda não conhecem o que eu já). Eis tele-coisa de José Pinheiro, insuspeito mínimo denominador comum, uma vez mais. Muito adequada às momices antiteresaterminassianas destes dias, não?
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Queluz, Largo do Palácio
O rapaz que é chamado ao altar flecte um braço em saudação e estende o outro sobre as bandeiras. Promete dar do que recebeu e não espera recompensa. Ouvem-no os que com ele aprendem e os que o ensinaram, como eu. E festejam. O futuro e o passado só são reais assim, quando o presente os encarna.
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Que Fazer ao Que nos Contam? (16)
A septuagenária que convidamos para a mesa cora, acanhada. Não foi bonita, não o é agora. É, isso sim, uma das faces do bom que o presente traz: tão poucos sobram que o que antes eram deixou de importar. A filha do ferreiro está como a do presidente, a neta do médico é mulher do filho do filho de um jornaleiro, a sobrinha da dos maus favores conta histórias à afilhada mais nova do vigário. Aquela, a que se junta a nós para o café, lembra o tempo em que o feitor pagava a um dos sacristães para adiantar o romper das avé-marias e atrasar o pôr das trindades um bom quarto de hora. Não chega a chorar, explica que não havia quem se pudesse dar ao luxo de os justiçar, aos fracos, como quem perdoa.
domingo, 31 de outubro de 2010
Ana Nim, Ana Não
Que é que esperavas, anjinho, um tem-te-não-caias? Amor às singularidades de uma rapariga moira? Vontade de liquefazer fé no que dizes? Como se valesses isso, quanto mais.
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Nodos do Ofício
Li,/podei,/contei,/enchi carrinhos de mão,/ temi,/tremi,/ escrevi uma lua de Plutão.
Abrantes, Central de Camionagem
Nada como dantes. Há duas latrinas do lado das meninas, uma tem quatro seringas de roda do vaso de natureza e outra tem falta de papel. A viagem faz-se. À chegada há aquela rapariga de caracóis compridos e castanhos, ainda limpa, quase normal, fazendo de conta que pede as moedas em falta para o bilhete. No metro azul vão os turistas urbanos, os miúdos do Técnico, as velhotas sem medo do anoitecer. Penso na luz de Ruiz, no tempo lento, e faço um esforço por respirar.
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Ne laissez pas passer
E o que para alguns se adivinhava desrespeito institucional, piada anti-sistémica, tarefa de programa, não o foi. A dado momento a indignação provoca-lhe comichão e a máscara cai, fica só o cristão, um homem a citar Mateus.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Comboio, Queluz / Monte Abraão
Barras de cereais, soro fisiológico, papel de cozinha, muito lixo na linha, aspirantes da escola prática às voltas ao pelado, leite meio-gordo, uma mulher a falar muito alto ao telemóvel ao meu lado, várias raparigas de chinelos (não terão frio?), um gandulo muito magro a escorregar por entre os braços de dois picas, uma beringela, ou então cogumelos.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Não Se Zanguem com Ela
Por este sol de Outono ainda não se paga imposto, caraças.
[Margarida Pinto, mais canções que a malta precisa.]
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Em obras
O edifício ainda está em obras, daí a forte corrente de ar. Os andaimes separam a assembleia do altar-mor e a padroeira ladeia provisoriamente o baptistério. É a última missa do dia. A nova evangelização tem trazido alguns padres indianos bastante jovens e circunspectos, como este. Preparam a homilia com cuidado (não confundem improviso com espírito santo em acção). O domínio da língua é frágil. Para os que ali vão por ir, esse é o novo pretexto para o habitual alheamento; para os outros, a dificuldade apurará a audição.
domingo, 17 de outubro de 2010
Freud Complica
Continuo a ser a pessoa que conheço com o mais estrambólico e embaraçoso reportório de actos falhados.
sábado, 16 de outubro de 2010
Wee Hours
De-sem-querer, uma rapariga ofereceu fruta e a interpretação foi inadivertidamente bíblica. Que falta de intuição.
Lisboa, Estrada de Benfica
Apetece celebrar baixinho: miúdos com vontade de aprender, professores ansiosos para ensinar, nenhum embaraço em segunda mão - que viva o amanhã à vista.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
terça-feira, 12 de outubro de 2010
Queluz, Rua Óscar Monteiro Torres
A dureza dos dias lê-se
nos clientes que teimam
em entrar:
há vermutes ao quarto para as
dez da manhã,
cervejas pelo
meio-dia,
bagaços pouco depois
de almoçar.
O semblante geral diz
pouca fruta, fracos legumes,
nenhum passear.
Chega o Rocha,
timbre leve em
carranca já salgada,
quase Adamastor.
Ao balcão os cumprimentos
são sinceros,
tudo segue em rodadas,
há tremoços,
tabaco,
licor -
um claro prenúncio
de segundas-feiras
sem valor.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXVIII
Escrevo e guardo algum e-mail como quem estima cartas de papel, por isso aflige-me quem prenuncia a decadência epistolar.
domingo, 3 de outubro de 2010
Encontrei aquela que deve ser a gralha mais bonita do ano na reedição de Requiem para D.Quixote. Lá pelas páginas setenta, setenta e um, logo no início do décimo capítulo, Peter Maynard faz uma investida exploratória sobre certo bar de má reputação de maneira a dar início ao fim de um problema. Entre outros instrumentos de protecção e despiste, leva consigo ósculos escuros.
terça-feira, 28 de setembro de 2010
Sintra, Avenida Doutor Desidério Cambournac
O palacete tinha a cara destratada e não era centro cultural, era a repartição de finanças. O mercado ocupava bastante espaço. A circulação não era fácil. Não se podia passear assim à vontade pela Estefânia por causa dos carros para a Vila, e a Portela não só parecia como ficava mesmo mais longe. Tudo era menos polido, menos pintado, menos ordeiro. Menos cénico.
domingo, 26 de setembro de 2010
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
Não-Ficção
é a categoria menos explicativa que alguém pôs em uso desde a criação da prateleira Diversos.
terça-feira, 21 de setembro de 2010
sábado, 18 de setembro de 2010
Ano VII
Há um par de dias este blogue fez meia dúzia de anos. Não sei o que isso quer dizer. Alguma coisa terá mudado entretanto, mas não o essencial: anda por aí uma malta que gosta de ler, escrever e contar, e que não se cansa da monda. O meu entusiasmo, canhestro, mantém-se, e a vontade de aprender fazendo também. Nas mais das vezes penso que não me faço entender, mas é como digo - continuarei a tentar.
Alvorada
Nos últimos anos do liceu, quando o acordar se começou a tornar quase tão difícil quanto o adormecer, Daphnis et Chloé oferecia um começo melhor. Ouvia repetidamente a segunda suite desse cd achado sem grande procura, em colecção familiar, e o dia era mais prometedor. O Pregão - e nele a voz de um sul quase perdido que é a de Francisco de Ribeiro - tenho-o por uma das poucas criações a par.
quarta-feira, 15 de setembro de 2010
O Agente de Autoridade
Surpreende-me que Damian Young continue a ser um Richard Jenkins por reconhecer. Provas dadas não faltam.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXVII
Há por cá algum provedor de tradução e legendagem? Porque é que, desde que me lembro, b#tch se transforma em cabra quando cruza a fronteira do linguajar?
terça-feira, 7 de setembro de 2010
quinta-feira, 2 de setembro de 2010
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Prova de Vida
E mesmo que não queira, a gente aprende que ser frágil não é o mesmo que ser fraca, que não há confusão possível entre amargura e frustração, sorriso e alegria. Há que honrar a estrema de cada emoção.
domingo, 29 de agosto de 2010
Ericeira, Calçada da Baleia
Parecem-me tão felizes, estas famílias que não querem dar a tarde por acabada. Gosto sobretudo dos grandes que dão corda aos mais pequenos, livres, esquecidos da hora de jantar. Devíamos poder recordar cada grão disto, das brincadeiras ao sol, do tempo em que tudo acontece muito devagar.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Buarcos, Avenida Infante Dom Pedro
O céu ainda está um pouco carregado. As poucas pessoas que apertam o passo não vão em fato de treino, vão em fato de missa. Um caminhante de fora, com ar de quem não quer parar, aposta com a mulher que é capaz de achar o lugar onde petiscaram na lua-de-mel. Ela duvida, enquanto se senta para descansar. Quarenta anos é tempo. Ele segue em frente com um até já. Uma hora depois reaparece à curva, cenho aberto. O Teimoso continua lá.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Números Redondos
Mil e quinhentos garatujos certos sobre o trânsito dos dias num dia em trânsito é coisa bem apropositada. A ver se a circulatura deste quadrado resulta num presente de corpo mais assim.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
sexta-feira, 23 de julho de 2010
quinta-feira, 22 de julho de 2010
A Estranha Vida do Condutor Antena
Viaduto Duarte Pacheco, 21:48h. Nunca tinha apanhado isto completamente cortado, nem um tal aparato de polícia em passo de corrida. Só que - como diz aqueloutro senhor - está tudo bem, porque a Antena 2 anda a transmitir os Proms em directo.
Lisboa, Jardim da Estrela
Não fosse a sede e ficava sem saber que este continua a ser um dos mais bonitos parêntesis da cidade.
O Meu Porta-Portátil
tem este boneco, feito por estes señores. Comprei-o em Lisboa perto da Primavera, ainda em rebajas, mas faltava-lhe qualquer coisa. Só ao fim de um tempo percebi que as puertas estavam por preencher. Como isso não podia ser, num dia mais alfanumérico peguei numa daquelas canetas foleiras de assinar fitas de curso e aí foi disto. quarta-feira, 21 de julho de 2010
Ainda Não Lhe Dei uma Dentada
, mas o sabonete de morango da Confiança cheira precisamente ao mesmo que sabem os Sugus do dito fruto.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Cabaret Voltaire
Nos blogues que vou lendo a crise é um conceito mais ou menos médico. São discutidos sintomas, responsáveis, tratamentos a curto e médio prazo, disputadas estatísticas, comentadas anamneses mediáticas. Quando muito alguém alude ao caso de um amigo de um amigo em dificuldades, pouco mais. Pois saiba-se que quanto a isto de falar da própria manta a encurtar, para aqueles a quem a crise tocou cedo o parecer é de que somos muito modernos muito modernos mas sofremos do mesmo embaraço que os antigos.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Um calor andaluz
El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Federico García Lorca
domingo, 4 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
Fondant
-se, isto de até num país de bons costumes culinários a pastelaria semi-industrial se ter rendido à produção em cores e formas pelas quais a Natureza não se responsabiliza dá cabo da gula.
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