a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Pagar a Conta


Ainda bem que a canção se popularizou (nunca fui dos que vibram quando dão por que os outros ainda não conhecem o que eu ). Eis tele-coisa de José Pinheiro, insuspeito mínimo denominador comum, uma vez mais. Muito adequada às momices antiteresaterminassianas destes dias, não?  

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Queluz, Largo do Palácio


O rapaz que é chamado ao altar flecte um braço em saudação e  estende o outro sobre as bandeiras. Promete dar do que recebeu e não espera  recompensa. Ouvem-no os que com ele aprendem e os que o ensinaram, como eu. E festejam. O futuro e o passado só são reais assim, quando o presente os encarna.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Que Fazer ao Que nos Contam? (16)

A septuagenária que convidamos para a mesa cora, acanhada. Não foi bonita, não o é agora. É, isso sim,  uma das  faces do bom que o presente traz: tão poucos sobram que o que antes eram deixou de importar. A filha do ferreiro está como a do presidente, a neta do médico é mulher do filho do filho de um jornaleiro,  a sobrinha da dos maus favores conta histórias à afilhada mais nova do vigário. Aquela, a que se junta a nós para o café, lembra o tempo em que o feitor pagava a um dos sacristães para adiantar o romper das avé-marias e atrasar o pôr das trindades um bom quarto de hora. Não chega a chorar, explica que não havia quem se pudesse dar ao luxo de os justiçar, aos fracos, como quem perdoa.

domingo, 31 de outubro de 2010

Ana Nim, Ana Não

Que é que esperavas, anjinho, um tem-te-não-caias? Amor às singularidades de uma rapariga moira? Vontade de liquefazer fé no que dizes? Como se valesses isso, quanto mais.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Nodos do Ofício

Li,/podei,/contei,/enchi carrinhos de mão,/ temi,/tremi,/ escrevi uma lua de Plutão.

Abrantes, Central de Camionagem

Nada como dantes. Há duas latrinas do lado das meninas, uma tem quatro seringas de roda do vaso de natureza e outra tem falta de papel. A viagem faz-se. À chegada  há aquela rapariga de caracóis compridos e castanhos, ainda limpa, quase normal, fazendo de conta que pede as moedas em falta para o bilhete. No metro azul vão os turistas urbanos, os miúdos do Técnico, as velhotas sem medo do anoitecer. Penso na luz de Ruiz, no tempo lento, e faço um esforço por respirar.    

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Ne laissez pas passer

E o que para alguns se adivinhava desrespeito institucional, piada anti-sistémica, tarefa de programa, não o foi. A dado momento a indignação provoca-lhe comichão e a máscara cai, fica só o cristão, um homem a citar Mateus.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Comboio, Queluz / Monte Abraão

Barras de cereais, soro fisiológico, papel de cozinha, muito lixo na linha, aspirantes da escola prática às voltas ao pelado, leite meio-gordo, uma mulher a falar muito alto ao telemóvel ao meu lado, várias raparigas de chinelos (não terão frio?), um gandulo muito magro a escorregar por entre os braços de dois picas, uma beringela, ou então cogumelos.      

"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XXI

Nicolas Duvauchelle, devoto do Paris Saint-Germain.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Não Se Zanguem com Ela



Por este sol de Outono ainda não se paga imposto, caraças.

[Margarida Pinto, mais canções que a malta precisa.]

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Em obras

O edifício ainda está em obras, daí a forte corrente de ar. Os andaimes separam a assembleia do altar-mor e a padroeira ladeia provisoriamente o baptistério. É a última missa do dia. A nova evangelização tem trazido alguns padres indianos bastante jovens e circunspectos, como este. Preparam a homilia com cuidado (não confundem improviso com espírito santo em acção). O domínio da língua é frágil. Para os que ali vão por ir, esse é o novo pretexto para o habitual alheamento; para os outros, a dificuldade apurará a audição.     

domingo, 17 de outubro de 2010

Freud Complica

Continuo a ser a pessoa que conheço com o mais estrambólico e embaraçoso reportório de actos falhados.

sábado, 16 de outubro de 2010

Wee Hours

De-sem-querer, uma rapariga ofereceu fruta e a interpretação foi inadivertidamente bíblica. Que falta de intuição.

Lisboa, Estrada de Benfica

Apetece celebrar baixinho: miúdos com vontade de aprender, professores ansiosos para ensinar,  nenhum  embaraço em segunda  mão - que viva o amanhã à vista. 

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Ai

, o caraças, mais um 'incontornável' e gromito-me.   

terça-feira, 12 de outubro de 2010

"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XX

Ashraf Barhom, o galileu. [Que ontem na têvê repetiu O Reino, sim.]

Queluz, Rua Óscar Monteiro Torres

A dureza dos dias lê-se
nos clientes que teimam 
em entrar: 
há vermutes ao quarto para as 
dez da manhã, 
cervejas pelo
meio-dia, 
bagaços pouco depois 
de almoçar. 
O semblante geral diz 
pouca fruta, fracos legumes, 
nenhum passear. 
Chega o Rocha
timbre leve em 
carranca já salgada, 
quase Adamastor. 
Ao  balcão os cumprimentos 
são sinceros,  
tudo segue em rodadas, 
há tremoços, 
tabaco,
licor - 
um claro prenúncio 
de segundas-feiras
sem valor.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXVIII

Escrevo e guardo algum e-mail como quem estima cartas de papel, por isso aflige-me quem prenuncia a decadência epistolar.

domingo, 3 de outubro de 2010

Encontrei aquela que deve ser a gralha mais bonita do ano na reedição de Requiem para D.Quixote. Lá pelas páginas setenta, setenta e um, logo no início do décimo capítulo, Peter Maynard faz uma investida exploratória sobre certo bar de má reputação de maneira a dar início ao fim de um problema. Entre  outros instrumentos de protecção e despiste, leva consigo ósculos escuros.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Sintra, Avenida Doutor Desidério Cambournac

O palacete tinha a cara destratada e não era centro cultural, era a  repartição de finanças. O mercado ocupava bastante espaço. A circulação não era fácil. Não se podia passear assim à vontade pela Estefânia por causa dos carros para a Vila, e a Portela não só parecia como ficava mesmo mais longe. Tudo era menos polido, menos pintado, menos ordeiro. Menos cénico. 

domingo, 26 de setembro de 2010

Capicua

 Resumindo: alguma coisa vivida e muita mais por viver.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Não-Ficção

é a categoria menos explicativa que alguém pôs em uso desde a criação da prateleira Diversos.  

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O Que Há em Dois Nomes?

De conto cantado/ assusta-poltrões/ a fita-pepita/ de amor curador,/ muita coisa.
La communication est plus rare que le bonheur, plus fragile que la beauté.
Emmanuel Mounier (1905-1950)

sábado, 18 de setembro de 2010

Ano VII

Há um par de dias este blogue fez meia dúzia de anos.  Não sei o que isso quer dizer. Alguma coisa terá mudado entretanto, mas não o essencial: anda por aí uma malta que gosta de ler, escrever e contar, e que não se cansa da monda. O meu entusiasmo, canhestro, mantém-se, e a vontade de aprender fazendo também. Nas mais das vezes penso que não me faço entender,  mas é como digo - continuarei a tentar.       

Alvorada

Nos últimos anos do liceu, quando o acordar se começou a tornar quase tão difícil quanto o adormecer, Daphnis et Chloé oferecia um começo melhor. Ouvia repetidamente a segunda suite desse cd achado sem grande procura, em colecção familiar, e o dia era mais prometedor. O  Pregão - e nele a voz  de um sul  quase perdido que é a de Francisco de Ribeiro - tenho-o por uma das poucas criações a par.   

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

O Agente de Autoridade


Surpreende-me que Damian Young continue a ser um Richard Jenkins por reconhecer. Provas dadas não faltam.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXVII

Há por cá algum provedor de tradução e legendagem? Porque é que, desde que me lembro, b#tch se transforma em cabra quando cruza a fronteira do linguajar?

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Cinzento Temporão


Custou, sim, mas mais custava um preto e branco tão pesado, prematuro.        

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Moorland Music

La Bush é grande, Francisco, mas há é que erguer o panamá ao Sakamoto  - que musicou o filme sem lhe ficar atrás.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Uma mão cheia de ternura

Repete comigo

, inexpressão é contenção, não ausência do que for. Agora escreve cem vezes.

Prova de Vida

E mesmo que não queira, a gente aprende que ser frágil não é o mesmo que ser fraca, que não há confusão possível entre amargura e frustração, sorriso e alegria. Há que honrar a estrema de cada emoção.

domingo, 29 de agosto de 2010

Ericeira, Calçada da Baleia

Parecem-me tão felizes, estas famílias que não querem dar a tarde por acabada. Gosto sobretudo dos grandes que dão corda aos mais pequenos, livres, esquecidos da hora de jantar. Devíamos poder recordar cada grão disto, das brincadeiras ao sol, do tempo em que tudo acontece muito devagar.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Buarcos, Avenida Infante Dom Pedro

O céu ainda está um pouco carregado. As poucas pessoas que apertam o passo não vão em fato de treino, vão em fato de missa. Um caminhante de fora, com ar de quem não quer parar, aposta com a mulher que é capaz de achar o lugar onde petiscaram na lua-de-mel. Ela duvida, enquanto se senta para descansar. Quarenta anos é tempo. Ele segue em frente com um até já. Uma hora depois reaparece à curva, cenho aberto. O Teimoso continua lá.  

Só Mais Cinco Minutos

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Números Redondos

Mil e quinhentos garatujos certos sobre o trânsito dos dias num dia em trânsito é coisa bem apropositada. A ver se a circulatura deste quadrado resulta num presente de corpo mais assim.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Grátis

Oferece-se ideia a quem quiser criar um blogue e andar faltado de leitmotiv: publicar um digesto dos mais primorosos comentários às notícias e crónicas da versão em linha do Público. Já passei por outros jornais e canais, mas a flor do labrunheiro só cresce ali. É ler e soluçar por mais.    

quinta-feira, 22 de julho de 2010

A Estranha Vida do Condutor Antena

Viaduto Duarte Pacheco, 21:48h. Nunca tinha apanhado isto completamente cortado, nem  um tal aparato de polícia em passo de corrida. Só que - como diz aqueloutro senhor - está tudo bem, porque a Antena 2 anda a transmitir os Proms em directo.

Lisboa, Jardim da Estrela

Não fosse a sede e ficava sem saber que este continua a ser um dos mais bonitos parêntesis da cidade.

O Meu Porta-Portátil

tem este boneco, feito por estes señores. Comprei-o em Lisboa perto da Primavera, ainda em rebajas, mas faltava-lhe qualquer coisa. Só ao fim de um tempo percebi que as puertas estavam por preencher. Como isso não podia ser, num dia mais alfanumérico peguei numa daquelas canetas foleiras de assinar fitas de curso e aí foi disto.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Ainda Não Lhe Dei uma Dentada

, mas o sabonete de morango da Confiança cheira precisamente ao mesmo que sabem os Sugus do dito fruto. 

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Cabaret Voltaire

Nos blogues que vou lendo a crise é um conceito mais ou menos médico. São discutidos sintomas, responsáveis, tratamentos a curto e médio prazo, disputadas estatísticas, comentadas anamneses mediáticas. Quando muito alguém alude ao caso de um amigo de um amigo em dificuldades, pouco mais. Pois  saiba-se que quanto a isto de falar da própria manta a encurtar, para aqueles a quem a crise tocou cedo o parecer é de que somos muito modernos muito modernos mas sofremos do mesmo embaraço que os antigos.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Um calor andaluz

El aire es inmortal. La piedra inerte
ni conoce la sombra ni la evita.
Federico García Lorca

domingo, 4 de julho de 2010

Frases Fresas, I

Raramente acerto no que quem cala quer dizer. Isto quando o chego saber.

sábado, 3 de julho de 2010

Fondant

-se, isto de até num país de bons costumes culinários a pastelaria semi-industrial se ter rendido à produção em cores e formas pelas quais a Natureza não se responsabiliza dá cabo da gula.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Don't Be Discouraged


[Cyndi Lauper, True Colors, or.1986.]

Massamá, Terreiro da Rua António Aleixo

São Pedro era a porta das férias grandes, por isso uns iam buscar alcachofras à colina, outros arranjar lume, outros jornais e tábuas boas para arder. A rua direita ainda tinha quase todas as casas de veraneio, o chafariz longas filas, os baldios pasto para ovelhas. O estaleiro de tijolo e ferro forjado crescia, e nós com ele. Antes do anoitecer um ou mais pais ajudavam a atear a fogueira, depois era ver quem queria mesmo saltar. Quase todos conseguíamos. A princípio de lado, a medo, mas pouco a pouco querendo mais, ganhando força na disputa, melhorando o arco até chamuscar. Recordo esses começos de Verão assim, de flores acesas.   

sexta-feira, 25 de junho de 2010

If you don't know the kind of person I am
and I don't know the kind of person you are
a pattern that others made may prevail in the world
and following the wrong god home we may miss our star.


For there is many a small betrayal in the mind,
a shrug that lets the fragile sequence break
sending with shouts the horrible errors of childhood
storming out to play through the broken dyke.


And as elephants parade holding each elephant's tail,
but if one wanders the circus won't find the park,
I call it cruel and maybe the root of all cruelty
to know what occurs but not recognize the fact.


And so I appeal to a voice, to something shadowy,
a remote important region in all who talk:
though we could fool each other, we should consider--
lest the parade of our mutual life get lost in the dark.


For it is important that awake people be awake,
or a breaking line may discourage them back to sleep;
the signals we give--yes or no, or maybe--
should be clear: the darkness around us is deep.
William E. Stafford (1914-1993), A Ritual to Read to Each Other.

terça-feira, 22 de junho de 2010

sábado, 19 de junho de 2010

Fixe

, acabou-se o ressacanço - no lugar da anterior livraria abriu outra.

Lisboa, Travessa da Cara

A próxima pessoa que frente à minha alcunhar o amor de invenção leva uma cabeçada.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Wee Hours

Um passo claro, decidido - aí está o que mais custa a quem  foi ensinado a esperar. São séculos disto gravados em nós, mesmo as mais temerárias e alforriadas.

Vuvuzelotas

Tenho dois vizinhos sub-10 que se têm empenhado bastante a cornetear à janela, ao final da tarde. Jogar futebol ao som de uma espécie de colmeal deve ser pior, ainda assim.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Fluctuat Nec Mergitur

Os sábios latinos plantaram a raiz da palavra desastre porque queriam dar nome ao estilhaçar das estrelas. Tinham-no por augúrio de provação, temiam-no. O sentido resistiu bem aos séculos. Ainda hoje baptizamos dessa maneira qualquer fenómeno natural que traga consequências pesadas para a vida humana. Um desastre é um fenómeno connosco a bordo, sim.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Down There By The Train


[or. T. Waits, cover de J. Cash]

domingo, 6 de junho de 2010

Barreiro, Travessa do Bocage

O acre das chaminés da companhia sentia-se ainda antes de começarmos a descer a avenida dos fuzileiros. Íamos quase sempre contentes por causa das correrias, dos legos, dos jogos de tabuleiro. Os tios ainda eram todos. Elas de cabelo ripado, eles de bigode, tão novos.  De regresso encolhia-me muito sem conseguir olhar o rio, cheia de medo de cairmos por causa daquela série onde a ponte igual à nossa era atingida  por um terramoto. Episódio após episódio os sobreviventes tentavam continuar a sê-lo, mas a estrutura mexia e o socorro tardava. Só me sentia segura do lado de cá, pouco antes dos Cabos d'Ávila.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXVI

Modismos de linguagem. Agora é esta mania macaca de começar tudo o que é dito e escrito pelo predicado em infinitivo impessoal. Fica a criatura que presta atenção convencida de que chegou a meio da conversa de não sabe quem.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Sombra e Sol

Em sonhos, como em pesadelos (desde cedo igualmente habituais), continuo a não dar por mudanças de luz. O movimento dos que neles aparecem acontece sob um céu de gravura, fixo. Daí que, na realidade, cada vez mais procure sombra e sol, mais sinta essa falta. 

quarta-feira, 2 de junho de 2010

[Edward Hopper, Room in New York, 1932]
O vestido dela diz que o tempo está ameno, ele está tisnado como um vendedor, mas isso não chega para explicar o rubor quase rockwelliano que ela desvia rodando metade de si em direcção ao piano, muito menos a tensão na fronte dele, o arquejar do tronco, coisas de quem não lê distendidamente o jornal. Nisto não vejo rescaldo. Vejo algo por acontecer.  

terça-feira, 1 de junho de 2010

Wee Hours

Desta malta filmada por Warhol já só resta meia dúzia. Os rapazes parecem quase todos saídos dos livros da Susan Hinton. Pergunto-me se também terão decorado poemas do Frost.   

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Lisboa, Avenida Duque de Loulé

Até um integrista afectivo tem venetas de pura insensibilidade. Falavam-lhe de uma carta-aberta de amor e o seu único comentário ia para os erros de português.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Gentílico

Perguntam de onde sou e ainda hesito. Acabo por dizer o sítio onde moro, sem grande convicção. Verdade seria responder que cresci neste lado do Tejo e nasci no outro, e que o meu sangue é todo Zêzere. Mas para quem tem rios por terras não há gentílico.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXVI

Qual o melhor cumprimento a oferecer, em circunstância mundana ou quotidiana, a alguém com quem se falou em ocasião anterior mas com quem não se está à-vontade? É que por acanhamento continuo a oscilar indiscriminadamente entre: 
a) meio-sorriso
b) sorriso
c) sorriso & aceno
d) sorriso, aceno & olá audível
e) olá audível & par de beijinhos
f) nenhum (se acho que não serei reconhecida)

Assim em termos de bom senso, há uma regra geral para isto?

Estas pequenas/grandes coisas dão-me cabo do juízo.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Queluz, Rua Laura Alves

Gostava de saber onde pára o bokken da casa que fomos, relíquia de um tempo de práticas marciais-fraternais no Atlético.

Nessa altura contava com melhores reflexos. Depois cresci, convenci-me de que a intuição e outros instintos de base eram de somenos. Não são. Como diria Nobutadatoo many mind, paulada. É aguentar. E fazer por aprender com isso.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Pedro


Prefiro este Pedro, de autor desconhecido, àquele que lhe serviu de inspiração, o de Theotokópoulos. É mais límpida a sua expressão de fragilidade, consciência e expectativa. Hoje como ontem, um  dos que se lhe seguiram e os que de boa vontade o querem ouvir vivem não menos essa condição. Por mim é mais que bem-vindo. 

Wee Hours

Estive muito tempo sem ir ao teatro. Concluo que continuo sem reconhecer as mulheres que os homens de hoje contam. Mulheres que sabem o que querem e o requerem metalicamente. Que mudam muitas vezes de ideias sobre o amor. Que não esperam perguntas ou iniciativas - que não esperam, simplesmente. Não reconheço nada disto. Não me reconheço, quero dizer.   

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Foot Notes

Mamma e demais benfiquistas que ocupam o meu coração, parabéns. Acho que os vossos confrades  emporcalhadores do Estádio do Marquês de Pombal (jornalista calvo da RTP do qual não recordo o nome dixit) deveriam ser intimados a limpar as bermas do IC-19, da CREL e da A-1 durante um bom mês. Aqueles que na vez de ficarem felizes por terem ganho rejubilaram por terem visto os seus adversários perder, idem. Folguei em saber que o acesso à 2ª Circular esteve cortado no sentido de lá para cá (Nuno Luz, da SIC, esbracejando dixit) e que ainda assim não houve problemas de monta. 


Ah, sim, é verdade: Spooooooorting.

domingo, 2 de maio de 2010

Por Falar em «Cameos»

, aqui está um de que sou fiel depositária. A base coral é índica, o engaste moçambicano, o Apolo itálico. Legado materno, nem mais. Por ti hoje (uma vez não são vezes) até torço pelo Benfica, mãe.

Roger Dodger

Quase todos inscritos a baixo-relevo como manda o costume, estes cameos de Hitchcock. Tenho um fraco bem forte por rubricas auto-irónicas.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Bisel

Sempre tem havido algum miúdo a ensaiar flauta de maneira a que se oiça aqui. Por razão que desconheço, a repetição insegura mas teimosa de cada nota causa-me o oposto do desconforto. Há uma semente de beleza naquela insistência infantil, e isso é tão frágil quanto precioso.  

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Come What May

Survival of the Sweetest

Nas traseiras sofrivelmente ajardinadas cá do quarteirão têm-se repetido estranhas  cenas de luta. Para escândalo das decanas - nada dadas ao desperdício - três ou quatro vizinhas passaram a praticar o lançamento do pão a partir das respectivas janelas, seguido do relato minuto-a-minuto da prestação da passarada. Os pardais, mais pequenos e cantantes que os outros, são claramente favoritos. Não apenas lhes destinam diminutivos e adjectivos carinhosos como lhes garantem protecção dos pombos, que  fazem dois de cada um, tangendo cordas de roupa e batendo palmas para os afastar. Os pardais nem querem acreditar.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Charles by Frances


Chaplin compôs este lied para o último dos seus filmes mudos, Modern Times (1936). Quase trinta anos depois, com cerca de quarenta anos de idade, já muito frágil, Garland ofereceu no seu programa uma interpretação assim. Só soube dela outros quarenta mais tarde, em busca de uma centelha acesa por Angeline Ball em certo bildungsfilm.

Néerlandais du XVIIIème Siècle

Nós

De maneira mais ou menos explícita uso muitas vezes a primeira pessoa do plural. Insólito não é usá-la, mas fazê-lo presumindo que conheço e devo aceitar um pensamento que não é exactamente o meu. Como se  à  partida votasse vencida.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Sempre na Vanguarda

A primeira ocasião em que me chamaram antiquada tinha onze anos.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Teremos, Não

A pessoa do plural perde sentido quando penso que o penso assim.

Fisiologia Bíblica

Um exegeta recordou-me ontem algo que aprendi há quase quinze anos, numa lição de Pré-Clássicas.  Nos textos camito-semíticos coração não é mais sinónimo de emoção que de consciência. Diz-se coração para dizer desejo, paixão, mas também discernimento, saber. Quando teremos deixado de o pensar assim?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Plantas

Bichos

Há algum tempo que não tinha um pesadelo destes, dos de acordar de cabelo emaranhado de tanto transpirar. Cobras grandes e pequenas, cobras por todo o lado. Eu a fugir-lhes, depois a enfrentá-las, a ser mordida e a tentar escapar. Nem Freud nem Jung, acho. Talvez a cria que matámos noutro dia na aldeia, debaixo do alpendre, muito perto da porta da cozinha. Ou então o quadro pintado por Salisbury Field sobre a Criação, que escolhi para ilustrar um post noutro sítio. Pela página do Museu de Belas Artes de Boston fiquei a saber que só há umas décadas, depois do restauro, voltou a ser como era. Uma parenta e herdeira de Field tinha entretanto achado Eva e a Serpente tão indecentes que mandou não sei quem pintar por cima delas uns arbustos.

Aranhas também me fazem alguma confusão. Tantos anos de campo e ainda sou esta florzita de estufa, caraças.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Uma das expressões mais equívocas que conheço é aquela em que se diz que alguém está ou esteve à frente do seu tempo. Não sei se quem a usa não compreende a natureza do tempo, se a natureza humana.

Ladainha de Primavera

Estou cá um batoque, valha-me Deus.

Cascais, Avenida de Nossa Senhora do Cabo

Andámos mais uns bons quilómetros que os de costume, tais eram as saudades de sol e ar salgado. Fim de feriado em família, quase nenhum turista, só alguns ciclistas e rollerskaters, mais uma ou outra senhora passeando cão de pedigree adequado ao seu. Com a Guia à vista, um, dois, três, quatro, cinco carros a encostar. Gente a sair deles, a formar pequenos grupos. Pescadores não, não assim vestidos. Acidente também não, sem estrondo nem vidros espalhados. Mas várias pessoas caladas, aparentemente tensas, limpando os olhos. Só as entendi ao olhar em direcção ao mar, perto do qual um senhor de certa idade lançava uma nuvem de cinza. Seguimos em silêncio o resto do caminho. Ninguém espera testemunhar morte no dia da vitória sobre ela. Assim é a vida.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Lisboa, Avenida da Índia

Daqui mesmo, nesta perspectiva, a câmara de F. Carneiro Mendes captou há setenta anos o Pavilhão dos Portugueses no Mundo. Que hoje lhe suceda um  pavilhão do mundo nos portugueses, isso faz-me sentir mais dele.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Massamá, Praceta João de Deus

Das dez às dez dos últimos vinte anos a livraria do shopping esteve sempre aberta. Tanto nas calmas como em recurso, sabíamos ter à distância de uma caminhada as últimas novidades, os  clássicos, os gibis, uma secção de poesia bastante decente, para além do mais recente recanto de alfarrábio. Fui em regra atendida por gente competente e porreira, como esta que entretanto criou coisa sua. Nada sei do que se passou na Clepsidra, antes Teorema, filha de filho de gente das letras. Mas que sem ela  o burgo fica mais cinzento, isso sei.

"Só Achas Graça aos Esquisitos, Pá!" XIX

Trevor Eve. De Eddie Shoestring a Peter Boyd, better by the day.

sábado, 13 de março de 2010

Inverno na Devesa (2)

Aproveito e vou adiantando as pratas. A menina, digo, a senhora e o senhor doutor passaram a receber aos serões de segunda, por isso o dia santo ganhou serviço dobrado.  Sei que não me devo queixar. Ela é muito boa  comigo; não grita, nunca que me deu um bofetão. Outra rapariga de dentro que diga isto cá na vila, não conheço. Faço o meu domingo à terça, paciência. O vento não acalma. A chuva, um pouco. Parece-me que vêm a chegar.        

Strange Days

Nunca tinha ficado mal-disposta com uma caneca de chocolate. Antigamente uma dose destas ajudaria, agora nem pensar; dá nisto, ensinar ao corpo que os males não podem ser empurrados com doces  garganta abaixo. O problema não foi a caneca, foi o tacho de em dois dias ficar a saber de dois conhecidos que  afinal não o  eram. Por que razão presumimos saber quem são as pessoas com quem nos cruzamos durante anos, com quem partilhamos o passeio, o caminho da escola, a paragem, o café? Por que dariam  a  perversidade ou a canalhice sinais exteriores de vileza?             

sexta-feira, 12 de março de 2010

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXV

Não deveria haver um sartorialist ou um face hunter que postasse fotos das elegantes não-estrelas que cruzam as passadeiras de prémios?

terça-feira, 9 de março de 2010

Davam Longos Passeios

Enquanto planeava a viagem Riba Douro lembrava a conversa com os miúdos de Gondomar. É estranho e um bocado triste, mas certo que por cá a malta de dezanoves e vintes não alinha em palrações com desconhecidos. Quem é mais velho ou mais novo encontra-os à mesa muito monos, empacados no telemóvel, mais nada. Já aqueles, da festa das nozes à tipologia guna à produção de nabos, não tiveram descanso. Gente muito porreira, pensou.

segunda-feira, 8 de março de 2010

As Quatro Marias

Pois eu senti nenhumas. Em mim, a leitura das três primeiras resultou em respeito pela quarta. Mais até, em consideração. Deve ser sangue que vem de trás, fervente à burguesa sobranceria. Quem apouca esta Maria não entende as mulheres do meu país, incluindo a que me teve.  Não foi  criança inviável, não perdeu ilusões cedo, não contou com a bondade de quase-estranhos, não teve de calar ao gerente que o leite estava azedo, não sorriu, infantil, à boa fortuna. A Lamas vos diria.

Nota da Redacção em 10.03.10: Os  posts fêmeos, parece tornar-se regra, são aqueles em que  mais mal entendida sou. Ou pior me explico. Ou as duas coisas. Em caso de dúvida (e em atenção às oito ou nove pessoas que aqui vêm  sem ser por acidente) aqui fica a  transcrição dos dois comentários em caixa.


Anónimo disse...
O entroncamento - alguma coisa escapará - parece-me infeliz. Ferem as personagens, o objecto e o contraste - para quê?

Rejeição literária à parte, as três iam mesmo dentro não fora o 25/4. Que se saiba, a outra e a senhora sua mãe nunca a tal se expuseram.

Não será o suficiente para a consideração (política, literária, a que bem entender chamar à colação) mas basta para o respeito. Aquele que a senhora e todos nós lhes devemos; aquele sobre o qual a senhora passa ligeira.

A indignação firme terá com certeza melhor dia aqui.


Cláudia [ACV] disse...
Fere quem!? Tresleu e muito, anónimo(a). A clareza não será o meu maior predicado, por isso repetirei, sintetizando: depreciar a vida e postura da quarta a partir da evocação das três primeiras é paradoxal, para além de mesquinho.

Conheço e admiro (ao contrário do que insinua, e bem mais do que possa calcular) as Cartas (e várias outras obras de duas das três, em particular de MVdC), como conheço os contornos do processo judicial a que alude. A indignação nasce, precisamente, em reacção a um olhar superficial, desatento, pois há um evidente nexo entre a coragem literária (e cívica) das primeiras e a coragem vivencial das segundas. As Marias que são a 'outra' e a 'senhora minha mãe' expuseram-se não à cadeia, mas à superação do muito que subjaz ao epistolário das Três. Não estão, nunca estiveram verdadeiramente nos antípodas umas das outras. Não lhe parece que aquela Maria que refiro no final, a Lamas, deixou isto claro, no modo como escreveu o que escreveu há sessenta anos? Acha mesmo que a uma mulher que no Lindoso ou na Erra fazia por ter melhores condições de vida, faltou real coragem e consciência da sua condição?

O desconhecimento da 'mulher comum', o desgosto manifestado pela sua mobilidade, o apoucamento do seu viver a partir da rejeição do seu penteado, dos seus maneirismos, do seu estar, isso sim é ligeireza.
 

quinta-feira, 4 de março de 2010

Queluz, Adro da Igreja Paroquial


Por falar em sacramentos, recordo-me bem do da Eucaristia. O sol estava forte à hora da fotografia. Foi na Primavera da entrada na CEE, em tempo do padre Alberto Teixeira Dias, homem verdadeiramente ocupado em transmitir à comunidade o fundamental - ouvir, ler e interpelar os Livros, alimentar a vida do espírito com alegria e em partilha. As externalidades e os formalismos não encontravam nele grande guardião. Sugeria vagamente o branco e o azul quando algum pai fazia a protocolar pergunta da fatiota, o que nos deixava  entusiasmante margem criativa.Que ela se tenha traduzido neste ensemble evocativo de Armando Gama, isso já não sei como foi.

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Wee Hours

No meu mundo há cada vez menos casais, cada vez menos casamentos, e cada vez menos cristãos com cada vez menos filhos. Por isso, muito poucos baptismos. Daí a alegria neste dia tão cinzento e quaresmal. Bem-vinda, pequena M.




[Pormenor de retrato da família Walichsdr por Jan Claesz, 1602]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Lisboa, Rua de Dona Estefânia

Saí a horas, por isso despreocupei-me do lugar. À primeira não acertei. Com o jeito habitual, bati com o joelho na máquina de parquear. Desci a rua a correr, e com o latejar veio o Rohmer. Não o da Aurora, o do Jerôme, o da Claire. O do Jean-Louis. Primeiro à mesa, a comer, com os outros dois e o Pascal. No essencial, a decidir-se entre esta e outra mulher. Ali ouvi pela primeira vez falar des pechés contre l'espoir. E antes do fim da tarde deixou de doer.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Na Estrada

Por causa do Carnaval falava-se com um tio da direcção do recreativo, um compadre bombeiro, um avô fiel da casa do povo, uma madrinha governanta de anexo paroquial. Toda a gente tinha gente numa terra que não esta. Havia que haver tecto, pouco mais. Sabíamos que dirigentes e caminheiros em comissão de serviço manteriam o segredo possível, mas tentávamos sempre descobrir o local. As cartas topográficas que a pouco e pouco nos fariam chegar eram fotocopiadas dos originais há muito guardados na secretaria, a não ser que fossem de um lugar onde não tinha ainda havido actividade, e aí eram cravadas a algum militar benemérito ou compradas ao exército. Faziam-nos bater e rebater a orientação, e entretanto acertavam o orçamento, os percursos para as diferentes secções, os temas, os códigos, e nós em apostas de norte ou sul. Finalmente chegava o dia. Partíamos de comboio ou camioneta até ao sítio inicial. E então estávamos por nós, éramos donos do caminho. Contávamos apenas com um mais velho à distância de metros, testemunha quase sempre silenciosa dos acertos e enganos de quilómetros. Foi assim que aprendemos o país. Ao frio de Fevereiro, a passo incerto e enlameado, por entre subidas, silvas, cães vadios. Passando por gente que não nos conhecia mas nos desejava bom dia. Sob muita chuva, lenços a desbotar, alguma cantoria, corridas mata-cavalos para salvar pontos. Tralhos aparatosos, quase sempre nas descidas. Uns ainda maçaricos, engasgados em saudades de casa, outros já guias, disfarçando febres para não deixar a patrulha perder. E o chaço a passar com os coxos, a abrandar para ver se estávamos bem. O Chefe a sorrir, solene. De noite a espera pelos mais atrasados, o banho à vez, os curativos, a futebolada dos que nunca deixavam o monco cair. O esparguete, sempre o esparguete. As máscaras. De madrugada o cerco à calhauzada pelos foliões locais, que nos achavam miudagem rica da cidade, malta que lavava a cara com água morna. No último dia havia o frio na barriga, a ordem de serviço, as promessas, o corredor. E o regresso, o sono pesado no corpo moído, os sonhos de ainda estarmos todos na estrada. De vez em quando volto a sonhar connosco, e ainda estamos todos na estrada.

Inverno na Devesa (1)

Chovem água fria e pedra miúda, sem romance de neve. Uma das cameleiras velhas da borda do terreiro tombou há pouco. O nordeste está que baste para tanger o mastro da escola. Quase não se vê gente. Por ora uns estão na missa do dia, outros a fazer tempo na venda. Mais hora e meia e regressarão a casa muito láparos, a ver do almoço.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010