Sempre tem havido algum miúdo a ensaiar flauta de maneira a que se oiça aqui. Por razão que desconheço, a repetição insegura mas teimosa de cada nota causa-me o oposto do desconforto. Há uma semente de beleza naquela insistência infantil, e isso é tão frágil quanto precioso.
sexta-feira, 30 de abril de 2010
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Survival of the Sweetest
Nas traseiras sofrivelmente ajardinadas cá do quarteirão têm-se repetido estranhas cenas de luta. Para escândalo das decanas - nada dadas ao desperdício - três ou quatro vizinhas passaram a praticar o lançamento do pão a partir das respectivas janelas, seguido do relato minuto-a-minuto da prestação da passarada. Os pardais, mais pequenos e cantantes que os outros, são claramente favoritos. Não apenas lhes destinam diminutivos e adjectivos carinhosos como lhes garantem protecção dos pombos, que fazem dois de cada um, tangendo cordas de roupa e batendo palmas para os afastar. Os pardais nem querem acreditar.
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Charles by Frances
Chaplin compôs este lied para o último dos seus filmes mudos, Modern Times (1936). Quase trinta anos depois, com cerca de quarenta anos de idade, já muito frágil, Garland ofereceu no seu programa uma interpretação assim. Só soube dela outros quarenta mais tarde, em busca de uma centelha acesa por Angeline Ball em certo bildungsfilm.
Nós
De maneira mais ou menos explícita uso muitas vezes a primeira pessoa do plural. Insólito não é usá-la, mas fazê-lo presumindo que conheço e devo aceitar um pensamento que não é exactamente o meu. Como se à partida votasse vencida.
quinta-feira, 22 de abril de 2010
quarta-feira, 21 de abril de 2010
Fisiologia Bíblica
Um exegeta recordou-me ontem algo que aprendi há quase quinze anos, numa lição de Pré-Clássicas. Nos textos camito-semíticos coração não é mais sinónimo de emoção que de consciência. Diz-se coração para dizer desejo, paixão, mas também discernimento, saber. Quando teremos deixado de o pensar assim?
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Bichos
Há algum tempo que não tinha um pesadelo destes, dos de acordar de cabelo emaranhado de tanto transpirar. Cobras grandes e pequenas, cobras por todo o lado. Eu a fugir-lhes, depois a enfrentá-las, a ser mordida e a tentar escapar. Nem Freud nem Jung, acho. Talvez a cria que matámos noutro dia na aldeia, debaixo do alpendre, muito perto da porta da cozinha. Ou então o quadro pintado por Salisbury Field sobre a Criação, que escolhi para ilustrar um post noutro sítio. Pela página do Museu de Belas Artes de Boston fiquei a saber que só há umas décadas, depois do restauro, voltou a ser como era. Uma parenta e herdeira de Field tinha entretanto achado Eva e a Serpente tão indecentes que mandou não sei quem pintar por cima delas uns arbustos.
Aranhas também me fazem alguma confusão. Tantos anos de campo e ainda sou esta florzita de estufa, caraças.
quarta-feira, 7 de abril de 2010
Cascais, Avenida de Nossa Senhora do Cabo
Andámos mais uns bons quilómetros que os de costume, tais eram as saudades de sol e ar salgado. Fim de feriado em família, quase nenhum turista, só alguns ciclistas e rollerskaters, mais uma ou outra senhora passeando cão de pedigree adequado ao seu. Com a Guia à vista, um, dois, três, quatro, cinco carros a encostar. Gente a sair deles, a formar pequenos grupos. Pescadores não, não assim vestidos. Acidente também não, sem estrondo nem vidros espalhados. Mas várias pessoas caladas, aparentemente tensas, limpando os olhos. Só as entendi ao olhar em direcção ao mar, perto do qual um senhor de certa idade lançava uma nuvem de cinza. Seguimos em silêncio o resto do caminho. Ninguém espera testemunhar morte no dia da vitória sobre ela. Assim é a vida.
segunda-feira, 22 de março de 2010
Lisboa, Avenida da Índia
Daqui mesmo, nesta perspectiva, a câmara de F. Carneiro Mendes captou há setenta anos o Pavilhão dos Portugueses no Mundo. Que hoje lhe suceda um pavilhão do mundo nos portugueses, isso faz-me sentir mais dele.
quinta-feira, 18 de março de 2010
Massamá, Praceta João de Deus
Das dez às dez dos últimos vinte anos a livraria do shopping esteve sempre aberta. Tanto nas calmas como em recurso, sabíamos ter à distância de uma caminhada as últimas novidades, os clássicos, os gibis, uma secção de poesia bastante decente, para além do mais recente recanto de alfarrábio. Fui em regra atendida por gente competente e porreira, como esta que entretanto criou coisa sua. Nada sei do que se passou na Clepsidra, antes Teorema, filha de filho de gente das letras. Mas que sem ela o burgo fica mais cinzento, isso sei.
sábado, 13 de março de 2010
Inverno na Devesa (2)
Aproveito e vou adiantando as pratas. A menina, digo, a senhora e o senhor doutor passaram a receber aos serões de segunda, por isso o dia santo ganhou serviço dobrado. Sei que não me devo queixar. Ela é muito boa comigo; não grita, nunca que me deu um bofetão. Outra rapariga de dentro que diga isto cá na vila, não conheço. Faço o meu domingo à terça, paciência. O vento não acalma. A chuva, um pouco. Parece-me que vêm a chegar.
Strange Days
Nunca tinha ficado mal-disposta com uma caneca de chocolate. Antigamente uma dose destas ajudaria, agora nem pensar; dá nisto, ensinar ao corpo que os males não podem ser empurrados com doces garganta abaixo. O problema não foi a caneca, foi o tacho de em dois dias ficar a saber de dois conhecidos que afinal não o eram. Por que razão presumimos saber quem são as pessoas com quem nos cruzamos durante anos, com quem partilhamos o passeio, o caminho da escola, a paragem, o café? Por que dariam a perversidade ou a canalhice sinais exteriores de vileza?
sexta-feira, 12 de março de 2010
Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXV
Não deveria haver um sartorialist ou um face hunter que postasse fotos das elegantes não-estrelas que cruzam as passadeiras de prémios?
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