a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sexta-feira, 24 de abril de 2009

Amadora, Praça Dom João I

Entrei pela última vez no Lido no início da década de noventa, escapa-se-me para quê. Olho agora, a espaços, o muito pouco que sobrou do incêndio, depois contorno a rotunda que não existia quando ainda não sabia conduzir. No cine-estúdio de Antero Ferreira vi o meu primeiro filme não-animado, a Música no Coração. Na loja de música, por bom tempo a única das redondezas, pedi com o meu irmão ao meu pai os vinis que inauguraram a nossa pequenina colecção. Uma infância debruada a alumínio cru, no fundo. E elevada a património emocional como tantas outras.

[Single (ou maxi-single?) de 'We Are The World', USA for Africa, 1985. Acho que c.250$00-270$00 = aprox. 3 semanadas]

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Mr. Attitude & Little Miss Congeniality


Bem me parecia que aquela dialéctica automobilística ali debaixo me era familiar. 

[Moonlighting, 1º Episódio, 1ª Temporada ]

quarta-feira, 22 de abril de 2009

Blink, Blink

 
É tão malandrete, o piscar de olhos da Little Miss Sunshine.

domingo, 12 de abril de 2009

A flor da esteva

tem um quê totémico, sim. 

sexta-feira, 20 de março de 2009

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LXI

Querer compreender, mesmo o cabelo do senhor Jorge[.] Jesus.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Lisboa, 1979

Uma das duas séries que tenho gravado e visto, não me recordava realmente dela.
O Zé Gato, agora a comemorar trinta anos, estreou quando ainda era muito pequena. Devo ter passado mais tarde os olhos por algum episódio repetido, mas a ideia guardada sempre vinha a reboque dos episódios descritos uma e outra vez pelos amigos mais velhos, ou do trautear duradouro da canção* que só há pouco soube ser do Tozé Brito e do Jorge Palma. Do realizador, Rogério Ceitil, reconheço o nome, o mesmo que aparecia naqueles separadores azuis-claros do Duarte & Cia., uns bons anos depois. Vi apenas três de uma temporada de doze, afinal a única. O argumento, escrito por João Miguel Paulino, Pedro Franco e Dinis Machado (sim, o Dennis McShade), faz-se da vida de um PJ desencantado que tenta cumprir o seu papel na luta - bastas vezes nada figurada - contra o tráfico de droga, a prostituição e a corrupção na capital. É claro que aquilo foi feito com poucos meios, mas o essencial está lá: bons diálogos, bons actores, boa montagem. Consegue-se acreditar que o informador é um aldrabão leal, o polícia reformado um sábio com tarimba, a namorada uma mulher em permanente espera, e dá-se o desconto a alguma solenidade teatral e uma ou outra cena de porrada mal coreografada. Depois há uma Lisboa que aperta o coração, porquita do metro ao comboio, cheia de grafitos eleitorais, de lugares para estacionar, de gente magra com roupa apertada, de lotes vagos. De eu muito pequena, suponho. Não me recordava realmente dela.

*A canção está no Youtube. A resolução do clip é medonha, mas a caixa de comentários é para ler de cabo a rabo, desde o comentador que dá pelo quasi-atropelamento do Orlando Costa (aos 22 segundos) até aos três que se pegam a discutir (com dados quantitativos e tudo) que governante foi realmente responsável pela reforma insfraestrutural do país após o 25 de abril. A frase vencedora é de alguém que assina soulfox619: "Portugal precisa de muito mais Ceitil's".

Não dizer destas teclas não twittarás

, mas para já para já, dar balanço a isto.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Arma Lucis

Tão bom, este tempo de primavera apalavrada. Muito pode o sol.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Metapostagens

Noutro dia voltei com este post atrás. Ia chamar-se d'avant et d'après le déluge, ou uma coisa assim. Foi, penso, a segunda ou terceira vez que despubliquei um. Re-rascunhei-o por um receio meio tíbio, meio supersticioso, de aqui deixar esta canção tão bonita. Le Vent Nous Portera fala de como aconteça o que acontecer o que restar de nós será sempre uno e parte do que mais houver.
O ponto é que ela (aqui tocada ao vivo em Evry, em 2002) é de Bertrand Cantat, dos Noir Désir. Assombrada por uma banda de nome ominoso, de um álbum (des Visages des Figures) saído a 11 de Setembro de 2001, na voz de alguém que não muito tempo depois faria uma das piores coisas que se pode fazer. E no entanto, que diz isso tudo desta canção? Nada. Permanece a mesma, bela e desolada e verdadeira. Se calhar, só por isso mesmo assustadora.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Contra o Modo Morto de Viver

«Por um singular mecanismo interior, cujo segredo a psicanálise poderá talvez desvendar, a sociedade teima em ensinar às criancinhas exactamente o contrário daquilo que pratica, sem reparar que pode haver uma ou outra que pode levar isso tudo a sério. O pior acontece um dia quando qualquer paizinho pacato, estabelecido ou não, resolve ter com o ‘maluco' do seu filho a tal conversa de homem para homem de que andava a fugir e que lhe sai normalmente nestes termos: "Tu és um idealista e a vida não é nada disso. Não é com essas coisas em que perdes o teu tempo que vais ganhar a vida e preparar o teu futuro. Deixa-te de politiquices e literaturas, porque não é com isso que resolves os problemas que te esperam no escritório. Precisas é de tirar o teu curso, tornares-te um homem e ganhares dinheiro para poderes casar e tratar da vida."
Este tipo de conversa é extremamente grave porque podemos estar a matar em alguém a fonte duma grande vida. Hoje estou certo que, se vivemos sem assumir na sua essência a nossa condição humana, - sem participar, sem amar, sem conhecer, sem criar, sem alegria ou sem dor – se dá, na economia duma história de homem, aquilo a que se chama ‘tempo morto’, 'tempo de homem morto'.»
António Alçada Baptista, Peregrinação Interior (...), Vol.1, Cap.8, 1971.

domingo, 4 de janeiro de 2009

Queluz, Rua Nicolau Tolentino de Almeida

Andávamos muito a pé e aconteciam-nos grandes conversas sobre o que se seguiria, ânsias imaginosas acerca do futuro, do que ele poderia transportar, como se ele fosse um colega de turma a espreitar as carteiras na nossa direcção, e nós ali, sem sabermos se era para nós, a juntar forças para perguntar.

sábado, 3 de janeiro de 2009

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (15)

Um dos mais pequenos fungava baixo, à beira do lume, e o tio do meio deu por isso. Antes de tornar com os outros à eira quis saber porque estava ele tão aguado. A resposta deu azo a uma daquelas piadas repetidas por gerações. Até chegar àquela que nunca teve o muito pouco por facto da vida. Que houvera, que entretanto perdera a graça? Um miúdo a chorar num dia de malha, por não conseguir dar conta do prato de rancho melhorado.

Os moleskines têm a sua graça




; as sebentas também. Noutro dia comprei duas A5, daquelas da Firmo, um euro e meio ao todo, não mais. São de bom tamanho para os seminários e colóquios e listas do mais que fazer. Voltei a claudificá-las como no liceu, com recortes, garatujadas e protecções mais ou menos plásticas contra os solavancos-a-dias.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Die Blaue Blume

Definitivamente, o achamento que mais me afectou neste ano foi o do senhor C. S. Lewis.

"Bridge-players tell me that there must be some money on the game ‘or else people won’t take it seriously.’ Apparently it’s like that. Your bid – for God or no God, for a good God or the Cosmic Sadist, for eternal life or nonentity – will not be serious if nothing much is staked on it. And you will never discover how serious it was until the stakes are raised horribly high, until you find that you are playing not for counters or for sixpences but for every penny you have in the world. Nothing less will shake a man – or at any rate a man like me – out of his merely verbal thinking and his merely notional beliefs. He has to be knocked silly before he comes to his senses."
A Grief Observed, 1961.

Um feliz 2009 para todos vós.

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Pelos blogues, como em geral, as mulheres gostam sobretudo de ler homens. Os homens também.

Up With The Static & Radio Waves


[Stay (Faraway, So Close!), U2, 1993; Vídeo: Wim Wenders/Mark Neale]

O alt.rock do Zooropa importou-me muito, então. Volto a ele como aos filmes do Wenders, para rever a parada de uma década começada com muros deitados abaixo, outros sons e velhos tributos, novas tecnologias.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

Sentimentos Ferrodiários #8



Tenho pensamentos tão parvos

Suponho que sejam um reflexo involuntário, e que aconteçam a muitas outras pessoas (como aquele quase universal balançar do nosso próprio peso entre uma perna e o outra, quando estamos muito tempo de pé, sabem?). Por exemplo, hoje interrompi-me a pensar como é que os homens conseguem descrever as mulheres que não conhecem bem uns aos outros, tendo em conta que um dia temos caracóis, noutro somos quase ruivas, outro engordamos, noutro temos mais dez centímetros por causa dos saltos, e por aí adiante.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Reports of Reports

(…) we often have to choose between two types of reports from places like Spain or Portugal or Italy; and though they are at the very opposite extremes of the old and new, they both manage to produce this indescribable impression of being merely the reports of reports.

G.K. Chesterton [No prefácio a Afoot in Portugal, de John Gibbons (1931).]

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

Prendas Atrasadas, Prendas Adiantadas



O Costello não apareceu na série dos "esquisitos, pá!" porque não calhou, claro. Um gosto adquirido há não muito, devo dizer. Que vai para pouco, o bom convívio com a perda de uma reputação de honrosa precocidade.
[Everyday I Write The Book, Punch the Clock, 1983.]

Coisas Que Só A Mim Apoquentam LX

Penso
credo, sou bicho-do-mato mas ao menos um olá qualquer um me arranca, que malta ensimesmada.

Depois olho para o lado do balcão e vejo cara vagamente conhecida. A quem não cheguei a dispensar boa-noite.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

Planeta Nacional

Dado o rebuliço no estaleiro, um dos muitos homens verdes (jardineiros sim, marcianos não) queixa-se no bar do estorvo que o careca anda a dar. Que é cá um mono, que ninguém sabe o que fazer dele. À chegada de um encarregado nem lhe dá tempo para o café, pergunta logo se os de lá cima já sabem onde se há-de pôr o raio do careca. Só então percebo que está a fazer pouco da minha estimada cabeça de pedra. Espero que não a atirem para um esconso qualquer.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Lisboa, Beco do Castelo

Simples, a experiência emocional de um introvertido? Como um choque eléctrico, só se for. Quem está de fora dá pelas marcas de entrada e saída da corrente no corpo condutor, pouco mais. Do prazer, da vergonha, da paixão, da ira, da curiosidade, do remorso, da gratidão, a evidência apresenta-se sempre pequena e retardada. Por natureza, nada que se aproxime do processo interno, nas suas alegrias ou desolações.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Ontem Há Muito Tempo

Cursivo experimental, indeciso. Entusiasmos bastante exclamativos. Insólita reserva quanto ao masculino objecto de interesse. Anseios, preocupações e rotinas estranhamente semelhantes às de agora.

sábado, 29 de novembro de 2008

Sexta Feita

Que seja uma andada,
da desanca
pouco figurada
ao terapêutico
realinhamento do ego.
E viva
sexta feita.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Fantasia para duas cabeleireiras e uma flausina

- Aqui entre nós, acho a atitude dela uma pouca-vergonha. Ali há coisa. O Tony é um homem de família! Uma lasca, mas casado-pai-de-filhos. Quer dizer, há limites, não é?

- Também acho. Um pão, mas pronto. Se é casado é carne morta. Mais ou menos, quer-se dizer, tenho uma amiga que... bem, acho mal, pronto. Essa, para mim, passou de hipopóptima a hipopéssima.

- Ai, p'ra mim tam'ém. Uma ordinária. E gorda-badocha.

What A Wicked Game

Numa de tantas vezes lá estava, quase ridiculamente cordata a rasteira daqui, cotovelada dali, àquele tom genericamente apoucante. Em resposta, dúvida. Empatia, sorriso sem esforço. Nenhuma cólera, nenhum ressentimento. Tão nova, meu Deus. Em brevíssimo segundo de silêncio, ouvi então voz que já cá não há dizer um imprevisto a claudinha tem muito fairplay. Assim só, sem ribombâncias, muito fairplay. Muito já não tenho, querido Chefe. Passou-se o tempo. Não muito.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Encandeamento de Ideias

A dor física impõe ao desempenho de qualquer actividade (mesmo a de ler, escrever e contar) canga pesada. Por isso espanta, o rápido esquecimento dela em corpo recuperado.

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LIX

Se não fossem apoquentar tanta mas tanta mais gente, diria, claro, aqueles kapa-lines-tamanho-real da Dr.ª Grey e do Dr. Shepherd que a Fox há dias espalhou pelo metropolitano. Assim sendo, direi antes que me confunde haver tanto quem responda a quem pergunte por qualquer acontecimento com um

- Não tenho palavras para descrever

seguido de monumental bátega de adjectivos.

sábado, 1 de novembro de 2008

Não entendo quem cá não vê nada de interesse

A mim, a mais pequena leitura desencadeia contemplações entusiasmadas mas nem por isso fantasiosas: Jaime de Magalhães Lima muito jovem, a bater à porta do já velho e barbudo Tolstoi em Isnaia Poliana; Catarina de Bragança recém-chegada a Londres, um bocado intimidada, a abrir o baú das suas folhas de chá; Alexandre O’Neill debruçado sobre Nora Mitrani em certo jardim de Lisboa, fazendo um esforço considerável por se concentrar na tradução d'A Razão Ardente; Tomás Pereira em Pequim, ensinando uma longa peça musical ao intimidante imperador Kangxi; Sá da Bandeira cansado, já perto de Monção, a tentar convencer a sua soldadesca que nada ainda está perdido. Coisas assim.

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Lisboa, Rua Castilho

Em memória do C. L.
Quando digo pouco tempo ele nunca é tão pouco assim, não à escala do que cada qual tem para cá andar - vícios do ofício. A questão é que de repente [sempre de repente (mesmo quando não o é)] ele se mostra suficiente para conhecer mais alguém que se não chega a conhecer melhor.

Bolsa de Lavores

Alguém que tenha aí por casa um exemplar da última revista do Expresso para aparar o estardalhaço à petinga frita, fazia o favor de copiar a receita de salame de castanhas (do Augusto Gemelli, forze?) que lá vem aqui para a caixa de comentários? É que minha esperteza foi suficiente para a recortar de exemplar alheio, mas não chegou para que não a largasse sabe-se lá onde. Palavra que não abuso (sempre já só pareço a Katie Holmes com mais uns dez ou doze quilos).

the thin veils of Jewish women

«You mustn't show weakness
and you've got to have a tan.
But sometimes I feel like the thin veils
of Jewish women who faint
at weddings and on Yom Kippur.

You mustn't show weakness
and you've got to make a list
of all the things you can load
in a baby carriage without a baby.

This is the way things stand now:
if I pull out the stopper
after pampering myself in the bath,
I'm afraid that all of Jerusalem, and with it the whole world,
will drain out into the huge darkness.

In the daytime I lay traps for my memories
and at night I work in the Balaam Mills,
turning curse into blessing and blessing into curse.

And don't ever show weakness.
Sometimes I come crashing down inside myself
without anyone noticing. I'm like an ambulance
on two legs, hauling the patient
inside me to Last Aid
with the wailing of cry of a siren,
and people think it's ordinary speech.»
Yehuda Amichai, You Mustn't Show Weakness, c. 1986
[Ed. T. Hughes].

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Amêndoa, Rua do Pombal

Vê-se quase ninguém a uma hora assim, de semana. Esta ou aquela carrinha de distribuição, um tractor com o atrelado cheio de tojo, duas perdizes espantadas. Contra o sol fraco, que sobe à flor do alto onde novos moinhos foram plantados, há ainda menos movimento que em sentido contrário. Mais alguns quilómetros de curvas a meia vertente e chega-se a um desfiladeiro ventoso, onde a água arde e cura quase tudo.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Exmo./Exma. Sr./Sr.ª Que Encomenda as Séries Que Passam na RTP2

Mad Men, pode ser? Assim para breve?
Pretty please?

A Great Line, Indeed

Sou fã de Mrs. Emma Peel, alias Diana Rigg, ícone da modernidade, rapariga que a esta altura era mais mal paga que o cameraman da série, que foi depois Teresa Draco, desposada na Arrábida por Bond, James Bond, e mais tarde intérprete de Coward e Stoppard. Dame Rigg completou recentemente setenta verões. God bless her em estilo e saúde.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LVIII

Talões oficiais que anunciam a possibilidade de levantamento em «provavelmente 5 dias úteis», pacotes de açúcar que pesam «7/8 gramas», e assim. Bole-me com qualquer coisa, a institucionalização da incerteza.

Wien, Berggasse / London, Maresfield Gardens

Mal vi a porta do Dr. Freud fechada comecei numa lamúria, que aquilo era metáfora imerecida por quem tinha dado as voltas que tinha dado até chegar ali, e insisti no amuo enquanto tirávamos mais uma ou duas fotos de grupo, contra a fachada. Nisto um casal de sexagenários bem dispostos, acabado de descer a rua, pôs-se a ler em coro audível e retintamente norte-americano o painel de informações, e eu já prestes a um chorrilho de asneirame quando chegam à parte em que se explica ser necessário tocar à campainha para poder entrar. Metáfora era, sim - só não a que eu julgara.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Sentimentos Ferrodiários #6

Que Fazer Ao Que Nos Contam? (14)

- Então pega nos cacos - vamos ao Santo António.

Madame Alice estava visivelmente irritada. Regressara de Evian há menos de dois dias quando a criada de servir, adossada pela cozinheira, a criada de quarto e a mulher a dias, testemunhou o piparote juvenil no candeeiro Sèvres, durante o baile da menina. Nem o pó da porcelana sovada havia sido desperdiçado - havia que fazer prova. Agora, à porta daquele prédio velhíssimo e inconspícuo para os lados do Castelo, depois das voltas do chauffeur e dos silêncios da boa patroa, Lena subiria aquelas escadas estreitas rumo a uma divisão ampla, guiada por um homem de certa idade, sem traço distinto. Para seu espanto, as rimas de prateleiras justificavam o apodo: loiças, pratas e madeiras refeitas do quase nada, como novas. Duas semanas mais tarde, antes da canasta vezeira, enquanto subia a saia da mesa em bordado Madeira com alfinetes e camélias, o milagre era entregue. Como se houvesse nada.

E o que calçar

Agora foram as linhas sobre música e o que calçar. Ainda não tinha acabado de as ler, saem-se-me os dubliners das colunas do café, letra sacada ao Rushdie. Noutro dia foi o parágrafo do Conrad, o comandante a praguejar às escuras e a luz do comboio a ir abaixo por muitos segundos. Antes houve a menina do Sonho de Um Homem Ridículo a angustiar-me (muito) ao fim três dias, eu a virar a folha do jornal e a foto da Magnum com o abutre e o homem que a fotografou e não aguentou, não parou. Nem tento perceber o que isto quer dizer.

Lisboa, Rua Mário Botas

Olho para aqueles miúdos, envergonhados de contentes tanto o mal que agora é bem dizer das praxes, e lembro-me bem. Vêm cansados mas agora já se sabem os nomes, agora já têm uma história parva em comum. Rirão disto por pelo menos por três ou quatro anos, com sorte mais. Continuarão a registar com espanto, como agora (se bem que provavelmente ao jantar num sítio fixe, e não no comboio), aquele momento em que a nenhum escapou o rebolar de olhos de dois dos queques que combinavam a tarde seguinte na piscina, ao ouvi-los de Massamá. Com espanto e outra coisa qualquer, entre a indignação e o embaraço.

Isto Vive

Vodafónix novo - guardei os números, mas perdi todos os movimentos das últimas três semanas. Merde, alors.

terça-feira, 16 de setembro de 2008

Quatro Anos, Quatro Caminhos, 2

Uma das minhas palavras preferidas é sortilégio. Tê-la-ei ouvido a alguém querido não mais que meia dúzia de vezes, mas sempre em plena concordância com o seu sentido, olhos infantes em meio a uma história de vida - o que fez toda a diferença.

Quatro Anos, Quatro Caminhos, 1 : Mas Não Sou Tão Mais Criança/A Ponto de Saber/Tudo*


Sei que para os da outra banda do mar-oceano esta canção é insuportavelmente batida, mas sinceramente não quero saber, para mim ela é e será eu miúda e mais um bocado do mundo à mostra, em sotaque cantante. Obrigada ao cara que inadvertidamente (ou melhor, por via fraternal) me fez chegar a esta música, com quem não falo há anos (e que também andou pelos blogues).
*Quase Sem Querer ['Dois', 1986], Renato Russo/Eduardo 'Dado' Vila-Lobos/Renato Rocha/Marcelo Bonfá

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Fui a lado nenhum, v. low tech (pedido de desculpas em não muitos pixels)

O totem mais neurasténico que a indústria chinesa já produziu é meu meu meu, já o arremedo punny copiei-o de um sonho do Tony Soprano. Desculpem-me o atraso nos posts, e-mails, telefonemas, cartas e conversas em tarde-e-osso, as letras consomem-se-me quase todas nos dias e ainda me faltam, por isso eu pouco sobro. Ando só tão só tão cansada. Isto para dizer que não que me fui embora, não me vou embora.

sábado, 30 de agosto de 2008

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LVII

Dos remates retóricos mais em voga nas últimas estações, o quem não percebe isto, não percebe nada é um dos meus preteridos. Tentar fechar um argumento à chave revela uma surpreendente insegurança nos méritos do mesmo, para além de uma vontade adolescente de inibir qualquer outro.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Epiqueia

A palavra que nomeia a capacidade de interpretar e defender o sentido de uma qualquer regra para lá da sua estrita letra, aprendi-a há não muito. Na moral cristã, a epiqueia é uma qualidade associada à virtude cardeal da justiça, opondo-se ao rigorismo e ao literalismo. Num primeiro instante pode parecer sinónima do banal bom senso, mas não o é. Nos dias que correm - e porque eles correm - não estou a ver predicado que exija maior discernimento e subtileza de espírito.

sábado, 16 de agosto de 2008

Sentimentos Ferrodiários #3

Questões Verdadeiramente Fracturantes

Coisa alguma contra sexo, coisa alguma contra a cidade. A questão é que as mulheres de Candace Bushnell provocam-me nada nada nada nada. Gostar de vestidos e rapazes não impede que todo aquele taylorismo afectivo nos revolva as tripas. Não, não vi o filme.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Sentimentos Ferrodiários #1

O Que o Século XX Nos Fez

Talvez a mais imperceptível cicatriz de novecentos seja esta extrema descrença na virtude. Estamos todos mais que predispostos a aceitar o mal na condição humana, fazemos livros e filmes e músicas sobre ele, de tão fascinante e misterioso que é. Já ante o seu contrário, ante uma acção absolutamente altruísta ou uma biografia exemplar, partimos do princípio que não, que ela não o pode ter sido, ou pelo menos não o pode ter sido tanto assim. Se um qualquer perfil de rectidão resiste à primeira inquirição, ou o remetemos para o domínio do anómalo, ou investimos mais a sério na procura da falha. De tanto a procurarmos acabaremos por dar com alguma, claro. E com ela nos comprazeremos, pacificados.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Zoonomástica

Nas últimas semanas apresentaram-me a Sara, o João e a Carolina. O João e a Sara, enfim, não sei bem dizer. Já a Carolina é inconfundivelmente Serra da Estrela.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Feistville, Sesame Street



[versão indolor e abençoadamente silly de '1234' (The Reminder, 2007), encomendada a Leslie Feist para o primeiro episódio da 39ª temporada lá da rua, a estrear neste Agosto]

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O juízo dos órfãos

Os testemunhos de sobrevivência são os exempla do nosso tempo. Não há antena ou publicação que não ofereça em cadência diária uma ou mais histórias do género. Perturba-me que tantas vezes elas sejam contadas como estando fadadas pelas qualidades inerentes ao sobrevivente. Como se não houvesse um enorme grau de imponderabilidade em qualquer desastre, batalha, ciclone. À vista disto, penso quase sempre no que pensarão os que perderam quem lutou mas foi vencido pelas circunstâncias.

quando a televisão vazia nos acerta em cheio

Pior que zapear e dar com um caso da vida bizarro de tão semelhante a um acontecimento que nos foi próximo? Não conseguir não ver aquilo até ao final, previsivelmente feliz. Que na realidade não o foi.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Belas, Impasse dos Pinheiros Mansos

Podia ter sido no nosso só que não foi, foi no vosso turno. Correrá tudo bem, sim, mas o entretanto é difícil, como era de esperar. Custa saber-vos toldados pela falta que ele faz. Mas correrá tudo bem.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

London, Tottenham Court Road

"The compensation of growing old, Peter Walsh thought, coming out of Regent’s park, and holding his hat in his hand, was simply this; that the passions remain as strong as ever, but one has gained - at last! - the power of taking hold of experience, of turning it round, slowly, in the light."

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, 1925.



Acaba-se o mês dos dias em livro, comum a Joyce e Woolf.

domingo, 29 de junho de 2008

Mão Mole

Mais vale um sorriso desguarnecido ou uma palmada nas costas que um aperto de mão frouxo. Que raio, em termos de coreografia social não há gesto mais poucachinho e desinspirador.

sábado, 28 de junho de 2008

Lisboa, Rua Barata Salgueiro

Ai que nervos, não ter podido ir ver disto.

Que fazer ao que nos contam? (13)

O varejo num dos pedaços a poente demorou bem mais que o costume, passava-se a hora de cear. Até ao segundo entroncamento os primos seguiram também, mas agora havia que galgar o Corgo Fundeiro. Não que fosse de aflições (ainda era pequena quando a mãe da mãe lhe tinha ensinado o conjuro quem vai, vai, quem está, está, para qualquer caso sem explicação), ou que o burro não soubesse o caminho, não era isso. Era o nenhum costume de ir sozinha por volta tão evitada. De que tivesse conta, mais contornado que aquele vale de pedra solta só o rocio da Venda, ou talvez a ponte do Estreito. Desses ainda havia quem repetisse qualquer coisa de má memória, mas dali não, ninguém parecia lembrar a razão de tal fama. Nisto, feito o vau, quando se preparava para deixar de tentear o carreiro à frente do animal, deu por um estranho brilho a meia encosta. Estacou.
Fez por respirar.
Pensou voltar para trás, mas levava mais de meio regresso. Decidiu avançar sem fixar aquela terrível espécie de favo prateado, suspensa no nada. Passou. Ia já uns bons passos acima quando não aguentou: agarrada ao arreio e a um responso involuntário, virou os olhos para o que afinal era reflexo do quarto crescente numa imensa teia de aranha, coberta de orvalho. Teria observado melhor, mas ouviu algo. Picou por aí a cima o quanto pôde, até estar segura de que o vento trazia mesmo o eco de quem gritava o seu nome. Encontraram-se quase no planalto. O regedor vinha à frente, a seguir os irmãos, os vizinhos, só depois mãe e pai - não fosse haver o pior.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Wee Hours

Por aqui continua a apresentar-se uma curva de aprendizagem de tipo 's'. Nada de sofisticado, pois.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Lisboa, Praça do Chile

Facto é que os amigos demoram. Vim por aí acima a pensar que depois da empatia tem de haver muito mais, e tempo há menos - o mesmo que nos vai tirando os que conseguimos fazer. Lá está: há que teimar.

Rima

, ainda por cima.

sábado, 21 de junho de 2008

Skating Around the Truth



[Winter (Little Earthquakes, 1992) Tori Amos.]

Existem outras por onde escolher, mas gosto bastante desta versão. Amos é (mesmo agora, numa fase heteronímica e transitória para sabe-se lá onde) estranhamente comovente. Ou pelo menos a mim comove-me, a capacidade de voltar por outros caminhos ao próprio cancioneiro.

Lisboa, Rua Castilho

Por várias razões todas elas tão justificadas que dá para apresentar comprovativo carimbado, não consegui ver um só jogo da selecção do princípio ao fim. Pude, porém, cruzar quarteirões à escuta deste Portugal a duas velocidades, dando por uma das únicas coisas fixes que os pobres (sans-cable) recebem primeiro que os ricos (avec-cable) - os golos.

Sexto Dia

Recebestes de graça, dai de graça.
Mt. 10, 8.

Que dizer do cavalheiro que sabia versos de cor? Como honrar o homem que escolheu viver a sua vida connosco de roda? Pouco sei. A ti (que mais que todos perguntarás: quem poderá oferecer aos que vierem depois o que ele, na sua ternura meio solene, deu de tão boa vontade?) pedi uma faixa preta; a ti abracei, e cosi uma igual na manga errada (ainda bem que também quiseste vestir este passado presente); a ti, sobretudo, ouvi (falámos de nobreza, de quem como ele discretamente luta pelo que não quer ver esquecido, acho eu). Depois, chegados à música púrpura que quase todos conhecem mas só nós sabemos ter nascido aqui, falhou-me a voz.

sábado, 14 de junho de 2008

Dia Onze Mil Duzentos e Vinte e um

A mesma teima no detalhe. Maior dificuldade com a ternura. Saudades de praticar yoga. Um pouco mais no comprimento de onda do resto do mundo.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LVI

O calor faz quem está badocha sentir-se incrivelmente badocha.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Transbordo

Estação de Entre-Gentes

À entrada da rua com nome de flor está um marco postado pelo Senado de Lisboa. Vinca o termo da capital na qual os que agora e aqui passam fazem vida, sem vagar para atentar num traço antigo, que não se vê. Os que vão e vêm por este caminho que já não é real, ou pelo caminho férreo, os que cruzam bairros nascidos sobre searas e olivais, esses vivem agora e aqui outros traços. São gente que apanha o comboio em Queluz-Belas, ou em Agualva-Cacém, gente que não lamenta horário trabalhador-estudantil, gente que preferia não ir ao Hospital Amadora-Sintra, gente que troca de metro na Baixa-Chiado, que regressa demasiado depressa pelo IC-19, gente que não se entende no seu modo luso-afro-sino-russo-brasileiro. Gente na corda bamba da urbanidade - que faz cidade entre esta estação e a que se lhe seguirá.

[Não costumo republicar o que escrevo noutras paragens (no caso, um post-encomenda para o Corta-Fitas), mas esta composição cheia de traços foi feita em espírito de lugar. Por isso aqui fica.]

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Já que entramos no mês das quadras

, aqui fica esta de Pessoa:

O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.

É que pode não estar calor, mas finalmente bebi o meu primeiro capilé. Sempre há dias em que a discronia compensa.

domingo, 1 de junho de 2008

Da adultícia

É de manhã, dá-se pela luz esquiva, pelo vento forte. Sorri-se. Porque se vai poder despachar umas três máquinas de roupa.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Caldas da Rainha, Praça 25 de Abril

O Insónia, de Henrique Fialho, fez três anos há dias. Gosto muito de ali passar. Gosto daquela escrita prolixa, ao ritmo das demais coisas da vida. A ele, e também aos outros colaboradores, desejo muitas letras mais.

Across The Street

Sim, quase todos guardam os céus africanos ao som de John Barry. Eu guardo sobretudo este atravessar de rua. De This Property is Condemned a Random Hearts , passando por The Way We Were, Pollack filmou algumas das grandes contracenas amorosas (e nelas, de atacado, o constrangimento, o riso, a dureza, a esperança, o não-dito) de que tenho memória cinematográfica. See ya, Sidney.

domingo, 25 de maio de 2008

Coisas Que Que Só A Mim Apoquentam LV

O meu desgovernado acordar. Detenho o que deve ser um dos mais impressionantes palmarés em encontrões e esfoladelas em maçanetas de armários, esquinas de mesas, patilhas de estores. Meia-hora a pé e ainda assim entalanços em portas, gavetas. Roupa no balde do lixo, lixo no balde da roupa. Hoje queria só arejar o quarto rapidamente, mas consegui dar um piparote no PC e defenestrar o Paulo Teixeira Pinto. Vá-lá-vá-lá, que o portátil parece bem e a Única só ficou um bocado amassada.

sábado, 24 de maio de 2008

Wee Hours

Alegra-me esta chuva ligeira, batedora das primícias do calor.

Só há pouco percebi que

a banalidade é muito simplesmente uma invenção.

Senhores Passageiros

, daqui fala a chauffeuse: a carreira não tem andado à tabela, mas continua em trânsito. Intentaremos repor o serviço em mais briosos níveis de qualidade.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Queluz, Rua dos Lusíadas

[Fim de dia no supermercado. A juventude funcionária limpa as bancas refrigeradas.]

Rapagão-Assistente do Talho - Ai, que se minha mãezinha me visse de pano na mão vinha-me já buscar!

Rapagão-Chefe do Talho - Não estudaste, pois não? Atão aguenta-te, que...

Menina da Charcutaria - ...eu estudei e estou aqui à mesma!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Blogger anda tão idiossincrático

Agora é isto dos posts agendados. Se antigamente podíamos aldrabar um pouco a hora dos posts, agora podemos programar a aldrabice. E isto dá cabo de um dos aspectos mais emocionantes da coisa - a certeza de que o autor acabou de passar por ali.

Lisboa, Rua Bartolomeu Dias

No fim-de-semana, muito leiga e entusiasmada, discutia a questão da repetição em Bausch. Na verdade não me interessava a repetição em si mesma, queria apenas regressar ao preciso episódio que envolvia bailarino e bailarina à beira da plateia e sem foco de luz, enquanto outros se desenvolviam no centro e fundo do palco. Frente a frente, em silêncio e quase hirtos, começavam por votar-se exclusiva atenção. Depois, um deles deixava o olhar deslizar noutra direcção, ao que o outro respondia com a mão direita, reconduzindo o rosto oposto a olhar o seu. E a situação repetia-se inversamente: o que havia conseguido a atenção alheia deixava agora o olhar deambular, obtendo a mesma resposta que havia dado. O movimento alternado de cada mão, inicialmente subtil, ganharia dureza, aproximando-se de uma coreografia bofetada, que cederia e regressaria ao início uma e outra vez. Custa a acreditar que um fiapo de dança diga tanto sobre o amor, digo eu.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Masurca Fogo

Ali está a Watling, duas ou três filas atrás do Grandinetti. Como não querer ver o que eles viram? Que interessa onde, ou quanto tempo depois?

Ana Bólica

Os primeiros racontos de mitologia grega que ouvi em miúda provocaram-me uma certa indignação. Não tinha como assimilar aquele cenário de volubilidade, manipulação, passionalidade e desmando entre deuses e homens - até aí só conhecia a narrativa bíblica, que apresentava mortais e imortais em coreografia bem mais hierática. Ainda hoje me exaspero ao tentar entender como pôde Ariadne ter expectativas tão exageradas em relação a Teseu, ou como conseguiu encontrar tão bom esposo em Dionísio.

Verificação de Palavras

Seduzem-me os exercícios criptográficos desde que sei ler. Uns dias fazem-me sentir burra, outros paranóica, outros capaz. As recentes alterações na verificação ortográfica do Blogger, porém, só me fazem sentir pitosga.

Ana Tomista

Não, o mundo não se divide entre os que falam e os que fazem. Para além dos que falam e não fazem e dos que não falam e fazem, há os que fazem e falam, os que falam e fazem, os que não fazem e não falam, e claro, os que não falam nem fazem.

domingo, 27 de abril de 2008

Feierlich und gemessen, ohne zu schleppen


Gustav Mahler ainda não tinha chegado aos trinta anos quando compôs a primeira versão desta sinfonia em Ré Maior. Ao nada consensual e também muito germânico Christoph Eschenbach, vemo-lo aqui em plena condução da Orchestre de Paris. Curioso: só percebi realmente a crónica contida num post de há tempos, que me pareciam poucos, depois de ouvir este terceiro movimento.

sábado, 26 de abril de 2008

The Jezebel Spirit*

As mulheres são acometidas de fortes embirrações em relação a outras mulheres. Inveja, ciúme, insegurança, outra coisa primitiva ou simples senso comum? Não sei. Mais vale ter noção da afecção e cortar as vazas ao impulso insidioso, mesmo quando pretensamente inofensivo. Com os homens, se há equivalente fenómeno, desconheço-o. Aqui fica o exorcismo (borderline misógino, eu sei) de algumas implicâncias epidérmicas:

A escrita de Ana Anes.

A pose da jovem apresentadora do Rock in Rio.

A voz de Maria Emília Correia.
*D. Byrne/B. Eno, 1981.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Lisboa, Avenida António Augusto Aguiar

Um pensamento azulejante compunha-se há metros. Era ao modo de Resende, ou como nos filmes - forma, cor e relevo aguardando exame no juntar das peças.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

A estação é a estação (Com Chuva ou Não)

Venho só declarar que aprovo o actual corte toureiro das calças de giro da Divisão de Segurança a Transportes Públicos.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

Massamá, Rua Natália Correia

Não era Julho, eu só estava assim desde o São João e ela ainda andava nas festas com a banda. Entrou-me pelo quarto já muito vermelha, pensei que do calor ou do peso-pesado do acordeão, desconforme a ela, tão magra. Sentou-se, baixou a cabeça e chorou um choro longo. Não precisei de perguntar; li nos seus olhos roxos de azuis a vermelhos ter desistido de resistir ao outro rapaz. Perguntava-me que fazer agora, que dizer ao namorado. A mim, ali deitada, já enjoada de livros, de cãibras, de flores de cabeceira, da arrastadeira, dos chocolates, de olhar para o tecto e para os Jogos de Barcelona, sem saber ainda o que aí vinha. Não sei que disse. Sei que, por qualquer razão, o seu sofrimento me pareceu mais relevante que tal insensibilidade ao meu.

Aqui entre nós

, que ninguém nos ouve, fica coisa de inspirar guarda-cacifos. Para dias em que só Carly, mesmo.


terça-feira, 15 de abril de 2008

Homens IX

Capazes de arriscar humor no mais melindroso dos cenários, sabendo que o mais certo é a coisa correr mal.

História é nosso medo do Escuro

Do que conheço da bloga portuguesa e brasileira, mantenho a mesma impressão há anos: regra geral, somos todos uns transatlânticos bastante ensimesmados. Por isso não sei se estão a ver quem é a Fal*, assim de repente. Se disser que ela foi rapariga de Cidades Crónicas e há anos que oferece Drops, alguns de vós saberão. Gosto muito de lê-la. Não consigo descrever bem o seu registo: nenhum artifício, por vezes crueza, dias de coloquialismo e neologismo gargalhal, outros de classicismo em comoção. Entre uma coisa e outra, dei ontem com este post, tão mais que uma definição disciplinar. Outro não poderia vir mais ao encontro dos trabalhos e dos dias que são actualmente o meus. Obrigada, Fal (muita força para ti).

* alias Fábia Vitiello, alias Fal Azevedo, alias Fábia Vitiello de Azevedo Cardoso (n.1971), autora de Crônicas de Quase Amor e O Nome da Cousa.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

Wee Hours

Um rumor colorido passa a acender as manhãs - passarada que folheia entre figueiras, sem cuidados.

sábado, 12 de abril de 2008

Reservoir Jim

O universo de Ballard atrai-me e repele-me na mesma medida - muito. Já em casa, metro e meio escapada à colisão em curso, resisto a admiti-lo.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Que Fazer ao Que nos Contam? (12)

Vinte e dois dias foi quantos esteve na Conde Ferreira, nem mais um. Houve que guardar cabras em freguesia afastada, até poder com a roçadoura. Não entende por que lhe vem isto à tona. Clareia a garganta e a ideia, recompõe-se. O irmão chama-o; está pronto o corte da meia-peça de fazenda dada pela tia. Agradece, abraça-o, que venha por lá depois, ao tinto novo. Torna a casa. Amanhã mesmo cuidará da pele de coelho para os punhos e gola da menina. A mulher costurará o feitio nos próximos dias. Uma só cachopa entre cinco gaiatos. E está tão grande.