a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sábado, 16 de agosto de 2008

Sentimentos Ferrodiários #3

Questões Verdadeiramente Fracturantes

Coisa alguma contra sexo, coisa alguma contra a cidade. A questão é que as mulheres de Candace Bushnell provocam-me nada nada nada nada. Gostar de vestidos e rapazes não impede que todo aquele taylorismo afectivo nos revolva as tripas. Não, não vi o filme.

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Sentimentos Ferrodiários #1

O Que o Século XX Nos Fez

Talvez a mais imperceptível cicatriz de novecentos seja esta extrema descrença na virtude. Estamos todos mais que predispostos a aceitar o mal na condição humana, fazemos livros e filmes e músicas sobre ele, de tão fascinante e misterioso que é. Já ante o seu contrário, ante uma acção absolutamente altruísta ou uma biografia exemplar, partimos do princípio que não, que ela não o pode ter sido, ou pelo menos não o pode ter sido tanto assim. Se um qualquer perfil de rectidão resiste à primeira inquirição, ou o remetemos para o domínio do anómalo, ou investimos mais a sério na procura da falha. De tanto a procurarmos acabaremos por dar com alguma, claro. E com ela nos comprazeremos, pacificados.

terça-feira, 5 de agosto de 2008

Zoonomástica

Nas últimas semanas apresentaram-me a Sara, o João e a Carolina. O João e a Sara, enfim, não sei bem dizer. Já a Carolina é inconfundivelmente Serra da Estrela.

terça-feira, 15 de julho de 2008

Feistville, Sesame Street



[versão indolor e abençoadamente silly de '1234' (The Reminder, 2007), encomendada a Leslie Feist para o primeiro episódio da 39ª temporada lá da rua, a estrear neste Agosto]

segunda-feira, 14 de julho de 2008

O juízo dos órfãos

Os testemunhos de sobrevivência são os exempla do nosso tempo. Não há antena ou publicação que não ofereça em cadência diária uma ou mais histórias do género. Perturba-me que tantas vezes elas sejam contadas como estando fadadas pelas qualidades inerentes ao sobrevivente. Como se não houvesse um enorme grau de imponderabilidade em qualquer desastre, batalha, ciclone. À vista disto, penso quase sempre no que pensarão os que perderam quem lutou mas foi vencido pelas circunstâncias.

quando a televisão vazia nos acerta em cheio

Pior que zapear e dar com um caso da vida bizarro de tão semelhante a um acontecimento que nos foi próximo? Não conseguir não ver aquilo até ao final, previsivelmente feliz. Que na realidade não o foi.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

Belas, Impasse dos Pinheiros Mansos

Podia ter sido no nosso só que não foi, foi no vosso turno. Correrá tudo bem, sim, mas o entretanto é difícil, como era de esperar. Custa saber-vos toldados pela falta que ele faz. Mas correrá tudo bem.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

London, Tottenham Court Road

"The compensation of growing old, Peter Walsh thought, coming out of Regent’s park, and holding his hat in his hand, was simply this; that the passions remain as strong as ever, but one has gained - at last! - the power of taking hold of experience, of turning it round, slowly, in the light."

Virginia Woolf, Mrs. Dalloway, 1925.



Acaba-se o mês dos dias em livro, comum a Joyce e Woolf.

domingo, 29 de junho de 2008

Mão Mole

Mais vale um sorriso desguarnecido ou uma palmada nas costas que um aperto de mão frouxo. Que raio, em termos de coreografia social não há gesto mais poucachinho e desinspirador.

sábado, 28 de junho de 2008

Lisboa, Rua Barata Salgueiro

Ai que nervos, não ter podido ir ver disto.

Que fazer ao que nos contam? (13)

O varejo num dos pedaços a poente demorou bem mais que o costume, passava-se a hora de cear. Até ao segundo entroncamento os primos seguiram também, mas agora havia que galgar o Corgo Fundeiro. Não que fosse de aflições (ainda era pequena quando a mãe da mãe lhe tinha ensinado o conjuro quem vai, vai, quem está, está, para qualquer caso sem explicação), ou que o burro não soubesse o caminho, não era isso. Era o nenhum costume de ir sozinha por volta tão evitada. De que tivesse conta, mais contornado que aquele vale de pedra solta só o rocio da Venda, ou talvez a ponte do Estreito. Desses ainda havia quem repetisse qualquer coisa de má memória, mas dali não, ninguém parecia lembrar a razão de tal fama. Nisto, feito o vau, quando se preparava para deixar de tentear o carreiro à frente do animal, deu por um estranho brilho a meia encosta. Estacou.
Fez por respirar.
Pensou voltar para trás, mas levava mais de meio regresso. Decidiu avançar sem fixar aquela terrível espécie de favo prateado, suspensa no nada. Passou. Ia já uns bons passos acima quando não aguentou: agarrada ao arreio e a um responso involuntário, virou os olhos para o que afinal era reflexo do quarto crescente numa imensa teia de aranha, coberta de orvalho. Teria observado melhor, mas ouviu algo. Picou por aí a cima o quanto pôde, até estar segura de que o vento trazia mesmo o eco de quem gritava o seu nome. Encontraram-se quase no planalto. O regedor vinha à frente, a seguir os irmãos, os vizinhos, só depois mãe e pai - não fosse haver o pior.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Wee Hours

Por aqui continua a apresentar-se uma curva de aprendizagem de tipo 's'. Nada de sofisticado, pois.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Lisboa, Praça do Chile

Facto é que os amigos demoram. Vim por aí acima a pensar que depois da empatia tem de haver muito mais, e tempo há menos - o mesmo que nos vai tirando os que conseguimos fazer. Lá está: há que teimar.

Rima

, ainda por cima.

sábado, 21 de junho de 2008

Skating Around the Truth



[Winter (Little Earthquakes, 1992) Tori Amos.]

Existem outras por onde escolher, mas gosto bastante desta versão. Amos é (mesmo agora, numa fase heteronímica e transitória para sabe-se lá onde) estranhamente comovente. Ou pelo menos a mim comove-me, a capacidade de voltar por outros caminhos ao próprio cancioneiro.

Lisboa, Rua Castilho

Por várias razões todas elas tão justificadas que dá para apresentar comprovativo carimbado, não consegui ver um só jogo da selecção do princípio ao fim. Pude, porém, cruzar quarteirões à escuta deste Portugal a duas velocidades, dando por uma das únicas coisas fixes que os pobres (sans-cable) recebem primeiro que os ricos (avec-cable) - os golos.

Sexto Dia

Recebestes de graça, dai de graça.
Mt. 10, 8.

Que dizer do cavalheiro que sabia versos de cor? Como honrar o homem que escolheu viver a sua vida connosco de roda? Pouco sei. A ti (que mais que todos perguntarás: quem poderá oferecer aos que vierem depois o que ele, na sua ternura meio solene, deu de tão boa vontade?) pedi uma faixa preta; a ti abracei, e cosi uma igual na manga errada (ainda bem que também quiseste vestir este passado presente); a ti, sobretudo, ouvi (falámos de nobreza, de quem como ele discretamente luta pelo que não quer ver esquecido, acho eu). Depois, chegados à música púrpura que quase todos conhecem mas só nós sabemos ter nascido aqui, falhou-me a voz.