a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

terça-feira, 24 de junho de 2008

sábado, 21 de junho de 2008

Skating Around the Truth



[Winter (Little Earthquakes, 1992) Tori Amos.]

Existem outras por onde escolher, mas gosto bastante desta versão. Amos é (mesmo agora, numa fase heteronímica e transitória para sabe-se lá onde) estranhamente comovente. Ou pelo menos a mim comove-me, a capacidade de voltar por outros caminhos ao próprio cancioneiro.

Lisboa, Rua Castilho

Por várias razões todas elas tão justificadas que dá para apresentar comprovativo carimbado, não consegui ver um só jogo da selecção do princípio ao fim. Pude, porém, cruzar quarteirões à escuta deste Portugal a duas velocidades, dando por uma das únicas coisas fixes que os pobres (sans-cable) recebem primeiro que os ricos (avec-cable) - os golos.

Sexto Dia

Recebestes de graça, dai de graça.
Mt. 10, 8.

Que dizer do cavalheiro que sabia versos de cor? Como honrar o homem que escolheu viver a sua vida connosco de roda? Pouco sei. A ti (que mais que todos perguntarás: quem poderá oferecer aos que vierem depois o que ele, na sua ternura meio solene, deu de tão boa vontade?) pedi uma faixa preta; a ti abracei, e cosi uma igual na manga errada (ainda bem que também quiseste vestir este passado presente); a ti, sobretudo, ouvi (falámos de nobreza, de quem como ele discretamente luta pelo que não quer ver esquecido, acho eu). Depois, chegados à música púrpura que quase todos conhecem mas só nós sabemos ter nascido aqui, falhou-me a voz.

sábado, 14 de junho de 2008

Dia Onze Mil Duzentos e Vinte e um

A mesma teima no detalhe. Maior dificuldade com a ternura. Saudades de praticar yoga. Um pouco mais no comprimento de onda do resto do mundo.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Coisas Que Só a Mim Apoquentam LVI

O calor faz quem está badocha sentir-se incrivelmente badocha.

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Transbordo

Estação de Entre-Gentes

À entrada da rua com nome de flor está um marco postado pelo Senado de Lisboa. Vinca o termo da capital na qual os que agora e aqui passam fazem vida, sem vagar para atentar num traço antigo, que não se vê. Os que vão e vêm por este caminho que já não é real, ou pelo caminho férreo, os que cruzam bairros nascidos sobre searas e olivais, esses vivem agora e aqui outros traços. São gente que apanha o comboio em Queluz-Belas, ou em Agualva-Cacém, gente que não lamenta horário trabalhador-estudantil, gente que preferia não ir ao Hospital Amadora-Sintra, gente que troca de metro na Baixa-Chiado, que regressa demasiado depressa pelo IC-19, gente que não se entende no seu modo luso-afro-sino-russo-brasileiro. Gente na corda bamba da urbanidade - que faz cidade entre esta estação e a que se lhe seguirá.

[Não costumo republicar o que escrevo noutras paragens (no caso, um post-encomenda para o Corta-Fitas), mas esta composição cheia de traços foi feita em espírito de lugar. Por isso aqui fica.]

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Já que entramos no mês das quadras

, aqui fica esta de Pessoa:

O capilé é barato
E é fresco quando há calor.
Vou sonhar o teu retrato
Já que não tenho melhor.

É que pode não estar calor, mas finalmente bebi o meu primeiro capilé. Sempre há dias em que a discronia compensa.

domingo, 1 de junho de 2008

Da adultícia

É de manhã, dá-se pela luz esquiva, pelo vento forte. Sorri-se. Porque se vai poder despachar umas três máquinas de roupa.

terça-feira, 27 de maio de 2008

Caldas da Rainha, Praça 25 de Abril

O Insónia, de Henrique Fialho, fez três anos há dias. Gosto muito de ali passar. Gosto daquela escrita prolixa, ao ritmo das demais coisas da vida. A ele, e também aos outros colaboradores, desejo muitas letras mais.

Across The Street

Sim, quase todos guardam os céus africanos ao som de John Barry. Eu guardo sobretudo este atravessar de rua. De This Property is Condemned a Random Hearts , passando por The Way We Were, Pollack filmou algumas das grandes contracenas amorosas (e nelas, de atacado, o constrangimento, o riso, a dureza, a esperança, o não-dito) de que tenho memória cinematográfica. See ya, Sidney.

domingo, 25 de maio de 2008

Coisas Que Que Só A Mim Apoquentam LV

O meu desgovernado acordar. Detenho o que deve ser um dos mais impressionantes palmarés em encontrões e esfoladelas em maçanetas de armários, esquinas de mesas, patilhas de estores. Meia-hora a pé e ainda assim entalanços em portas, gavetas. Roupa no balde do lixo, lixo no balde da roupa. Hoje queria só arejar o quarto rapidamente, mas consegui dar um piparote no PC e defenestrar o Paulo Teixeira Pinto. Vá-lá-vá-lá, que o portátil parece bem e a Única só ficou um bocado amassada.

sábado, 24 de maio de 2008

Wee Hours

Alegra-me esta chuva ligeira, batedora das primícias do calor.

Só há pouco percebi que

a banalidade é muito simplesmente uma invenção.

Senhores Passageiros

, daqui fala a chauffeuse: a carreira não tem andado à tabela, mas continua em trânsito. Intentaremos repor o serviço em mais briosos níveis de qualidade.

terça-feira, 13 de maio de 2008

Queluz, Rua dos Lusíadas

[Fim de dia no supermercado. A juventude funcionária limpa as bancas refrigeradas.]

Rapagão-Assistente do Talho - Ai, que se minha mãezinha me visse de pano na mão vinha-me já buscar!

Rapagão-Chefe do Talho - Não estudaste, pois não? Atão aguenta-te, que...

Menina da Charcutaria - ...eu estudei e estou aqui à mesma!

segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Blogger anda tão idiossincrático

Agora é isto dos posts agendados. Se antigamente podíamos aldrabar um pouco a hora dos posts, agora podemos programar a aldrabice. E isto dá cabo de um dos aspectos mais emocionantes da coisa - a certeza de que o autor acabou de passar por ali.

Lisboa, Rua Bartolomeu Dias

No fim-de-semana, muito leiga e entusiasmada, discutia a questão da repetição em Bausch. Na verdade não me interessava a repetição em si mesma, queria apenas regressar ao preciso episódio que envolvia bailarino e bailarina à beira da plateia e sem foco de luz, enquanto outros se desenvolviam no centro e fundo do palco. Frente a frente, em silêncio e quase hirtos, começavam por votar-se exclusiva atenção. Depois, um deles deixava o olhar deslizar noutra direcção, ao que o outro respondia com a mão direita, reconduzindo o rosto oposto a olhar o seu. E a situação repetia-se inversamente: o que havia conseguido a atenção alheia deixava agora o olhar deambular, obtendo a mesma resposta que havia dado. O movimento alternado de cada mão, inicialmente subtil, ganharia dureza, aproximando-se de uma coreografia bofetada, que cederia e regressaria ao início uma e outra vez. Custa a acreditar que um fiapo de dança diga tanto sobre o amor, digo eu.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Masurca Fogo

Ali está a Watling, duas ou três filas atrás do Grandinetti. Como não querer ver o que eles viram? Que interessa onde, ou quanto tempo depois?

Ana Bólica

Os primeiros racontos de mitologia grega que ouvi em miúda provocaram-me uma certa indignação. Não tinha como assimilar aquele cenário de volubilidade, manipulação, passionalidade e desmando entre deuses e homens - até aí só conhecia a narrativa bíblica, que apresentava mortais e imortais em coreografia bem mais hierática. Ainda hoje me exaspero ao tentar entender como pôde Ariadne ter expectativas tão exageradas em relação a Teseu, ou como conseguiu encontrar tão bom esposo em Dionísio.