a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

quinta-feira, 6 de março de 2008

Ana Crónica Redux

A fábrica das bolachas está desde ontem que parece a ponte de comando da USS Enterprise (pessoa passa torniquete, pessoa senta-se no terminal, faz login, escolhe lugar e pede livros num ápice de clicadelas). Em contraste, tenho a conta de google com e-mails em atraso e o meu telemóvel está sem funcionar há quase dois dias (a menina Vodafone foi simpática, mas disse-me que não tinha ali à venda baterias para modelos nokia com mais de ano e meio, remetendo-me para o indiano do bairro. Au.) Espero poder voltar a comunicar com alguma normalidade até amanhã ao final do dia. Aqui a autista pede sinceras desculpas a quem está por levar resposta.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Barreiro, Avenida do Bocage

Um dia tirei do quarto daquele primo dois pequenos blocos de notas. Estavam guardados debaixo da cama, numa caixa com à vontade uma dúzia. Já não lembro por que haveria ele de não estar, e não percebo o que fariam ali aquelas folhas perfumadas, tão de menina, num sítio assim meio escondido. Encontrei-as depois de brincarmos ao quarto escuro. Não sei como escondi o par de caderninhos. Seriam prenda para a irmã, quase de certeza. As nossas visitas não eram muito habituais, e tirando o tio, amigo a sério, nenhum dos outros nos recebia com prazer. Éramos os que não eram ricos na família, e para aqueles, felizmente só para aqueles, isso parecia importar. Acho que não dormi. A culpa começou logo a lavrar. Sabia que era roubo, ainda por cima a quem não nos queria. Escondi os blocos na segunda gaveta por um tempo, depois não consegui aguentar. Levei-os para a escola e dei-os a duas das minhas três amigas. À outra, para que não achasse que gostava menos dela, dei um em forma e cheiro de morango, acabado de receber da minha mãe. Tinha seis anos.
De então a agora tem sido o mesmo - por mau feito, continua a não haver alívio no prejuízo.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

O Puro Pássaro

Interpelar é bem mais que evocar. Henrique Fialho fá-lo a propósito de Ruy Belo, em Uma Aldeia Que Não Existe, trinta anos depois.

Coisas que Só A Mim Apoquentam LIII

Não sei de qual dos covers litúrgicos gosto mais, se do Saber que virás/Blowin' in the Wind (Bob Dylan), se do Não Levo Alforge/The Last Supper (Andrew Lloyd Webber). Soa piroso, mas intuo nestas retroversões pop-profanas um certo sentido.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Metro, Sete Rios

Cruzo-me com a mulher de um dos homens do bairro que esperavam a hora de jantar dentro do carro. Continua elegante, usa o mesmo corte curto. Passa e não dá por mim, ou faz que não. Já não mora na rua sem saída onde brincávamos até ao fim da tarde, quando quase todas as sirumbas eram interrompidas por fiats e datsuns a chegar. Não percebíamos, mas também não estranhávamos aquele e outros vizinhos estacionados à porta dos prédios, adiando o tempo de entrarem em casa. Era costume. Desligavam o motor, deixavam-se estar, fumavam cigarros, organizavam papéis, ajustavam a frequência de rádio, dormitavam. Agora sei que dentre eles havia os que queriam estar aquele bocado consigo mesmos, pela primeira e última vez no dia. Como havia os que simplesmente não queriam voltar para quem os esperava.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

À Dúzia

Afinal já me tinham passado a palavra por causa da palavras, e eu armada em queixinhas; cá fica o link para umas quantas. E tu, tens uma dúzia de palavras que mais gostes?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O Branco e o Negro

Nunca pintei o cabelo. Por mais ou menos que o corte, que o penteie, deixo a cor como está, gosto tanto dela. Tenho deixado, digo. Começa-se-me a fugir.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

They don't want to listen to the Artic Monkeys, they want some Stichelton



Noutro dia, vendo a repetição de um pesadíssimo Panorama BBC sobre produção, tráfico e combate à cocaína, perguntei-me de onde conheceria aquele jornalista despenteado com certo ar de estrela rock que às tantas, antes de uma entrevista com o presidente Álvaro Uribe, lhe oferece um queijo. Pois: o jornalista não era jornalista, era Alex James, baixista dos Blur entretanto retirado para Oxforshire. James entusiasmou-se com a vida no campo e, tendo por vizinha Juliet Harbutt, decidiu algures em 2006 produzir o seu próprio queijo, baptizado Little Wallop. O início da aventura ficou documentado na plataforma do Guardian. Os oito episódios da podcast-série The Cheese Diaries também já estão no Youtube, claro, e este aqui de cima é o segundo. Uma pessoa tem de pedir consulta de urgência à nutricionista para não atacar o frigorífico e a garrafeira a seguir, aviso já. Aqui está a coisa mais divertida que vi nos últimos tempos.

Adenda: a Sara também viu a reportagem.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Lisboa, Rua Cordeiro de Sousa

À entrada, debaixo do cartaz alençolado que gaba a serôdia reabertura da estação, rapaz e rapariga discutem em voz esforçadamente baixa. Quem sobe as escadas não pode não ver aqueles dois perfis tensos, imóveis, alheios a tudo em roda, como não pode distinguir um fim de um começo.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Português Partido XII

Ser desta idade é saber os lugares quase só dos banhos, quase só do Verão. Atrás da barqueira vejo a margem precisa desse escapar ao sequíssimo calor da serrania, e demoro-me nela. Mas a mole lembrança do entrar na água é quebrada pela voz da mulher que conta e se conta, da mulher que fez do tempo em que partiu e arriscou lema para quem o quiser, da mulher que transporta agora esta incrível palavra:

- Se a gente quer viver, se a gente quer mais do que o que tem, tem de se

afuturar, v. refl. (do Lat. futuru) 1. lançar-se ao futuro. 2. aventurar-se. 3. fazer acontecer.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Wee Hours

Ainda há quem escreva como quem ateia medeiros em Julho, e isso espanta-me, e deixa-me feliz.

É impressão minha

, ou as coisas más nunca soam suficientemente mal em inglês? A dureza, a crueldade ou a badalhoquice são muito mais ribombantes em italiano ou em português. Isto a propósito de waterboarding. Não teriam os anglos para lá uns fonemas e semantemas mais guturais, pastosos e desqualificantes, qualquer coisa que não gerasse uma palavra que soa a desporto de praia?

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Queluz, Rua Óscar Monteiro Torres

Entra-se na dependência e tira-se a senha. Encostam-se os bons modos a uma parede ou cadeira, os quais demoram sessenta a noventa minutos a expirar, consoante. Espera-se. Procura-se a vez num quadro moderno. Que ironia. Espera-se mais. Que tudo se trata, dizem os três funcionários com menos de três horas para trezentos utentes. A vez lá chega. Depois sai-se, dobra-se a esquina - não a exasperação.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Acresce ao intrinsecamente deprimente

panorama geral carnavaluso a máscara pré-confeccionada. Pior que o eterno retorno do pierrot, da espanholita, do cowboy e do macho-matrafona (esse mesmo, o bêbado de collant rasgada e perna peluda, peruca loira-lixívia, bâton no bigode, saia de napa e malinha a dar a dar), é esta adesão progressiva dos pais à compra da fatiota infantil integral, horrivelmente standardizada, mal feita - chata. Coitados destes putos, enfiados em fantasias sem fantasia nenhuma.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Onde se lê 356, leia-se 60


Alguns mais eruditos reconhecerão Annie Clark, alias St. Vincent, das andanças com os Polyphonic Spree ou com Sufjan Stevens. Espero que arrebanhe os Plugs todos para que foi nomeada. Gosto tanto deste Jesus saves, I spend que nem consigo falar sobre o caso. Explicar porquê demoraria. A leitura mais óbvia é dedicada aos amigos com quem tive a felicidade de crescer naquele divertido (e complicado e excitante e duro e imensamente livre) ensaio da vida que afinal já valia. Aos que ainda calcorreiam com os que vieram depois de nós o Portugal dos bons-dias entre desconhecidos, um abraço acanhotado. Sleeping Bag Escapes para todos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Publicidade no QC



, só mesmo a pretexto de ver o Wes Anderson *suspiro* andar de um lado para o outro. O que este homem e a sua filmografia têm agravado o meu fraco por narigudos, não vos digo nem vos conto.

sábado, 26 de janeiro de 2008

Coisas que Só a Mim Apoquentam LII

Que quase toda a gente diga Cristiano Ró-naldo. Como se ele fosse parente do Pato Dó-nalde.

Massamá, Rua Coronel Melo Antunes

Se tivesse arte, escrevia qualquer coisa bonita sobre estar aqui na fila a fazer de conta que leio a bula dos emplastros quando na verdade estou (digo, estamos, eu e a Annie Lennox) a topar estes senhores que lavam o lugar onde pensam e trauteiam e praguejam com um amor minucioso.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Só mais um bocadinho mais ou menos sobre cinema

, para dizer que, depois de Paul Newman e Joan Woodward, o meu par preferido de Hollywood é composto por estes senhores. Os primeiros farão cinquenta anos de casados dentro de uns dias, os segundos farão vinte anos dentro de uns meses. De Hollywood é como quem diz - coincidência ou nada disso, nem uns nem outros lá moram.

[Foto: NYT]

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Coisas que só a mim apoquentam LI

Keira Knightley. Não sei se sei explicar: há casos de beleza sem mácula que encandeiam um talento em formação; este pode ser um. Mas por enquanto tudo nela é, apenas, ela mesma: o sorriso dentado, a altivez bailarina. Keira nunca se transfigura.