Estranho ofício. Três ou quatro cegos para cada linha, às vezes por turnos. O tom varia: há os que arrastam a cantilena, há os que bradam a toque de caixa. Cobrem toda a rede e efectuam marcação carruagem a carruagem. Têm aparência invariavelmente limpa, engomada. De mecânico e imperativo, o seu pregão é ignorado. Ainda assim, alguém sempre dá.
Uma das técnicas que hoje mais parece divagar entre cumes e pegões artísticos é a da tatuagem. Porque parte da interpretação e escolha de um símbolo e poderá permanecer unida ao seu portador toda a vida, porque é predominantemente figurativa e implica grande mestria artesanal por parte do seu executor, uma tatuagem pode ser bela. Exactamente pelas mesmas razões, pode ser uma foleirada total. No domínio da foleirada total, dou o primeiro lugar a quem ostenta tatuagens de si mesmo. Sim, da sua própria figura. Há afirmação estética mais enjoativa?
Ontem terá dado L'Amour en Fuite a uma hora absurda da madrugada, na RTP1, que nunca vi na íntegra e que queria ver. Repisando a perda, lá fui parar à Wikipédia. Que tinha à minha espera isto:
«Amor em Fuga(L'Amour en Fuite) é um filme francês dirigido por François Truffaut, lançado em 1979. É o último filme de Antoine Doinel de François Truffaut. Após 8 anos de vida em comum, Antoine (Jean-Pierre Léaud) e Christine Doinel (Claude Jade), seu último amor de Baisers Volés e Domicílio Conjugal, decidem divorciar-se... É um filme feito para os amantes dos filmes anteriores da saga. Ele homenageia de maneira carinhosa os outros filmes, trazendo seqüências de todos eles em flashback com Antoine (Jean-Pierre Léaud) e Christine (a bela Claude Jade). Mas de que adiantou eu torcer tanto para os dois (Antoine e Christine) ficarem juntos em Beijos Roubados e Domicílio Conjugal, para vê-los agora em processo de divórcio? Uma pena. Lembro que quando eu vi as pernas de Claude Jade nesses filmes, eu ficava idealizando um casamento similar pra mim. Não apenas por causa das pernas dela, claro, mas por causa do jeito dela, e da química entre os dois.»
Outro fenómeno esquisito do crescimento é a mudança do gosto. Em miúdos detestamos os sabores intensos, as favas, os cominhos, os coentros, a beterraba. E depois, com o tempo, passamos a gostar de alguns. Que raio.
Alguns ainda tratam os seus quarteirões por Casal das Quintelas, Casal de Santa Leopoldina, Casal Gouveia, Casal do Olival, como se os moinhos, os olivais, as casas de veraneio ou as próprias colinas permanecessem. Desse modo, permanecem.
No divertimento da estação o Ego é batido por si mesmo, pela evocação de um passado em que a felicidade era simples; de tão forte e inesperada, essa lembrança muda o presente, faz futuro.
Aquele dito de que não se escolhe a família em que se nasce não tem sentido, passa-se toda a infância e juventude a aproximá-la ou afastá-la, toda, uma parte, até ela o ser mais, ou deixar de o ser. Escolhe-se, pois.
Não faço ideia se lês, nunca fiz, a verdade é essa. Passam-se os anos, e assim é. Escrevo em voz alta, tentando dar um sentido ao que pode não tê-lo, como naquela história do Tim Pears.
Poderia ter sido mais bonito, este improviso centenário? Não. Um rodeio de amigos de tantos anos. Não me interessa se mais chegados, se não. Sinceros. Tudo se joga no adjectivo. Uns dias mais tarde, o meu primeiro lenço ao pescoço de alguém melhor. O mundo não é perfeito, mas está bem.
E de repente um queirosianismo vago passa a questão de vida. É sempre assim, o mais banal dos acidentes põe tudo em causa. Lembro o rapaz de Singeverga, tia. Tenho medo de não valer, esta petição. Pedirei à mesma. Hoje foi dia de São Caetano, tia. Ele acreditava muito na Providência, como tu. Há-de ser tudo por bem.
A primeira vez que o vi foi na sede, reproduzido a partir de um óleo conhecido. Achei-o solene mas simpático, respeitável, muito britânico. Perguntei-me como teria sido, na minha idade. Hoje sei que Stephe não foi uma criança despreocupada, como conta a lenda por ele próprio construída. Não foi um jovem militar romântico, a conjuntura não o permitiu. Não foi um adulto com a noção das conveniências, não era essa a sua natureza. Foi um idealista praticante. Passou a outros o que o fazia feliz. Morreu sem saber se o Eixo triunfaria. Mas não sem uma vida cumprida, sem deixar em curso uma certa ideia de futuro.