, a linha, o sangue. Que história nos provoca como a nossa? Quem não quer saber de si pelos seus? Pelo trisavô que roubou a trisavó a cavalo num burro, para se casarem antes do sol nascer? Pelo tio-bisavô missionário, nome de escola e avenida numa pequena cidade brasileira? Pelo distante primo escritor, o que nunca quis ser de onde era? Pela avó que aprendeu a ler sozinha, sem ninguém saber bem como? Que nos dizem eles de nós?
terça-feira, 28 de novembro de 2006
domingo, 26 de novembro de 2006
Cesariny, 1923-2006
cena para o final de um terceiro acto
Uma esquina outra esquina
depois os breves canteiros floridos
de quando a cidade era pequenina
depois os longos rochedos brutais
a lua o mar eterno o cais
Uma esquina outra esquina
depois os breves canteiros floridos
de quando a cidade era pequenina
depois os longos rochedos brutais
a lua o mar eterno o cais
Mário Cesariny de Vasconcelos, Manual de Prestidigitação, 1981.
[tentando pôr ao alto a gola do peludo]
sábado, 25 de novembro de 2006
Dos Três Simples
Meia dúzia de adultos e um menino de três anos, alegre. Meia dúzia divertindo-se com ele, como ele. Simples.
A Cara Assombrada
Quem sofre, muda. Também no mais exposto de si - na face. Aí, a dor rubrica qualquer coisa indistinta, inconstante, suficientemente lá para darmos por ela, não mais. Podemos pouco, quanto a isso. Amá-la mais, só.
quinta-feira, 23 de novembro de 2006
On Connaît La Chanson
A dada altura, Nicolas pergunta a Camille se alguém lê daqueles assuntos, e ela irrita-se. A dada altura, Simon sugere a Camille que talvez se trate de uma depressão, e ela ri-se. Camille talvez conheça a canção. A si, não.
quarta-feira, 22 de novembro de 2006
Acontece
-me às vezes, na maré cheia dos do fim do dia, subir do metro ao comboio e levar de chapa no peito com um amor por todos, todos.
segunda-feira, 20 de novembro de 2006
domingo, 17 de setembro de 2006
Post 949
O Quatro Caminhos cumpriu ontem o seu segundo aniversário. Não quero deixar de repetir o meu agradecimento aos que por aqui circularam, aos que comentaram e linkaram, em especial aos passageiros habituais. Humanamente, tenho ganho neste espaço muito mais do que me foi possível imaginar, por isso vos sou grata. Agora, o QC tem de fechar ao trânsito por algum tempo. Digamos que necessita de avaliação e obras, como o túnel do Rossio.
Um abraço a todos, em geral e em particular. Qualquer coisa, estarei pela outra paragem.
Um abraço a todos, em geral e em particular. Qualquer coisa, estarei pela outra paragem.
Coisas que Só a Mim Apoquentam XXXV
Há na Islândia, há na Coreia do Sul. Até no Sri Lanka há. Assim sendo, porque é que a Lush mais próxima daqui tem de estar a centenas de quilómetros?
Montmartre, Le Chat Noir Café - Cabaret
Não sabes, mas / estás onde esqueço / ou suspendo / um imenso medo / do mundo. Sei quem és, / piano de Satie.
quarta-feira, 13 de setembro de 2006
Blog Vérité
Cortei o cabelo (bob por alma de quem?), já me pareço mais comigo. Não fui a New Jersey (que tal?), estive a ver José Pacheco Pereira vs. Manuel de Arriaga Mário Soares. Respondi nãonãonãonãonãonão a um passageiro do metro, interrompi-o naquela parte do é que é mesmo parecida com uma amiga minha. Contei cinco galinhas pretas vivas e um pombo pardo morto até ao Campo de Santana. Choveu-me em cima. Gostei muito.
terça-feira, 12 de setembro de 2006
Sete Rios, Interface CP - ML
Nove e onze de onze do nove. Um. Marcha lenta. Outro. Entreolhares. Quatro. Bilhete. Doze. Polícias. Quem esqueceu acabou de lembrar.
domingo, 10 de setembro de 2006
Queluz, Rua D. Fernando II
O bom de crescer, de envelhecer, é rever miúdos que já não o são e perceber que estão a correr bem. E termos tido a sorte de ter que ver com isso.
quinta-feira, 7 de setembro de 2006
Soprano Talk
O bairro já não é o mesmo. Cafés pasteurizados, vídeoclubes de cadeia, vizinhos novos em lofts novos. Num mundo corporativo não haverá lugar para Satriale's, nem para taxas de segurança ao lojista local. "Acabou-se", lamentam os cobradores de meia-tijela. Reunião à porta da charcutaria, cafés e cannoli. T., satisfeito, faz gala da recuperada virilidade. AJ também quer ser homem, mas não sabe para onde se virar. A Drª Melfi explica que crescer já não é o mesmo, "os 26 são os novos 21". Festa, fare niente, facada frustrada no tio. Tony explicando ao filho que este não tem vocação para capo. Aliviado. AJ não. Estômago às voltas, desmaio. Tony em Canali completo, percebendo que já não consegue trair como antes. Crescer custa. Vito em New Hampshire, mas podia ser em Brokeback Mountain. À volta do clã DiMeo toda gente acha que sabe como é: vêem-se uma coisas no cinema, capo di tutti capi, ommertà, blá, blá. Não sabe.
segunda-feira, 4 de setembro de 2006
Coisas Que Só A Mim Apoquentam XXXIV
Já ser Setembro e ainda só ter cumprido 2/5 das resoluções para este ano. É assim. Cada qual tem a sua Agenda de Lisboa.
Texas, Wichita Falls
O projecto de Scott Warren tem de tudo: lamento estetizado, confissão cómica, fúria vingativa. Sem arquivos, é rebuscar a cache. No tempo, ou no modo, não haverá quem não tenha visto o seu reflexo num postal. Ao menos uma vez.
sexta-feira, 1 de setembro de 2006
A Preguiça, Nº 12
"É ou não é estranho e lindo e BEM PENSADO por DEUS NOSSO SENHOR que ambos pensemos que nos LIVRÁMOS DE BOA e ficámos a ganhar? É."
MEC
MEC
No dia da morte de um jornal a que nunca fui fiel, ou a que só fui durante uns anos (aquando da minha passagem pela mui grada e então mui esquerdosa FLUL), evoco uma das poucas edições periódicas impressas que me ficaram na memória, e que a ele se deve.
Na cave do edifício principal, à entrada do bar do busto camoniano despromovido a capitão iglo, colocado sobre o refrigerador como vigia de comes e bebes, eu e mais dois ou três colegas aguardávamos as primeiras novidades das Pedagógicas enquanto os responsáveis pelo recém inaugurado placard de cortiça do PP acusavam de vandalismo os responsáveis pelo veterano placard de cortiça da JCP, e vice-versa. Alguém trouxe o DN, porque não era do Belmiro, eu levava O Independente, por causa das fotografias de couves e batatas da Inês Gonçalves. Abri a revista, pu-la no centro da mesa, li umas coisas alto, pasmámos todos. Faltar-lhes-ia assunto? Ter-se-iam passado?
No dia 27 de Outubro de 2000, A Preguiça teve por peça principal um artigo intitulado O casamento com a minha mulher e comigo, da autoria de um Miguel Esteves Cardoso em desavergonhada modalidade CAPSLOCK, fora de si de tão feliz. Todos os outros falavam do mesmo: amor, casamento, boda, paixão. Na altura rimo-nos, sentenciámos em coro que era um despropósito, com tanta coisa importante que havia para tratar. O certo é que guardei a revista, e que hoje me dou por contente em ter ficado esse tão belo cúmulo da liberdade de imprensa.
quarta-feira, 30 de agosto de 2006
Fechemos Condignamente A Temporada Tonta, 2
Pode ser que seja para o próximo Verão que a mass moda da patine aurífera total (cor da coloração do cabelo + maquilhagem + bronzeado tipo curtume + body lotion com efeitos especiais) se vá de vez. Tanto doirado-acobreado, doirado-estanhado, doirado-doirado. Apre. Que dor de olhos.
Comboio, Pragal - Entrecampos
Nada detém uma mulher com vontade de falar. Não uma mulher com vontade de desabafar - que por mais que a tenha nunca avança sem assentimento - uma mulher com vontade de falar, apenas. Que esteve calada o dia todo, limpando, calculando, escrevendo. A ânsia é tanta que à primeira nesga de oportunidade deixa correr as novidades da terra, as queixas dos miúdos, as fotografias da estação casamenteira, as dores na coluna. O débito é tal que não permite contra-deixa. Em vezes assim, ouvir é comunicar com a maior das generosidades.
Soprano Talk
, ou Sopapo Talk, que neste episódio nem La Bacall escapa. Já não há maneiras. Não pode uma pessoa colectiva oferecer um cabaz à avozinha, que aparece logo o lobo mau. Antes da ordem de trabalhos, peço desculpas aos meus mui estimados co/nversadores pela elipse sem anúncio. Cabeça cansada nem com tv descansa. De volta aos carris: parece que Vito, fazendo juz à fama de seboso, escorregou por entre os dedos da famiglia, não foi? Bem, por agora, menos um apoquentamento para T. e mais tempo livre para Little Carmine (um sartorialist menos arrojado neste episódio, não fosse a bota texana com o fato de verão à milaneza salvar-lhe a fama) e Chris (que lamuriento que anda, eca) fazerem o pitching desse literalmente fantástico argumento. A Sir Ben Kingsley, quanta arte não terá sido precisa para lhe não tremerem as pernas contemplando Murmur, o cardíaco e musculado endireita de Moltisanti. Conversa de elevador no seu melhor. Os infortúnios da virtude de Artie Bucco foram o mais: vocação e honestidade não salvam um negócio sem novidade, pelo menos hoje. Haja um amigo que nos atire à cara o que não queremos enfrentar. Que sempre podemos voltar ao princípio, ao caderno usado do que de tão velho é novo, novamente.
segunda-feira, 28 de agosto de 2006
Queluz, Rua D. Pedro IV
Subia-se a escada - bombeiro para baixo, bombeiro para cima - e lá estava a ante-sala do socorrista. Olhos vermelhos de fisgas, pés com pregos, cabeças partidas. À mecânica da cura, seca, sobrevinha amorosa mão de mãe.
sábado, 26 de agosto de 2006
Coisas Que Só A Mim Apoquentam, XXXIII
Sinto-me horrivelmente arrogante quando tenho dificuldade em reprimir a vontade de rir ante quem me conta um actual problema nas glândulas das argilas, ou quem relembra o recente termo clínico à gravidez de um feto vegetariano.
A Boca Dos Outros - Maggie Pollitt
Brick Pollitt:
What is the victory of a cat on a hot tin roof?
Maggie Pollitt:
Just staying on it, I guess, long as she can.
What is the victory of a cat on a hot tin roof?
Maggie Pollitt:
Just staying on it, I guess, long as she can.
Fechemos Condignamente A Temporada Tonta, 1
Dei ontem por que a União de Leiria contratou Domingos Paciência, um treinador giro, tanto ou mais que o seu último treinador giro, José Mourinho.
terça-feira, 22 de agosto de 2006
Aproximação A Lisboa
Transito. Tomo sentido na asa, na manobra de descida, no borralho ruivo e negro de cidade acesa.
terça-feira, 8 de agosto de 2006
Vou Ali Além
Quando saio e demoro um pouco mais não digo que vou demorar, digo que vou ali além, como os do pinhal. Teria uns quatro ou cinco anos, quando percebi que aquele falar também era de cá. As vogais circunflexas, as interjeições, os aforismos, ouvia-os a todos, mas apanhava-os em fiapos e aguardava tradução materna. Ouvi, quis bem, guardei. Agora adeus, vou ali além.
Soprano Talk
Paulie, esse mânfio capaz de provocar uma taquicardia a um comatoso, tem de refazer contas à vida de mais que uma maneira; contas de sangue, entre outras. Não sendo um sacana violento tão retorcido quanto o falecido Ralph Cifaretto - David Chase o tenha em descanso -, é um sacana violento à mesma (aquela cacetada final no Barone filho, a necessidade absoluta de o roubar e castigar, frustração e inveja em estado puro). T. deixou-se de delírios mas continua um bocado off; o pastor, o cientista e o rapper com nome de sabonete contribuem como podem para a construção de uma mundividência pós-quase-morte. Quer vida nova, mas o lixo do negócio é o mesmo. Carmela dá-lhe o aviso-cabeças. Ai Vito, Vito.
segunda-feira, 7 de agosto de 2006
Lisboa, Campo Grande
Para a Isabel, no primeiro aniversário de Miss Pearls.
Ganhar um amigo não é fácil. Não é fácil quando se é pequeno ou se está a crescer, porque se é pequeno e se está a crescer, mas aí há tempo, e há coração aberto. Depois mudamos, muda o mundo. Há a família, os de sempre, os das escola, os do trabalho. Espaço para mais há pouco. Quando esse pouco por qualquer acaso se preenche, a despeito de preconceitos, primeiras impressões, desconfianças, há que sorrir. E brindar a cada oportunidade.
Food Porn
Contentinha com a recente descoberta da melhor bolacha de água e sal no mercado, vê chegar a hora do jantar. Cogita premiar-se por bom comportamento calórico com um vermute enregelado. Programada a salada da ordem, muda de roupa e faz a volta dos blogues. Dá com isto. Sem uma Pavesi no bucho. "pâté de farinheira". Ainda antes do jantar. "pâté de farinheira". Reflecte amargamente na sua condição de comilona em recuperação e sim, profere dois ou três palavrões. "pâté de farinheira". Aceita que não retornará com saúde à casa dos cinquenta quilogramas, e que sofrerá diariamente pela manutenção na dos sessenta. "pâté de farinheira".
domingo, 6 de agosto de 2006
O Calor Dá Nisto
Em português, escaldado tresanda a auto-aprendizagem. Em inglês, antes pelo contrário.
Night Mirror
"Li-Young, don't feel lonely
when you look up
into great night and find
yourself the far face peering
hugely out from between
a star and a star. All that space
the nighthawk plunges through,
homing, all that distance beyond embrace,
what is it but your own infinity.
And don't be afraid
when, eyes closed, you look inside you
and find night is both
the silence tolling after stars
and the final word
that founds all beginning, find night,
abyss and shuttle,
a finished cloth
frayed by the years, then gathered
in the songs and games
mothers teach their children.
Look again
and find yourself changed
and changing, now the bewildered honey
fallen into your own hands,
now the immaculate fruit born of hunger.
Now the unequaled perfume of your dying.
And time? Time is the salty wake
of your stunned entrance upon
no name."
when you look up
into great night and find
yourself the far face peering
hugely out from between
a star and a star. All that space
the nighthawk plunges through,
homing, all that distance beyond embrace,
what is it but your own infinity.
And don't be afraid
when, eyes closed, you look inside you
and find night is both
the silence tolling after stars
and the final word
that founds all beginning, find night,
abyss and shuttle,
a finished cloth
frayed by the years, then gathered
in the songs and games
mothers teach their children.
Look again
and find yourself changed
and changing, now the bewildered honey
fallen into your own hands,
now the immaculate fruit born of hunger.
Now the unequaled perfume of your dying.
And time? Time is the salty wake
of your stunned entrance upon
no name."
Li-Young Lee, Book Of My Nights, 2001.
Coisas Que Só a Mim Apoquentam XXXII
Bolas, canholas, cacetes, croissants, vianas, brioches. Que é do papo-seco?
sexta-feira, 4 de agosto de 2006
Isto Sim, É Uma Questão Verdadeiramente Fracturante
Foi completamente ridículo mas continuou a doer, por isso acabei por sorrir para a radiografia. Afinal, o mundo divide-se entre os que partem costelas a tossir e os que não. Anotem, incréus: mais ridículo é sempre possível.
quinta-feira, 3 de agosto de 2006
O Sino Afastado
Havia cá moínhos. Os mais velhos ainda lhe chamam casal do vento, as mais novas ainda seguram as saias com ambas as mãos. Eu ainda adormeço com o rumor a sino afastado feito pela persiana de metal contra o friso de pedra.
A Boca Dos Outros - Hannah Jelkes
"Who wouldn't like to atone for the sins of themselves, and the world, if it could be done in a hammock with ropes, instead of on a Cross, with nails?"
quarta-feira, 2 de agosto de 2006
Agosto
Gosto dele muito a medo. Agosto nunca me trouxe paz. Enterrei dos meus, em dias destes, soube que amava pela primeira vez, também.Porque não pode ser como os outros, este mês?
terça-feira, 1 de agosto de 2006
Soprano Talk
Strategy, Silvio, pois. Behind the scenes também eu. Cada um tem a sua falta de ar, não é? Toda a gente cobra: Paulie e Bacala cobram dinheiro, Vito cobra protagonismo, Chris cobra fama, Carmela cobra amor. Não sei o que é melhor, se o argumento do JT [aquele fatinho salmão do Little Carmine, senhores, um primor], se a dieta do seboso do Spatafore. A Drª. Melfi volta. Tony volta e abre os olhos. Carmela também abre os olhos - não voltará a abraçar a tropa toda por igual.
Adenda um bocado grande: Ms. Charles, isso do bear lembra logo o peluche à porta do elevador. Porque será que há sempre um a rondar, verdadeiro ou não, desde a primeira temporada? Eu que pensava que percebia de símbolos. Sara, parece que já chego tarde para a resposta, mas para conversa não, pois não? Bons como o mayham do Paulie - os Walnuts da alcunha lá sobreviveram - foram o janra por genre ou o subspecies por subgenre na boca do Litlle Carmine, essa jovem esperança da produção cinematográfica em salmão [ó inesquecível peça de alfaiataria]. O entaladíssmo JT teve uma fala incompreensível ao tentar cambalear de volta ao workshop, qualquer coisa como: "Uma sala cheia de argumentistas e ninguém faz nada?!" Cheira-me a private joke destinada à equipe da série.
Adenda um bocado grande: Ms. Charles, isso do bear lembra logo o peluche à porta do elevador. Porque será que há sempre um a rondar, verdadeiro ou não, desde a primeira temporada? Eu que pensava que percebia de símbolos. Sara, parece que já chego tarde para a resposta, mas para conversa não, pois não? Bons como o mayham do Paulie - os Walnuts da alcunha lá sobreviveram - foram o janra por genre ou o subspecies por subgenre na boca do Litlle Carmine, essa jovem esperança da produção cinematográfica em salmão [ó inesquecível peça de alfaiataria]. O entaladíssmo JT teve uma fala incompreensível ao tentar cambalear de volta ao workshop, qualquer coisa como: "Uma sala cheia de argumentistas e ninguém faz nada?!" Cheira-me a private joke destinada à equipe da série.
Filia
Há uma voz, outra, outra e outra. Não há sempre o mesmo compasso, mas há uma mesma melodia e lealdade a ela.
Lisboa, Rotunda do Areeiro
Os mais velhos passeiam-se antes das nove da manhã, quando ainda podem caminhar sem medo nem a companhia dos que com eles se impacientam. Nas voltas do pão e da tabacaria são quase como quem eram.
terça-feira, 25 de julho de 2006
Ágape
Há uma mesa comprida rematada por outra redonda. Não há embaraços. Há caracóis colaterais, olhos verdes que saltam uma geração, mãos grandes. Não há silêncio. Há outra língua. Não há só quem está.
Soprano Talk
Tony em ferida aberta e num limbo comatoso, Carmela temendo o inferno. Rosalie Aprile, como de costume a desprendida voz do bom senso. Canalhaço e despudoradamente interesseiro, o Vito [ tive de ir à Wikipedia ver essa do marvingayed], a andar assim não lhe dou muitos episódios de vida. Eugene velado sem uma réstia de compreensão. Na coreografia de cuidados dos mafiosi, só Christopher e Bacala parecem honestos. Com força de converso, A.J., o ecologista (sim, é a tardo-adolescência, um ano antes passeava-se num SUV), doutrina Meadow à compra de um Prius, adiando o fim do mundo e o reencontro com o pai. E o encontro com o destino de que os seus sempre o afastaram. Aí está, na sua boca, a jura previsível, velha e sanguínea: vingança.
Sintra, Praça da República
Íamos buscar água à fonte de cima, depois brincávamos um pouco no largo, antes dos travesseiros. Esperava a minha vez com falsa paciência; em recebendo o meu, comia-o num acto, naquela pressa de gula e de aproveitarmos o fim da luz para brincarmos um pouco mais.
sábado, 22 de julho de 2006
I'll Bidé're
A minha alma está parva. Há muito que não lia nada que me causasse tamanha indignação. Pensava que neste país ainda havia valores que nos uniam a todos. Qual quê. Então não se abalança f., pela calada do fim da semana e na mornura de um fim de tarde de Verão, quando os espíritos se encontram mais lânguidos e receptivos, a sugerir a abolição do bidé? Aproveitando o costume bizarro de alguma da restauração lusa, que ignorantemente insiste em confundir lavabo&retrete com casa de banho, não tenta f. desvalorizar essa conquista civilizacional que que caracteriza o mundo que não só pratica abluções do umbigo para cima como dele para baixo, quando por qualquer motivo não deseja submergir ou aspergir-se totalmente? Pois não é perfeita a proporção das quatro paredes do reduto caseiro da limpeza pessoal para outras tantas peças de loiça, lavatório, sanita, banheira (poliban, enfim) e bidé? Pois não contam cento e sessenta e dois anos de tradição lusa na causa bidética para nada? Vamos agora pôr tudo em causa, quando outras nações a nós se juntam e potenciam o bidé à escala global? Há que contrariar estes abolicionistas já, enquanto o movimento germina. Fosse isto há dez anos, quando eu estava na força da vida, e f. seria seguramente desafiada para um duelo. De dominó. Ao meio-dia. Mesmo assim, aqui fica o ameaço: I'll bidé're.
sexta-feira, 21 de julho de 2006
Dia P+1: Primeiras Impressões
A cabeça rapada do Frank é presentemente acompanhada pelas do Joey e do Dave. A Kim apareceu com o cabelo a pente dois, demasiado one of the boys. Apesar da infame acústica do Atlântico, o som esteve bastante bom. Inalei, mesmo não fumando.
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Suburbano-Repressiva
Vem o calor e vai-se-me a paciência, transformo-me numa suburbano-repressiva com vontade de disparar pólvora seca só para pôr a vizinhança em sentido. Se fosse um homem muito entrado safava-me, passava por traumatizado da Legião Estrangeira, ou assim. É que toda a gente no meu bairro abre as janelas. Não sei se sou só eu que me incomodo, mas detesto ser obrigatoriamente mobilizada para uma comuna sonora que inclui os latidos do caniche com pressa de ir à rua que faz questão de contagiar o pastor alemão, o bulldog e os dois rafeiros do mesmo prédio; a mulher que se esgoela mas afinal não é alvo de violência do esposo, só do seu sexo; o bêbado que pica o ponto no karaoke caseiro todas as noites a partir da meia-noite; o tunneiro que acelera, acelera e não sai do cabrão do lugar de estacionamento.
Tinta Invisível [Ouvindo Aimee Mann]
O primeiro código que se aprendia era o do galo. Depois vinha o do sumo de limão, que sendo o mais fácil veio a ser o que a mais cartas-prego obrigou. Olhávamos a folha em branco com simulado enfado, antecipando vitória certa, e então encostávamos-lhe o isqueiro demais. Em lugar de calor dávamos-lhe chama, no lugar das letras descobríamos cinza ilegível.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
terça-feira, 18 de julho de 2006
Livro Razão
Tentamos impôr ordem em nós, fazemos contas, detalhamos. Mas acabamos por colocar em Diversos tudo o que não sabemos nem queremos nomear com precisão.
Soprano Talk
Não gosto de começar a ver um episódio quando ele já está a dar. Quando era pequena o meu irmão despachava-se dos banhos e dos trabalhos primeiro, depois gritava já está a dar! da sala e eu, trapalhona, lá me tentava despachar. Liguei na parte em que o Gene Pontecorvo estava a tentar abandonar o ofício, projectando um futuro familiar solarengo patrocinado por uma herança imprevista. Não pôde deixar a vida mafiosa, por isso deixou a vida. Nota-se que T. - permitamo-nos - tem andado mais pelo restaurante do Artie Bucco que pelo Nori, o que afectando as suas artérias e coluna não afecta a sua enorme pinta. Ele brinca com um barco grande, Bobby Bacala com um comboio pequeno, tchoo-tchoo-tchoo-tchoo, boina e tudo. Junior não brinca, delira. E atira, para nos deixar à espera de saber até que ponto o seu sobrinho é à prova de bala.
domingo, 16 de julho de 2006
Copo de Água/Vinho/Sumo
Há sempre quem tire a gravata, quem troque de calçado, quem carregue a maquilhagem. Ainda assim, gosto tanto de ver quem conheço mais penteado e engomado que o costume. Em versão adomingada de si.
sábado, 15 de julho de 2006
Comboio, Benfica - Queluz/Belas
Entro, sento-me, olho sem atenção em torno e para fora. Cerro a vista por um minuto, amparo a cabeça ao vidro da janela. Passo as mãos pela cara, reviro a mala e retorno a Clarice, página vinte.
O Tom Festivo
Muitos parabéns, Luís Carmelo, pelos três anos de vida do sempre interessante Miniscente. Que os que se seguem continuem, entre os mais, a inspirar posts assim.
sexta-feira, 14 de julho de 2006
quinta-feira, 13 de julho de 2006
Metro, Praça de Espanha - Baixa/Chiado
Pai, mãe e filha, provavelmente franceses. As suas roupas são leves e claras, trazem aquele amarrotado bonito do linho saído da mala de viagem. Têm o aprumo da família veraneante de saída para jantar, descontraída, corada pelas andanças do dia. O rapaz sentado do lado contrário, à coxia, só não passa despercebido porque traz uma camisa de flanela e calças de bombazine, destoa do tempo e das roupas desportivas de marca que os outros rapazes da construção usam. Não consigo dizer se se sente envergonhado, se reza, se vem cansado. Até à sua estação não eleva os olhos do chão uma única vez. Só me apetece também baixar os meus. Por respeito pela expressão mais humilde que já vi.
terça-feira, 11 de julho de 2006
Six Feet Under - Final Note
A história de todas as mortes termina com o nascimento de Willa. Com a celebração de uma família maior, de mais que sangue, agora. O mote da série desagua em Claire, na viagem de Claire, aquela por quem toda a gente está à espera. A mais nova será a mais provecta, diz o obituário. E o filme do futuro passa frente aos nossos olhos, tão depressa. Reencontros, partidas, filhos, netos. É não perder tempo, disseram Nathaniel, pai e filho, é viver. Só isto. Aqui, agora.
Muito obrigada, Charlotte, Luís, Luís e BilidaQuid, pela companhia e pela conversa. Foi sempre um prazer.
Muito obrigada, Charlotte, Luís, Luís e BilidaQuid, pela companhia e pela conversa. Foi sempre um prazer.
Adenda: Sobre este episódio, mais, melhor e para todos os gostos, aqui, aqui, aqui [parece-me que sim, vamos à opera soprana] e aqui. Dedicada a todos os outros fãs, aqui fica uma versão (tocada ao vivo na KCRW) daquela música que vocês sabem.
segunda-feira, 10 de julho de 2006
O Envelope
De dias a dias recebo um e-mail sem autor, assunto ou conteúdo. O habitual avatar do envelope aparece a hora incerta, nada mais. Fico sem saber que fazer, cismando um pouco no como e porquê de outra garrafa lançada à água sem papel.
Bourton-On-The-Water, High Street
As Cotswolds são terra dura, colinas e colinas de pedra calcária mais algum chão de forragem. Lugares como este podem hoje fazer vida de quem quer que os visite, como cenário de um idílio pastoral que nunca houve, digo, que há agora, por momentos inventado numa cabeça em passeio, que ao mesmo tempo afasta a imagem de gente vencida pelas más colheitas, pelos blocos talhados ao maciço, destinados à catedral. Bebo um refresco, fixo definitivamente um rio de nome assim só - Windrush.
domingo, 9 de julho de 2006
London, Trafalgar Square
Vai-se onde os outros já foram e teme-se que não haja nada para nós. Algo de belo e novo, que se não tenha estudado, ouvido comentar, visto na televisão. Mas há. Tem havido sempre, graças a Deus. Desta vez, Il Tagliapanni, de Giovanni Battista Moroni.
sábado, 8 de julho de 2006
"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!", XIV
Nada bonito, antipático, desprovido de fotogenia e o gajo mais sexy que passou pelo Mundial: John Terry.
Comentários Footeis, 3
Apear-se em Inglaterra e ganhar, acostar em França e perder. Em caso de Mancha, preferir o comboio.
A não ser que se seja afoito, digamos assim.
sexta-feira, 30 de junho de 2006
Do Caminho
Demorei anos a perceber de cartas. Mapas, quero dizer. Reconhecer signos e calcular escalas não me foi difícil, utilizar a bússola também não. Mas fazer corresponder um desenho à tridimensionalidade do mundo físico, à sua imparável mutação, foi. Ainda o é, em muitos dias.
quinta-feira, 29 de junho de 2006
Coisas que Só A Mim Apoquentam XXXI
O novo luso uso e abuso da palavra kitsch. Não me venham com ai não sei quês, amigos, que em português podemos lançar o nosso anatemazinho contra o mau-gosto recorrendo a categorias esteticamente bem mais precisas e menos pretensiosas. Por exemplos: se entramos num restaurante e há um enorme sapo em faiança para esconjurar ciganos, dizemo-lo kitsch por alma de quem, se o que ele é é simplesmente rasca? Se a nossa tia-avó insiste em pejar a casa de arranjos florais verde-radioactivo em plástico puro, chamamos-lhes kitsch porquê, se o que eles são é absolutamente foleiros? E já agora, se continuamos a usar uma t-shirt puída, apertada e um tamanho abaixo, comprada à porta de um concerto dos GNR há quinze anos, por que é que não admitimos que ela não nos dá hoje um ar kitsch, amigos, mas sim bera à brava?
quarta-feira, 28 de junho de 2006
Cinco Quilos Já Lá Vão
Mas - diz a balança-tipo-relógio-pólis, e o senhor doutor também - ainda faltam um mínimo de quatro e um máximo de doze. Dez, portanto. E muita-muita rabujice. Bem feita para mim.
Não (E Ainda Bem)
"Crois-tu donc qu’on oublie autant qu’on le souhaite?"
Comentários Footeis, 2
Verei o Portugal-Inglaterra algures na Cantuária. Torcendo para que não façamos figura de moleiro.
sexta-feira, 23 de junho de 2006
Baixas
Quando estou ansiosa ou angustiada, quando se aproxima o fim de um trabalho importante, quando padeço de outra verdade inclemente saída da boca da minha mãe, arrumo papéis. Saio à rua, compro arquivos, dossiers, separadores, micas, autocolantes, e depois pego de caras o acumulado de semanas, por vezes meses. Não fico muito melhor, mas fico um bocado. Desta vez vez não. Depois da limpeza, dou com os meus velhos cadernos de notas debaixo dos postais de aniversário dos amigos, dos horários do comboio tomarense e do expresso lisboa-sertã, aqueles que substituíram os diários de criança e nos quais durante muitos anos tentei escrever alguma coisa. Versos e contos, o costume. Ao abri-los e relê-los não me reconheço, mas também não me embaraço. Não são muito maus. Toma-me uma enorme tristeza, não só porque ali jazem várias dezenas de histórias inacabadas e ideias a que não dei corda, como sobretudo porque não posso fazer nada por elas. São baixas do tempo.
Coisas Que Só A Mim Apoquentam XXX
"Não costumo dizer o que sinto, mas aproveito o que sinto para dizer qualquer coisa."
Li em algum lado que Ruy Belo tinha dito isto. Não sei onde, nem sei se é verdade.
Vá, Sejam Interactivos
Daqui a uns dias vou a banhos para o reguengo da rainha. Digam aí, na vossa viajada opinião, que coisa é absolutamente imperdível em Londres.
quinta-feira, 22 de junho de 2006
Six Feet Under Notes
Vemo-lo regressar à casa do pai, no primeiro episódio. Neste último também. Se me pedissem para contar esta história, diria que era uma vez um homem que trazia a morte consigo e não a teve até estar pronto. Sei que há um epílogo, ou três, que continuarei a acompanhar e a comentar, tanto quanto sei que esta história acaba aqui. Tudo o que tem um princípio tem um fim. Fim quer dizer propósito.
segunda-feira, 19 de junho de 2006
E Por Falar Em Responso
Como de hábito, meti-me na Carreira Transatlântica para ver o que havia de novo. Rafael Galvão é um dos melhores da banda de lá, por isso passei, como de costume, pelo seu homónimo blogue. A 13 de Junho, por coincidência ou nem por disso, o aracajuense escreveu um post que é um responso em favor de quem não sabia quem andava a perder. Em dia de António, Rafael apresenta Antônio. Mais precisamente Antônio Maria Araújo de Morais. É, para mim, uma das descobertas do ano. Obrigada, Rafael.
Six Feet Under Quadras [Ena, Ao Fim de Oito Dias Isto Já Funciona Normalmente]
António, antes Fernando,
Teve por missão pregar.
Distraí-me, a ele brindando,
Deixei um mortinho© escapar!
Que pobreza franciscana,
Ó popular professor!
Sair à noite, de semana,
Sem ter dvd-gravador...
Um pouco à laia de teste,
Do antigo responso saquei;
E não é que no blogue A Peste
Uma bela nota encontrei?
Muito grata, santinho rico,
Assim não perco fio à contenda.
Fazem-me falta o Federico,
Os Fisher, o Keith e a Brenda!
[isto era para ter sido publicado há uma semana, mas o ISP não deixou, vai assim requentado, paciência]
domingo, 18 de junho de 2006
A Resposta É:Sim
O netprubrema obriga-me a postar modelos-de-sms (a resposta é: sim; reunião às; lamento; vejo-a às).
sábado, 17 de junho de 2006
sexta-feira, 16 de junho de 2006
O Blogger É De Pádua
Estou há três dias a tentar postar umas quadras sobre o Santo António de Lisboa e o sacana não me deixa. A ver se é hoje.
quinta-feira, 15 de junho de 2006
quarta-feira, 14 de junho de 2006
sexta-feira, 9 de junho de 2006
Faltam Quarenta Dias Para O Concerto Dos Pixies
, ainda.
Não sou fã desde 1986. Nessa altura andava pelo recreio da primária preocupada com o futuro dos Wham!, enquanto uma das minhas primas mais velhas fazia a caridade de mos gravar numas cassetes BASF cor-de-laranja. Lá pelo sétimo ou oitavo ano dei-me conta da existência de uma banda cujo guitarrista-cantor tinha um penteado à Coronel Kurtz, mas mais nada. Genuína curiosidade só no décimo, depois de o meu amigo Bruno demorar uma semana a recuperar do choque causado pela morte do quarteto mais importante do seu mundo, regressando ainda de luto. A poucos meses de ver o quarteto mais importante do meu, entendi que se aquele magricela de olhos azuis-escuros e cabelo da cor da t-shirt do macaco com halo sofria assim, era porque era capaz de valer a pena ouvir. E foi.
Não sou fã desde 1986. Nessa altura andava pelo recreio da primária preocupada com o futuro dos Wham!, enquanto uma das minhas primas mais velhas fazia a caridade de mos gravar numas cassetes BASF cor-de-laranja. Lá pelo sétimo ou oitavo ano dei-me conta da existência de uma banda cujo guitarrista-cantor tinha um penteado à Coronel Kurtz, mas mais nada. Genuína curiosidade só no décimo, depois de o meu amigo Bruno demorar uma semana a recuperar do choque causado pela morte do quarteto mais importante do seu mundo, regressando ainda de luto. A poucos meses de ver o quarteto mais importante do meu, entendi que se aquele magricela de olhos azuis-escuros e cabelo da cor da t-shirt do macaco com halo sofria assim, era porque era capaz de valer a pena ouvir. E foi.
quinta-feira, 8 de junho de 2006
A Boca Dos Outros - Blanche DuBois
"Straight? What's 'straight'? A line can be straight, or a street. But the heart of a human being?"
Tenessee Williams, A Streetcar Named Desire, 1947.
Comentários Footeis, 1
Que posso eu dizer sobre o assunto, assim no domínio da patacoada feminina? Tanta coisa. Para começar, que acho lindo que, apesar dos pesares, o Jorge Andrade chegue hoje a Marienfeld. Sem as muletas dos últimos tempos e com o alegria do costume. Aquilo é que é um sorriso, senhores.
Lost In Translation
Há uma relação qualquer entre o facto de Monroe e DiMaggio terem passado os primeiros tempos de casados em Tóquio e Charlotte e John também.
quarta-feira, 7 de junho de 2006
Six Feet Under Notes
Nem haveria que as pedir, Luís. Também para as nossas conversas o tempo longo é o que conta. Penso que sim, que Ball gosta de nos confundir, nesta temporada provocando-nos desde o primeiro episódio esta sensação de mal-estar [ou angústia, como sugeriu a Charlotte (beijinhos, assim mesmo a despropósito)], de presságio de fim. Como que ampliando a nossa ânsia de desfecho. Enquanto isso, os casais debatem-se. Na casa dos Diaz a temperatura continua abaixo de zero, Federico quer o que tinha e Vanessa nem pensar; Ruth ainda gosta de George, quer uma parte e não desata do todo; Nate e Brenda descobrem a diferença entre 1+1 e 2, Keith e David descobrem a diferença entre 2+2 e 4.Claire ainda não alinha pelo jargão do office - yeah, baby - mas encontra motivo de interesse. Em silêncio, só Maggie.
terça-feira, 6 de junho de 2006
Massamá, Rua Casal do Olival
O sonho foi meu, mas a recordação é dela. Das primeiras que contou entre as poucas que trazia. Mar, calor e crianças pontapeando uma bola, levantando pó. Mal falava português, quando entrou para a minha classe. Filha mais nova de comerciantes cantoneses há muito estabelecidos em Dili, emigrou para Portugal no início dos anos oitenta, com dois dos seus irmãos. Os restantes rumaram à Austrália com uma avó. Os pais, esses, não arredaram pé da loja de Timor.
No liceu tornámo-nos próximas. Com o tempo foi-me contando o quanto lhe interessava a Biologia; de como revira apenas uma vez a mãe e uma irmã, num breve encontro em Paris; que desde criança era responsável pelas tarefas domésticas; da severidade dos irmãos, acirrando, dia após dia, o seu desejo de independência; de como a língua materna era a única falada entre eles.
Os três foram chamados pelos mais velhos em 1992. Em poucas semanas, pleno segundo período, tiveram que expedir ou vender tudo o que dizia respeito à sua década portuguesa. Despedi-me dela depois da aula de Português, houve até bolo, daí a dias faria anos. Na chegada à Austrália. Estava assustada e muito triste, mal se lembrava da restante família, só da avó, que haveria de morrer não muito depois. Deixou-me algumas canetas, uma t-shirt e um bloco de folhas A4. Na contra-capa do bloco pedia-me que as gastasse, gastasse, gastasse, para que não se gastasse a nossa amizade. Assim fiz, e ela também. Primeiro muito, com o passar dos anos menos. Primeiro em português, depois nas duas línguas. Nos últimos anos já só em inglês.
Julguei ter sonhado com Dili por causa destes dias de fogo e facas, mas não. A Kim fez anos há uma semana. Só agora me lembrei.
No liceu tornámo-nos próximas. Com o tempo foi-me contando o quanto lhe interessava a Biologia; de como revira apenas uma vez a mãe e uma irmã, num breve encontro em Paris; que desde criança era responsável pelas tarefas domésticas; da severidade dos irmãos, acirrando, dia após dia, o seu desejo de independência; de como a língua materna era a única falada entre eles.
Os três foram chamados pelos mais velhos em 1992. Em poucas semanas, pleno segundo período, tiveram que expedir ou vender tudo o que dizia respeito à sua década portuguesa. Despedi-me dela depois da aula de Português, houve até bolo, daí a dias faria anos. Na chegada à Austrália. Estava assustada e muito triste, mal se lembrava da restante família, só da avó, que haveria de morrer não muito depois. Deixou-me algumas canetas, uma t-shirt e um bloco de folhas A4. Na contra-capa do bloco pedia-me que as gastasse, gastasse, gastasse, para que não se gastasse a nossa amizade. Assim fiz, e ela também. Primeiro muito, com o passar dos anos menos. Primeiro em português, depois nas duas línguas. Nos últimos anos já só em inglês.
Julguei ter sonhado com Dili por causa destes dias de fogo e facas, mas não. A Kim fez anos há uma semana. Só agora me lembrei.
sábado, 3 de junho de 2006
Coisas Que Só A Mim Apoquentam XXIX
Inverdade. Inverdade é a palavra mais cobardolas que por aí anda, e quem a inventou também deve ser. Mentira nem se lhe compara, de tão mais sincera.
E Agora Para Algo Completamente Ridículo
Uma rapariga que eu cá sei fez uma lesão na coluna durante um acesso de tosse. Não podia ter feito a coisa de forma digna, numa queda no gymnasylum durante a aula de boddy attack, por exemplo. Não. Uma rapariga que eu cá sei tem agora pela frente quatro caixas de comprimidos e um mês de tropeguidão. Por carregar no gelo da limonada. Tão típico de uma rapariga que eu cá sei.
sexta-feira, 2 de junho de 2006
Fac Simile
Faz vénia à gente desse século, grata, pois num fac simile de boa memória - epístola de figura célebre e poupada - aprendeu que várias páginas podem sê-lo numa só, se a letra for justaposta em diferentes direcções. Agora, quando a folha lhe falta ou o branco a atemoriza, vai ver de outra, outra vez.
Urgimos
Chego e anunciam-me mais. Ainda mais. Tantas em tão poucos dias. Súbitas, próximas, esperadas, distantes, infantis. Urgimos e esquecemo-nos, até dias assim.
quinta-feira, 1 de junho de 2006
Happy Birthday, Ms. Baker
Para o Sérgio, homócrono e devoto.
Elizabeth Hurley disse um dia que se mataria se fosse tão gorda quanto Marilyn havia sido. Há tantas pessoas como Hurley, bonitas e impermeáveis à beleza. Sobretudo mulheres. Monroe não era invenção, era apelido de família. Sabias?
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