Há uma mesa comprida rematada por outra redonda. Não há embaraços. Há caracóis colaterais, olhos verdes que saltam uma geração, mãos grandes. Não há silêncio. Há outra língua. Não há só quem está.
terça-feira, 25 de julho de 2006
Soprano Talk
Tony em ferida aberta e num limbo comatoso, Carmela temendo o inferno. Rosalie Aprile, como de costume a desprendida voz do bom senso. Canalhaço e despudoradamente interesseiro, o Vito [ tive de ir à Wikipedia ver essa do marvingayed], a andar assim não lhe dou muitos episódios de vida. Eugene velado sem uma réstia de compreensão. Na coreografia de cuidados dos mafiosi, só Christopher e Bacala parecem honestos. Com força de converso, A.J., o ecologista (sim, é a tardo-adolescência, um ano antes passeava-se num SUV), doutrina Meadow à compra de um Prius, adiando o fim do mundo e o reencontro com o pai. E o encontro com o destino de que os seus sempre o afastaram. Aí está, na sua boca, a jura previsível, velha e sanguínea: vingança.
Sintra, Praça da República
Íamos buscar água à fonte de cima, depois brincávamos um pouco no largo, antes dos travesseiros. Esperava a minha vez com falsa paciência; em recebendo o meu, comia-o num acto, naquela pressa de gula e de aproveitarmos o fim da luz para brincarmos um pouco mais.
sábado, 22 de julho de 2006
I'll Bidé're
A minha alma está parva. Há muito que não lia nada que me causasse tamanha indignação. Pensava que neste país ainda havia valores que nos uniam a todos. Qual quê. Então não se abalança f., pela calada do fim da semana e na mornura de um fim de tarde de Verão, quando os espíritos se encontram mais lânguidos e receptivos, a sugerir a abolição do bidé? Aproveitando o costume bizarro de alguma da restauração lusa, que ignorantemente insiste em confundir lavabo&retrete com casa de banho, não tenta f. desvalorizar essa conquista civilizacional que que caracteriza o mundo que não só pratica abluções do umbigo para cima como dele para baixo, quando por qualquer motivo não deseja submergir ou aspergir-se totalmente? Pois não é perfeita a proporção das quatro paredes do reduto caseiro da limpeza pessoal para outras tantas peças de loiça, lavatório, sanita, banheira (poliban, enfim) e bidé? Pois não contam cento e sessenta e dois anos de tradição lusa na causa bidética para nada? Vamos agora pôr tudo em causa, quando outras nações a nós se juntam e potenciam o bidé à escala global? Há que contrariar estes abolicionistas já, enquanto o movimento germina. Fosse isto há dez anos, quando eu estava na força da vida, e f. seria seguramente desafiada para um duelo. De dominó. Ao meio-dia. Mesmo assim, aqui fica o ameaço: I'll bidé're.
sexta-feira, 21 de julho de 2006
Dia P+1: Primeiras Impressões
A cabeça rapada do Frank é presentemente acompanhada pelas do Joey e do Dave. A Kim apareceu com o cabelo a pente dois, demasiado one of the boys. Apesar da infame acústica do Atlântico, o som esteve bastante bom. Inalei, mesmo não fumando.
quinta-feira, 20 de julho de 2006
Suburbano-Repressiva
Vem o calor e vai-se-me a paciência, transformo-me numa suburbano-repressiva com vontade de disparar pólvora seca só para pôr a vizinhança em sentido. Se fosse um homem muito entrado safava-me, passava por traumatizado da Legião Estrangeira, ou assim. É que toda a gente no meu bairro abre as janelas. Não sei se sou só eu que me incomodo, mas detesto ser obrigatoriamente mobilizada para uma comuna sonora que inclui os latidos do caniche com pressa de ir à rua que faz questão de contagiar o pastor alemão, o bulldog e os dois rafeiros do mesmo prédio; a mulher que se esgoela mas afinal não é alvo de violência do esposo, só do seu sexo; o bêbado que pica o ponto no karaoke caseiro todas as noites a partir da meia-noite; o tunneiro que acelera, acelera e não sai do cabrão do lugar de estacionamento.
Tinta Invisível [Ouvindo Aimee Mann]
O primeiro código que se aprendia era o do galo. Depois vinha o do sumo de limão, que sendo o mais fácil veio a ser o que a mais cartas-prego obrigou. Olhávamos a folha em branco com simulado enfado, antecipando vitória certa, e então encostávamos-lhe o isqueiro demais. Em lugar de calor dávamos-lhe chama, no lugar das letras descobríamos cinza ilegível.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
terça-feira, 18 de julho de 2006
Livro Razão
Tentamos impôr ordem em nós, fazemos contas, detalhamos. Mas acabamos por colocar em Diversos tudo o que não sabemos nem queremos nomear com precisão.
Soprano Talk
Não gosto de começar a ver um episódio quando ele já está a dar. Quando era pequena o meu irmão despachava-se dos banhos e dos trabalhos primeiro, depois gritava já está a dar! da sala e eu, trapalhona, lá me tentava despachar. Liguei na parte em que o Gene Pontecorvo estava a tentar abandonar o ofício, projectando um futuro familiar solarengo patrocinado por uma herança imprevista. Não pôde deixar a vida mafiosa, por isso deixou a vida. Nota-se que T. - permitamo-nos - tem andado mais pelo restaurante do Artie Bucco que pelo Nori, o que afectando as suas artérias e coluna não afecta a sua enorme pinta. Ele brinca com um barco grande, Bobby Bacala com um comboio pequeno, tchoo-tchoo-tchoo-tchoo, boina e tudo. Junior não brinca, delira. E atira, para nos deixar à espera de saber até que ponto o seu sobrinho é à prova de bala.
domingo, 16 de julho de 2006
Copo de Água/Vinho/Sumo
Há sempre quem tire a gravata, quem troque de calçado, quem carregue a maquilhagem. Ainda assim, gosto tanto de ver quem conheço mais penteado e engomado que o costume. Em versão adomingada de si.
sábado, 15 de julho de 2006
Comboio, Benfica - Queluz/Belas
Entro, sento-me, olho sem atenção em torno e para fora. Cerro a vista por um minuto, amparo a cabeça ao vidro da janela. Passo as mãos pela cara, reviro a mala e retorno a Clarice, página vinte.
O Tom Festivo
Muitos parabéns, Luís Carmelo, pelos três anos de vida do sempre interessante Miniscente. Que os que se seguem continuem, entre os mais, a inspirar posts assim.
sexta-feira, 14 de julho de 2006
quinta-feira, 13 de julho de 2006
Metro, Praça de Espanha - Baixa/Chiado
Pai, mãe e filha, provavelmente franceses. As suas roupas são leves e claras, trazem aquele amarrotado bonito do linho saído da mala de viagem. Têm o aprumo da família veraneante de saída para jantar, descontraída, corada pelas andanças do dia. O rapaz sentado do lado contrário, à coxia, só não passa despercebido porque traz uma camisa de flanela e calças de bombazine, destoa do tempo e das roupas desportivas de marca que os outros rapazes da construção usam. Não consigo dizer se se sente envergonhado, se reza, se vem cansado. Até à sua estação não eleva os olhos do chão uma única vez. Só me apetece também baixar os meus. Por respeito pela expressão mais humilde que já vi.
terça-feira, 11 de julho de 2006
Six Feet Under - Final Note
A história de todas as mortes termina com o nascimento de Willa. Com a celebração de uma família maior, de mais que sangue, agora. O mote da série desagua em Claire, na viagem de Claire, aquela por quem toda a gente está à espera. A mais nova será a mais provecta, diz o obituário. E o filme do futuro passa frente aos nossos olhos, tão depressa. Reencontros, partidas, filhos, netos. É não perder tempo, disseram Nathaniel, pai e filho, é viver. Só isto. Aqui, agora.
Muito obrigada, Charlotte, Luís, Luís e BilidaQuid, pela companhia e pela conversa. Foi sempre um prazer.
Muito obrigada, Charlotte, Luís, Luís e BilidaQuid, pela companhia e pela conversa. Foi sempre um prazer.
Adenda: Sobre este episódio, mais, melhor e para todos os gostos, aqui, aqui, aqui [parece-me que sim, vamos à opera soprana] e aqui. Dedicada a todos os outros fãs, aqui fica uma versão (tocada ao vivo na KCRW) daquela música que vocês sabem.
segunda-feira, 10 de julho de 2006
O Envelope
De dias a dias recebo um e-mail sem autor, assunto ou conteúdo. O habitual avatar do envelope aparece a hora incerta, nada mais. Fico sem saber que fazer, cismando um pouco no como e porquê de outra garrafa lançada à água sem papel.
Bourton-On-The-Water, High Street
As Cotswolds são terra dura, colinas e colinas de pedra calcária mais algum chão de forragem. Lugares como este podem hoje fazer vida de quem quer que os visite, como cenário de um idílio pastoral que nunca houve, digo, que há agora, por momentos inventado numa cabeça em passeio, que ao mesmo tempo afasta a imagem de gente vencida pelas más colheitas, pelos blocos talhados ao maciço, destinados à catedral. Bebo um refresco, fixo definitivamente um rio de nome assim só - Windrush.
domingo, 9 de julho de 2006
London, Trafalgar Square
Vai-se onde os outros já foram e teme-se que não haja nada para nós. Algo de belo e novo, que se não tenha estudado, ouvido comentar, visto na televisão. Mas há. Tem havido sempre, graças a Deus. Desta vez, Il Tagliapanni, de Giovanni Battista Moroni.
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