a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sábado, 9 de abril de 2005

Momentum

Oh, for the sake of momentum
I've allowed my fears to get larger than life
And it´s brought me to my current agendum
Whereupon I deny fulfillment has yet to arrive

And I know life is getting shorter
I can´t bring myself to set the scene
Even when it´s approaching torture
I've got my routine

Oh, for the sake of momentum
Even though I agree with that stuff of seizing the day
But I hate to think of effort expended
All those minutes and hours I have frittered away

Aimee Mann, Momentum. Music From The Motion Picture Magnolia. Reprise Records/Time Warner, 1999.

Moer À Mó Alvar

É o que me apetece fazer a quem se dedica, pela calada, a estragar o trabalho dos outros. O Berra-Boi não foi o primeiro nem será o último a sofrer um ataque de gente recalcada.

Operação Georgette III

9 de Abril. Ao contrário da prevista integração no 11th Corps e da retirada da 1ª Divisão, o contigente português viu-se obrigado a defender a linha da frente. Iniciou-se uma disputa territorial desigual que durou por vinte dias. Os britânicos recuaram um total de sessenta quilómetros e o CEP perdeu 327 oficiais e 7098 soldados; os sãos e os feridos não-capurados pelos germânicos foram retirados da frente, e algumas das unidades remanescentes continuaram ainda em combate entre o Somme e Ypres, integradas nas fileiras do exército reino-unidense. A ofensiva do General Ferdinand von Quast cumpriu, provisoriamente, os seus intentos. Muitas centenas de portugueses morreram sob a chuva de fogo deste dia. Como eles, Eric Franklin Giles não voltaria a ver outro rio que não o Lys.
No Reino Unido assinala-se o confronto destes dias, mais precisamente a Battle of Estaires, decorrida entre 9 e 11 de Abril. Ainda não passaram noventa anos. Quem lembra os portugueses que morreram desta maneira? Nós não.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Se Tiver Sido Uma Mulher Vou Ter De Comer O Meu Chapéu

O auricular de telemóvel foi criado por um homem vingativo. Vingativo, mas bem-humorado. O indivíduo foi certamente alvo da incompreensão do meu género, nessa modalidade clássica que é a descompostura em praça pública. Espanto-me sempre que vejo uma mulher a gritar com um homem no meio da rua; não com a cena, claro, mas com o facto de a [muito ou nada] vítima optar quase sempre por fazer de conta que não ouve, ou por baixar a cabeça, submissa. Exemplos recentes: Ao meio-dia de outro dia, em Santarém, uma mulher de metro e meio perseguia um homem que ia – depressinha – Rua Guilherme de Azevedo acima, vocalizando o seguinte mantra: “Seu Fáxista! Fáxista! Dás o dinheiro tod’à outra! Aquilo é qu’é uma esposa, é? Seu Fáxista!”; dois dias depois, eu e outros sessenta suburbanos (lotação aproximada de uma carruagem do comboio Areeiro-Sintra em hora de ponta) ouvimos vinte minutos de discussão entre uma passageira fora de si e o seu telemóvel, ao qual chamava “Ricardo”, e de quem reclamava o depósito de uma quantia considerável de dinheiro - "Não pode ser, Ricardo! Estava a usar o Visa numa loja! Que vergonha!”-. Se é esquisito ouvir uma mulher aos berros com um homem ao vivo ou com o telefone que tem na mão, é mais esquisito ouvir uma mulher aos berros com o ar. Está bem, está lá o fiozinho do auricular (também há fiozinhos pretos nos filmes antigos, haja suspension of disbelief…), mas a pessoa está a falar sozinha. Para a atmosfera, para o vazio, a gesticular com um olhar esbugalhado. A metáfora do inventor passivo-agressivo funciona, ou pelo menos funcionou hoje. Numa superfície comercial, ao som de bossa-nova. No meio do corredor, uma rapariga de aparência sadia esgoelava-se para o boneco que não estava lá.

Não Consigo

A intensidade só é obstáculo para quem quer adormecer. Abandona de noite o que coleccionas de dia.

Gonçalo M. Tavares, 1. Livro das investigações claras. Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p.209.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

Menções Honrosas I

Não são prémios, mas podiam ser. Sempre entretêm, enquanto esquecemos os óscares de Hollywood e aguardamos as palmas de Cannes.

Categoria “Sou Magnânimo
Ou de como uma verdade auto–evidente muitas vezes repetida se transforma em manifesto de generosidade democrática:

É bom que surjam novas revistas – independentemente da orientação que tenham.
Eduardo Prado Coelho dixit [p.9]

Todos têm lugar no PSD. O Pacheco Pereira também tem o seu lugar no PSD.
Miguel Relvas dixit [p.12]


Secção “A Culpa É Do Amanuense
Ou de como, apesar de haver a internet em geral e as bases de dados em particular, há sempre, também, o funcionário que pensa noutra coisa:

Apesar de relativamente desconhecido, Craig tem nos seus créditos uma participação no primeiro filme da série Tomb Raider.
In “Pessoas. Daniel Craig, mais um candidato a 007.” [p. 46]

A colheita de hoje foi feita no Público-de-papel [pagantes por pagantes, prefiro jornal em jornal].

Pirotecnia

Papéis, papéis. Finalmente meia-tarde em tarde em Lisboa, mesmo que para tratar de papéis. Três horas divididas entre o Chiado e a Mouraria. Quarter-Lag. São Domingos, São Lázaro e a Rua da Palma com o ambiente agreste e mexido do costume. No Chiado, gente tão mas tão gira espreguiçando-se pelas esplanadas que pondero um telefonema anónimo à polícia municipal; aposto que ninguém ali pagou licença de actividades pirotécnicas.

Papoilas & Pampilhos

Por todo o lado. No capim de entre os prédios, a rés da linha do comboio, na berma da estrada. A minha avó ensinou-me a fazer colares de pampilho e eu aprendi a gostar de parecer uma havaiana fora do lugar.

Fêmeas & Varões II

Há mulheres que falam como quem olha. De esguelha.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Operação Georgette II

O estado das tropas do CEP era de tal forma aflitivo que os britânicos decidiram fazer a força lusa recuar da linha da frente de batalha. Das duas divisões que a compunham, a 1ª ficaria na rectaguarda, de reserva e pronta a render a 2ª. Esta haveria de ser incorporada no 11th Corps do British Army, sob comando do General Hacking. O general tomara tal decisão após uma visita às tropas, marcando a data de 9 de Abril para o efeito. O sector luso tinha 22 000 homens e 88 peças de artilharia. Sem o saberem, enfrentariam daí a dias o 6º Exército Germânico, que movimentava para o local oito divisões com 100 000 soldados, providos de centenas de peças de artilharia, ligeira e pesada. E novas armas. Químicas.
No meio de tantos, um certo jovem inglês ali estava; havia deixado Lisboa e a casa do seu tio em 1916, rumando a Londres num vapor para responder ao draft. Cinco anos após a sua chegada do Transvaal, Frank fizera sua a casa da Rua Marquês de Fronteira; o Engº. Giles, alto executivo da Carris, acomodara-o da melhor forma, apresentado-o de imediato à colónia anglo-saxónica e cristã reformada da cidade, bem como ao seu pequeno círculo de amizades lusas. Em 1912, pouco tempo depois de começar frequentar a Associação Cristã da Mocidade local (a segunda congénere da YMCA em Portugal, fundada depois da do Porto), Frank Giles sugeriu à direcção da associação a criação de um grupo de boy-scouts, novidade entusiasticamente acolhida. Ao início não falava uma palavra de português, pelo que para levar a empreitada a bom termo contou com Ernesto de Sousa, seu futuro bom amigo. No meio de tantos, Eric Franklin Giles sabia de onde eram os estrangeiros morenos, já percebia o que diziam, conhecia as suas palavras. Esperava, com força, sair da lama francesa e voltar para perto de outro rio que não o Lys. Para perto do Tamisa, ou do Tejo. Para uma Primavera que não aquela.


Wee Hours

Numa noite assim vi o Mulholland Drive. Três dias e dois visionamentos mais tarde, eu e o meu irmão continuávamos a tentar fazer da abstracção coisa figurativa. Como sempre, sonhei com o filme. Dentro do sonho resolvi a relação entre o genérico do concurso jitterbug e a camisola rosa-carmim da recém-chegada a L.A.

Jonas

"No outro quarto, Rateau observava a tela, inteiramente branca, apenas com uma inscrição no meio, em caracteres minúsculos. Era uma palavra que se podia decifrar, talvez fosse solitário ou talvez fosse solidário."
Albert Camus, Jonas, 1957.

O Tejo IV

Lisboa ao largo, há meses. Fixo a cara da campina e sigo. Meses. Linha acima, linha abaixo. Leio a água e sigo.

Em memória de M. L. P. M., 1919-2005

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Trem-Lag V

7:51 a.m. Estação de Rossio ao Sul do Tejo. Magala traz magala pela mão. Magala sorri, triste, e olha magala enquanto espera o comboio chegar. O comboio chega, atrasado. Magala beija magala. Magala abraça magala com força. Já no seu lugar, do outro lado da janela, a magala acena e o magala regressa ao quartel, sem licença de fim-de-semana.

Nada como dantes, no quartel de Abrantes.

Operação Georgette I

Neste dia, há 87 anos atrás, os alemães encarregados de mais uma ofensiva sobre o sector português na Flandres estariam já afadigados a ultimar a estratégia e a logística inerentes à Operação Georgette, iniciada a 9 de Abril. Nesse sector da frente, do lado dos Aliados, estava para ocorrer um movimento de rendição do Corpo Expedicionário Português por novo contigente de ingleses: aqueles homens tinham tomado conta do sector em Novembro do ano prévio, anteriormente sob Comando do britânico General Horne, e mesmo após o sério golpe de 27 de Março, souberam que uma terceira unidade lusa nunca chegaria para os render, e que teriam de combater por longos períodos em péssimas condições de sobrevivência.

domingo, 3 de abril de 2005

Assincronia

O tempo é mais injusto que o espaço. Quantas vezes teremos de encontrar pessoas que ainda não estamos prontos para conhecer? Que ainda não podemos apreciar? Quantas vezes não chegaremos a horas de fazer um amigo?

Palavras Em Desuso V

Retinto - Que tem cor carregada; convicto; nítido.

sábado, 2 de abril de 2005

É Bomba. É Inteligente.

Gosto muito deste blog, que faz hoje dois anos. Como o Abrupto, é dos poucos que andam sempre à tabela (pode-se contar com ele), é giro (é da cor das casas de banho do Alvaláxia e tem fotos de estrelas bonitas que podemos -risada- tentar copiar), é feliz (tem canções, poesia, pontos de exclamação, não é choradinho nem confessional). E quem acha que isto não importa é ovo podre.

Wojtyla, Ou A Sucessão De Pedro Na Cidade Dos Homens

Peço a paciência da minha dúzia de leitores, que isto vai ser longo. Este assunto é complexo e ultrapassa-me muito, pelo que vou tentar ser clara sem ser simplista. Citarei algumas das frases do bicho-da-seda para explicitar os pontos de discordância e concordância com o referido post.

Karol Woytila representou um enorme retrocesso na Igreja Católica.(…) Karol Woytila e os seus acólitos do fundo da alma empenharam-se em erradicar da Igreja Católica Apostólica Romana o que restava da esperança aberta pelo Concílo Vaticano II, nos remotos idos do começo dos anos sessenta do século passado.

Não me parece. A 22 de Outubro de 1978, Karol Joséf Wojtyla foi entronizado como João Paulo II, 264º sucessor de Pedro e, daí em diante, primeiro-pastor do católicos. Eleito dias antes pelos seus pares do colégio cardinalício, ao cabo de oito escrutínios, o arcebispo de Cracóvia não tinha o perfil de um expectável Bennelli, primaz de Florença, nem de um Siri, primaz de Génova, que é o mesmo que dizer que era não era visto nem como progressista, nem como integrista. Herdou a liderança de uma realidade tríplice, que existia antes dele e depois dele continuará a existir. A Igreja Católica contemporânea comporta, sobretudo no seio da sua hierarquia sacerdotal, enormes tensões: o meio geográfico, étnico, histórico e económico do qual vêm os seus membros é, sobretudo desde o início da segunda metade do séc. XX, grande como o mundo; estas pessoas foram doutrinadas de várias maneiras, politizadas de várias maneiras, aculturadas de várias maneiras. Penso que para compreender este pontificado é útil relembrar a diferença entre Igreja, Santa Sé e Estado do Vaticano. Este último é o instrumento político usado para manter a soberania da segunda, que é a instância superior da comunidade mundial de crentes, a primeira. As três são o que são na cidade dos homens, não na cidade de deus. O catolicismo é múltiplo, o que não facilita a luta de todos os dias por guardar o depósito da fé em Cristo, missão principal confiada pelo Papa João XXIII ao Concílio Vaticano II. É bom não esquecer que Wojtyla, então bispo, esteve entre outros dois mil no dia 11 de Outubro de 1962; participou nos trabalhos dos anos seguintes e teve influência directa na discussão de dois dos seus temas, a liberdade religiosa e o papel eclesiástico dos leigos. Já Papa, foi responsável por encíclicas como O Trabalho Humano (‘79) ou A Solicitude Social da Igreja (‘87), O Esplendor da Verdade (‘93), que propõem que se leve mais longe a doutrina social da Igreja na defesa do trabalhador, que refreiam a tendência partidarização dos católicos em torno da democracia-cristã, que reflectem sobre a forma de comunicar e viver as verdades da fé num contexto de extrema liberdade. Apoiou movimentos espirituais encabeçados por leigos e sacerdotes, promoveu o Encontro Mundial da Juventude. É isto obra de um reaccionário?

O ecumenismo evangélico presente na doutrina, discurso, prática oficiais é mera fachada para soberba e pesporrência inconsequente de converso ignaro.

Qualquer católico que tenha um contacto, ainda que superficial com a dinâmica de Taizé, ou que, como eu, já tenha dado por si numa oração ecuménica organizada numa qualquer pequena cidade (no meu caso foi em Newcastle, com baptistas, católicos, anglicanos e luteranos), sabe que o ecumenismo é, sobretudo na Europa, uma realidade praticada muito a sério, por via da oração e por força de todos os que nela se envolvem. Acontece porque os crentes o desejam e porque, no caso dos católicos, O Apelo à Unidade dos Cristãos (‘95) não foi um texto inconsequente. Estamos muito longe de uma mítica reunificação, mas o chão nunca esteve tão maduro.

Uma das imagens sacramentais que conservo do consulado do Papa polaco é a sua vigorosa admoestação, que obviamente fez questão que fosse pública, que ficasse registada e documentada, de Leonardo Boff, a principal figura da Teologia da Libertação. Após esse episódio, nunca mais aquele padre pôde continuar o seu trabalho verdadeiramente cristão de não ignorar os assuntos da Cidade(…).

Não conheço a fundo a Teologia da Libertação, mas é impossível não reconhecer a sua carga ideológica e politológica, mais que eclesiológica. Como também desconheço as consequências reais da censura que foi feita ao dominicano [corrijo, franciscano] Boff, não me alongo aqui e vou procurar saber mais sobre esta questão.

Isto enquanto, a contraponto demasiado flagrante para poder ser imperfeição relevada, na Santa Sé, prosseguia business cardinalício as usual, bancos ambrosianos, bênçãos aos mais hediondos ditadores e tanto, tanto mais (…).

Aqui tenho uma sensibilidade semelhante, e voltemos à questão do catolicismo tríplice. Enquanto instrumento político da Santa Sé, o Estado do Vaticano é, a meus olhos, uma dimensão (instituição?) difícil de compreender e até de aceitar como tal: representa para mim a “romanicidade”, a Igreja-Poder, que não sei até que ponto é necessária e até que ponto impede mudanças pastorais e eclesiásticas relevantes. Eu creio que a eleição de Wojtyla foi a expressão real de uma alteração – que, veremos, poderá ou não ser reversível – na “romanicidade” vincada inerente ao papel Sumo Pontífice. Pessoalmente (ingenuamente?), desejo um outro tipo de “braço político-diplomático”: não são públicos os balanços do Istituto per Opere de Religione (o Banco do Vaticano), mas pensa-se que é um dos poucos estados com superavit (vide sobre o assunto os estudos do fiscalista jesuíta americano Thomas Reese), ainda que com pouca liquidez; O Vaticano é um dos maiores investidores em Itália e 1/3 das suas receitas provém de investimentos bolsistas. Poderá, desde a fiscalização da sua contabilidade pela Price WaterHouse suíça, em 1994, ter-se tornado mais impermeável a lavagens de dinheiro, mas não ser tornou mais transparente. Não se pagam impostos no Vaticano, e os religiosos que estão na Santa Sé, c. 2300, ganham de €12 000 a €30 000/ano. Dá que pensar. Quanto aos encontros com ditadores [Marcos(‘81), Ortega(‘83),Pinochet(‘87), Castro(‘98)], poderei estar a ser apologética, mas atribuo-os à realpolitik: como visitar comunidades oprimidas sem visitar o seu Chefe de Estado? Mas não tenho certezas neste capítulo.

Não, não diabolizo Karol Woytila. É polaco. A tragédia da Polónia (…) conferiu ao catolicismo, a um catolicismo radical, inflexível e implacável, um lugar central na identidade polaca. Radicando nessa sobreposição, só por ingenuidade se poderia esperar que Karl Woytila, no desempenho papal, fosse capaz de romper com a dogmática católica mais retrógrada.

Um polaco não-comunista nunca se lembraria de dizer tal coisa. Ainda bispo, e mais tarde Cardeal, foi muitíssimo criticado no seu país por ser pragmático e estar interessado em dialogar com os seus opositores; sempre foi visto como um pró-conciliar e por alguma razão tem o rancor de tantos integristas. Contudo, há matérias em que sempre foi irredutível, sobretudo as relacionadas com a Vida. Já antes de ser Papa colaborou na redacção da encíclica Humanae Vitae (‘68) que manteve a recusa da esmagadora maioria dos métodos contraceptivos existentes. Não compreendo a validade das bases teológicas e pastorais desta posição, e espero por uma rápida alteração a este respeito, como acerca da impossibilidade de ordenação feminina ou celibato obrigatório dos sacerdotes. Mas nada disto erradica a sua devoção real à oração, a procura da fidelidade aos Evangelhos, o apoio às missões, a luta pela paz, pela dignidade humana, pelo respeito entre diferentes credos. Foi o grande líder religioso do seu tempo. Ninguém resolve os males do mundo de uma vez. É bom esperar muito do Papa; é mau esperar tudo do Papa. Porque a Igreja não é só (talvez nem sequer sobretudo) o seu líder, é a massa espiritual e intelectual, o ethos e a praxis dos seus membros.

Acabo por onde começaste aquele teu post, bicho-da-sedadesejando ao sucessor de Pedro pacífico descanso.

Datas, números e conceitos aqui apresentados podem ser encontrados em obras acessíveis e com boa divulgação, e aqui ficam três simples exemplos :

A.A.V.V. – História Religiosa de Portugal. Vol. III. Coord. António Matos Ferreira e Manuel Clemente. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.

Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1993.
MANDT, Jorg; MOSER, Ulrike; SHINDE, Sonia – João Paulo II. Crónica em Imagens. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004.

A Terreiro

Li-te de novo há pouco, bicho-da-seda, e reconheço que tens razão: fui eu que me meti em actualidades, por isso tenho agora a obrigação de aceitar o teu justo repto. Dá-me uns minutos.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Cintas

A elegância não sei bem o que é, mas anda ali na suavidade, na graça, na delicadeza. Em ambos os géneros esta virtude é frequentemente confundida com a magreza (quem sofre muito a tentar perder quilos tem direito a dizer magrura), não obstante o mundo estar cheio de exemplos de magros mal-jeitosos. Em geral, é aos homens – qualquer que seja a extracção geográfica, partidária, social, clubística – tolerada a parcial ou total ausência de elegância, desde que a ela não se acumulem mais meia dúzia de defeitos extremos. As mulheres não gozam de tal indulgência, muito menos a oferecem. Compete-lhes parecer bem, mesmo quando optem por vestir a infame e muito em voga túnica-saco-de-batatas – espécie e camisola elástica de corte direito, a ¾, geralmente produzida em viscose brilhante, que serve para perturbar o cálculo da área real abdómen+ancas. Seja como seja, tornar-se ou parecer mais magro conforta a maioria das pessoas.

Parecer é mais fácil que ser. Assim nasceu a cinta, primaz do mundo da roupa interior reforçada e quase exclusivamente usada por mulheres. Apesar de ter algumas utilizações menos fúteis (compressão do ventre após um parto ou uma intervenção cirúrgica), existe para apertar o abdómen, glúteos e quadríceps de forma a suavizar a silhueta. Prosaicamente, a pessoa que a utiliza quer ficar bem [enfiar-se com sucesso] numa determinada peça de roupa. A coisa trabalha mais ao nível da cabeça do utilizador que da percepção externa, mas há muita senhora que não sai de casa sem ela, incorrendo em danos colaterais desagradáveis entre os quais se contam a indigestão, a celulite e a casa-de-banho ao sprint.

A cinta descende do espartilho, desenhado para entalar, mais que apertar, a mulher e/ou o travestido do Antigo Regime. É feita de poliamida, pode ser simples ou dupla, e aparece nas variantes branco, preto e cor-de-carne (aqui o cromo dificílimo é o bordeaux – quem é que compra uma cinta bordeaux?). Existe na forma de cinto gigante traçado sobre o abdómen (artigo unissexo; o único homem que vi com uma chamava-lhe, cito, protecção elástica para as costas), de uma cueca (por isso mesmo chamada cinta-cueca), de um calção de ciclista (cinta-calção ou cinta com perna) e de um fato de banho do início do XX (cinta inteira, combinação de soutien de cós alto + cinta com ½ perna). Nos dias que correm não há muitas mulheres com menos de 40 anos a comprar este produto, mas o nicho >/=55 anos compensa a disponibilidade do produto em qualquer ponto de venda. A cinta-cueca simples é a mais adaptada aos tempos, permitindo o uso de vestidos e saias sem o pneu evidente. Certa amiga minha, ex-adolescente gorducha, contou-me uma das últimas vezes que, nessa encantadora [ó, ó!] fase da vida, usou cinta-cueca. Os comes da boda de um casamento de família foram de tal modo entusiasmantes que a meio do entusiasmo se sentiu mal; perante a dificuldade de caminhar até à casa-de-banho, optou por ir atrás de um cortinado tirar a peça. Como não sei como era a iluminação do salão, nunca percebi se deu um espectáculo de sombras chinesas.

Era eu já uma tardo-adolescente com vários anos de experiência no ramo, quando tive desembrulhar uma cinta inteira dupla para uma cliente apreciar tamanhos. A senhora achava que tinha comprado anteriormente um 56 ou um 58, números regulam pela copa do soutien, e eu, solícita, tirei da caixa o primeiro número. Uma vez na vertical, o escafandro sem capacete quase se aguentou sozinho em cima do balcão. Isto não pode fazer bem à saúde, pensei, porque se dissesse em voz alta a minha mãe-patroa, não me podendo despedir, ainda me recambiava para casa a fazer um almoço de favas. Bleargh, favas.

Discordo a quase todos os níveis desta apreciação de vinte e sete anos de trabalho. Se isto fosse um blog sobre imanências, iminências ou eminências, i.e., actualidades, correria bastante tinta.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" IX

Phillp Seymour Hoffman.

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" VIII

Adam Sandler.

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" VII

Alexandre Pinto.

Scouting For Boys

Nos dias em que vivíamos muito e o sol nos corava éramos tão bonitos. Nunca fomos tão bonitos como quando nem a noite nos vencia.

Queluz, Avenida António Enes

Muitas décadas antes de nós, os serviços postais do país viram-se na necessidade de ordenar a morada de cada família. Com o adensar da concentração humana não chegava já um apelido, um locativo, um brasão - muita gente junta tornava difícil a circulação da mala do correio. Antes das placas de madeira, azulejo ou chapa, a chuva e o rio eram referências para o funcionário ou arrematante da correspondência postal; para seu governo sabia apenas que, em todas as terras, a sequência de números respeitava o curso das águas.

Desço a avenida que desci centos e centos de vezes. Enquanto vou, esqueço-me de olhar as portas dos prédios para ver se tudo mudou, porque estou em todas as vezes que da estação corri atrasada para a reunião,para a missa, para os copos; porque estou em todas as vezes que cheguei de um acampamento em Belas, com mochila às costas, suja, cansada, com febre, contente.
Hoje é dia das mentiras.

Coisas Que Só A Mim Apoquentam IX

"How elastic our stiff prejudices grow when love once comes to bend them."

Herman Melville, Moby-Dick or The Wale, 1851.

Trem-Lag IV

Lá pelo Cartaxo toca uma vaca polifónica; o dono, triunfante, atende.

quarta-feira, 30 de março de 2005

Nessa Epocha Era Bem Diferente VIII

S[erviço da] R[epublica]

Barquinha, 22 de Maio de 1926

Ex.mo Governador Civil do Distrito de Santarem

Não tendo residencia na séde[sic] de concelho, tendo, por isso, que percorrer a pé uns sete quilómetros todos os dias, e avizinhando-se a época de mais intenso calor, tornando-se-me, por estes motivos e atendendo à minha idade e pouca saúde, impossível manter a assiduidade que o lugar de administrador requere[sic].

Pensei em alternar os dias de comparencia[sic] na administração, mas isso é uma falta que enfraquece o moral do Administrador para se impôr, quando, porventura, se torne necessário.

Pelos motivos expostos, vem rogar se digne conceder-lhe a demissão do lugar de Administrador do Concelho de Vila Nova da Barquinha e pede creia que apenas aqueles motivos que o levam a solicitar de V.Exª. a referida demissão, aquele que, com os seus agradecimentos e a maior consideração, a V.Exª. deseja

Saude e Fraternidade

O Adm.or. Interino do Concelho,

Manoel d’Oliveira

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1926), Cópia do Ofício Nº 231.

Passa A Outro E Não Ao Mesmo

Constipação? Tosse? Dor de Garganta? Fisherman’s Friend, sabor Original Extra-Forte. Como no creme para as mãos, os senhores de flanela salgada é que sabem. Recomendado pelo senhor da corneta.

Anos 80 Bem Medidos

Entro no mini-mercado à procura de uma garrafa de água de 0,75l sport e vejo, a meio da prateleira do meio, uma pacote de SuperGorila Mentol.

Não se pode arranjar um chupa-chupa Mouro? Uma saia de ganga em bico? Uma última tarde a brincar à Guerra Fria? Um número das SuperAventuras Marvel?

Mas um pacote de leite do dia arranja-se, não se arranja? Talvez Ovomaltine? E um ovo estrelado em Vaqueiro?

terça-feira, 29 de março de 2005

Serrania

A Primavera é a única que não desiste desta serrania. Tão decadente e tão triste, o seu mikado de pinheiros queimados nos quais ninguém toca. Daqui a umas poucas semanas estará quase bonita, floribunda de esteva, tojo e carqueja.

Bichos II

Ele perguntou:

Vicente? Como o corvo? – e eu ainda não tinha lido Torga. Mesmo assim, amizade instantânea.

Bichos I

A meio da tarde baldei-me a História Contemporânea de Portugal e fiz a linha de metro, da Cidade Universitária até ao Saldanha. Pela primeira vez na vida fui sozinha ao cinema. Queria muito ver A Barreira Invisível (Terrence Mallick, 1998), que agora lembro como um poema comprido sobre a natureza dos bichos. Saí à rua quase de noite e acho que era Junho, porque tudo era o lilás dos jacarandás da 5 de Outubro, indiferentes a mim e aos restantes passantes.

sexta-feira, 25 de março de 2005

Strictu Sensu

Para quem é cristão, o Tríduo Pascal é the real deal. Paixão. Ressurreição. Mandamento Novo. Vamos a isso.

Aniversários II

Parabéns, mano. Fazes-me a falta de um braço.

Aniversários I

Parabéns, já atrasados, ao Fora do Mundo. Estou um bocado Páscoa.

Animismo

Quando a minha melhor amiga era apenas a minha vizinha de cima, íamos juntas e a pé para a escola primária. Enquanto fazíamos o nosso pequeno troço de Rua Direita, era habitual eu distrair-me com tudo e tropeçar nas pedras que encontrávamos pelo caminho. Ela não se ria dos tropeções, que eram a rotina, mas de me ouvir por vezes pedir desculpa àquilo em que tropeçava.

quinta-feira, 24 de março de 2005

Entente

Bilhetes de comboio, lenços de papel. Marcadores de livro e do dia a fugir. Em casa, luto com a minha letra pela custódia da página onde parei.

Páscoa

Por razão que a minha parentela nunca soube explicar, há várias gerações que usamos a palavra Páscoa para designar - e irritar - toda a pessoa vagarosa. Até aos doze, treze anos, eu era Páscoa a todas as refeições.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Erros Favoritos II

Racionalizar > Racionar

His Music

Dez anos depois, no site promocional do próximo Festival de Edimburgo, Zbigniew Preisner conta a história do princípio:

The soundtrack to The Double Life of Veronique, for example, features a concerto credited to one Van den Budenmeyer - a mysterious, previously undocumented composer, actually concocted by Kieslowski and the composer. ""Kieslowski originally wanted to use some of Mahler's music,"" Preisner explains, ""but this proved too expensive to licence. So he asked me to compose something original in Mahler's style, and we were looking for the name of a composer - something to be taken seriously as 'proper' music ... Afterwards, we got thousands of questions: who was this Van den Budenmeyer? Suddenly, he began appearing in music encyclopaedias. At one point, someone wanted to take me to court accusing me of stealing his music! (...)""

Main Stream / Bank Flow

Esqueço que pelas margens também corre água.

Composição

Começou o ano. As ruas estão pontilhadas de flores rosadas. Há sol e algum calor. Há pessoas bem-dispostas e vestidas às cores. Há passarinhos nos ninhos e muita tensão venatória.

Ser Muito Classe Média

Explicação única para o facto de me espantar com a existência (persistência?), numa pequena cidade deste país, de uma ama formalmente fardada passeando um rebento Classe A. Menina, olhe as pedras! veja onde vai com a bicicleta…

O Tejo III

Vai mais cheio, o rio, como nos dias em que o Zêzere lhe trouxe neve derretida. Agora o sol, depois um aluvião de cinzento; o sol outra vez.

segunda-feira, 21 de março de 2005

A verdade é que quando alguém que admiramos liga ao que dizemos nos sentimos validados. Felizes.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Meias

Só a propósito de meias poderia escrever-se um tratado. Vamos ao essencial. As meias são todas filhas do nylon e netas do carvão, mas há-as também arraçadas das fibras que nascem nos campos. Variam segundo densidade (medida em deniers, não faço ideia porquê), cor e comprimento, e têm por função teórica a protecção total ou parcial das pernas da mulher, ou, em alguns casos, do homem. Os artistas que fazem a coisa mais bem feita são, a léguas, os italianos. Os portugueses não chegam lá, mas não são nada maus, e não ficam a dever em qualidade – talvez apenas em…hype? – aos franceses ou aos espanhóis.
Destaco, por ordem crescente de valor comercial, as mais corriqueiras sub-categorias: mousse, vidro, licra (com as sub-sub-categorias licra-vidro, licra-seda e voile), algodão e lã. Podem ser pézinhos, soquetes, mini-meias, meias-liga (aderentes e não-aderentes) e meias inteiras (isto soa àquele livro da Adília Lopes), ser transparentes ou opacas, lisas, com relevo ou com padrão. Há até as que têm intuitos medicinais – de descanso, ou contenção de varizes.
A sub-categoria collant de homem, peça inteira que, por convenção, acaba abruptamente onde começa a peúga, é cada vez menos vendida, seja por razão do aquecimento global do planeta ou da própria circulação sanguínea do varão luso. Como o género masculino não é lá muito barroco em relação à roupa interior, collant de homem é a sub-categoria mais fácil de definir: existe apenas num tipo (lisas, opacas e a imitar a lã) e três cores (castanho-escuro, azul-escuro e cinzento escuro; alvíssaras a quem encontrar verde-escuro ou – cromo dificílimo – castanho-claro); têm ainda saída para quem:

a) trabalha nos turnos da noite e madrugada;

b) trabalha numa mina, numa câmara frigorífica ou exposto aos elementos;

c) pratica caça ou pesca desportiva;

d) detesta ceroulas, mas tem frio nas pernas à mesma.


Sou de parecer que as mulheres portuguesas se dividem entre as que usam saias e as que não usam saias, mais do que as que usam saltos altos e as que não usam saltos altos. Daqui decorre que a mini-meia (para calça) e a meia inteira (para saia) sejam as mais procuradas. Sublinho o facto de que apesar de servirem para proteger as pernas, as meias mais procuradas são as de licra, transparentes e frias como o caraças. Para os menos versados nas “meias de verão”, o pézinho é expressão mais ridícula da meia de mulher: consiste apenas num bocado de malha cor-de-pele (disponível nas versões mousse, vidro ou licra) que cobre a parte do dito pé que está tapada pelo sapato.A supracitada cor-de-pele é um dos quebra-cabeças de qualquer vendedor da especialidade: as clientes habituais [viva o comércio tradicional, viva] fazem questão em que quem as atenda decore a designação eufemística correspondente ao seu gosto pessoal, muitas vezes equivalente apenas de forma imaginária ao seu tom real de pele. Exemplos: as branquinhas pendem muitas vezes para o bronzeado Duna, ao passo que as muito morenas optam pelo deslavado London; em chegando as andorinhas, dispara a procura do acastanhado Antílope.

Presumo que num mercado conservador como o português o best-seller continuará a ser – por muitos e bons anos – o tom Muskade. Um espírito menos poético teria baptizado este tom de Castanho Médio ou mesmo Neutro. Como não tenho o savoir-être comercial da minha patroa/mãe, o Muskade deixou-me em mais que uma ocasião perto de perder a compostura. Não é fácil ser-se adulta, quando alguém nos pede um ou dois pares de collants licra-seda Mostardo, Moscardo ou Noz-Moscarda.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Introdução

A singularização do que cada pessoa usa para cobrir o corpo não é desejo moderno. No Portugal medieval já havia gente a tecer múltiplas variantes de burel, saragoça, estopa. Agora vivemos num mundo de produção, promoção e compra massificadas, mas continuamos a escolher e adaptar a nossa roupa segundo critérios profundamente individuais, muitas vezes contra-conforto, contra-moda e contra-razão. A existência de um pequeno negócio de família proporcionou-me, ao longo de anos, o contacto com o mundo da compra e venda de roupa interior. Como vendedora-amadora, tive sempre tanta dificuldade em memorizar a multiplicidade de produtos que o mercado oferecia, quanto de adivinhar o gosto das pessoas que me apareciam pela frente. É que ninguém – nem mesmo em matéria de roupa interior – é óbvio.

Palavras Em Desuso IV

Escroque -

Policia de Investigação Criminal de Lisboa

Of. Nº. 8937

Serviço da Republica

Ex.º Senhor

Governador Civil do Distrito de Santarem

Tendo-se evadido duma enfermaria do Hospital de S. José o prêso Edwin Fuller Heath ou Edward Fuller ou ainda Perci Gordon Lenox, subdito britanico, casado, escroc internacional, falsificador de cheques e passaportes, crimes estes pelos quaes se encontra pronunciado no 4º Juizo de Investigação Criminal d’esta Cidade, e ainda por se tratar d’um individuo perigosissimo, cuja captura se torna absolutamente necessaria, já para o referido Heath ser julgado, já ainda por se tratar d’um individuo cuja extradissão[sic] foi pedida pelo Governo Britanico ao nosso Governo, roga-se a sua imediata captura e comunicação telegrafica a esta Policia.

Saude e Fraternidade

Lisboa, 7 de Novembro de 1925

O Director

(a) A. Teixeira de Azevedo

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1925), Cópia do Ofício Nº 8937.

Nessa Epocha Era Bem Diferente VII

"Administração do Concelho de Abrantes


Serviço da Republica

Abrantes, 17 de Novembro de 1928

Ex.mo Governador Civil do Distrito de

Santarem

Tenho a honra de informar V.Exª. de que neste concelho não existem desempregados de qualquer industria, porquanto desde que tomei posse havia de facto muitos desempregados que eu empreguei; instando para isso junto das emprezas a sua colocação o que felizmente consegui. Mais informo V.Exª. que qualquer desempregado neste Concelho, vem apresentar-se a esta administração onde lhe é distribuido consoante os lugares que consigo obter o respetivo[sic] emprego, e quando aparece, desempregados de concelho estranho é-lhe[sic] entregue o dinheiro necessario para a passagem ao seu conselho[sic], porquanto neste concelho não existem vagas em qualquer ramo da industria ou oficio, ficando assim respondida a circular Nº 824 de 16 do corrente, desse Governo Civil.

Saude e Fraternidade

O Adm.ºr do Concº.

João [ilegível] Jr.

*Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida, Of. Nº 1349, 2ª Secção.

domingo, 20 de março de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam VIII

Depois de uma ventosa volta pelo Parque das Nações, fui ver quem vê montras do centro comercial até às seis e meia, estaciona numa le Corbusier e saca do termo, olhando os outros passar.O domingueiro - esse bicho loboantuniano - apoquenta-me.

sexta-feira, 18 de março de 2005

Introdução À Filologia

Moritz-Maria von Igelfeld seria o académico típico, não fosse a sua incauta curiosidade impeli-lo mundo adentro, à pala de congressos de Filologia mais ou menos Românica. Os encontros da especialidade, aborrecidos e mais herméticos que uma tupperware, dão ao inacreditavelmente alto autor de Portuguese Irregular Verbs oportunidade de palmilhar por aí, em busca de novidade.
Estou fã instantânea de mais esta personagem de Alexander McCall Smith. Só um professor-doutor poderia inventar um professor-doutor em termos. The 2 ½ Pillars Of Wisdom (London: Abacus, 2004) oferece a quem tiver a mais vaga relação com o mundo universitário diversão garantida, par de uma sensação de vingança platónica sobre todos os universitários que nos torturaram com as suas esquisitices. Na língua-pátria já correm as aventuras dessa outra personagem do caneco, Mama Ramatsowe, chefe da Agência Nº 1 de Mulheres Detectives do Botswana (pelo menos três dos cinco livros da série foram editados pela Presença).
O que é que se podia esperar de um zimbabweano-escocês? O inesperado.

quarta-feira, 16 de março de 2005

Amor Ao Trabalho

É bonito ver alguém exercer o seu ofício com amor, que é o mesmo que dizer com perfeccionismo, brio, inteligência, ponderação e emoção. Tendemos a achar que certas vocações que têm mais ciência que outras, mas enganamo-nos. Todas têm o que investimos nelas. Mais que receitas, The Kitchen Sessions, o programa com Charlie Trotter que passa actualmente na SicMulher, revela aos gourmets e gourmands menos especializados um chefe de cozinha que, no fundo, não passa de um intelectual consequente. Pasmo ao verificar que há quem conheça tantos vegetais, animais e minerais, e se dedique a estudar as suas qualidades e infindáveis possibilidades de combinação. Trotter executa, explica, prova, sugere. E adjectiva como ninguém. Sei perante o tipo de pessoa que estou quando ouço utilizar os adjectivos "pungente", "lúdico" ou "chão".

sábado, 12 de março de 2005

Anselmo

Um dos aspectos nos quais não sou uma rapariga do meu tempo é o seguinte: tenho HORROR à fama noticiosa. Nos meus pesadelos estou a ser entrevistada por uma jornalista da TVI (uma qualquer, toda a redacção ao mesmo tempo, etc...) no meio da rua, perseguida, flasheada por um paparazzo a cada esquina, tudo por causa de um qualquer acontecimento escandaloso, criminoso ou prestigioso. Depois acordo e fica tudo bem.
De acordo com este auto-perfil psicológico não posso, ainda que com atraso, deixar de empatizar com Anselmo (o apelido será Fonseca ou Meireles, malta?), o rapaz que, perante 20 microfones da comunicação social lusa, recusou declarar o seu apelido "para não ser gozado" pelos amigos e vizinhos (ESTAVA LÁ A TELEVISÃO, que lhe filmou a CARA, será que ele não reparou?).
Já me estou a ver: matrícula na mão em direcção a uma loja; uma velhota a vigiar-me por detrás do cortinado de crochet e a confundir-me com um saudita; eu a ser delatada às forças de segurança eborenses, deliciadas com a hipótese de pôr em prática o que aprenderam no curso básico anti-terrorista de há quinze dias; o ajuntamento final de pessoas e minha viatura ...aaaa... vintage... a ser zelosamente detonada.
Empatizei, empatizei, Anselmo, mas não me ria tanto desde a primeira série do Duarte & Companhia!

sexta-feira, 11 de março de 2005

Português Partido VII


Oniosa
, adj. f. (et. obscura)– 1. Hipersensível 2.Queixosa. 3. Dorida.

Português Partido VI

Quincado, adj. m. (et.obscura) – 1. Qualidade do que está gasto. 2. Amolgado. 3. Roído.

quarta-feira, 9 de março de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam VII

Porque é que a língua inglesa, em termos de pop-rock, é cantada com sotaque universal?

Novidades

Atenção aos novos links, malta.

Uma Afirmação, Mais Que Um Voto

"Voltando-se Jesus e vendo que eles O seguiam, disse-lhes: que buscais vós? Eles disseram-Lhe: Rabi - que quer dizer Mestre -, onde moras? Ele respondeu-lhes: Vinde e vede.(...)"
João, 1, 38-39.
É um feliz aniversário, o da Voz do Deserto.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2005

7 Momentos Kodak (Reservado A Aficcionados)

Peso-pesado – Pergunto-me se algum laureado, em 77 anos de prémios, deixou cair o raio da estátua ao chão. Não há um só que não tenha reacção involuntária ao peso que lhe depositam nos membros superiores. Em geral as mulheres dão um balanço de braços e amparam o objecto com as duas mãos; os homens põem uma na espada à cinta, outra sob a base da efígie. Já lá canta.

Piar Fininho – O Chris Rock já tinha se tinha desbroncado no programa do Jay Leno. Que nunca tinha visto os Óscares com atenção, que não conhecia quem não fosse gaja, mariconço ou do “show biz” e os tivesse visto, que não percebia a graça da coisa, etc[como é que se diz CROMO em americano?]. Não sei se a noção de que estava fora do seu quarteirão explica o pio esganiçado (que passou bastante tempo a tentar controlar), mas ele lá tentou cumprir. A coisa até passava, não fosse a homenagem ao Johnny Carson lembrar a bitola de um M[aster of]C[eremonies]da Academia. Será que os senhores-que-mandam telefonaram ao Owen Wilson? Ao Will Smith? À Jenna Elfmann? Ao Jack Black? Ao John Lithgow? Será que eles não atenderam?

Bela & Amarela – Cate Blanchett é mesmo bonita, e não é o amarelo dum modelito exclusivo que chama a atenção. É o não querer parecer mais nova, mais moderna, mais sofisticada, mais bronzeada ou mais loira que as outras.

Açúcar às Colheradas – Depois de na última meia dúzia de anos ter havido actuações de antologia(Aimée Mann com um tema de “Magnolia”, U2 com um tema de “Gangs of New York”, Bob Dylan pelo “Wonder Boys(?)”, entre outros …) por parte dos autores nomeados para melhor canção, POR ALMA DE QUEM É QUE FOI POSTA A BEYONCÉE A BALIR TRÊS DAS CINCO CANÇÕES EM DISPUTA?????? A cerimónia precisava de parecer o Sabadabadúúúúú?

O Casamento Faz Bem À Saúde – Vide DEPP, Johnny.

Spanglish - Décadas de uma política cultural e comercial hispânica escorada na dobragem de produtos de entretenimento resultaram em sotaquite aguda. O involuntariamente cómico duo Salma Hayek (quase perceptível) + Penelope Cruz (fónix!!!!! iaaaiiiiksssss!!!) faz qualquer um crer que Mr.José Mourinho fala um inglês “posh”. Se não fossem tão giras alguém lhes perdoava?

Dis-curso-dis-curso-dis-curso! – Os melhores foram, ex aequo, o de vencedor do Óscar para Melhor Actor Secundário em "Million Dollar Baby", Morgan Freeman, e o da equipa ganhadora de uma categoria sonora por "The Incredibles". Assim sob pressão, é um feito dizer o que se quer dizer com coração, cabeça e estômago.

Depois Da Otite Vem A Bonança

Lá porque eu adoeci e o meu o meu portátil se suicidou, não me vou pôr para aqui a chorar. Mais vale escrever sobre uma coisa assim... ao calhas, tipo ÓSCARES.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2005

“Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!” VI

Tom Sizemore.

“Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!” V

Peter Sarsgaard.

“Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!” IV

Clive Owen.

Passageiros

O comboio é o único sítio onde se pode olhar e ser olhado sem embaraços de maior. Meter conversa não é para todos, mas os menos tímidos fazem-no sem dificuldade; a dita surge sempre a propósito de um pormenor, normalmente associado a um acto de cortesia ou auxílio, e daí segue. No caso de uns, a intenção esgota-se na mera converseta, noutros, a expectativa, plástica, ajusta-se à reacção do interlocutor. O passageiro frequente é muito dado a esta. Na viagem grande a melhor carruagem é a que está antes ou depois do bar, antes ou depois da casa de banho. É aí que mais gente circula, porque manter-se sentado muitas horas é, para quase todos, um sofrimento.
Nas linhas suburbanas acontece o exacto oposto, e é ver a precipitação instintiva com que são ocupados todos os lugares disponíveis. Os comboios curtos são tão interessantes quanto os mais: todos os passageiros estão ali por pouco tempo, com ar de se vou sair a seguir, o que é que tenho a perder? Os que se sentam todos os dias à mesma hora, sempre na mesma carruagem, orientam-se face ao destino; há também os que nunca, ou quase, repetem movimentos, só quando desejam observar algum dos rotineiros. As crianças a bordo são quem provoca as mais extremas reacções. Ou a face do observador se distende em enfado ou se ilumina de contentamento; nisto não se vê meia-tinta. O sono é, também, bipolar, pois há que nunca dormem e os que escatumbeiam todo o caminho.
O viajante acompanhado é muito menos defensivo que o singular. Só se apanha a sua disposição, o seu sotaque, um bocadinho do seu feitio, quando acontece reconhecer alguém ou receber um telefonema - aí cai, num segundo, a inexpressão facial. A ausência de expressão é um clássico da defesa urbana, sobretudo utilizado pelas mulheres jovens, tendencialmente vigis, que em geral aguentam mal a pressão do olhar alheio, passam na coxia de os olhos baixos, ombros pesados e passo apertadinho.
Fixa-se a paisagem exterior pelo desejo ou reflexo involuntário de alheamento. Alguns passageiros chegam a perder a sua estação, sem-querer e de propósito, mas não simplesmente como se adormecessem.

O fim da viagem é quase sempre um alívio; uma vez por outra é cedo demais.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2005

As Décadas

Agarram-se às pessoas, as décadas. As septuagenárias têm cara de velha hollywood; não esquecem o glamour e saem sempre à rua com bâton e laca que se veja. As cinquentonas, no exagerado aparo das sobrancelhas e risco egípcio dos olhos, têm um resto de swing. As mulheres dos trintas e muitos não resistem a uma permanente e brincos grandes como a Madonna teve. Cada uma que descubra em si o passado. Os sexagenários têm cara de matiné em reprise: não podem esquecer o Bogart e saem sempre à rua no Inverno com gabardine ou sobretudo. Os quarentões, de blusão Levi’s e bota mexicana, têm um resto hard rock. Os dos vintes e muitos resistem a deitar fora a camisola de flanela como a que o Kurt Cobain teve.
Cada um que descubra em si o passado. O meu passando vem, uma vez por semana, dentro de um pacote de Sugus. De morango.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2005

Gom Vodos De Belhoras Rábidas

Ó Dona Booombaaaa! Não nos casamos hoje nem morremos amanhã!! Já viu isto?

"Então E Daí ?!"

[A entrevista, conduzida pelo Padre H. I. Iongen nos dias 3 e 4 de Fevereiro de 1946, decorreu na Casa de Tuy / Instituto de Santa Doroteia, sendo intérprete a Superiora Madre Maria do Carmo Cunha Matos]

Desculpámo-nos de lhe ter de fazer tantas perguntas, explicando que um padre jesuíta belga, [o Padre Eduard Dhamis], acabava de publicar um livro, onde punha em dúvida algumas das suas afirmações concernentes a Fátima. A resposta foi imediata:
[L. J.] - Então e daí?!
[Pd. I.] - É que isso pode levar muitas pessoas a duvidar do que a Irmã disse!
[L. J.] - Isso não têm a mínima importância. Toda a gente é livre em acreditar ou não acreditar.

Cf. “Interrogatório do Padre H. I. Iongen”. In REIS, Sebastião Martins dos – A Vidente de Fátima Dialoga E Responde Pelas Aparições. Braga: Tipografia Editorial Fransciscana, 1970, p. 68.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2005

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" III

Ron Livingston.

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" II

Anson Mount.

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" I

Sam Rockwell.

Nessa Epocha Era Bem Diferente VI

[Da Presidência do Ministério, i.e., Gabinete do PM, ao Governador Civil de Santarém]
"10:30, 20.02.1920
s - diff -Lisboa, 79 9 20:10 governadores civis - santarem - por ordem s excia presidente do ministerio e por motivos d higiene e ordem publica digne se v excia ordenar e tomar todas disposições necessarias serem prohibidos todos e quaesquer folguedes
[sic] carnavaisalescos[sic] na area do seu distrito que não se realisem em casas particulares clubs e casas congeneres ou teatros bem assin[sic] devera v excia prohibir o transito nas ruas de pessoas com mascaras ou caracterisacoes na cara podendo somente circular as que sempre sem mascara nem caracterisacoes todavia se apresentem com fatos de fantasia a caminho dos locais onde os referidos divertimentos forem permitidos. – chefe do gabinete vasco gomes –"

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida (Janeiro de 1919 a Setembro de 1920), Cópia do Telegrama Nº 566.

sábado, 12 de fevereiro de 2005

Arthur Miller, 1915-2005.

"Chris [Keller]: You can be better! Once and for all you can know there's a universe of people outside and you're responsible to it, and unless you know that, you threw away your son because that's why he died."
All My Sons, 1947.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2005

Será Do Fato?

Estou chocada. A minha mãe viu-o na televisão e acabou de lhe chamar "pãozinho", Dr. A minha mãe não chama "pãozinho" a ninguém desde que viu o Andy Garcia n' O Padrinho - Parte III, Dr. Tenha cuidado, que parece que isso das mulheres mais velhas é capaz de ser recíproco...
P.S. Com a minha mãe não precisa verdadeiramente de se preocupar: há mais de três décadas que o pão caseiro é o meu pai.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2005

Discos Pedidos

Encontra-se em preparação, a pedido de algumas famílias, a rubrica O Misterioso Mundo da Roupa Interior.

Portugal Em Fevereiro

Podemo-nos preocupar com muita coisa, mas também podemos tapar os ouvidos e olhar, só olhar, Portugal em Fevereiro. Água, frio, luz. Até o que não é bonito parece, quando a Primavera está debaixo da língua. Melhor que isto, só Setembro.

Erros Ortográficos Favoritos I

Cresce > Creche

Fêmeas & Varões I

Há homens que olham como quem fala. Estrangeiro.

Nessa Epocha Era Bem Diferente V

Serviço da República
Administração do Concelho de Benavente

Exmo. Sr. Governador Civil do Distrito de Santarem

Afim de que V.ª Ex.ª se digne empregar os seus melhores esforços para conseguir que seja internado em qualquer Asilo ou Tutoria comunico a V.ª Ex.ª que nesta villa se encontra um orfão de pae
[sic] e mãe falecidos em Novembro do anno passado com a gripe pneumonica que somente tem parentes afastados que o não querem receber estando em casa d’uma pessoa estranha que tem vindo a esta Administração declarar não o poder nem o querer continuar a ter em seu poder.
Este rapaz chama-se Manoel Chitas tem 10 annos de idade, dizem que não quer fazer nada e ter maus instintos pois que por varias vezes tem sido falado para guardar gado miúdo e como seja obrigado a ir pelas pessoas em casa de quem está, maltrata os animaes com o propósito dos patrões o despedirem e elle ficar sem trabalho.
Julgo que seria de toda a conveniencia a sahida do rapaz para local onde o obrigassem a trabalhar.

Saude e Fraternidade
Benavente, 23 de Julho de 1919
Adm.or do Conc.º
(a) Joaquim Pedro
[ilegível].” *

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 2ª Secção, (11 de Julho a 16 de Outubro 1919), Cópia do Ofício Nº 700.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2005

M. A. C. B., 1917 - 2005

"(...) no fundo é mais nobre e mais belo deixarmo-nos vencer e abater pela vida do que pela nossa própria mão."
Herman Hesse, O Lobo das Estepes.
Não sei se a frase é justo epitáfio a uma amiga que já não é deste mundo. Ainda que por poucos anos, tive muito gosto em conhecê-la. Celebre-se quem, como ela, enfrenta todos os dias com coragem.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2005

Nessa Epocha Era Bem Diferente IV

Administração do Concelho de Rio Maior
9 de Fevereiro de 1922
[Ofício] Nº8

Exmo. Sr. Governador Civil do Distrito de Santarém

Em virtude do actual governo ser completamente partidario, e não tendo eu filiação, julgo meu dever pedir a V.ª Ex.ª para que me conceda a minha exoneração fazendo votos para que V.ª Ex.ª empregue o maior do seu esforço a bem da Patria e da Republica”
Administrador do Concelho

Mario Xavier Carneiro”*
* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Maço de Correspondência Recebida, Cópia do Ofício Nº 8 (1922).

Eu Vária

Ao longo dos anos muitos eus me foram oferecidos, e aceitei-os sem alegria ou contestação. Nenhum foi criado ou patrocinado por mim – impuseram-se, simplesmente – e a nenhum dei privilégio. É como se o resto do mundo me tivesse inventado.
Deixo agora para trás a fase da heteronomia inconsciente. Venho, por este meio, declarar que ser vária é muito melhor que ser uma. Aproveito o ensejo para decretar todos os meus outros eus entidades protegidas. Inventariado está, à cabeça, o habitual Cláudia; do mesmo rol constam os formais Ana e Ana Cláudia; os familiares Anita, Clau e Clau-Clau; os adolescentes Clorofila e Caborinha; os transitivos Gorda (no tempo dos 80 kgs.) e Coxa (durante e após aquele evento descrito em Denegação); e os co-educativos Vicente, Vince e Vic.
Aguardam-se novos desenvolvimentos.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2005

O Amor Tem Metáforas Estranhas I

Paul Newman fez ontem 80 anos. Perguntaram-lhe recentemente, maaaais uma veeeez, qual a razão para a longevidade do seu casamento (47 anos, a celebrar amanhã) com Joanne Woodward. Assim sem mais, respondeu:

"Se tenho um bife em casa, porque hei-de andar por fora a comer hamburgers?"*

[Eu já gostava muito dele, mas agora...]


*Apud GOBERN, João - "Galã, Activista e Octogenário". In Revista Sábado, Nº 38, p.108.


terça-feira, 25 de janeiro de 2005

Hipótese B

Saiam à rua com gorro e cachecol? Bebam e comam coisas quentes? Não façam exercício físico violento? Usem várias peças de roupa umas por cima das outras?

Mas quem é que manda na Protecção Civil, o chefe ou a mãe dele?

Visão

E não é que a televisão também pode ser isto? Thank you all, HomeBoxOffice people.

domingo, 23 de janeiro de 2005

Uma Loa Que Seja

Pela náuseagésima vez um escritor descreve, solene, o prazer sensual de poisar a caneta de tinta permanente na folha de papel branco e solto; outro exibe, tímido, letras cifradas num caderninho de bolso; outro calca, comovido, a máquina de escrever de sempre. Assim, tudo parece concorrer para o adiamento de uma loa que seja ao processador de texto. Não mais! Lá porque o nome soa mal, porque não tem a patine do tempo, ou porque pode deitar a perder tudo o que uma pessoa fez (sem grande explicação), o processador não deixa de ser o mais perfeito instrumento de trabalho de um ente escrevente.
Para quem gosta das coisas ditas de outra maneira: há lá coisa mais bonita que desenhar uma oitava de piano com a mão que tecla um comando?

Transferência

Tenho tido horríveis dores na cervical, coisa habitual nos cabeçudos que passam muito tempo a ler, escrever e alombar com o portátil. Como eu, quantos se debruçarão num certo travesseiro, a ver se elas passam?

sábado, 22 de janeiro de 2005

Nessa Epocha Era Bem Diferente III

Serviço da Republica
Ministerio do Interior
Direcção Geral da Administração Politica e Civil

Ex.º Sr.
[Governador Civil]

Acontecendo algumas vezes que[rasurado] os secretarios gerais dos governos civis terem de assumir funções de governadores civis por estes terem abandonado os cargos antes de lhes ser concedida a exoneração, abonando-se aos mesmos secretarios gerais os respectivos vencimentos, que mais tarde são reclamados por esses governadores civis, que por qualquer circunstancia voltam ao exercicio dos cargos, pondo a 3ª repartição de Contabilidade em dificuldades, visto que tais abonos só devem ser feitos a quem exercer o cargo, o Exc.º Ministro do Interior, por seu despacho desta data determinou o seguinte, para ter execução no districto a seu digno cargo:
Os cidadãos que estando exercendo função de governadores civis, quando
[sic] abandonem os cargos entregando os governos aos secretarios gerais, nenhum direito teem a ser abonados dos respectivos vencimentos desde a data do abandono até à concessão da exoneração, ou aguardando que esta seja publicada no D.º G.º [i.e., Diário do Governo].
No caso de essa exoneração se não efectivar, voltando ao exercicio das funções, egualmente não terão direito ao mesmo abono relativo aos dias que não exerceram os cargos.
Saúde e Fraternidade

Secretaria do Ministerio do Interior, 13 de Setembro de 1920
Servindo o Director Geral
O 1º Oficial Chefe de Secção,
J. F
[ilegível].” *

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 3ª Secção, Maço Nº 1 (2 de Setembro a 31 de Dezembro de 1920), Cópia do Ofício Nº 896.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2005

Hoje Brinquei Muito

O meu primeiro registo diário fez-se na edição inaugural d' "A Minha Agenda RTP" (havia um jingle recorrente no Natal "a minha agenda, a minha agenda, tralalalalá", alguém ainda se lembra?), espécie de almanaque de lavores + borda d'água + destacável pedagógico pontilhado de quadrados com cinco linhas e ilustrações garridas. Do fundo de 9 ou 10 anos, óculos & aparelho, lá fui experimentando fazer cubos de gelo a saber a laranja, frases e pasta de papel para marionetas. Quando estava cansada ou tinha preguiça deixava passar uns dias em branco; pesava-me a consciência e desatava a preencher de rojo os quadradinhos. Invariavelmente, saía-me um "Hoje brinquei muito". Mais tarde recebi um diário com cadeado e só escrevi, quase sem falhar, coisas sérias e certas.

Hoje estou cheia de sono, mas não quero deixar de postar. Hoje brinquei muito.

A Mafalda Era Um Bocado Infantil

Li a Mafalda toda lá pelo final dos anos 8o, e gostei à brava. Já tinha começado a consumir doses consideráveis de Disney, Marvel e DC. Em contraste, as tiras mafaldinas souberam-me a coisa familiar, próxima do ambiente de crise que por cá havíamos vivido entre 1983 e 1984. Só tive que fazer um esforço empático considerável [treta, desisti logo] para contornar uma falha importantíssima no carácter da morenita, o asco à mais bela síntese culinária até ao presente - a Sopa. Nunca compreendi tal desafecto. Talvez fosse apenas uma atitude um bocado infantil da parte dela, enfim, como diz o outro [senhor, que eu tenho maneiras], Frodo explica[ria].
Serve pois, todo este arrazoado, para deixar em acta que:
  1. Ofereço o meu reino por um prato de boa sopa;
  2. Gostava de ter sido a visionária fundadora da ["franchisável", e tudo] "Loja das Sopas";
  3. Me pesa a consciência por ter sido Cid, o Campos (repopularizado por um alter ego de Calcanhotto), e não eu, a musicar um hino à sopa;
  4. Pretendo, até ser velhinha, fazer sopa tão boa como a da minha mãe.
Para a comer e dar a comer, acabada de fazer. Quentinha.

sábado, 15 de janeiro de 2005

O Palavrinho

Enchem-me de nervos (os médicos amam esta expressão) as pessoas que usam a asneira fraca. Ao contrário, o palavrão, quando utilizado por um ente civilizado e frugal, é forma muito eficaz de impedir actos materiais de violência contra pessoas e bens. Como desde o princípio dos tempos há quem utilize o palavrão para fins menos benignos (por exemplo, como forma muito eficaz de acicatar actos materiais de violência contra pessoas e bens), o asneiredo é mal visto. Sobretudo se saído de uma boca fêmea - se rapariga é uma peixeira, se mulher é uma camionista. Podia arrolar aqui os mais dispensáveis casos de vernáculo mole (com presença confirmada do pôssas! e do canudo!), mas prefiro partilhar um caso da vida, que sempre tem um fundo exemplar, ao fazer crer que o palavrinho é danoso à saúde.
Na empresa em que um meu amigo contabilista trabalhou havia uma colega muito paciente, muito doce, muito bem-educada, que - claro - não fazia conversa de caserna. Chegou uma daquelas semanas em que as coisas correm muito mal a toda a gente, e ela não foi excepção. A princípio andou muito vermelha e com dores de cabeça. Na quarta-feira chorou. No dia seguinte, a meio da tarde, não aguentou mais: levantou-se da cadeira, cerrou punhos contra o tampo da mesa, susteve por segundos a respiração e, fora de si, soprou audivelmente
- CAAAAA…QUINHA !!!!!!!!!!!!!!.
Como não podia dizer nada pior, desenvolveu gastrite.

Epílogo - Esta história é verídica, e ainda por cima passou-se mais ou menos assim . Não posso deixar de dizer que, enquanto os outros colegas riam, o meu amigo, exasperado com tanto pudor vernacular, disse-lhe, um bocado alto
- NÃO É CAQUINHA, É MERDA, PÁ!.
Não sei se se falam, mas o meu amigo é a cara chapada do bem-estar.

Nessa Epocha Era Bem Diferente II

“S[erviço]. [da] R[epública].

Administração do Concelho da Barquinha
Barquinha, 16 de Julho de 1921
Ex.mo Governador Civil do Distrito de Santarém
Com muita preocupação minha, continuam armazenadas nesta administração, algumas bombas que, ha meses, foram encontradas na marjem[sic] do Tejo.
Como isto possa representar perigo, tanto mais que estão no meu gabinete, onde, diariamente, entra muita gente, rogo a V.ª Exc.ª o favor de promover as necessarias diligencias para remoção do caixote onde as bombas se encontram.

Saude e Fraternidade
O Adm.or int
[erino]. do Concelho
(a) E
[ilegível] Coelho” *

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Livro de Correspondência Recebida – 2ª Secção, Nº 2 (11 de Maio a 23 de Setembro de 1921), Cópia do Ofício Nº 769.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

É Bolo

O meu progenitor não é homem de doces, é homem de fruta. Abre excepção à honrosa trindade composta por Maçã Assada, Pudim Molotoff (Molotov?) e Leite Creme. Como a restante doçaria (conventual, regional, trendy ...) é aos seus olhos mundo de muito pouco interesse, designa qualquer exemplar que lhe aparece defronte por bolo. O bolo é torta, tarte, bavaroise de ananás, biscoito, bolacha, crepe, bolo-de-facto, etc. Só os componentes da trindade têm individualidade, o resto é massa de forma vária, mas indistinta.
Tudo o que não nos interessa é bolo, não é?

Trem - Lag IV, "Make It A Double"

Todos (mas todos) os dias os passageiros do tomarense levam com as vivaldinas Quatro Estações (deve ser uma corporate joke); todos os dias os passageiros do suburbano têm de se contentar com o ruído do ar condicionado.
O pica do comboio tomarense larga o serviço e vira uma bucha de papo-seco e saca da coxa de frango embrulhadinha em papel de alumínio; o pica do suburbano Alverca-Meleças atura impropérios a um passageiro histérico e é sombreado por dois agentes da PSP.

Nessa Epocha Era Bem Diferente I

Serviço da República

Administração do Concelho de Tomar
Tomar, 24 de Março de 1921
Ex.mo Governador Civil do Distrito de Santarém
Tive já a honra de pessoalmente informar V.ª Exc.ª das dificuldades que se me apresentam para de prompto remover as meretrizes, que são em grande número, e cuja instalação na rua Pedro Dias é quase secular. Logo após a minha posse do logar de Administrador deste concelho tive ocasião de verificar a inconveniencia da sua premanencia
[sic] naquela rua que de facto é muito central e onde também habitam pessoas de toda a respeitabilidade que devem sentir-se mal com uma tal visinhança.
Mas como remediar o caso se na unica rua onde se impunha a sua instalação não ha casas desabitadas e os moradores junto dos quaes algumas demarches já fis, se não dispõem à troca? Por agora e logo que retome o meu logar, o que se me afigura facil é por fora deste concelho aquelas cujo comportamento mais impõe essa medida
O Senhor Carlos de Campos Gavino é sob todos os pontos de vista um verdadeiro cavalheiro a quem por varias vezes tenho procurado atender. Mas a verdade e isto é bem notado é que tendo o mesmo Senhor sido Administrador deste concelho desde 16 de Maio de 1914 a 14 de Março de 1915 não conseguiu o que presentemente reclama; talvez porque agora mora na citada rua e pelos livros archivados nesta administração facilmente se verifica que já então às meretrizes impunha a sua saída da referida rua. Ser Administrador nessa epocha era bem diferente do que se-lo presentemente que lhe cumpre cuidar da alimentação dos seus administrados que lhe toma imenso tempo e o força a trabalho extenuante.
Saude e Fraternidade

O Administrador do Concelho,
(a) Guerra Semedo
” *

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Livro de Correspondência Recebida – 2ª Secção, Nº 1 (2 de Janeiro a 11 de Maio de 1921), Cópia do Ofício Nº 272.

domingo, 9 de janeiro de 2005

Denegação

Foi no primeiro dia de férias do Verão de '92. Subia, contente da vida, uma calçada próxima do Palácio da Independência porque se impunha a compra de um fato de banho novo. Ia haver actividade de preparação do Acampamento Nacional do CNE, e eu não queria parecer mais foleira do que de facto era. A caminho da loja segui por um passeio tão apertadinho que só havia espaço para a minha mãe atrás de mim; uma Ford Transit das antigas passou a abrir, bateu-me com o espelho, eu caí e a roda de trás passou-me por cima das pernas. Lembro-me de estar calma, no chão, e da minha mãe estar a gritar qualquer coisa. A carrinha parou bem mais à frente, e dela saiu um casal de velhotes ciganos e um pseudo-motorista (o rapaz, soube depois, tomou o lugar do velhote cigano, que não teria a carta e tresandava a vinho...). A velhota cigana aproximou-se de mim, olhou-me a perna direita, fez menção de lhe tocar - a minha mãe rosnou e afastou-a - e disse, convicta: "Vêm? Vê-se que não está partida! Vê-se logo que não está partida! ". É claro que o fémur estava partido. À força de muita chicha e muita sorte, não se partiu mais nada, só o meu plano de férias.
Na sexta-feira passada, à hora de almoço, passeava por Marvila de Santarém e cruzei-me com uma velhota nativa. Dois cães saíram do prédio ao lado para a defender do mal que nas suas alucinadas e atrofiadas mentes eu lhe iria fazer, e enquanto eu parava para a deixar passar ela disse, convicta: "Eles não mordem, eles não mordem! Não tenha medo, que eles não mordem!". Enquanto isto, o cão de água lanzudo fincava o dente no meu rechonchudo gémeo direito.
Isto da denegação no feminino é o quê? Doença geriátrica?

terça-feira, 4 de janeiro de 2005

Em Casa

Andei por aqui, com o Marinero en Tierra do Alberti no bolso. Visitei pela primeira vez vários lugares, regressei a outros. De novo em casa, deixo areia nos sapatos e nos bolsos, para não me acomodar muito até à próxima partida.