O meu avô materno não era um homem alto, não, era propriamente dito um
Catateixo, adj. e s. m. (etim. obscura). De pequena estatura; baixo.
quinta-feira, 21 de outubro de 2004
A Fila e o Figo
No nosso mundo, na coisa ocidental, a civilidade básica do forasteiro é aferida pelo nativo de forma simples: o primeiro pratica correctamente, ou não, os costumes estabelecidos. Quando somos estranhos a um lugar e estamos de boa fé optamos por uma de duas atitudes: queremos ser aceites, e tentamos casar (por vezes até à caricatura) com o novo cenário; temos pouca vocação para a conformação, e acomodamo-nos (por vezes com demasiado prazer) a ser considerados peculiares ou bizarros. No espaço que não é o nosso, encontramos outros que nos são estranhos até deixarem de o ser.
Na Inglaterra, respeitar a fila (para o que quer que seja) é prática apenas comparável à ingestão regular de chá. "Queue up, please". E lá aguardou o meu amigo a sua vez, acabado de chegar à Grã-Bretanha-Profunda. Atrás dele outro estudante se aclimatava à geordieland. Em vez de alinharem no silêncio administrativo, apresentaram-se. Um de um subúrbio japonês, outro de um subúrbio português. O Figo, em particular, e o futebol, em geral, compuseram o assunto inaugural. Dois anos e muitos assuntos depois lá estiveram eles (e eu), sentados num estádio de futebol a festejar uma quantidade absurda de golos marcados à selecção russa.
segunda-feira, 4 de outubro de 2004
terça-feira, 28 de setembro de 2004
Vinte e sete a vinte e seis
Fiz vinte e sete anos há uns dias. Revi amigos, bebi vinho de ocasião, recebi flores. Reflecti sobre as minhas virtudes e defeitos, comprei uns brincos, fui à missa. Lembro-me de quase todos os meus aniversários e respectivas testemunhas.
Footilidades II
Quando eu era pequenita constatei que a cor preferida da minha mãe era o encarnadão. Sendo a minha progenitora do benfica e o meu pai e irmão do sporting, deduzi que o meu lugar era ao lado dos de vermelho, por uma questão de género. Esta convicção durou a primária e o ciclo todo, até que, ao olhar para os posters verdes do quarto do fundo, sobretudo o do Stan Valcx, o "Túlipa d'Aço", suspeitei que se pudesse escolher. Fui uma ou duas vezes aos treinos ver o Capucho, o Figo e o Paulo Sousa, e fiquei convencida. Até hoje.
Adenda: Não sou boa adepta porque, ao contrário de outros que conheço, não fui encostada pelos colarinhos na casa de banho da pré-pimária e obrigada a confessar de que clube era.
Footilidades
Não vi o Rio Ave-Suportem. Confesso que o último jogo que vi, no café da esquina (o antigo "Bico Doirado", porque aqui em casa ainda somos cabo-excluídos), foi na casa do Vitória. Já que ainda não vale a pena falar da bola em si, pergunto-me e pergunto ao alfaiate-dos-equipamentos:
- Ó homem, que ideia foi essa de inventar um verde camuflado-cor-de-relva para os jogos fora, que uma leiga nem distingue o shô barbosa do hugo?
P.S. Pelo menos ainda não destruímos o retro style, como o fez o Malfica, com aquela sua fardeta ORRUROSA (neologismo do meu ex-aluno Bruno, em comentário escrito a propósito de uma exposição de trabalhos da sua turma sobre o Antigo Egipto). Podia-se fazer com aquilo um programa chamado GOOOOOOOOOOLA BRANCA. EDIÇÃO ESPECIAL.
quarta-feira, 22 de setembro de 2004
Oráculos
Em vários momentos do dia preciso de uma espécie defeso silencioso para funcionar. Não sou de ouvir rádio com muita regularidade, pelo que me é difícil explicar porque razão a partir do liceu comecei a utilizar o transístor da cozinha, a aparelhagem da sala, o walkman e o auto-rádio para obter oráculos de ocasião. Ligo a coisa, salto de frequência em frequência durante alguns segundos, tento encontrar uma canção que me diga respeito. Quando o fígado do dia tem bom ar sinto-me sempre melhor.
segunda-feira, 20 de setembro de 2004
A pêra-rocha
Há cerca de um ano (d)escrevi, em correio de leitora, a João Pereira Coutinho, como gostava de como ele escrevia, mas quanto me perturbava o infectante pessimismo com que avaliava (sempre) o país que somos. Nos últimos dias, provavelmente porque a dança de cadeiras dos professores me foi desfavorável, tenho acordado com uma disposição decapante.
Julgo ter dito nesse florido e-mail que, no mínimo, teríamos sempre como positiva a fruta da época, sobretudo a maçã camoesa e a pêra-rocha. Neste momento, a pêra-rocha na fruteira não me salva o humor, e pouco encontro para dizer que seja acima de cão.
Moral de pacotilha: Votarei Jed Bartlet nas próximas eleições legislativas.
Julgo ter dito nesse florido e-mail que, no mínimo, teríamos sempre como positiva a fruta da época, sobretudo a maçã camoesa e a pêra-rocha. Neste momento, a pêra-rocha na fruteira não me salva o humor, e pouco encontro para dizer que seja acima de cão.
Moral de pacotilha: Votarei Jed Bartlet nas próximas eleições legislativas.
Lá vem bomba
Sou últimas, mas mesmo assim não quero deixar de dar parabéns-a-você à Sra.Bomba,
porque mantém um caro diário que é dos meus predilectos, lido desde há já muitos dias. A alegria, a oportunidade e a impertinência são predicados importantes, sobretudo à segunda vista. Nunca me conformei com a retirada das bombocas do mercado.
porque mantém um caro diário que é dos meus predilectos, lido desde há já muitos dias. A alegria, a oportunidade e a impertinência são predicados importantes, sobretudo à segunda vista. Nunca me conformei com a retirada das bombocas do mercado.
sábado, 18 de setembro de 2004
Português partido I
Porque é que quando uma pessoa aquece o leite e se distrai, deixando-o ferver, ele
em Trás-os-Montes bufa,
na Beira Baixa arrufa,
e aqui em Lisboa só deita por fora?
em Trás-os-Montes bufa,
na Beira Baixa arrufa,
e aqui em Lisboa só deita por fora?
sexta-feira, 17 de setembro de 2004
Queluz
A meio do Verão de 1997 Queluz foi elevada a cidade. Lembro-me que me ri ao saber que o topónimo daquele nada campestre lugar (o palácio era outra coisa) queria dizer Vale da Amendoeira. Acho que ainda se comiam quadrigas n' "A Quadriga", e o cinema do "D. Pedro III" funcionava. Eu já não esperava pelo clássico 163 da rodoviária, perto dos quatro caminhos, mas vivia muito por ali, sempre em trânsito.
quinta-feira, 16 de setembro de 2004
Muito Boa Tarde
Nas cidades já não se usa muito, mas nas pequenas terras a falta de um aceno, de um cumprimento, é sinal de que se é pouco educado ou de que não se pertence. Por isso, muito boa tarde aos que já estão na(ou passam pela) blogosfera. Se por um qualquer acaso vierem parar aos Quatro Caminhos sejam bem-vindos e, por favor, tenham paciência com a minha adaptação ao meio. Fotos, ligações, citações, acertos de horas e cores serão motivo de uma aprendizagem com vagares, como de vagares foi feita a decisão de aqui entrar.
O Cemitério dos Alemães
Graças pelo horário "nine-to-five" da necrópole norte-americana em Colleville-sur-Mer. O nosso atraso em Bayeux providenciou um outro fim de tarde.
Mais uns quilómetros galgados e encontrámos o cemitério dos perdedores, em La Cambe; íamos num estado de espírito estupidamente jocoso.Atravessámos uma álea paralela à auto-estrada, que soubémos mais tarde ter sido plantada por rapazes e raparigas dos diversos países envolvidos na Guerra. Não tínhamos expectativas, o que para quem se conhece resulta invariavelmente em surpresa de espírito.
À entrada daquele jardim sem cerca impressiona a beleza modesta, discrição e paz evidente do lugar. Andarilhámos bem três quartos de hora por ali. Mais de vinte e um mil homens, gaiatos de dezoito anos na sua grande maioria. As piadinhas de mau gosto sobre os "alamões" morreram logo à entrada, na ante-sala onde uma senhora campista abria o nicho do livro dos mortos à procura de algum parente.
Ao contrário da maioria das forças militares aliadas, as germânicas apuseram nas lápides tumulares as datas de nascimento dos seus soldados; os mais velhos, poucos, tinham trinta e sete ou trinta e oito anos. Foi um bonito dia de Agosto, com rara gente a aprender os restos de uma juventude comprometida.
Disse um ex-militar inglês, mais de uma vez, que ao soldado não cabe começar a guerra, antes acabar com ela. Por mim, a "Iniciação à Ciência Política" e a "Iniciação à Praxe Política", em todos os seus semestres e delfins, devia passear por aqui. É toda uma mesma Normandia.
Mais uns quilómetros galgados e encontrámos o cemitério dos perdedores, em La Cambe; íamos num estado de espírito estupidamente jocoso.Atravessámos uma álea paralela à auto-estrada, que soubémos mais tarde ter sido plantada por rapazes e raparigas dos diversos países envolvidos na Guerra. Não tínhamos expectativas, o que para quem se conhece resulta invariavelmente em surpresa de espírito.
À entrada daquele jardim sem cerca impressiona a beleza modesta, discrição e paz evidente do lugar. Andarilhámos bem três quartos de hora por ali. Mais de vinte e um mil homens, gaiatos de dezoito anos na sua grande maioria. As piadinhas de mau gosto sobre os "alamões" morreram logo à entrada, na ante-sala onde uma senhora campista abria o nicho do livro dos mortos à procura de algum parente.
Ao contrário da maioria das forças militares aliadas, as germânicas apuseram nas lápides tumulares as datas de nascimento dos seus soldados; os mais velhos, poucos, tinham trinta e sete ou trinta e oito anos. Foi um bonito dia de Agosto, com rara gente a aprender os restos de uma juventude comprometida.
Disse um ex-militar inglês, mais de uma vez, que ao soldado não cabe começar a guerra, antes acabar com ela. Por mim, a "Iniciação à Ciência Política" e a "Iniciação à Praxe Política", em todos os seus semestres e delfins, devia passear por aqui. É toda uma mesma Normandia.
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