Quarta-feira, Março 30, 2011
Quem segue pela Caneira Nova não pode ir depressa, daí que tenha a oportunidade de olhar os pomares que guarnecem o caminho. O mais que há por estes dias são as flores brancas das pereiras, pequeninas, bem mais discretas que as da amêndoa ou da maçã. Abro a janela e não lhes sinto nenhum perfume, por isso não sei se são alguma coisa às que põem no meu Chipre Flores. Em chegando a casa lavo as mãos com Confiança, o que tem graça, mas não me rio porque me ocorrem o Martin Donovan e a Adrienne Shelly muito novos - ontem deu o Retrato de Uma Senhora, e ali estava ele outra vez.
Segunda-feira, Março 28, 2011
Doze e Doze
Mesmo que não fique bem sinto-me melhor assim, de cabelo comprido. A rapariga que me vendeu o gancho também o tinha, e quase da mesma cor. Começou a trabalhar aos doze,no Algarve. Enquanto eu pagava desabafou que tinha acabado de perder a paciência com uma das quatro ou cinco do dia, currículo nem vê-lo, só sorrisos de pedido do carimbo para a segurança social ver.
Domingo, Março 27, 2011
Domingo, Março 20, 2011
Domingo, Março 06, 2011
Wee Hours
Onde foste ao bater das quatro horas
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?
e, antes, quem eras tu, se eras?
Amigo ou inimigo, posso falar-te agora
sentado à minha frente e com os ombros
vergados ao peso da caneta?
Falo-te sobre a cabeça baixa
e vejo para além de ti, no horizonte,
teus riscos e passadas;
mas não sei onde foste, nem se eras.
Olho-te ao fundo, sob o sol e a chuva,
fazendo gestos largos ou só um leve aceno;
dizes palavras antigas,
de antes das quatro horas,
e nada sei de ti que tu me digas
dessa cabeça surda.
Não te pergunto pela verdade,
que pensas de amanhã ou se já leste Goethe;
sequer se amaste ou amas
misteriosamente
uma mulher, um peixe, uma papoila.
Não quero essa mudez de condolências
a mim, a ti, ou só à terra
que tu e eu pisamos — e comemos.
Pergunto simplesmente se tu eras,
quem eras, e onde foste
depois que se fizeram quatro horas.
Será que não tens olhos? Não tos vejo.
De longe em longe
agitas a cabeça, mas talvez seja engano.
Palavra, não te entendo.
Amigo, a que vieste?
Pedro Tamen, "Amigo, a que vieste?" in Horácio e Coriáceo, 1981.

