a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Wee Hours

No meu mundo há cada vez menos casais, cada vez menos casamentos, e cada vez menos cristãos com cada vez menos filhos. Por isso, muito poucos baptismos. Daí a alegria neste dia tão cinzento e quaresmal. Bem-vinda, pequena M.




[Pormenor de retrato da família Walichsdr por Jan Claesz, 1602]

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Lisboa, Rua de Dona Estefânia

Saí a horas, por isso despreocupei-me do lugar. À primeira não acertei. Com o jeito habitual, bati com o joelho na máquina de parquear. Desci a rua a correr, e com o latejar veio o Rohmer. Não o da Aurora, o do Jerôme, o da Claire. O do Jean-Louis. Primeiro à mesa, a comer, com os outros dois e o Pascal. No essencial, a decidir-se entre esta e outra mulher. Ali ouvi pela primeira vez falar des pechés contre l'espoir. E antes do fim da tarde deixou de doer.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Na Estrada

Por causa do Carnaval falava-se com um tio da direcção do recreativo, um compadre bombeiro, um avô fiel da casa do povo, uma madrinha governanta de anexo paroquial. Toda a gente tinha gente numa terra que não esta. Havia que haver tecto, pouco mais. Sabíamos que dirigentes e caminheiros em comissão de serviço manteriam o segredo possível, mas tentávamos sempre descobrir o local. As cartas topográficas que a pouco e pouco nos fariam chegar eram fotocopiadas dos originais há muito guardados na secretaria, a não ser que fossem de um lugar onde não tinha ainda havido actividade, e aí eram cravadas a algum militar benemérito ou compradas ao exército. Faziam-nos bater e rebater a orientação, e entretanto acertavam o orçamento, os percursos para as diferentes secções, os temas, os códigos, e nós em apostas de norte ou sul. Finalmente chegava o dia. Partíamos de comboio ou camioneta até ao sítio inicial. E então estávamos por nós, éramos donos do caminho. Contávamos apenas com um mais velho à distância de metros, testemunha quase sempre silenciosa dos acertos e enganos de quilómetros. Foi assim que aprendemos o país. Ao frio de Fevereiro, a passo incerto e enlameado, por entre subidas, silvas, cães vadios. Passando por gente que não nos conhecia mas nos desejava bom dia. Sob muita chuva, lenços a desbotar, alguma cantoria, corridas mata-cavalos para salvar pontos. Tralhos aparatosos, quase sempre nas descidas. Uns ainda maçaricos, engasgados em saudades de casa, outros já guias, disfarçando febres para não deixar a patrulha perder. E o chaço a passar com os coxos, a abrandar para ver se estávamos bem. O Chefe a sorrir, solene. De noite a espera pelos mais atrasados, o banho à vez, os curativos, a futebolada dos que nunca deixavam o monco cair. O esparguete, sempre o esparguete. As máscaras. De madrugada o cerco à calhauzada pelos foliões locais, que nos achavam miudagem rica da cidade, malta que lavava a cara com água morna. No último dia havia o frio na barriga, a ordem de serviço, as promessas, o corredor. E o regresso, o sono pesado no corpo moído, os sonhos de ainda estarmos todos na estrada. De vez em quando volto a sonhar connosco, e ainda estamos todos na estrada.

Inverno na Devesa (1)

Chovem água fria e pedra miúda, sem romance de neve. Uma das cameleiras velhas da borda do terreiro tombou há pouco. O nordeste está que baste para tanger o mastro da escola. Quase não se vê gente. Por ora uns estão na missa do dia, outros a fazer tempo na venda. Mais hora e meia e regressarão a casa muito láparos, a ver do almoço.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010