a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

domingo, 30 de outubro de 2005

Brugge, Wollestraat

Sol e calor, todos à rua. Alegria ante a luz inesperada.

sábado, 29 de outubro de 2005

La Dame En Pierre [Excerto]

"Dans son fauteuil, sans nul souci
Des gens dont la chambre est pleine,
A quoi peut donc rêver ainsi,
La châtelaine?

Ses yeux où brillent par moment
Les fiertés intérieures,
Lisent mélancoliquement
Un livre d'heures."
Charles Cros, Le Coffret de Santal, 1879.

sexta-feira, 28 de outubro de 2005

Frescos & Cia.

Some bite the big apple, autres devorent le petit chou.

Rua da Judiaria

"Os filhos de Israel cresceram, e se multiplicaram, como os renovos das árvores: e mui possantes, encheram a terra."
Êxodo, 1, 7.

A mim, é como se me ficasse em caminho, a rua que Nuno Guerreiro inaugurou há dois anos. Sinceros parabéns.

Spleen [Português (Portugal)]

Saturada de chuva, a pedra mostra-se plural. Doze blocos e uma espécie de lágrima, face esquerda abaixo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2005

A Repartição

Este é o blog mais estranho que conheço. Estranho-bom. Sabe-se lá se feito de ficção, se de realidade, se de meio por meio. Quem olha só de relance associa o Pereira, o Borrego, o Oliveira, a Patrícia, o Picoto e o Azevedo a funcionários de um outro escritório, o que é puro engano. Na Repartição a disfuncionalidade é completamente portuguesa: empregadas manipuladoras e chatas, empregados debochados de olho nas contribuintas, chefes verborreicos e paternalistas, rotina, bas fond sexual e etílico, tristeza, ridículo. Preciosos são sobretudo os diálogos, de tão exasperantes e atravancados, e os monólogos, ao mesmo tempo broncos e eruditos. Pereira, nome do anti-herói, arrisca-se seriamente a chegar a adjectivo.

terça-feira, 25 de outubro de 2005

Os Nomes

Não sei os nomes das plantas, não as distingo. Conheço as árvores mais evidentes, só. Tília, sobreiro, oliveira, eucalipto, pinheiro, figueira. Agora vejo isto.

Lisboa, Rua da Assunção

"Um dia faltou a luz no escritório [Felix Valladas & Freitas]. O Freitas não estava e o Osório, o «grumete», tinha saído a fazer um recado. O Fernando foi buscar um candeeiro de petróleo, acendeu-o, e pô-lo em cima da minha secretária.
Um pouco antes da hora de saída atirou-me um bilhetinho para cima da secretária, que dizia: «Peço-lhe que fique». Eu fiquei, na expectativa. Nessa altura, já eu me tinha apercebido do interesse do Fernando por mim, e eu, confesso, também lhe achava uma certa graça...
Lembro-me que estava em pé, a vestir o casaco, quando ele entrou no meu gabinete. Sentou-se na minha cadeira, pousou o candeeiro que trazia na mão e, virado para mim, começou de repente a declarar-se, como Hamlet se declarou a Ofélia: «Oh, querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo. Oh! até ao último extremo, acredita!»
Fiquei perturbadíssima, como é natural, e, sem saber o que havia de dizer, acabei de vestir o casaco e despedi-me precipitadamente. O Fernando levantou-se, com o candeeiro na mão, para me acompanhar até à porta. Mas, de repente, pousou-o sobre a divisória da parede; sem eu esperar, agarrou-me pela cintura, abraçou-me e, sem dizer uma palavra, beijou-me, beijou-me, apaixonadamente como um louco.
[...]
O Fernando era uma pessoa muito especial. Toda a sua maneira de ser, de sentir, de se vestir até, era especial. Mas eu talvez não desse por isso, nessa altura, talvez porque estava apaixonada. A sua sensibilidade, a sua ternura, a sua timidez, as suas excentricidades, no fundo, encantavam-me.
Por exemplo, o Fernando era um pouco confuso, principalmente quando se apresentava como Álvaro de Campos. Dizia-me então. «- Hoje, não fui eu que vim, foi o meu amigo Álvaro de Campos»...Portava-se, nestas alturas, de uma maneira totalmente diferente. Destrambelhado, dizendo coisas sem nexo. Um dia, quando chegou ao pé de mim, disse-me: «- Trago uma incumbência, minha senhora. É a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa, de cabeça para baixo num balde cheio de água.» Eu respondia-lhe «- Detesto esse Álvaro de Campos. Só gosto do Fernando Pessoa.» «Não sei porquê», respondeu-me, «olha que ele gosta muito de ti».
Raramente falava no Caeiro, no Reis ou no Soares."

In António Quadros (Org.), Obra Em Prosa de Fernando Pessoa. Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas
[3. Alguns Testemunhos de Familiares, Amigos e Contemporâneos. §De Ofélia Queirós, recolhido por Maria da Graça Queirós], Lisboa: Europa-América, 1986.

Posta Rititesca

Entre o gajedo que habita o planeta Nacional há-o com muita falta de forcinha na mãos. Fêmeas da elite pensante, mais de dezoito anos, estudantes, mestres ou doutoras, o raio que as parta, maquilhadas, simplezinhas, avant garde, rètro, sei lá eu, habituadas às canetas e às teclinhas, coitadinhas, tanta a sabedoria que não há lugar para aprenderem a premir os autoclismos da merda da casa de banho.

The Desolate Field

"Vast and grey, the sky
is a simulacrum
to all but him whose days
are vast and grey and—
In the tall, dried grasses
a goat stirs
with nozzle searching the ground.
My head is in the air
but who am I . . . ?
—and my heart stops amazed
at the thought of love
vast and grey
yearning silently over me."
William Carlos Williams, poema originalmente publicado na revista The Dial, Agosto de 1920.

domingo, 23 de outubro de 2005

Carnivàle Lights V/II

12. The Day That Was The Day

Seca e sinistra, a Direcção em diálogo. Ben sem saber o que fazer por não ser igual aos outros. Querer o poder, será essa a “seductive nature of evel” de que fala o bom Reverendo Balthus? Não são só os principais contendores que com ele se debatem: Lodz quer, Tommy Dolan quer, Iris Crowe quer. Samson é bem deste mundo, por ele os comuns não são joguetes. Ben protegido pelo pai, pela primeira vez. Sophie e Stumpy pagam-se do que lhes devem, sem hesitações. Apollonia prefere morrer e matar, tentando impedir o que aí vem. Ben e Justin enfrentam finalmente os seus destinos – o princípio está próximo.

Enquanto não chegamos a Los Moscos, entretenho-me a pensar porque será que:

  1. No último episódio, Carnivàle parece estar prestes a começar?
  2. A cada vez que escrevi Ben [ainda agora, mais uma vez] o meu info-corrector ortográfico insistiu em chamá-lo Bem?
  3. Nenhum de nós tocou uma única vez no Sem Nome – o assombrador, o tatuado, o pai de Sophie, o perseguido, o homem da árvore?

Carnivàle Lights V/I

Ante Scriptum: Precisamente, Carla, ao contrário do que eu tinha escrito, o correcto é “every prophet in her house”. Mais, voltei atrás e só agora percebi que, no quadro de Hopper, a empregada do diner diz "every prophet in his house" não “every prophet in this house”, como supúnhamos - mais uma tradução-traição. Aposto a feijões que isto será importante, história adiante.

11. Day Of the Dead

Dia de Finados, dia em que a fronteira entre vivos e mortos não se vê. Ben Hawkins e Justin Crowe medem-se em sonhos: Justin parece em posição de força, mas Ben não demonstra medo, afronta-o. Apollonia atormenta Sophie. Ben remói no que é pecado, e enquanto o faz vê o seu pesadelo encenado na aldeia de fronteira; confessa-se, quer muito ser absolvido pelo que fez e não fez. O Reverendo Balthus teme Justin, o endemoninhado, admite mesmo recorrer a velhos usos papistas. Lila é fútil, sim, mas acerta: “things are changin’”. Sophie atormenta a mãe, amando-a. Jonesy e Rita Sue, nenhuma separação é bonita de ser ver. Ben e Sophie escolhem em quem confiar, mas a nenhum a escolha aproveita. Iris, Lodz, a morte e os seus instrumentos. Ben não já não pode fugir.

sábado, 22 de outubro de 2005

Lisboa, Depósito Vinícola Abel Pereira da Fonseca

"Exmª. Senhora D. Ofélia Queirós:

Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V.Ex.ª - considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer cousa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) - que V.Ex.ª está proibida de:

(1) pesar menos gramas,

(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.

Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V.Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.

Cumprimenta V.Ex.ª
Álvaro de Campos
Eng. naval
25-9-1929
ABEL"

[António Quadros (Org.), Obra Em Prosa de Fernando Pessoa. Escritos Íntimos, Cartas e Páginas Autobiográficas, 1986]

Um Dia Não São Dias

Que corra tudo pelo melhor, B.

A abstinência de uns e o baixo orçamento de todos mandaram que justificássemos o luxo de nunca escolhermos o vinho mais barato da carta. A razão era a ocasião, o facto de estarmos todos juntos - um dia não são dias, passámos a dizer. Como se nessa altura não estivéssemos juntos quase todos os dias. Estudávamos que o tempo corria, agora sabemo-lo. Somos amigos há dez anos.

sexta-feira, 21 de outubro de 2005

Nessa Epocha Era Bem Diferente XIV

Aos 22 anos, Joaquim Baptista da Silva Leitão publicou a sua primeira obra, um poema intitulado O Retrato de Vénus. O poema foi considerado ofensivo e o seu autor obrigado a comparecer perante tribunal, acusado de imoralidade e abuso de liberdade de imprensa. Foi absolvido. Por essa mesma altura enamorou-se de Luisa Midosi, de 14 anos de idade. O casamento celebrou-se, com destaque mundano, alguns meses depois.

Your Blog Published Successfully

Dizes tu, Blogger.

quinta-feira, 20 de outubro de 2005

Homens VI

Sentado, ensimesmado. Fumando. Lendo. Ouvindo. Bebendo.

A Água Em Todas As Fontes

Cantamos o verso/por querer saber/que mundo todo/ele quer dizer.

Jogo Nocturno

Na noite da floresta todos os passos são pardos. Um galho só quebra se pisado, mas soa ao mesmo que a água a cair. Abre e fecha os sentidos, até te habituares.

quarta-feira, 19 de outubro de 2005

Poptugueses III

"Só por existir
só por duvidar
tenho duas almas em guerra
e sei que nenhuma vai ganhar

Só por ter dois sóis
só por hesitar
fiz a cama na encruzilhada
e chamei casa a esse lugar

E anda sempre alguém por lá
junto à tempestade
onde os pés não têm chão
e as mãos perdem a razão

Só por inventar
só por destruir
tenho as chaves do céus e do inferno
e deixo o tempo decidir

E anda sempre alguém por lá
junto à tempestade
onde os pés não têm chão
e as mãos perdem a razão


Só por existir
só por duvidar
tenho duas almas em guerra
e sei que nenhuma vai ganhar"


Jorge Palma, , Polygram, 1991.
Uma grande grande merda, saberes que não estás à altura de quem admiras.

Danças Com Livros

Não fui testemunha ocular, mas ouvi de fonte segura que o Mercado da Ribeira está que é uma animação: livros, bailarico e cacetada à moda antiga. Como que alguém pode dizer que a cultura é uma chatice?

terça-feira, 18 de outubro de 2005

Hageografia II

Não sei dizer porque parámos em Lalim, mas o caminho era o de Lamego, havia qualquer coisa em Lamego. O velho da chave perguntou-nos se queríamos ver a capela, nós fomos. Foi a primeira que vi alguém assim. Cinco, seis, sete anos e já iam abrir o gado para sítios ermos. Ela morreu de frio enquanto pastoreava. Quem diz que quem é do campo não tem medo, não sabe o que diz. Tão pequenos. Medalhas, pagelas e ex-votos em volta da menina, deitada e incorrupta, vestida como se fosse para a comunhão solene.

Planeta Nacional

Tapeio, estalo, chego a assobiar. Todo o som furtivo serve, nos dias em não posso com o silêncio. Song is you, pois.

Porta Azul

Caminhas bem, mas chegas tarde. À entrada, vês a porta fechada. Só mais tarde te ocorre a campainha.

Wee Hours

Tantos sentidos em cada palavra. Letra certa, língua incerta.

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

Alice Na Cidade

Imagina que quem conta conta o teu chão, uma estação antes da tua, depois da tua, a mesma estrada onde chove chuva que te molha, onde apita o que tu ouves, imagina que a história mora numa casa que também tem varanda, som de carril, e imagina que nesse momento descobres que a massa és tu - não páras, não escutas, não olhas. Depois tenta não chorar.

domingo, 16 de outubro de 2005

Hortaliça

Macho serrano nunca seria apanhado a dizer, qual urbano

- Comer salada? Mas eu sou algum coelho, pôrra?!

não. Da última vez que estive num tasco do país profundo a vê-los jogar com pouca convicção, ouvi da mesa de fórmica atrás de mim um desconsolado

- Eu parece-me que aquilo é falta de hortaliça...

pelo sim pelo não, rapazes, comam a sopa. Please.

Carnivàle Lights IV

9. Insomnia
Cartas claras na mesa: Samson e Lodz em disputa pela confiança de Ben. Sophie, também ela atormentada pelo passado e pelo futuro. Lembro-me agora, Rebecca havia dito “I sent you a dream, Ben”; quem lhos continua a tentar enviar? Ele não os quer. É Carnivàle apenas uma fachada de outra coisa? Que luta esconde?


10. Hot And Bothered

Os Templários e um confronto que vem do Velho Mundo, o espectro das Cruzadas, da Grande Guerra, tudo numa espécie de contínuo. Iris é de novo Irina, reassume o seu ascendente sobre Alexei; eles têm um plano. Sophie e Jonesy em aproximação, bonitos, magoados. O que lhes terá acontecido? Mais importante, quanto sangue comum haverá em Carnivàle?
Adenda: Bem visto, caro Luís, "All profets in the house": Sophie faz de alguma forma parte da equação principal.

sexta-feira, 14 de outubro de 2005

Mais Novidades

Um dos poucos loiros que me fazem tremer os joelhos será James Bond. E eu nem sou fã do 007. Ai.

Sopé da Estrela (Ou, Isto Hoje É Só Divulgação)

Torga bem falava da força centrífuga da Serra.

Novidades

Luís Carmelo está prestes a publicar outro folhetim, no Miniscente. Espreitem, que eu também.

A Passing Glimpse

"To Ridgely Torrence
On Last Looking into His 'Hesperides'


I often see flowers from a passing car
That are gone before I can tell what they are.

I want to get out of the train and go back
To see what they were beside the track.

I name all the flowers I am sure they weren't;
Not fireweed loving where woods have burnt--

Not bluebells gracing a tunnel mouth--
Not lupine living on sand and drouth.

Was something brushed across my mind
That no one on earth will ever find?

Heaven gives its glimpses only to those
Not in position to look too close."

Robert Frost, West-Running Book, 1928.

Isto Sei

É preciso tempo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2005

Lisboa, Esquina da Almedina

Também eu, Afonso, também eu. Pus, porém, o pé na outra blogcasião de hoje. Não coube muito mais que o pé - tal era a multidão - mas não me posso queixar: a meio da coisa filei um quarto de hora de descanso na última cadeirinha da sala. Balanços? Blogs femininos militantes, só mesmo na cabeça de quem faz Estudos do Género. Gostei muito de ouvir esta e esta senhoras, bem humoradas como de hábito; infelizmente, tive de sair assim que acabou a comunicação transatlântica. Se alguém lá esteve até ao fim, conteconteconte.

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XVIII

Quem cora aos vinte e oito, cora o resto da vida?

Notícias

Não crê num destino marcado, porém assiste ao que se alinha sem poder fugir. Sem querer fugir. Tem medo, claro.

quarta-feira, 12 de outubro de 2005

Lampe du soir, ma calme confidente

"Lampe du soir, ma calme confidente,
mon coeur n'est point par toi dévoilé ;
(on s'y perdrait peut-être ;) mais sa pente
du côté sud est doucement éclairée.

C'est encore toi, ô lampe d'étudiant,
qui veux que le liseur de temps en temps
s'arrête, étonné, et se dérange
sur son bouquin, te regardant.

(Et ta simplicité supprime un Ange.)"

Rainer Maria Rilke, Vergers, 1924?1925?

Cabeça Perdida

Não é como a frente que dá para o Campo Grande, green à inglesa. É apenas um descampado limpo com umas quantas árvores. A vista alcança-o da sala de fumo, alpendre bom para parar de ler e escrever. Ao fim de um ou dois minutos, os olhos que descansam encontram um ponto de fuga. Sombreada pelo arvoredo e pelo cinzento da hora, periférica, há uma enorme pedra em forma de cabeça. Lembra as da Ilha da Páscoa, umbigo do mundo, é masculina e misteriosa. Quem a fez? A quem pertence? Porque está ali?

terça-feira, 11 de outubro de 2005

Vince

Coisa com alcunha minha podia lá fazer estragos de monta.

163

Sentada na soleira da montra espera, distrai-se com as falhas na calçada. A fila cresce, desassossega-se com mais um atraso. Cheira a limpo, a terra calcada pela água. Lá vem ele, mais de um quarto de hora depois. Pico o bilhete e preparo-me para a dança de não cair nas curvas. Os de sempre distinguem-se, calculam com exactidão a inércia em cada mudança, a cada travagem. Cumprimentam-se ou fazem um sinal de reconhecimento mútuo, se não o fazem é porque há zanga. Ou porque há gato.

Wee Hours

No meu prédio as paredes são ouvidos. Portas, passos, berlindes saltitando pelo chão, tudo me diz que estar só não existe.

Carnivàle Lights IV

7. The River

The River tem muito crer, mais religião que outros tantos sermões. Coríntios, Ezequiel, Revelações, Mateus, Lucas. “But the [snake] markings can sometimes fool you”, acrescenta Ruthie, Luís, a mulher que se diz de homem nenhum. Mr. Dolan quer uma história da estrada, já se adivinha que terá muito mais que isso. Toda aquela força contida em Iris. Quase ninguém parece desejar ficar em Carnivàle, poucos conseguem de lá sair. Porque insistem os mais velhos (Appolonia, Samson, Ruthie) em esconder o que sabem dos mais novos (Sophie, Ben, Libby), querem protegê-los? Sabem que os não podem preparar? Justin redescobre Alexei, tudo muda.


8. Lonnigan, Texas

Samson e Lodz conversam como quem joga à tracção. Crowe no hospício, poetas e profetas sempre tomados por loucos. Stumpy, Sinatra chapado, toda a lábia e melancolia num enorme sorriso. Samson conduz Ben; será que lhe mostrou mais do que devia, terá caído em desgraça na Direcção?

Cenas dos Próximos Capítulos (13.10.2005): Verdadeiramente curiosa, a forma como Rita-Sue-fora-do-cânone se vai progressivamente apresentando (e sendo apresentada) ícone sexual desta história. E resulta, não acham?

sábado, 8 de outubro de 2005

Lisboa, Avenida da Liberdade

É bom esticar conversa amiga por acaso, sem pressa, sem razão especial, e ainda ouvir de acrescento

- Se não é o poeta que desce a rua, não sei quem é.

e ser, e olhar sem pudor o poeta que desce a rua para lá em baixo sentar-se a ler um livro qualquer, e querer muito que a um braço de distância a poesia se pegue.

sexta-feira, 7 de outubro de 2005

Massamá, Rua dos Jasmins

A cada vez que vou votar a escola parece-me melhor. As árvores crescidas, as paredes pintadas, as salas com cortinas e computadores, ginásio coberto, área de teatro. Entrei ia ela a meio, só Pavilhão A e B. No ano anterior, pelo menos nos primeiros meses, os alunos seguiram de camioneta para um pré-fabricado na Rinchoa. A Rinchoa soava longe,tinha hortas, rancho folclórico, era uma Idanha (ou Varge Mondar), demasiado para lá da linha do comboio e da estrada de Sintra para ser subúrbio a sério. Nesse segundo ano já havia salas suficientes, mas por cada duas mesas éramos seis. Muito recambiado do Liceu de Queluz, da Amadora, da Ferreira Dias do Cacém, e depois os locais. Um sacana dum assentamento de pioneiros.

Esperemos Que Até Mais

Passa por aqui, a minha bloga diária (sim, a expressão também de lá vem). Com um bocado de sorte continuará a passar. Boa viagem, Bruno Sena Martins.

Correspondência

- Não a entendo ao telefone, pá, tudo monossílabos, hesitações. Quando chegou ao pé de mim, riu-se e deu-me um beijo. E eu feito parvo, à espera dela zangada.

- Gajas.

quinta-feira, 6 de outubro de 2005

[Sem Título]

"Tu sei come una terra
che nessuno ha mai detto.
Tu non attendi nulla
se non la parola
che sgorgherà dal fondo
come un frutto tra i rami.
C'è un vento che ti giunge.
Cose secche e rimorte
t'ingombrano e vanno nel vento.
Membra e parole antiche.
Tu tremi nell'estate."
Cesare Pavese, [?], 29 de Outubro de 1945.

Rimas Esquisitas

A bandeira nacional /é semáforo horizontal?

Isto Sei

A história nunca se repete.

quarta-feira, 5 de outubro de 2005

Coisas Más II

Quando discretos, os erros acompanham-nos anos a fio. Outro dia descobri que fragrância não tem absolutamente nada em comum com fragor.

Sobre O Tejo

A nossa toponímia urbana é muitíssimo republicana. Avenidas da República, largos Cândido dos Reis, ruas Miguel Bombarda um pouco por todo o lado. Muitas fazem descarada tábua rasa dos reis que as mandaram construir, de antigas glórias militares, de marcos religiosos. Não deixo de me lembrar disto quando passo na Ponte 25 de Abril, não deixo.

Coisas Boas II

Às vezes entro nos directórios de blogs nacionais só para ler os nomes. Não, não são títulos, são abonações líricas.

República

Tenho orgulho de viver num país sem privilégios de sangue inscritos na Lei.

terça-feira, 4 de outubro de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XVII

Porque é que o QC tem muito melhor ar para quem entrou pelo Mozilla Firefox do que para quem atalhou pelo Internet Explorer? mmm? porquê?

A Vast Confusion

"Long long I lay in the sands
 
Sounds of trains in the surf
in subways of the sea
And an even greater undersound
of a vast confusion in the universe
a rumbling and a roaring
as of some enormous creature turning
under sea and earth
a billion sotto voices murmuring
a vast muttering
a swelling stuttering
in ocean's speakers
world's voice-box heard with ear to sand
a shocked echoing
a shocking shouting
of all life's voices lost in night
And the tape of it
someow running backwards now
through the Moog Synthesizer of time
Chaos unscrambled
back to the first
harmonies
And the first light"

Lawrence Ferlinghetti, Who Are We Now? (?),1976 (?)

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Amadora, Parque Delfim Guimarães

O dentista era simpático, ainda que demasiado parecido com o senhor do talho para me inspirar confiança. Acho que era da bata; o mesmo modelo nos dois, e no professor de físico-química, e no oculista, e no dono da drogaria. Numa de tantas visitas infantis arrancou-me dois molares, definitivos e superiores. Nas suas poupadas palavras estavam a mais. Mesmo com quatro anestesias locais, é como se nos arrancassem pedaços da caixa craniana. Nessa tarde não houve palmier coberto da Pastelaria Bond para ninguém. Olhei de relance o jardim, com a boca dormente e cheia de algodão; estranho e fora do sítio, como os meus dentes.
Há coisas que fazem mais sentido aos pares. Passa na RTP1, neste momento, East of Eden (1955). Tenho pena que Tully (2000) nunca tenha passado. Duas histórias diferentes de dois escritores (John Steinbeck e Tom McNeal) com méritos diferentes, num terreno tão o mesmo que chega a doer. Dois filmes muito belos.

domingo, 2 de outubro de 2005

Rendo-me

Fui anteontem ver Nelken/Cravos, da Pina Bausch, coreografia de teatro-dança estreada em 1982, em Wuppertal. Não li nada antes, de propósito. Porque nunca tinha visto um espectáculo de dança ao vivo queria ir em branco. Gostei, mas não muito, e compreender não compreendi quase nada, a julgar pelo que depois li no artigo de Graham What [na Ballet.magazine, ed. Março de 2005]. Aprendi a jogar o jogo dos livros, do cinema, do teatro. Quando confrontada com a música erudita, a escultura ou a dança, não tenho pé, sinto-me completamente analfabeta. Rendo-me e pronto, as sensações têm de bastar.

Carnivàle Lights III

5. Babylon

Assente arraial, o mal estar dos carnies é ensopado em whisky. A prata secou há anos, mas Babylon não está deserta. Desgraçadamente. Num labirinto sem sentido aparente, Hack Scudder atira a Ben, quando este o reconhece: “but do you know what that means?” Crowe lê, procura respostas no Livro. Nesse que nos fala da cidade das riquezas e dos castigos, Luís.


6. Pick a Number

A Jonesy pesa ainda um castigo velho, do tempo de Clayton Jones jogador. Todos querem justiça, todos pensam saber o que é a justiça. Crowe já não procura respostas, exige-as. Ben só quer uma saída: ele sabe, ao contrário de Crowe, que nada controla. Porque rejeita sempre a ajuda de Lodz? porque aceita sempre a de Ruthie? Jonesy fica, contra a sua própria fé decide confiar em quem nele confiou. Mais um levantar arraial.

Adenda (05.10.2005): Não sabia, Luís; os episódios dele foram dos que mais gostei, mas acima de todos o próximo, da Alison Maclean. Carla, tentei resistir, mas também acabei por ver série até ao fim. Tentei compensar a falta escrevendo estas notas no fim de cada episódio, para evitar anacronismos. A cara de Iris, sim. E Dora Mae. Não só Dora Mae, toda a família Dreifuss vendida, disposta a tudo para sobreviver.