a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sábado, 30 de julho de 2005

Que Te Quiero Verde

Arrozais de pé na água, feijoeiros cana acima - vou por aí, e há festa na aldeia.
Está um dia tão bonito.

sexta-feira, 29 de julho de 2005

Pé - Mão - Cérebro

Cliquem o link no título deste post para lerem o que diz o João Miguel Almeida sobre o medo nas nossas pernas, nas nossas mãos, nas nossas cabeças. E não saiam de lá sem o poema do O'Neill.

Ando um bocado categórica, é sem querer.

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XV

Olho o Woody Allen, penso no Sapo Cocas.

Q & A

1) Qual é o teu filme favorito?
O meu filme favorito é o [Trois Couleurs] Bleu/Azul, do K. Kieslowsky.

2) Qual o último DVD que compraste?
Em rigor, em rigor [fica sempre bem um maneirismo verbal do Dr. Soares, por estes dias], o último DVD que comprei foi encomenda da minha progenitora, vinha com o Público de há umas duas semanas e custou aprox. €7,00. Sim, foi o Contra - Best Of, rapsódia do Spitting Image português (em rigor, em rigor, dvd's, dvd´s, é mais no Clube de Vídeo Arco-Íris).

3) Quais os 5 últimos filmes que viste?
I.(Em Sala) War of the Worlds/Guerra dos Mundos,do S. Spielberg (não gostei, primeira vez num filme do Spielberg);
II.(Na TV) Irreversible/Irreversível, do G. Noé (ainda não decidi, mas acho que não gostei);
III.(Em DVD) Garden State (/qualquer-coisa-que-não-me-lembro-em-português), do Z. Braff (gostei);
IV.(Em Sala) Sin City/A Cidade do Pecado,do R. Rodriguez + F. Miller (gostei bastante, mas devia ter levado um Alka-Seltzer);
V.(Em DVD) Life's a Miracle (não sei em bósnio)/A Vida é um Milagre, do E. Kusturica (muito - muito - bom).

4) Qual o melhor filme brasileiro de todos os tempos?
Não sei. O que eu mais gostei nos últimos foi Abril Despedaçado, do W. Salles.

5) Qual o teu realizador/actor/actriz e género favoritos?
Realizador - K. Kieslowsky
Actor - Não consigo escolher.
Actriz - Não consigo escolher.
Género - Não ligo a isso, sou omnívora convicta.

6) Escolhe 5 pessoas para passar a corrente…
Não.

quinta-feira, 28 de julho de 2005

Qu'esta Merda ?!

Leiam lá isto do princípio ao fim.

" [Verso 1 (Beyonce)]
Baby i see you working hard
I want to let you know i'm proud
Let you know that i admire what you do
The more if i need to reassure you, my life would
Be purposeless without you (yeah)
If i want it (got it)
When i ask you (you provide it)
You inspire me to be better
You challenge me for the better
Sit back and let me pour out my love letter

Let me help you
Take off your shoes
Untie your shoestrings
Take off your cufflinks (yeah)
What you want to eat boo (yeah)
Let me feed you
Let me run your bathwater
Whatever you desire, i'll aspire
Sing you a song
Turn my game on
I'll brush your hair
Help you put your do rag on
Want a foot rub (yeah)
You want a manicure
Baby i'm yours i want to cater to you boy

[Coro]
Let me cater to you
Cause baby this is your day
Do anything for my man
Baby you blow me away
I got your slippers, your dinner, your dessert and so much more
Anything you want just let me cater to you
Inspire me from the heart
Can't nothing tear us apart
You're all i want in a man;
I put my life in your hands
I got your slippers, your dinner
Your dessert and so much more
Anything you want, i want to cater to you

[Verso 2 (Kelly)]
Baby i'm happy you're home
Let me hold you in my arms
I just want to take the stress away from you
Making sure that i'm doing my part (oh)
Boy is there something you need me to do (oh)
If you want it (i got it)
Say the word i (i will try it)
I know whatever i'm not fulfilling (oh)
No other woman is willing (oh)
I'm going to fulfill you mind, body and spirit

I promise you (promise you)
I'll keep myself up (oh)
Remain the same chick,you fell in love with(yeah)
I'll keep it tight, i'll keep my figure right
I'll keep my hair fixed, keep rocking the hottest outfits
When you come home late tap me on my shoulder
I'll roll over
Baby i heard you, I'm here to serve you
(i'm lovin' it, i'm lovin' it)
If it's love you need, to give it is my joy
All i want to do is cater to you boy

[Coro]
Let me cater to you
Cause baby this is your day
Do anything for my man
Baby you blow me away
I got your slippers, your dinner, your dessert and so much more
Anything you want want just let me cater to you
Inspire me from the heart
Can't nothing tear us apart
You're all i want in a man;
I put my life in your hands
I got your slippers, your dinner
Your dessert and so much more
Anything you want, i want to cater to you

[Verso 3 (Michelle)]
I want to give you my breath, my strength
My will to be here
That's the least i can do
Let me cater to you
Through the good (good)
The bad (through the bad)
The ups and downs (ups and downs)
I'll still be here for you
Let me cater to you
Cause you're beautiful(you're beautiful)
I love the way you are (you are)
Fulfill your every desire (desire)
Your wish is my command (command)
I want to cater to my man
Your heart (your heart)
So pure your love shines through (shines through)
The darkness we'll get through (so much)
So much of me is you (is you)
I want to cater to my man

[Coro]
Let me cater to you
Cause baby this is your day
Do anything for my man
Baby you blow me away
I got your slippers, your dinner, your dessert and so much more
Anything you want want just let me cater to you
Inspire me from the heart
Can't nothing tear us apart
You're all i want in a man;
I put my life in your hands
I got your slippers, your dinner
Your dessert and so much more
Anything you want, i want to cater to you."

Destiny's Child, Cater 2 U. Cf. "Destiny Fulfilled", 2005.


Esta é a letra mais socio-reaccionária que eu já li. Podia ter sido escrita num serralho otomano. A Rosa Parks e a Oprah Winfrey já devem ter tido uma coisinha má... E pensar que isto vende bem num país onde as mulheres podem sair à rua de mini-saia para votar...

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XIV

Porque é que nós contamos tudo em meias-dúzias e os italianos contam tudo em mãos cheias?

Santarém, Calçada da Atamarma

Desço, alheia a tudo o que não se conforma ao padrão curvo da rua e do rio.

Santarém, Terreirinho das Flores

Em horário de expediente o terrerinho é Little Kiev. Homens muito altos e mulheres muito brancas passam direitos ao Largo Passos Manuel, vão tratar dos papéis para cá ficarem mais uns tempos. Até às dez da manhã não se ouve português; é quase como ir para longe, é só fechar os olhos.

terça-feira, 26 de julho de 2005

La Luna E I Falò

Não consigo ler italiano como deve ser, por isso fui até à estante de alguém que tinha feito a Colecção Mil Folhas/Público e saquei d'"A Lua e as Fogueiras", do Cesare Pavese. Não li livro mais belo este ano, nem me parece que vá ler.

Um Aforismo Cruel

Já fez bater muita tecla, este aforismo citado pelo Lutz, do Quase em Português [link em baixo, à direita]. Entendo que a posição de qualquer um de nós perante o dito depende exclusivamente das pessoas com quem nos cruzámos, mais que do nosso percurso individual. Eu cá andei a remoer nele uns dias e descobri que não lhe dou nenhum crédito. Porquê? Porque basta ter conhecido uma pessoa infeliz e boa para o desdizer. Eu conheço mais que uma, mas uma está acima de todas as outras. Tem mais de sessenta anos e uma vida cheia. Originária de uma família extensa e humilde, casou com um homem trabalhador, bom e boémio. Teve uma única filha. Saiu da aldeia para o subúrbio citadino e ajudou o marido a montar o seu próprio negócio, num esforço sem horas para mais nada. Casou a filha e ajudou-a a começar a sua vida. Viu nascer o primeiro neto. O marido morreu-lhe subitamente, vítima de má condição cardíaca. Pouco depois viu nascer a segunda neta. À filha foi dignosticado cancro, a que não sobreviveu o casamento nem, por fim, a própria. Seguiu-se um dos seus irmãos, cancro outra vez. Pouco tempo depois um sobrinho pôs termo à vida. E o que faz esta mulher? Resiste. Tem períodos de profunda tristeza, mas resiste. A sua saúde ressentiu-se, mas não deixa de cuidar dos dois netos, todos os dias da sua vida. Está cansada, mas o amor e a bondade não secaram. Aproveita as ocasiões possíveis para rir, para falar e para ouvir quem gosta de estar com ela. Não me venham dizer que só é bom que é feliz, porque eu sei que é mentira.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

Homonomia

Os nomes próprios são comuns. Inspirados pela história, pela religião, pela política, por uma modinha do momento. Há muitas pessoas com o mesmo nome, mas eu nunca o digo igual.

sábado, 23 de julho de 2005

Esta Frase Fez-Me III

Alma grande, filha, faz a alma grande.

sexta-feira, 22 de julho de 2005

Aforismos IV

Quem não chora, não ri.

Correio Verde

O indivíduo que conseguir explicar de que forma e porque razão D. Pedro Almodovar pintou o cabelo todo de branco e se tornou Ministro das Finanças do país ao lado, receberá um pacote de Sugus (Morango ou Ananás). Scout's Honour.

Deixar a morada na caixa de comentários ou enviá-la por e-mail, s.f.f.

A Cabeça A Andar À Roda (Ou, A Ordem Dos Factores Não Altera O Produto)

Tenho um ar português: isto significa que se usar corpete passo por italiana, se usar sari passo por indiana, se usar hidjab passo por berbere. Ou persa. Ou árabe.

O meu irmão acabou de se mudar da Cidade-Alvo B para a Cidade-Alvo D; a namorada dele ficou na Cidade-Alvo B; ele vai vê-la de autocarro, de comboio, de metro.

Um meu primo americano fez vinte anos há três dias. Este meu primo é militar filho de militar e está a servir o país dele no Iraque.

A minha vida sou eu a pensar na vida no autocarro, no comboio, no metro. Doem-me as costas. Hoje não vou apanhar o autocarro, nem o comboio, nem o metro.

quinta-feira, 21 de julho de 2005

A vontade/é um pecado/bem coado.

quarta-feira, 20 de julho de 2005

Ofélia, A Mansa (Trem-Lag do C###lho).

[A soldadesca ribatejana - à paisana - aguarda o Regional para Santa Apolónia.]

- Sabes o Baixote?

- Quê, que é que tem esse c###lho?


- Vai para o Fuckistão, sabias?

- A sério?


- Olé!
- C###lho [bis]! Seis meses, a comissão daqueles gajos, não é?


- Já viste, fo##-se?! Longe da mulher, sem put##, só aquelas gajas com turbante, ó o que é, ó c###lho!
- Fo##-se!


[Momento de introspecção e envio de sms's.]


- Então e tu, pá, como é que está aquilo lá na academia?
- O Saloio tinha razão, c###lho, a Ofélia é um espectáculo! Eu pensei que não conseguia. Vê-se que ela não está habituada a fazer exteriores, 'tás a ver? Não gosta. É mais cimento, acho eu. Mas não se compara ao resto, é mansa, pá. Até tu, que tens medo, a montavas, c###lho!


- Ó meu c###lho, não te disse já que não curto os cavalos, fo##-se?!
- Ela não é um cavalo, meu animal, é uma égua!!'tou-te a dizer, ela é mansa, até tu a montavas! E ganhamos seis euros por dia, do subsídio de lavagem... mas eu gosto, não monto pelo dinheiro.

51

"Cada dia és real como não eras,
e erras também, em outra fantasia;
o corpo que puseste não tem nada
da milagrosa carne em que te via.
Como gente banal é que te quero
no retrato inaugural da escola,
que as gerações futuras possam ter
por divertido talismã antigo.
Se te magoas, com saliva colo
o intervalo mental de que te queixas,
e sirvo vagos doces de canela
à lembrança que deixas nos sentidos;
ainda um dia terás o rosto humano,
que te possa beijar sem ser ferido."

António Franco Alexandre, "Duende", 2002.

terça-feira, 19 de julho de 2005

Six Feet Under Noters

I. Untitled Closure
Resisti, como em todas as semanas anteriores, a ler a sinopse oferecida pela página da série; antecipei alguns momentos, mas surpreendi-me com este último episódio do Alan Ball. Sobrou-me sobretudo o luto de quem não perdoa, e o de quem quer saber. O do Russel, que não quer perdoar a Claire; o do David, que quer saber por que quase morreu; a da Vanessa, que não consegue perdoar o Rico; o do George, que quer saber como não morrer. E o do Nate, que não se perdoa não saber.


II. Best Of
Acabou-se a quarta temporada, que durante algum tempo não se soube se era a última; há coisa de um mês e meio a HBO lá se descoseu com mais uma, que já leva meia dúzia de capítulos, nos EUA. Não interessa se esta que acabámos de ver foi a melhor, porque foi bastante boa: fica como prova de que a ficção para televisão não tem de ser um grande cocó, pode mesmo ter momentos excelentes como estes:

1. A Claire a olhar as fotos da Nan Goldin, frustrada, a matutar no que raio será "pensar fora da caixa";

2. O David e a Ruth à mesa persa, a improvisarem uma ida a dois à missa dominical;

3. Os dez segundos de suspensão do confronto entre a Brenda, o Joe e o Nate, por respeito à Maya, a dormir no quarto ao lado.


III. Six Feet Under Notes
Este post é dedicado à Carla (mãe da ideia), do Bomba Inteligente, ao Luís, do Miniscente, e ao Luís (pai da ideia), do Montanha Mágica - links ao lado, na Carreira Interurbana (é também dedicado à Batukada, do Mood Swing, à Polly, do Ditomia, e à Sara, do Tempus Perdidus - vide Frescos 1 & 2 ou Apdeites). Gostei mesmo desta nossa sessão contínua de leitura; lembrei-me dela aquando da abertura da exposição da Claire - uma mão cheia de convidados (a um canto, à mesa, frente às imagens)não resistiu a julgar, opinar e conversar sobre o que ali via. Um abraço a todos.

A Quarta Ou Quinta Olaia A Contar Da Entrada

Não conseguem estar sentados porque não conseguem falar, já tentaram. Têm quinze ou dezasseis anos e estão sem saber que fazer a seguir. É hora de almoço, está calor, estou eu e outra gente na esplanada, há miúdos no parque, jardineiros na rega. Nem reparam. Decidem entalhar os nomes na quarta ou quinta olaia a contar da entrada, linda e velha. Ela escolhe esculpir a sua assinatura a quase dois metros do chão, desequilibra-se ligeiramente nas raízes e deixa que ele a ampare com o corpo de encontro à árvore. Enquanto ela escreve, ele segura-a pela cintura, ou um pouco acima. Deixam-se estar assim por um minuto. Ele talha a seguir. Assina, remata um coração, dá-lhe o pudor e o desejo e a mão.

segunda-feira, 18 de julho de 2005

Cruz, Manuel

1. Músico (Vide Ornatos Violeta, Pluto, Super Nada, Foge Foge Bandido, ...). 2.Letrista (Vide "Lustro", dos Clã, et.al.). 3. Desenhador (Vide "Stad" bd colectiva, ed. A Língua).

Assim de repente (e ainda SEM LINKS) é o que se arranja, Afonso. Quer dizer, há mais: o rapaz anda pela MTV Portugal - em tronco nu e com o sotaque todo - a convite dos Da Weasel, no "Casa (Vem Fazer de Conta)".

domingo, 17 de julho de 2005

Groupieday

Rapariga que é rapariga, suspira à voz do Manuel Cruz.

sábado, 16 de julho de 2005

Vida De Verão

Andar. Sem botas, sem sapatos, sem chinelos.

Reminiscer

O Miniscente [link ali em baixo, à direita] fez dois anos. Daqui envio sinceros parabéns. Se houvesse direito a posts pedidos, eu votaria em mais um folhetim.

sexta-feira, 15 de julho de 2005

Deus Ex Máquinas

I Acto
[Qualquer local, qualquer hora. Cláudia mói Amigos com a lenga-lenga do costume]

C - Aaaiii, nhemnhem, emagreci, engordei, emagreci, ai, nhemnhem, tenho um pneu, ai, nhemnhem, a celulite, ai, nhemnhem, dói-me as costas, é o portátil, nhemnnhheemm.

A - ...zzz


II Acto
[Deus trabalha.]

D - *


III Acto
[7:20H. Cláudia sai à rua. A cinco metros da porta de sua casa nasceu um ginásio.]

C - Ai...

Questões Verdadeiramente Fracturantes

Sou especista e não tenho vergonha. Prefiro as pessoas à restante Criação.

Novo

Com o passar dos anos, o impulso e as oportunidades de trazer alguém para a nossa vida gastam-se. Alegro-me tanto, a cada vez que dou por um amigo novo.

quinta-feira, 14 de julho de 2005

Bleu

Prova. Tens querer no que te prende.

Blanc

Ouve. Descobre outra língua.

Rouge

Toca. Não te atoles em ti.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam (Panne&Co.)

O colete reflector abraçado ao(s) banco(s) da frente é um upgrade da figa a baloiçar no espelho retrovisor?

FAQ'S

Suburbia, 13 de Julho de 2005


A/C Direcção de Informação da RTP

Assunto - Serviço Público/FAQ's/Como Disse?

Exmos. Senhores,

No acompanhamento jornalístico das investigações criminais aos ataques terroristas perpetrados em Londres, no passado 07/07, verifiquei que V.Exªs têm insistido em definir os cabr...suspeitos dos mesmos como "britânicos de origem muçulmana". Com vista à máxima precisão informativa, devo passar a referir-me às minhas primas de Toulouse como "francesas de origem católica"?


De V.Exªs
Att.mte.
Ana Cláudia Vicente

terça-feira, 12 de julho de 2005

i go to this window

"i go to this window

just as day dissolves
when it is twilight(and
looking up in fear

i see the new moon
thinner than a hair)

making me feel
how myself has been coarse and dull
compared with you, silently who are
and cling
to my mind always

But now she sharpens and becomes crisper
until i smile with knowing
-and all about
herself

the sprouting largest final air

plunges
inward with hurled
downward thousands of enormous dreams"

e.e.cummings, Is 5, 1926.

"Am I Job, Or Something?"

"A Vida do homem sobre a terra é uma guerra, e os seus dias são como os dias de um jornaleiro.
Assim como o escravo deseja a sombra, e como o jornaleiro espera pelo fim do seu trabalho
Assim, também, eu tive meses vazios, e noites trabalhosas contei para mim."
Job,7,1-3.

Não, não és. Job, homem recto, abastado e feliz, teve o azar de ser objecto de uma contenda entre Satanás e o Senhor. Tu escolhes, Nate. Uma vez, duas, três, e o único azar que tens é o de todas as tuas escolhas te ferirem de ricochete. Tu também escolhes, Claire, escolhes negar a co-autoria do teu trabalho com o Russel, provavelmente para o castigares pela co-autoria de uma vida que acabou antes de começar.

Adenda: A malta de 2ª que me desculpe o autismo; deste...286...não sai um linquezinho que se aproveite.

Godville

Os lugares santos são os mais difíceis. Concentram angústia, euforia, poder e muita mas muita gente, movida por tudo e por nada. Não há maior prova para o crente que uma profissão de fé sentida no meio de tão chã humanidade.

Ana Lógica

Só respondo por este nome, até ter máquina nova. Postarei entretanto de uma espécie de ZX Spectrum, em ligação de banda estreita.

Também aceito ser chamada Ana Crónica.

segunda-feira, 11 de julho de 2005

Poptugueses II

"Está na hora de ouvires o teu pai
Puxa para ti essa cadeira
Cada qual é que escolhe aonde vai
Hora-a-hora e durante a vida inteira

Podes ter uma luta que é só tua
Ou então ir e vir com as marés
Se perderes a direcção da Lua
Olha a sombra que tens colada aos pés

Estou cansado. Aceita o testemunho
Não tenho o teu caminho pra escrever
Tens de ser tu, com o teu próprio punho
Era isto o que te queria dizer

Sou uma metade do que era
Com mais outro tanto de cidade
Vou-me embora que o coração não espera
À procura da mais velha metade"


João Monge(letra), Jorge Palma (voz), João Gil (guitarra acústica),
Senta-te Aí
,"Rio Grande",Emi-Valentim de Carvalho, 1996.

Ersatz

Olha-o e regista uma mesma expressão arrapazada, quase infantil. Lembra os seus modelos à escala, feitos com bastante perfeição e a toque de pasta de alfarroba. Era o único que comia com gosto aquelas barras de sucedâneo de chocolate ainda tão em voga nos primeiros anos de CEE. Olha-o mais. Pergunta-se se ele terá conseguido o que queria, se se terá acomodado, se se inquietará. Olha-o e não consegue decifrar nada. Isto perturba-a.

domingo, 10 de julho de 2005

Aquipnose

O lado de dentro de um mergulho.

quinta-feira, 7 de julho de 2005

Tempo omnívoro,
podias iludir devagar
como antes de agora?

O Poder Da Antecipação

Ainda não se sabe muito sobre mais este ataque ao nosso mundo. O que é totalmente admirável nos britânicos é o seu poder de antecipação. Estavam preparados para o inevitável: é aceder a qualquer dos media e perceber as diferenças com os casos anteriores. A luta política e militar contra o terrorismo só vai ter algum sucesso se contar, como neste caso, com o extremo civismo e presença de espírito dos cidadãos atacados, com preparação e eficácia das forças de segurança e saúde, com o evidente controlo das imagens e testemunhos que passam cá para fora. Há ali vides de boa cepa, a dos sobreviventes ao blitz.

quarta-feira, 6 de julho de 2005

Trem-Lag XI

[Em cima da Azambuja. Um par de velhotas viajeiras espreita pela porta de comunicação com a carruagem seguinte.]

- Estás a ver? Esta também não tem saída!

- Pois não, e agora?


[Entre a Damaia e a Reboleia. Duas dreads trocam cromos sobre cesarianas.]

- E que nome é que lhe deram?

- Luna. Ficou Luna Bianca, mas eu queria Luna Jasmim.


Nessa Epocha Era Bem Diferente XIV [sic]

[manuscrito não assinado, anexo a um ofício do Administrador de Tomar ao Governador Civil de Santarém, em defesa de 4 indivíduos presos à ordem do Tribunal de Execuções Fiscais do Corpo Administrativo do Concelho]

Thomar – 8-5-1935

Ao Exmo. Senhôr

Governador Sevil

do Distrito de Santarem

qual nóvamente Repitimos a pedir aucilio Sua Ex.ª que encontronce presos nos calabôssos de Thomar quatro edevidonz Relativo ao inposto de Trabalho qual o Senhor governadôr dentro do seu Corão e dentro da sua consciencia e ponha as mãos na consciência elle cheios de filhos elles cheios de fome elles cheios de meseria elles querem matar o côrpo e não tem a onde são couzas que se podem provar.

Vossa Ex.ª a Ser Governador sendo couzas que estão na sua mão de vina ter dó da miseria para meseria basta a fome que os esta a atravoçar os desgraçados que por não ter posses a que deicharam chigar isto a estes pontos

Porem que se é Governador deve ser Governo o manter ordem não o acuzadôr da mizeria e infilicidade e desgraça dos pobres infelizes pobres não basta as contriboições do Estado quanto maes estas estraurdenarias esses que andam e querem comer a bôa vida a que fazem estas imporções toudas

por este meio queirasse comdoer e valer aquelles que lá estão se não o povo toudo desta terra que esta sobojugado a misseria

queira vossa Ex.ª tomar informações com S.or Adeministrador do Concelho da Barquinha que é S.nor António Marques Agostinho Que ele nassido e criado nosso logar de natureza quonhesse pode dar emforme;-

por este meio o culpado de nóz com estes recrimentos foi S.r Francisco Salema Vise Presidente da Câmara de Thomar elle que emcinou a fazer o primeiro e aque fez a norma e agora emcontrasse de emcontro a nóz;

V.ª Exª fassa-nos o que pôder que a gente a miseria nos obriga a pedir;-"

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 2ª Secção, (1935), vol. 2, Anexo ao Ofício Nº349.

Aquipnose

Na mesa do costume o café costume, os pardais. Dei por isso devagar. Primeiro à direita, depois mais perto, a seguir à esquerda, por fim mais longe. Quatro aspersores em cânone perfeito.Há paz na água, há um tom que amola à liquidez.

terça-feira, 5 de julho de 2005

Efeito Secundário

Boa pergunta, a do Aviz. Talvez porque os globalmente benignos movimentos de secularização, desmilitarização e despolitização do Ocidente tenham surtido um efeitozito secundário: todas as instituições com mais de duzentos anos estão soterradas por umas quantas camadas de sarcasmo, cepticismo e cinismo. Honestamente, domina ou não domina, o estereótipo apatetante (os padres dormem e comem, os militares berram e são broncos, os políticos são obesos e corruptos)? Actos de resistência, coragem ou sageza vindos desses lados são frequentemente considerados improváveis, senão fabricados. Logo, despiciendos.

Das duas uma: ou já não há heróis, ou nos recusamos a acreditar neles.

Impossibility, like Wine

"Impossibility, like Wine
Exhilarates the Man
Who tastes it; Possibility
Is flavourless - Combine

A Chance's faintest Tincture
And in the former Dram
Enchantment makes ingredient
As certainly as Doom -"
Emily Dickinson, Complete Poems of Emily Dickinson, (ed.)1955.

segunda-feira, 4 de julho de 2005

"You Are My Favourite Person!"

, disse o petroleiro-George à Ruth, com a alma à mostra por um momento. É tão difícil mudar, quase tanto quanto fazer os outros crer que mudámos mesmo, lê-se na Brenda e no Nate. É tão difícil não mudar, não se ser violento depois de se ter sido violentado, lê-se no David e no Keith. E siga a banda.

P.S. Os Mortinhos é muito bem caçado, LC. Eu patenteava.

P.P.S.(06/07/05) Reparei na frase, mas não reparei no erro ortográfico com que a deixei no título, Charlotte; ainda bem a escreveste como deve ser no Bomba. Por aqui já a corrigi.

Queluz, Ponte Pedrinha

Aproximávamo-nos dos arcos e ela procurava um lugar para estacionar perto do mercado, na ponte Pedrinha. Comprava atacadores, porcelanas, cotoveleiras, aguarrás e outras coisas que já não compra, entre a Rua D. Maria I e a David Peres.

Dentro e Fora (Ou, Ainda A Auto-Biografia De Hobsbawm)

Ainda bem que não sou marxista, nem sequer da escola Groucho. Se fosse, não haveria Kompensan que me salvasse depois de ler isto. Décadas de empenho pessoal na luta comunista redundam, para o autor, num inequívoco balanço:

"Hoje o comunismo morreu. A URSS e a maior parte dos estados e sociedades construídos segundo o seu modelo, filhos da Revolução de Outubro de 1917, que foi a nossa fonte de inspiração, conheceram uma derrocada completa, deixando atrás de si uma paisagem de ruína económica e moral, de tal maneira que se torna agora evidente que o fracasso se encontrava desde o início inscrito no empreendimento."
(Idem, Ibidem, p.173.)

domingo, 3 de julho de 2005

Vamos A La Playa

mergulhar, ler, ouvir música, comer um gelado, dar parabéns.

Longe

Sou da classe média. Sou-o não porque os que me antecederam tenham perdido riqueza, mas porque conseguiram sair da pobreza. Assim foi com grosso das famílias do nosso país. Até à segunda metade do século passado, ou se tinha, ou não se tinha - o meio-termo era residual. Que fazia quem não tinha? Resignava-se, ou procurava melhor vida longe. Não conseguimos imaginar o que representava partir, a não ser que ouçamos bem alguém com mais de sessenta anos: houve os que foram deserdados por castigo,houve os que morreram de saudades, houve os que inventaram noutros continentes aldeias que deixaram de existir. A terra estava profundamente enraízada na identidade de cada um,ainda se penalizavam certos crimes com desterro há umas quantas décadas. Na minha família, há pelo menos cinco gerações que se parte para longe. Para uma vida melhor. Quem fica aguarda o regresso de quem vai. Com amor, com lembrança.

sexta-feira, 1 de julho de 2005

Vidas Interessantes

Já andava a catrapiscar o livro há uns dias; depois de ler este post do Eduardo Pitta comprei-o. Gosto de uma boa biografia, mas os auto-exercícios do género apresentam-se-me, regra geral, muito sentimentais, omissos e auto-justificativos. Não é o caso do de Eric Hobsbawm: quem quer que leia Tempos Interessantes. Uma Vida no Século XX (Campo das Letras, 2005) não pode deixar de reconhecer uma atípica capacidade de distrinça entre a fé política e o balanço dos seus resultados, entre a identificação das motivações emocionais da acção e a racionalização a posteriori das mesmas, entre a relevante medida da participação política, académica, social e a irrelevante exposição dos pormenores da vida íntima. Particulamente importante é, parece-me, o facto de Hobsbawm laborar com base na (não tão óbvia e aceite como se possa pensar) noção do devir da vida humana como coisa cumulativa, mais que eliminatória. Sem ela, e sem um minucioso exercício de abstracção e honestidade, como enfrentarmos quem éramos há vinte, quarenta, sessenta anos atrás?
A quem recentemente se iniciou no ofício da História, o decano oferece um heads up:
"As pressões políticas que a história sofre por parte dos Estados e dos regimes novos e antigos, dos grupos identitários e de forças durante muito tempo escondidas sob a camada de gelo da guerra fria, são ainda maiores que as que conheci ao longo da minha vida, e a moderna sociedade mediática conferiu ao passado um destaque e um potencial mercantil sem precedentes. A história está a ser revista ou inventada, hoje mais que nunca, por pessoas que não desejam a verdade do passado, mas apenas um passado que se adeque aos seus objectivos. A época actual é a grande época da mitologia histórica. A defesa da história pelos seus profissionais é hoje, politicamente, mais urgente que nunca. Somos necessários."
(cf. p.389)