a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

sexta-feira, 29 de abril de 2005

Crítica de Arte

[Quatro Caminhos errou. A estátua em causa foi inaugurada em 1932.]

Exmº. Snr. Governador Civil do Distrito de

Santarem

Tendo sido esta comissão encarregada pelo antigo Governador Civil do Distrito o Exmº. Snr. Coronel do Estado Maior Anibal Ramos de Miranda de levar a efeito a construção d’um monumento aos mortos da Grande Guerra do concelho de Santarem, tem lutado esta comissão desde o inicio com dificuldades de toda a ordem, as quais felizmente poderam[sic] ser vencidas com o auxilio do Exmº. Snr. Cap. Valente de Carvalho, quando governador civil do Distrito, o qual conseguiu que fôsse publicado em Decreto a concessão de 900 kgs de bronze e a fundição no Arsenal do Exercito da figura para o mesmo monumento.

Terminada a maquete e enviada ao Arsenal não poude[sic] desde logo, devido a outros trabalhos, ser iniciada a fundição da figura, ficamdo[sic] esta comissão muito admirada com o boato que começou correndo de que não era iniciada a fundição porque a maquete “tinha um pé torto”.

Efectivamente quando o antigo director do Arsenal do Exercito, o Exmº. Snr. Coronel Gonzaga veio a esta cidade com Sua Exª. o Presidente da Republica, confirmou-nos que os trabalhos não eram iniciados pelo motivo indicado. Foi-lhe por nós manifestada a nossa estranheza por o Arsenal alegar tal motivo que em nosso modesto entender era unicamente da competencia do ilustre escultor, o Exmº. Snr. Anjos Teixeira que, por ser dos escultores mais considerados pela sua obra, nos abstemos de exaltar. No entanto foi o mesmo escultor ao Arsenal onde verificou nada ter acontecido de anormal á[sic] maquete, ficando nós convencidos que a Direcção do Arsenal por isso se limitaria a mandar dar cumprimento ao Decreto citado.

Não aconteceu infelizmente assim, sendo depois industrialisada a respectiva fabrica sem que os trabalhos da fundição tivessem inicio.

Estamos pois em face d’uma estranha situação que nos foi creada; em face d’um Decreto que nos concedeu o bronze e mandou fundir a figura, decreto este que parece, há hoje dificuldades em cumprir devido ao novo Regímen da Fabrica de Braço de Prata.

Não podemos deixar de consignar que, segundo o Snr. Coronel Gonzaga nos informou o mestre da fundição da mesma fabrica é que notara o pé torto na maquete permitindo-se desta forma criticar a obra d’um dos nossos melhores escultores, opinião que parece ter sido perfilhada pela antiga Direcção do Arsenal do Exercito pois não mandou dar inicio ao trabalhos.

Acresce que esta comissão não está habilitada a custear as despezas com a aquisição do bronze e da fundição da figura do que nesta data dá conhecimento ao Exmº. Snr. Director d’aquela Fabrica.

E por isso vem apresentar a V.Exª. estes estranhos factos pedindo-vos vos digneis auxiliarnos com a vossa boa vontada[sic], no esclarecimento de tão estranha situação e possivelmente na sua solução

Saude[sic]

Saude e Fraternidade

Santarem, 9 de Agosto de 1929

A Comissão

Raul [apelido ilegível] Baptista

[primeiro nome ilegível] de Castro Guimarães

Joaquim [apelido ilegível] da Cunha Mattos


* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1929), vol. 4., Cópia do Ofício Nº 992.

quinta-feira, 28 de abril de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam XI

Formulários. Não é só que me apoquentem, fazem-me mesmo dores de barriga. Sobretudo aqueles com leitura óptica, onde não pode haver um vinco, uma rasura. Tem de ser a perfeição, ou o lixo.

TPC

O bicho-da-seda pôs-me num pack tão porreiro de miúdas que não me ocorreria não responder ao questionário-circular.

1. Não podendo sair do Fahrennheit 451, que livro quererias ser?
Resposta honesta: Uma versão incombustível da minha melhor obra. Que um dia há-de vir.
Resposta correcta: Uma versão incombustível d’O Crime do Padre Amaro, o melhor livro do Eça [sim, li mais que um].

2. Já alguma vez ficaste perturbado com uma personagem de ficção?
Sim, já. Com o terceiro filho de Fiodor Pavlovich Karamazov, Alexei Fiodorovitch Karamazov.
Aliosha.

3. O último livro que compraste?
Caras Baratas, da Adília Lopes.

4. O último livro que leste?, e 5. Que livros estás a ler?
Em termos de cognac, o próprio Caras Baratas. Imediatamente antes dele, em prosa, O Exílio e o Reino, contos do Albert Camus, e 1, poemas do Gonçalo M. Tavares. Estou de momento a ler Poesia, antologia do Daniel Faria, e Monsignor Quixote, do Graham Greene. Em termos de trabalho, ofícios concelhios dos anos de 1929 e 1930.

6. Seis livros que levarias para uma ilha deserta?
Deserta de pessoas e de animais? Bem, nesse caso levaria dois:
AAVV, Dicionário Visual das Plantas.
AAVV, Antigo e Novo Testamento.

No espaço dos outros quatro punha um kit de sobrevivência, porque:
a)sou rapariga;
b)sou prevenida;
c)tenho amor à vida.

7. Três pessoas a quem vais passar este testemunho e porquê?
Ao azucrim, ao viajante e à defensora dos animais. Porque um vai uma resposta a gozar, outro a sério, e o outro, se bem calhar, nem dá resposta nenhuma. A ordem é mistério.

E se não me esqueci de nada, tenho dito.

Bollywood

Acordei com uma enorme borbulha na testa. Só saio à rua se alguém me emprestar um sari.

Wee Hours

Moer o chão, como D. João, assim em círculos.

Anteontem A Hoje

Não sei como pode ser. Na outra noite tive frio. Contra a maré vazante, lutei por regressar à margem pelo pontão que se esboroava debaixo dos meus pés. Ontem, ensopada em calor, atravessei a correr o canavial fronteiro a uma baía verde, até me aproximar da água. Não percebo de onde me sai o mar.

Aforismos III

Só lembra quem ouviu.


Trem-Lag IX

Ora a campina, ora o meu reflexo contra ela. Dores nas costas, nos ombros, no pescoço. Pela linha fora fecho os olhos, e só os abro já perto do Oriente. Levanto-me devagar para o transbordo, alço a mochila e vejo que veio o caminho todo à minha frente. Ignora-me, enfia o livro no bolso de trás e passa as duas mãos pelo cabelo, que não agradece. Levanta-se, segue até à porta e pendura o cigarro na boca. Acende-o com um esgar, ao apito da porta. Muito magro, muito amarrotado, Dean Moriarty desce a correr, primeiro que todos.

quarta-feira, 27 de abril de 2005

West Country Girl

With a crooked smile
And a heart-shaped face
Comes from the West country
Where the birds sing bass
She's got a house-big heart
Where we all live
and plead and counsel and forgive
Her widow's peak , her lips I've kissed
Her glove of bones at her wrist
That I have held in my hand
Her Spanish fly and her monkey gland
Her Godly body and its fourteen stations
That I have embraced, her palpitations
Her unborn baby crying, "Mummy"
Amongst the rubble of her body
Her lovely lidded eyes I've sipped
Her fingernails, all pink and chipped
Her accent wich I'm told is "broad"
That I have heard and has been poured
Into my human heart and filled me
With love, up to the brim, and killed me
And rebuilt me back anew
With something to look forward to
Well, who could ask much more than that?
West Country girl with a big fat cat
That looks into her eyes of green
And meows, "He loves you", then meows again

NickCave & The Bad Seeds, The Boatman's Call, Mute Records, 1997.

terça-feira, 26 de abril de 2005

A Pioneira

Enquanto não me chego à frente para cumprir o devido, nada como prosa de mulher sem medo. Cá vai alho:

"Boas

Estou, neste momento, a reunir os meus textos em prosa num volume que se vai chamar “Prosas rosas” e que será publicado pelo Vítor Silva Tavares, o editor da casa & etc. Isto, se o Vítor Silva Tavares gostar do que ler, se eu não mudar de ideias e se Deus quiser. Não dou esta notícia com o intuito de vos levar, à má fé, a comprar o meu livro e aumentar assim a minha conta bancária. Escrever e publicar é o meu trabalho e é, para mim, uma questão de seriedade e de generosidade. Esforço-me por dizer coisas simples e complexas em frases gramaticais e poéticas. Isto não é blasfémia nenhuma, mas a multiplicação dos meus textos é para mim uma multiplicação de pães e de peixes. Tenho uma maneira aparentemente não muito católica, não muito ortodoxa, de ser cristã. Mas, contra ventos e marés, contra mim mesma, sei e sinto que sou cristã (cristã e católica). E que ser cristã é o meu fundamento (o alicerce, a raiz, o cerne).

Desconfio dos textos bonitos, dos textos boneco. O “Novo Testamento” é, para mim, um feixe de textos necessários, urgentes, capitais, radicais, rasos. Leiam, se não acreditam, o Evangelho segundo S. Marcos. Leiam também o magnífico conto de Jorge Luís Borges “O Evangelho segundo S. Marcos”, incluído no livro de contos “O relatório de Brodie” (título original “El informe de Brodie”). Vale a pena ler este texto de Borges no original, em espanhol. Leiam também esse texto-chave, capital para a compreensão de Fernando Pessoa, o poema do heterónimo Álvaro de Campos, cujo primeiro verso é “Ali não havia electricidade”. Neste poema, electricidade rima com caridade. Podem encontrar este poema no livro “Poemas de Álvaro de Campos”, Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1992 (edição de Cleonice Berardinelli).

O texto que vão ler a seguir foi escrito por mim a pedido da pintora Amélia Assis. Este meu texto foi policopiado e distribuído na Livraria Ler Devagar (esta livraria fica em Lisboa, no Bairro Alto, na Rua de S. Boaventura 115-119). Como quase todos os meus textos em prosa é um mosaico. Preocupa-me ser precisa, exacta, falar verdade e estar viva.

A Amélia Assis nasceu em Lisboa em 1955. Trabalhou como assistente de bordo, trabalho que abandonou por razões de saúde. Frequentou cursos de pintura na escola ARCO e na Syracuse University em Nova York. Colaborou, como aderecista, na peça “A mulher das tristíssimas figuras”do Grupo de Teatro Joana. A exposição na Livraria Ler Devagar, em 2001, chamou-se “My name is woman”.

******

Não, as mulheres não são boas. Essas grossas serpentes da América do Sul. Esses grossos compridos farfalhudos cachecóis. Paris troca de roupa. Escrevo este texto para a Amélia Assis usar na exposição dela na Livraria Ler Devagar em troca do quadro dela chamado “barbie buço brinco” que conto usar em minha casa.

*

A doce carícia de F. transforma-se em agressão depois da carta maldosa de F. O passado é feito pelo presente. E todo o presente está envenenado. E todo o veneno é remédio, é contra-veneno. A carta maldosa de F. é anulada pela posterior carta doce de F. A doce carícia de F. é a doce carícia de F. outra vez. Até quando? Atrás do presente (à frente) há mais presente. Sempre. Sempre. O fel é mel para Jesus na cruz. O mel é fel para a freira gorda que come mel demais, colheres atrás de colheres, e assim peca por gula e engorda. Espelho meu. Não consigo fazer dieta.

*

Ladies first: Julieta e Romeu, Isolda e Tristão, Hermenêutica e Mal-estar, Virgínia e Paulo. Eva e Eva. Nunca fui boa aluna a Inglês. Mas o Inglês tem coisas maravilhosas, claro, tão maravilhosas como o Francês em que o mar (la mer) e a mãe (la mère) se dizem da mesma maneira. Em Inglês, o mundo (world) e a palavra (word) distinguem-se, escritos, por uma única letra. Deus (God) é um anagrama de cão (dog). J. L. Borges pode resumir-se nisto. Uma capicua ao espelho. O W inicial é feminino. Woman (mulher), Wife( mulher, no sentido de esposa), Water (água), Warm (quente), Wool (lã), Wood (madeira)Womb (útero), Woo (pedir em casamento), Wedding (casamento), Witch (bruxa)… A Amélia Assis usa o O (de osga, de ovo, de ovário, de orgasmo, de Oh!, de ó-ó, de zero). E usa a silhueta da mulher dos anos 60 (a mulher de saias, o símbolo do sexo feminino para o WC público). É a hospedeira, o tailleur Chanel, Jackie Kennedy. A capa dos blocos de papel de avião que a minha avó Zé usava para escrever cartas à Prima Regina do Brasil tinha uma hospedeira assim.

*

À ida para o atelier da Amélia Assis, algures em Agosto ou Julho, vejo uma ratazana esborrachada, calcada, passada a ferro por sucessivos carros. Vejo que é uma ratazana e não um gato por causa da cauda. Ao voltar do Atelier da Amélia Assis, dia 11 de Setembro, pelas 14h30, enquanto dois aviões furavam o World Trade Center, em Nova York, vejo uma osga esborrachada, espalmada, (e as osgas, por natureza, já são espalmadas), enfarinhada pelo pó do chão, da rua, como um croquete pronto para ser frito. Ratazana e osga faziam a sua vidinha nas ruas torcidas, retorcidas, de ferro forjado, da velha Lisboa. E a cidade de lata, de teatro, outonece. Mas isto já são Belas Letras.

*

O Príncipe dá um beijo tão forte na boca da Bela Adormecida que lhe arranca um bocado da boca. A Bela Adormecida fica tão contente por ser acordada pelo Príncipe que lhe dá um abraço tão apertado que o estrangula e se estrangula.

A Branca de Neve, a Bela Adormecida e a Gata Borralheira tomam as três juntas banho na mesma tina de zinco cheia de água morna e sais de banho. Estranho banho, dirão. Ainda mais estranho se pensarem que as três vão ficar lá até derreterem completamente como três cubos de açúcar em café ou chá."

Adília Lopes, PÚBLICO, 7 de Abril de 2002 [in Arlindo Correia]

Massamá, Rua Direita

Eu não sei como foi, nasci depois. Vivendas, eiras, um chafariz e muitos passos a pé até à vila mais próxima. Outros tempos, outros moradores.

Queluz, Avenida Elias Garcia

Acaba de passar o 163, e tu não correste o suficiente. Esperarás pelo menos meia-hora, olhando para uma montra de fatos e gravatas. Pensas que perdeste um amigo, mas quatro anos depois tudo se esclarecerá. Relembras a linha da folha A5 de um outro, que desistiu de ti escrevendo

Assim, mudo-me para o outro lado da paragem.

segunda-feira, 25 de abril de 2005

O Que É Que Se Diz?

A Grande Lisboa Não É Lá Muito Grande

Se esta famosa experiência tivesse sido proposta e testada por um cientista de cá, chamar-se-ia, na mais cautelosa das hipóteses, Três Graus de Separação. É que é quase impossível querer saber mais de determinada pessoa, telefonando a um amigo ou a um primo nosso que frequenta o mesmo meio ou tem a mesma profissão, sem que este nos diga que é seu intímo, que teve problemas com ela na escola, ou que não quer falar muito disso porque já namoraram.

Cozinha Tradicional Portuguesa

Junte 12 a 15 pessoas do mesmo clã para um almoço, a pretexto de dar fim a um pato maior que um cabrito. Cozinhe o dito pato. Enquanto o forno trabalha, abra as garrafas de vinho, salte à corda com os putos e fale muito alto com quem já está duro de ouvido. Sente-se à mesa e coma como se não houvesse amanhã. Coma mais um bocadinho de bolo, só para acompanhar o café. Converse sobre coisas sem relevância para quem quer que não esteja ali. Ajude a lavar as panelas. Beba um digestivo. Brinque mais um bocadinho com os putos, depois de lhes mostar o couval e o pomar.

Não faça um ar espantado, caso o único momento incómodo se materialize numa disputa de atenção entre a cadela da senhora de 94 e o menino nascido em 2004. Faça um ar feliz.

domingo, 24 de abril de 2005

A Realidade Ultrapassa Sempre A Ficção

[O que aqui esteve escrito por umas horas dizia respeito a distúrbios de ansiedade, não a actividades ilegais, caso tenha havido alguma dúvida. Seja como for, era uma posta de escrita estúpida e impensada, pelo que decidi censurá-la.]

sábado, 23 de abril de 2005

Peixinho

Antes de descobrir, com o meu irmão e o meu primo, o póquer a feijão-manteiga (que jogávamos num quarto esvaziado por motivos de mudança, solenemente baptizado Grande Salão), o meu jogo preferido era o peixinho.

As Regras da Atracção

Um destes dias, nós, raparigas, vamos falar destas coisas com tanta descontracção quanta a dos rapazes.

sexta-feira, 22 de abril de 2005

Our Man In Shanghai

Já foi picado por mosquitos no Togo. Já andou à boleia pela Eslováquia. Já ficou sem roupa no Benim. Já mugiu vacas na Dinamarca. Que aventuras nos contará ele agora?

Menino

É tão bonito ouvir doçura e preocupação na voz de um pai, de uma mãe, de um avô, de uma tia, quando perguntam por uma criança que lhes diz respeito. Que lhes diz amor.

- E o menino, como está?

Que bonito.


Faltou-me A Luz

Diz que antigamente era assim, que se escrevia à luz das velas como as que tenho agora de usar. Venha a luz da corrente, que sem corrente que nos liberte não há blogger que nos valha, não há blog, não há post, não há dia que nos valha. Venha amanhã, que já é hoje, que ontem não valeu.

quarta-feira, 20 de abril de 2005

"Estas Muy Crescidita"

Quando alguém que respeito admoesta, em geral, e eu enfio a carapuça, em particular, fico pequenina, pequenina. Por bom tempo.

Do Trem-Lag Sobra A Rima

Não há lirismo paisagista/que resista/ao mau cheiro/de um vizinho passageiro.

Andarilha

Desde Junho passado que não sei o que é um ginásio. O bronzeado, musculado e odontobranqueado dono do estabelecimento que eu frequentava cometeu umas quantas fraudes e fechou a porta, sem aviso prévio a instrutores ou clientes. Acabou-se o pump, o step, e o yoga no meu quarteirão.

A minha modalidade agora é caminhar. Fazia melhor ao corpinho correr, é verdade, mas aproveito a hora do almoço e ando. Ando, ando, ando. E a cabeça anda também.

terça-feira, 19 de abril de 2005

Vai Ver Ao Livro

[Cântico Gradual]

"Eis aqui, bendizei agora ao Senhor, todos os servos do Senhor, os que persistis na casa do Senhor, nos átrios da casa do nosso Deus."
Salmos, 133, 1.

27 de Novembro de 1993 - A Noite Em Que Chovemos

Já algum de vocês alguma vez entrou no pavilhão d’Os Belenenses? Ah, vieste? Eu não. Ainda bem que chegámos cedo, sempre dá para ficar do meio para a frente. Continua, continua. Nunca vi uma sala tão cheia, como é que raio continua a entrar gente? Quem é que são estes da abertura? Radiohair? Radiohead? Ainda não ouvi nada deles, e vocês?

Que calor. Vêm aí, olha o Tim Booth, olha o Tim Booth!!!

Merda, que calor, já não há ar. Hã? Aquela já vai a braços. Olha, outra. Como assim, o tecto não está roto, não vês que está a pingar? Então porque é que estão a cobrir as colunas e os fios com panos? O quê? O quê, nós? Somos nós? Não acredito. Estamos a chover.

Inveja

Senhor, é possível ser Tiago Cavaco, mas em versão gaja-católica, só por 10 minutos? Não? Raios.

Bento XVI

[Se isto fosse um blog de referência]
Está aberta a votação.

Crentes de outras confissões, ateus, agnósticos e para-católicos, é favor escolher um dos três seguintes aforismos:


I. Saúda-se a patente, não o homem.

II. Saúda-se o homem, não a patente.

III. Não há saúdes para ninguém.



Católicos vanguardistas, católicos catolaicos, católicos ultramontanos e católicos integristas, é favor escolher o seguinte aforismo:

O Conclave decidiu, está decidido. Saúde a Bento XVI.

segunda-feira, 18 de abril de 2005

Ontem A Hoje

Nada de novo e sempre a mesma surpresa. A noite passada sonhei com pessoas e lugares que não conheço. Não sei como pode ser.

domingo, 17 de abril de 2005

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Cueca de Mulher

David Lynch gosta de fazer as suas próprias peças de mobília e decoração. Citando o próprio, de memória, numa entrevista que concedeu ao Expresso para aí há uns dois anos, "há ideias que só podem ser expressas em madeira". O mesmo se passa com a mais íntima das peças de roupa: ideias há que apenas se jogam na sua escolha. Um antropólogo-filósofo poderá, melhor que eu, esclarecer as implicações individuais/grupais da boa/má relação com o corpo que essas mesmas opções comportam - eu só cá estou para as descrever (e às suas compradoras).
Não é contemporânea nem ocidental [basta atentar em tribos melanésias, polinésias, subsaarianas, amazónicas]; até mil e oitocentos da presente Era, civilizações e séculos inteiros ignoraram a necessidade de uma peça específica de roupa que cobrisse as partes pudendas do ser humano. Nas classes populares europeias, o uso de uma espécie de calças por baixo de roupagens exteriores vulgarizou-se por finais do Antigo Regime; nas classes privilegiadas a coisa é mais antiga, vá-se lá saber porquê. O desenvolvimento têxtil-industrial, a urbanização e o higienismo de XIX levaram à afirmação e diversificação daquilo a que genericamente se chama, em português, a cueca [vocábulo nascido, segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, em 1712]. Até ao advento das fibras sintéticas, a dita cueca era produzida em lã, linho e algodão, e maioritariamente manufacturada pela mulher de cada casa.
No mundo feminino contemporâneo, a versão mais arcaica deste item é ainda, entre nós, designada pelo galicismo cullotte; o que é mais espantoso, ainda há por cá quem as use. A consumidoras destes calções largos de algodão não têm, por regra, menos de setenta anos, e combinam o artigo com o soutien de cós alto [calma, o capítulo O Maravilhoso Mundo Da Roupa Interior - Soutiens não tarda...], o que acaba por surtir um efeito muito semelhante ao da espectacular cinta inteira. Ao longo do século XX assistiu-se, entre outras tendências, a uma progressiva simplificação e funcionalização do vestuário: as saias longas e rodadas foram substituídas por versões mais curtas; as camisas perderam folhos; as calças foram apropriadas pelas mulheres; os cabelos passaram a dispensar chapéus. Esta simplificação (leia-se, ajustamento ao corpo e diminuição drástica de tamanho) foi acompanhada pela indústria da roupa interior: no caso, da cullotte para a cueca alta (mais conhecida por "cueca de gola alta", igual à cullotte, mas sem meia-perna) da cueca alta para o bikini (cuja cintura fica abaixo do umbigo), do bikini para a tanga (também conhecida por "asa delta", que descobre parcialmente os quadris e glúteos), da tanga para o fio dental (um pedacito de pano e dois fios do mesmo tecido, necessariamente elásticos).
Sei de fonte segura que, no momento, as versões mais vendáveis são o bikini de algodão branco e o fio dental em lycra ultra-colorida, ultra-transparente, independentemente da idade da compradora. Estamos, é evidente, perante duas mundividências completamente antagónicas por parte do mulherio luso - absoluto conforto vs. absoluta sensualidade.

P. S.: Para o Ricardo Gross, a propósto do seu post de outro dia. Caso seja o único habitante de Lisboa que ainda não tenha ouvido esta história (que os meus amigos larga e repetidamente se encarregaram de propagar), fique sabendo que há quem bata aos pontos a incapacidade de distinguir fio dental de fio dentário. Aconteceu-me ter de atender, há coisa de um ano, uma jovem mulher em busca de uma cueca num tom específico de cor-de-rosa. O diálogo foi curto:

- E qual era o formato que desejava: tanga, bikini?

- Não, não
- esclareceu ela -, queria cueca de fio anal.

Com a sua lendária tarimba, teve a minha patroa/mãe de a atender. Eu fugi para a casa de banho com mais um inoportuno ataque de riso convulso.

Ironia

Ter um sorriso que não é perfeito.

Ouvir

- Tens um sorriso bonito.

e saber que não é perfeito. Três aparelhos móveis. Dois aparelhos fixos. E não é perfeito.

sábado, 16 de abril de 2005

Queluz, Avenida da República

O homem, frágil, conta a vila debaixo da cidade. Ouço-o; há vila outra vez, e ele é a vila. Nomes, lojas, roupas, actos anteriores. Toda uma geografia pelos olhos, mais que pela voz. Muito devagar, retornamos a agora.

sexta-feira, 15 de abril de 2005

Poptugueses I

Sou um gadjo até bem branco

Sem vergonha de o ser

Sou um carro que quando arranco

Só pára para alguém descer

Se gostar que alguém goste de mim

Vou atrás disso até ao fim

E era Lovenita um nome cigano

Ninguém acredita Loba, meu engano

Nessa feira de virtudes

Viste-me vi-te de preto

Foras tu o meu ciúme

A sina escondida a dedo

Se há raça a tua é mais antiga

A moda passa ficou uma amiga

E era só bonita

Só lhe causei dano

Foi expulsa aflita ela e o seu rebanho

E era Lovenita um nome cigano

Queria dizer lobita

Ninguém acredita Loba, meu engano

E era Lovenita um nome cigano

Ninguém acredita Loba, meu engano

Rui Reininho; Toli César Machado, Lovenita. Sob Escuta, Emi-Valentim de Carvalho, 1994 .


E se um dia o Rui Reininho nos falta, quem é que nos diz coisas desta maneira torta? Ai.

Nessa Epocha Era Bem Diferente X (Ou, Ainda A Grande Guerra)

Serviço da Republica

Mação, 6 de Outubro de 1928

Exº. Senhor Governador Civil do Distrito de

Santarem

Venho rogar a V. Ex. se digne informar-me se se pode ou não contar com a entrada, no hospital de alienados, do soldado condutor nº 6 do Regimento de Artilharia Ligeira nº4 – Albino Alves, filho de Joaquim Alves e de Maria Marques, natural de Vale da Mina, freguesia de Envendos, dêste concelho.

O referido soldado, como já tive ocasião de informar V. Exª. em meu oficio nº 295 de 25 de Abril ultimo, encontra-se ha mêses[sic] aqui detido por sofrer de alienação mental,o qual tenho receio de mandar pôr em liberdade por as vezes se tornar agressivo e ter a monomania de querer matar o[nome ilegível], o que tentou já por mais de uma vêz.

Como se trata dum soldado que fes[sic] parte do Corpo Expedicionario Portuguez por ocasião da Grande Guerra, lembrei-me que talvez por intermédio do Ministerio da Guerra se pudesse consiguir[sic] que êle[sic] fosse internado no hospital.

Fico aguardando a resposta de V. Exª. que se não fôr favorável, e como não posso ter indefinidamente aqui detido o mesmo soldado, ver-me-hei na dura necessidade de o mandar pôr em liberdade, o que póde[sic] dar lugar a uma tragédia, o que eu muito desejaria evitar.

Saude e Fraternidade

O Adm.or do Concelho,

Luiz Melo

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 2ª Secção, (1928), vol. 4., Cópia do Ofício Nº 1135.

Coisas Que Só A Mim Apoquentam X

A hipótese de, um belo dia, a deliciosa e completamente antiquada versão mass market dos Achilles Brito desaparecer do supermercado onde me avio. Convicta republicana, até à variedade Musgo Real [“o aroma preferido pela aristocracia desde 1887"] tenho apego.

quinta-feira, 14 de abril de 2005

Ainda tenho a barriga demasiado cheia para conseguir escrever, mas - antes que me esqueça e aproveitando a euforia - aqui vai um sonoro voto para a Ms. V. Webb: HAPPY BIRTHDAY!

Nesse Dia Soube Que Já Não Era Pequena I

19:00 h. Sábado Gordo. Não sei verdadeiramente quanto tempo demoraremos a chegar lá abaixo, ao Castelo da Lousã. Pela primeira vez em anos, numa actividade bem planeada, muita coisa dá para o torto. Atrasos pela manhã; a empresa de camionagem envia-nos um motorista maçarico que não conhece o caminho e nos envolve num pequeno acidente; o transporte de fim-de-dia fornecido pela Câmara não nos aguarda no sopé da serra. Outros quatro chefes e quinze lobitos, que se provam mesmo rijos, têm ao fim de mais quarenta minutos de mata serrada as lanternas a falhar. Já levam muitos quilómetros em cima. A rede de telemóvel é fraca. Sabemos que estamos no trilho certo, mas os mais pequeninos já choramingam. Os adultos passam a levar duas mochilas cada um, as dos patas-tenras, e dão-lhes a mão. Não se vê nada. Eu toco repetidamente as duas músicas que conheço na minha harmónica. Se alguma coisa acontecer a estas almas, a culpa é toda minha.

Oeste-Sudoeste

Como sempre, quem está na aldeia não vê as casas. Habituei-me a postar, a fazer a rondazinha pelos meus links, acomodei-me a eles. Há bocado armei-me em marinheira barbuda transmontana acostada em terra estranha, estiquei as pernas, dei um giro por chão brasileiro. Até fiquei parva. O que só demonstra que sou realmente parva por ficar espantada. Para quem não conhece a blogosfera [eu acho que vou passar a dizer blogosfeira, tem mais pep] do lado de lá vou deixar nova "carreira", ali em baixo do lado direito.

É A Cultura, Estúpida! Não Percebes?

Não.

Reconheço que a expedição foi mal preparada: convidei o meu amigo cartógrafo à ultima; não fiz reconhecimento do terreno nem levei bússola; cheguei em cima da hora. Lá entrámos e sentámos nas cadeiras do rés-do-fundo, como é padrão de recém-chegados. Ia com expectativa e uma dose muito considerável de admiração pelos meus blogueiros preferidos. Já tinha lido que a Helena-Matos-directora-da-Atlântico ia ser a convidada e que haveria, como de hábito, uma espécie de painel de discussão. Sabia que a maior parte dos presentes se conhecia bem ou que estariam já adaptados ao formato, visto o evento ser mensal e não ser de ontem, e estava consciente que uma coisa é uma pessoa escrever, outra falar. Para a última, como para a primeira, é preciso disposição, que nem sempre abunda na mais brilhante das cabeças ao fim da tarde.
Depois da pouco ardilosa fuga da convidada à singela questão "a Atlântico é ou não uma revista de direita?"[mais à frente parcialmente respondida], tive o meu momento Zé-Balde: pareceu-me que se estava a encaminhar a discussão para uma questão de bastidores acerca de um obscuro acidente, mas pouco mais tarde lá atingi que se falava do Ocidente; a última fila pode ser próxima da mesa de som, mas não é próxima do som.
Seguiu-se cerca uma hora de debate...flaco..., guarnecido de um apontamento esquisito. Cada interveniente parecia estar numa frequência específica (não me refiro a afinidades ou desafectos ideológicos) e o embaraço dominou o ambiente, circunscrevendo a conversa a um conjunto (suponho que anormal) de generalidades; a somar, dois cavalheiros que - como eu - não conheciam o cânone do evento [ao Daniel Oliveira agradeço, sem nenhuma ironia, a delicadeza ilustrativa], falaram sem pedir palavra, desconcertando mais ou menos vagamente a Mesa [o menos vagamente é um exclusivo Nuno Costa Santos, pela desproporção da reacção; se ele fosse rapariga, tinha atirado lá para a frente os dois Buscopans que trazia na mala]. Tudo findou com sugestões de leitura, das quais tomei a devida nota (incluindo a extensa bibliografia papal).

Não percebi, mas se numa próxima oportunidade me deixarem entrar outra vez, pode ser que perceba. Como a minha opinião vale o que vale (o que vale, o que vale, o que vale), levarei na mala a mesma expectativa e a muito considerável dose de admiração pelos meus blogueiros preferidos.

quarta-feira, 13 de abril de 2005

O Tejo V

Até quase à Azambuja, a água luta com a terra e perde. A mal, lá vai, lá se contorce, rodeando mais um banco de areia.

Operação Georgette - Epílogo

Nas Portas do Sol foi levantada, ainda na década de vinte, uma estátua em memória dos combatentes da Grande Guerra. Olho para ela com um pouco mais de atenção que o habitual. Alguém lembra - ainda e afinal - o último dia de milhares de portugueses. Aos pés do homem de bronze encostam-se, discretos, uma coroa e dois ramos de flores.

terça-feira, 12 de abril de 2005

Se És Verdadeira Fã, Terás O Que Mereces

No mundo existem pessoas que ao lerem, ouvirem ou verem os senhores Paul Hewson, David Evans, Larry Mullen Jr. e Adam Clayton se lembram imediatamente de mim.

Crooner's Comeback

Graças ao Senhor, o Harry Connick Jr. já não canta sozinho para a população em geral. Após espasmódicos e dulcíssimos ataques de um tal Robert Williams, despontam Peter Cincottis e Michael Bublés em cada esquina. Já cá faltavam vozes à medida, em fatos da Saville Row e gravatas Vicri.

O Vento

Quase não damos pelo tempo. Contornamos o frio, o sol, a chuva, mas nunca escapamos ao vento. Há todo um tumulto na cidade, há a surpresa de ainda haver Natureza. Não há óculos, guarda-chuva ou casaco, não há cabelo, pose, saia, gravata que resistam ao vento. O vento é o meu elemento.

segunda-feira, 11 de abril de 2005

Leitura

He found a good place – a charming place, a little sofa that seamed meant only for two persons. The rooms by this time were very full; the dancers increased in number, and people stood close in front of them, turning their backs, so that Catherine and her companion seemed secluded and unobserved.

Henry James, Washington Square, 1881.

domingo, 10 de abril de 2005

Melancoólicos Anónimos

O mundo está cheio de pessoas que, por azar, se atravessam no caminho dos que necessitam viver muito e muitas vidas numa só. Rasuradas dos corações destes (os que se desfazem das próprias rugas, da própria consciência, do próprio passado) sem dó, são olhadas como inconvenientes que circulam pela rua com a roupa de quem veio ao mundo.Os melancoólicos anónimos lá sobrevivem, acreditando (por pura intuição) que é possível começar de novo.

sábado, 9 de abril de 2005

Momentum

Oh, for the sake of momentum
I've allowed my fears to get larger than life
And it´s brought me to my current agendum
Whereupon I deny fulfillment has yet to arrive

And I know life is getting shorter
I can´t bring myself to set the scene
Even when it´s approaching torture
I've got my routine

Oh, for the sake of momentum
Even though I agree with that stuff of seizing the day
But I hate to think of effort expended
All those minutes and hours I have frittered away

Aimee Mann, Momentum. Music From The Motion Picture Magnolia. Reprise Records/Time Warner, 1999.

Moer À Mó Alvar

É o que me apetece fazer a quem se dedica, pela calada, a estragar o trabalho dos outros. O Berra-Boi não foi o primeiro nem será o último a sofrer um ataque de gente recalcada.

Operação Georgette III

9 de Abril. Ao contrário da prevista integração no 11th Corps e da retirada da 1ª Divisão, o contigente português viu-se obrigado a defender a linha da frente. Iniciou-se uma disputa territorial desigual que durou por vinte dias. Os britânicos recuaram um total de sessenta quilómetros e o CEP perdeu 327 oficiais e 7098 soldados; os sãos e os feridos não-capurados pelos germânicos foram retirados da frente, e algumas das unidades remanescentes continuaram ainda em combate entre o Somme e Ypres, integradas nas fileiras do exército reino-unidense. A ofensiva do General Ferdinand von Quast cumpriu, provisoriamente, os seus intentos. Muitas centenas de portugueses morreram sob a chuva de fogo deste dia. Como eles, Eric Franklin Giles não voltaria a ver outro rio que não o Lys.
No Reino Unido assinala-se o confronto destes dias, mais precisamente a Battle of Estaires, decorrida entre 9 e 11 de Abril. Ainda não passaram noventa anos. Quem lembra os portugueses que morreram desta maneira? Nós não.

sexta-feira, 8 de abril de 2005

Se Tiver Sido Uma Mulher Vou Ter De Comer O Meu Chapéu

O auricular de telemóvel foi criado por um homem vingativo. Vingativo, mas bem-humorado. O indivíduo foi certamente alvo da incompreensão do meu género, nessa modalidade clássica que é a descompostura em praça pública. Espanto-me sempre que vejo uma mulher a gritar com um homem no meio da rua; não com a cena, claro, mas com o facto de a [muito ou nada] vítima optar quase sempre por fazer de conta que não ouve, ou por baixar a cabeça, submissa. Exemplos recentes: Ao meio-dia de outro dia, em Santarém, uma mulher de metro e meio perseguia um homem que ia – depressinha – Rua Guilherme de Azevedo acima, vocalizando o seguinte mantra: “Seu Fáxista! Fáxista! Dás o dinheiro tod’à outra! Aquilo é qu’é uma esposa, é? Seu Fáxista!”; dois dias depois, eu e outros sessenta suburbanos (lotação aproximada de uma carruagem do comboio Areeiro-Sintra em hora de ponta) ouvimos vinte minutos de discussão entre uma passageira fora de si e o seu telemóvel, ao qual chamava “Ricardo”, e de quem reclamava o depósito de uma quantia considerável de dinheiro - "Não pode ser, Ricardo! Estava a usar o Visa numa loja! Que vergonha!”-. Se é esquisito ouvir uma mulher aos berros com um homem ao vivo ou com o telefone que tem na mão, é mais esquisito ouvir uma mulher aos berros com o ar. Está bem, está lá o fiozinho do auricular (também há fiozinhos pretos nos filmes antigos, haja suspension of disbelief…), mas a pessoa está a falar sozinha. Para a atmosfera, para o vazio, a gesticular com um olhar esbugalhado. A metáfora do inventor passivo-agressivo funciona, ou pelo menos funcionou hoje. Numa superfície comercial, ao som de bossa-nova. No meio do corredor, uma rapariga de aparência sadia esgoelava-se para o boneco que não estava lá.

Não Consigo

A intensidade só é obstáculo para quem quer adormecer. Abandona de noite o que coleccionas de dia.

Gonçalo M. Tavares, 1. Livro das investigações claras. Lisboa: Relógio d’Água, 2004, p.209.

quinta-feira, 7 de abril de 2005

Menções Honrosas I

Não são prémios, mas podiam ser. Sempre entretêm, enquanto esquecemos os óscares de Hollywood e aguardamos as palmas de Cannes.

Categoria “Sou Magnânimo
Ou de como uma verdade auto–evidente muitas vezes repetida se transforma em manifesto de generosidade democrática:

É bom que surjam novas revistas – independentemente da orientação que tenham.
Eduardo Prado Coelho dixit [p.9]

Todos têm lugar no PSD. O Pacheco Pereira também tem o seu lugar no PSD.
Miguel Relvas dixit [p.12]


Secção “A Culpa É Do Amanuense
Ou de como, apesar de haver a internet em geral e as bases de dados em particular, há sempre, também, o funcionário que pensa noutra coisa:

Apesar de relativamente desconhecido, Craig tem nos seus créditos uma participação no primeiro filme da série Tomb Raider.
In “Pessoas. Daniel Craig, mais um candidato a 007.” [p. 46]

A colheita de hoje foi feita no Público-de-papel [pagantes por pagantes, prefiro jornal em jornal].

Pirotecnia

Papéis, papéis. Finalmente meia-tarde em tarde em Lisboa, mesmo que para tratar de papéis. Três horas divididas entre o Chiado e a Mouraria. Quarter-Lag. São Domingos, São Lázaro e a Rua da Palma com o ambiente agreste e mexido do costume. No Chiado, gente tão mas tão gira espreguiçando-se pelas esplanadas que pondero um telefonema anónimo à polícia municipal; aposto que ninguém ali pagou licença de actividades pirotécnicas.

Papoilas & Pampilhos

Por todo o lado. No capim de entre os prédios, a rés da linha do comboio, na berma da estrada. A minha avó ensinou-me a fazer colares de pampilho e eu aprendi a gostar de parecer uma havaiana fora do lugar.

Fêmeas & Varões II

Há mulheres que falam como quem olha. De esguelha.

quarta-feira, 6 de abril de 2005

Operação Georgette II

O estado das tropas do CEP era de tal forma aflitivo que os britânicos decidiram fazer a força lusa recuar da linha da frente de batalha. Das duas divisões que a compunham, a 1ª ficaria na rectaguarda, de reserva e pronta a render a 2ª. Esta haveria de ser incorporada no 11th Corps do British Army, sob comando do General Hacking. O general tomara tal decisão após uma visita às tropas, marcando a data de 9 de Abril para o efeito. O sector luso tinha 22 000 homens e 88 peças de artilharia. Sem o saberem, enfrentariam daí a dias o 6º Exército Germânico, que movimentava para o local oito divisões com 100 000 soldados, providos de centenas de peças de artilharia, ligeira e pesada. E novas armas. Químicas.
No meio de tantos, um certo jovem inglês ali estava; havia deixado Lisboa e a casa do seu tio em 1916, rumando a Londres num vapor para responder ao draft. Cinco anos após a sua chegada do Transvaal, Frank fizera sua a casa da Rua Marquês de Fronteira; o Engº. Giles, alto executivo da Carris, acomodara-o da melhor forma, apresentado-o de imediato à colónia anglo-saxónica e cristã reformada da cidade, bem como ao seu pequeno círculo de amizades lusas. Em 1912, pouco tempo depois de começar frequentar a Associação Cristã da Mocidade local (a segunda congénere da YMCA em Portugal, fundada depois da do Porto), Frank Giles sugeriu à direcção da associação a criação de um grupo de boy-scouts, novidade entusiasticamente acolhida. Ao início não falava uma palavra de português, pelo que para levar a empreitada a bom termo contou com Ernesto de Sousa, seu futuro bom amigo. No meio de tantos, Eric Franklin Giles sabia de onde eram os estrangeiros morenos, já percebia o que diziam, conhecia as suas palavras. Esperava, com força, sair da lama francesa e voltar para perto de outro rio que não o Lys. Para perto do Tamisa, ou do Tejo. Para uma Primavera que não aquela.


Wee Hours

Numa noite assim vi o Mulholland Drive. Três dias e dois visionamentos mais tarde, eu e o meu irmão continuávamos a tentar fazer da abstracção coisa figurativa. Como sempre, sonhei com o filme. Dentro do sonho resolvi a relação entre o genérico do concurso jitterbug e a camisola rosa-carmim da recém-chegada a L.A.

Jonas

"No outro quarto, Rateau observava a tela, inteiramente branca, apenas com uma inscrição no meio, em caracteres minúsculos. Era uma palavra que se podia decifrar, talvez fosse solitário ou talvez fosse solidário."
Albert Camus, Jonas, 1957.

O Tejo IV

Lisboa ao largo, há meses. Fixo a cara da campina e sigo. Meses. Linha acima, linha abaixo. Leio a água e sigo.

Em memória de M. L. P. M., 1919-2005

segunda-feira, 4 de abril de 2005

Trem-Lag V

7:51 a.m. Estação de Rossio ao Sul do Tejo. Magala traz magala pela mão. Magala sorri, triste, e olha magala enquanto espera o comboio chegar. O comboio chega, atrasado. Magala beija magala. Magala abraça magala com força. Já no seu lugar, do outro lado da janela, a magala acena e o magala regressa ao quartel, sem licença de fim-de-semana.

Nada como dantes, no quartel de Abrantes.

Operação Georgette I

Neste dia, há 87 anos atrás, os alemães encarregados de mais uma ofensiva sobre o sector português na Flandres estariam já afadigados a ultimar a estratégia e a logística inerentes à Operação Georgette, iniciada a 9 de Abril. Nesse sector da frente, do lado dos Aliados, estava para ocorrer um movimento de rendição do Corpo Expedicionário Português por novo contigente de ingleses: aqueles homens tinham tomado conta do sector em Novembro do ano prévio, anteriormente sob Comando do britânico General Horne, e mesmo após o sério golpe de 27 de Março, souberam que uma terceira unidade lusa nunca chegaria para os render, e que teriam de combater por longos períodos em péssimas condições de sobrevivência.

domingo, 3 de abril de 2005

Assincronia

O tempo é mais injusto que o espaço. Quantas vezes teremos de encontrar pessoas que ainda não estamos prontos para conhecer? Que ainda não podemos apreciar? Quantas vezes não chegaremos a horas de fazer um amigo?

Palavras Em Desuso V

Retinto - Que tem cor carregada; convicto; nítido.

sábado, 2 de abril de 2005

É Bomba. É Inteligente.

Gosto muito deste blog, que faz hoje dois anos. Como o Abrupto, é dos poucos que andam sempre à tabela (pode-se contar com ele), é giro (é da cor das casas de banho do Alvaláxia e tem fotos de estrelas bonitas que podemos -risada- tentar copiar), é feliz (tem canções, poesia, pontos de exclamação, não é choradinho nem confessional). E quem acha que isto não importa é ovo podre.

Wojtyla, Ou A Sucessão De Pedro Na Cidade Dos Homens

Peço a paciência da minha dúzia de leitores, que isto vai ser longo. Este assunto é complexo e ultrapassa-me muito, pelo que vou tentar ser clara sem ser simplista. Citarei algumas das frases do bicho-da-seda para explicitar os pontos de discordância e concordância com o referido post.

Karol Woytila representou um enorme retrocesso na Igreja Católica.(…) Karol Woytila e os seus acólitos do fundo da alma empenharam-se em erradicar da Igreja Católica Apostólica Romana o que restava da esperança aberta pelo Concílo Vaticano II, nos remotos idos do começo dos anos sessenta do século passado.

Não me parece. A 22 de Outubro de 1978, Karol Joséf Wojtyla foi entronizado como João Paulo II, 264º sucessor de Pedro e, daí em diante, primeiro-pastor do católicos. Eleito dias antes pelos seus pares do colégio cardinalício, ao cabo de oito escrutínios, o arcebispo de Cracóvia não tinha o perfil de um expectável Bennelli, primaz de Florença, nem de um Siri, primaz de Génova, que é o mesmo que dizer que era não era visto nem como progressista, nem como integrista. Herdou a liderança de uma realidade tríplice, que existia antes dele e depois dele continuará a existir. A Igreja Católica contemporânea comporta, sobretudo no seio da sua hierarquia sacerdotal, enormes tensões: o meio geográfico, étnico, histórico e económico do qual vêm os seus membros é, sobretudo desde o início da segunda metade do séc. XX, grande como o mundo; estas pessoas foram doutrinadas de várias maneiras, politizadas de várias maneiras, aculturadas de várias maneiras. Penso que para compreender este pontificado é útil relembrar a diferença entre Igreja, Santa Sé e Estado do Vaticano. Este último é o instrumento político usado para manter a soberania da segunda, que é a instância superior da comunidade mundial de crentes, a primeira. As três são o que são na cidade dos homens, não na cidade de deus. O catolicismo é múltiplo, o que não facilita a luta de todos os dias por guardar o depósito da fé em Cristo, missão principal confiada pelo Papa João XXIII ao Concílio Vaticano II. É bom não esquecer que Wojtyla, então bispo, esteve entre outros dois mil no dia 11 de Outubro de 1962; participou nos trabalhos dos anos seguintes e teve influência directa na discussão de dois dos seus temas, a liberdade religiosa e o papel eclesiástico dos leigos. Já Papa, foi responsável por encíclicas como O Trabalho Humano (‘79) ou A Solicitude Social da Igreja (‘87), O Esplendor da Verdade (‘93), que propõem que se leve mais longe a doutrina social da Igreja na defesa do trabalhador, que refreiam a tendência partidarização dos católicos em torno da democracia-cristã, que reflectem sobre a forma de comunicar e viver as verdades da fé num contexto de extrema liberdade. Apoiou movimentos espirituais encabeçados por leigos e sacerdotes, promoveu o Encontro Mundial da Juventude. É isto obra de um reaccionário?

O ecumenismo evangélico presente na doutrina, discurso, prática oficiais é mera fachada para soberba e pesporrência inconsequente de converso ignaro.

Qualquer católico que tenha um contacto, ainda que superficial com a dinâmica de Taizé, ou que, como eu, já tenha dado por si numa oração ecuménica organizada numa qualquer pequena cidade (no meu caso foi em Newcastle, com baptistas, católicos, anglicanos e luteranos), sabe que o ecumenismo é, sobretudo na Europa, uma realidade praticada muito a sério, por via da oração e por força de todos os que nela se envolvem. Acontece porque os crentes o desejam e porque, no caso dos católicos, O Apelo à Unidade dos Cristãos (‘95) não foi um texto inconsequente. Estamos muito longe de uma mítica reunificação, mas o chão nunca esteve tão maduro.

Uma das imagens sacramentais que conservo do consulado do Papa polaco é a sua vigorosa admoestação, que obviamente fez questão que fosse pública, que ficasse registada e documentada, de Leonardo Boff, a principal figura da Teologia da Libertação. Após esse episódio, nunca mais aquele padre pôde continuar o seu trabalho verdadeiramente cristão de não ignorar os assuntos da Cidade(…).

Não conheço a fundo a Teologia da Libertação, mas é impossível não reconhecer a sua carga ideológica e politológica, mais que eclesiológica. Como também desconheço as consequências reais da censura que foi feita ao dominicano [corrijo, franciscano] Boff, não me alongo aqui e vou procurar saber mais sobre esta questão.

Isto enquanto, a contraponto demasiado flagrante para poder ser imperfeição relevada, na Santa Sé, prosseguia business cardinalício as usual, bancos ambrosianos, bênçãos aos mais hediondos ditadores e tanto, tanto mais (…).

Aqui tenho uma sensibilidade semelhante, e voltemos à questão do catolicismo tríplice. Enquanto instrumento político da Santa Sé, o Estado do Vaticano é, a meus olhos, uma dimensão (instituição?) difícil de compreender e até de aceitar como tal: representa para mim a “romanicidade”, a Igreja-Poder, que não sei até que ponto é necessária e até que ponto impede mudanças pastorais e eclesiásticas relevantes. Eu creio que a eleição de Wojtyla foi a expressão real de uma alteração – que, veremos, poderá ou não ser reversível – na “romanicidade” vincada inerente ao papel Sumo Pontífice. Pessoalmente (ingenuamente?), desejo um outro tipo de “braço político-diplomático”: não são públicos os balanços do Istituto per Opere de Religione (o Banco do Vaticano), mas pensa-se que é um dos poucos estados com superavit (vide sobre o assunto os estudos do fiscalista jesuíta americano Thomas Reese), ainda que com pouca liquidez; O Vaticano é um dos maiores investidores em Itália e 1/3 das suas receitas provém de investimentos bolsistas. Poderá, desde a fiscalização da sua contabilidade pela Price WaterHouse suíça, em 1994, ter-se tornado mais impermeável a lavagens de dinheiro, mas não ser tornou mais transparente. Não se pagam impostos no Vaticano, e os religiosos que estão na Santa Sé, c. 2300, ganham de €12 000 a €30 000/ano. Dá que pensar. Quanto aos encontros com ditadores [Marcos(‘81), Ortega(‘83),Pinochet(‘87), Castro(‘98)], poderei estar a ser apologética, mas atribuo-os à realpolitik: como visitar comunidades oprimidas sem visitar o seu Chefe de Estado? Mas não tenho certezas neste capítulo.

Não, não diabolizo Karol Woytila. É polaco. A tragédia da Polónia (…) conferiu ao catolicismo, a um catolicismo radical, inflexível e implacável, um lugar central na identidade polaca. Radicando nessa sobreposição, só por ingenuidade se poderia esperar que Karl Woytila, no desempenho papal, fosse capaz de romper com a dogmática católica mais retrógrada.

Um polaco não-comunista nunca se lembraria de dizer tal coisa. Ainda bispo, e mais tarde Cardeal, foi muitíssimo criticado no seu país por ser pragmático e estar interessado em dialogar com os seus opositores; sempre foi visto como um pró-conciliar e por alguma razão tem o rancor de tantos integristas. Contudo, há matérias em que sempre foi irredutível, sobretudo as relacionadas com a Vida. Já antes de ser Papa colaborou na redacção da encíclica Humanae Vitae (‘68) que manteve a recusa da esmagadora maioria dos métodos contraceptivos existentes. Não compreendo a validade das bases teológicas e pastorais desta posição, e espero por uma rápida alteração a este respeito, como acerca da impossibilidade de ordenação feminina ou celibato obrigatório dos sacerdotes. Mas nada disto erradica a sua devoção real à oração, a procura da fidelidade aos Evangelhos, o apoio às missões, a luta pela paz, pela dignidade humana, pelo respeito entre diferentes credos. Foi o grande líder religioso do seu tempo. Ninguém resolve os males do mundo de uma vez. É bom esperar muito do Papa; é mau esperar tudo do Papa. Porque a Igreja não é só (talvez nem sequer sobretudo) o seu líder, é a massa espiritual e intelectual, o ethos e a praxis dos seus membros.

Acabo por onde começaste aquele teu post, bicho-da-sedadesejando ao sucessor de Pedro pacífico descanso.

Datas, números e conceitos aqui apresentados podem ser encontrados em obras acessíveis e com boa divulgação, e aqui ficam três simples exemplos :

A.A.V.V. – História Religiosa de Portugal. Vol. III. Coord. António Matos Ferreira e Manuel Clemente. Lisboa: Círculo de Leitores, 2000.

Catecismo da Igreja Católica. Coimbra: Gráfica de Coimbra, 1993.
MANDT, Jorg; MOSER, Ulrike; SHINDE, Sonia – João Paulo II. Crónica em Imagens. Lisboa: Círculo de Leitores, 2004.

A Terreiro

Li-te de novo há pouco, bicho-da-seda, e reconheço que tens razão: fui eu que me meti em actualidades, por isso tenho agora a obrigação de aceitar o teu justo repto. Dá-me uns minutos.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Cintas

A elegância não sei bem o que é, mas anda ali na suavidade, na graça, na delicadeza. Em ambos os géneros esta virtude é frequentemente confundida com a magreza (quem sofre muito a tentar perder quilos tem direito a dizer magrura), não obstante o mundo estar cheio de exemplos de magros mal-jeitosos. Em geral, é aos homens – qualquer que seja a extracção geográfica, partidária, social, clubística – tolerada a parcial ou total ausência de elegância, desde que a ela não se acumulem mais meia dúzia de defeitos extremos. As mulheres não gozam de tal indulgência, muito menos a oferecem. Compete-lhes parecer bem, mesmo quando optem por vestir a infame e muito em voga túnica-saco-de-batatas – espécie e camisola elástica de corte direito, a ¾, geralmente produzida em viscose brilhante, que serve para perturbar o cálculo da área real abdómen+ancas. Seja como seja, tornar-se ou parecer mais magro conforta a maioria das pessoas.

Parecer é mais fácil que ser. Assim nasceu a cinta, primaz do mundo da roupa interior reforçada e quase exclusivamente usada por mulheres. Apesar de ter algumas utilizações menos fúteis (compressão do ventre após um parto ou uma intervenção cirúrgica), existe para apertar o abdómen, glúteos e quadríceps de forma a suavizar a silhueta. Prosaicamente, a pessoa que a utiliza quer ficar bem [enfiar-se com sucesso] numa determinada peça de roupa. A coisa trabalha mais ao nível da cabeça do utilizador que da percepção externa, mas há muita senhora que não sai de casa sem ela, incorrendo em danos colaterais desagradáveis entre os quais se contam a indigestão, a celulite e a casa-de-banho ao sprint.

A cinta descende do espartilho, desenhado para entalar, mais que apertar, a mulher e/ou o travestido do Antigo Regime. É feita de poliamida, pode ser simples ou dupla, e aparece nas variantes branco, preto e cor-de-carne (aqui o cromo dificílimo é o bordeaux – quem é que compra uma cinta bordeaux?). Existe na forma de cinto gigante traçado sobre o abdómen (artigo unissexo; o único homem que vi com uma chamava-lhe, cito, protecção elástica para as costas), de uma cueca (por isso mesmo chamada cinta-cueca), de um calção de ciclista (cinta-calção ou cinta com perna) e de um fato de banho do início do XX (cinta inteira, combinação de soutien de cós alto + cinta com ½ perna). Nos dias que correm não há muitas mulheres com menos de 40 anos a comprar este produto, mas o nicho >/=55 anos compensa a disponibilidade do produto em qualquer ponto de venda. A cinta-cueca simples é a mais adaptada aos tempos, permitindo o uso de vestidos e saias sem o pneu evidente. Certa amiga minha, ex-adolescente gorducha, contou-me uma das últimas vezes que, nessa encantadora [ó, ó!] fase da vida, usou cinta-cueca. Os comes da boda de um casamento de família foram de tal modo entusiasmantes que a meio do entusiasmo se sentiu mal; perante a dificuldade de caminhar até à casa-de-banho, optou por ir atrás de um cortinado tirar a peça. Como não sei como era a iluminação do salão, nunca percebi se deu um espectáculo de sombras chinesas.

Era eu já uma tardo-adolescente com vários anos de experiência no ramo, quando tive desembrulhar uma cinta inteira dupla para uma cliente apreciar tamanhos. A senhora achava que tinha comprado anteriormente um 56 ou um 58, números regulam pela copa do soutien, e eu, solícita, tirei da caixa o primeiro número. Uma vez na vertical, o escafandro sem capacete quase se aguentou sozinho em cima do balcão. Isto não pode fazer bem à saúde, pensei, porque se dissesse em voz alta a minha mãe-patroa, não me podendo despedir, ainda me recambiava para casa a fazer um almoço de favas. Bleargh, favas.

Discordo a quase todos os níveis desta apreciação de vinte e sete anos de trabalho. Se isto fosse um blog sobre imanências, iminências ou eminências, i.e., actualidades, correria bastante tinta.

sexta-feira, 1 de abril de 2005

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" IX

Phillp Seymour Hoffman.

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" VIII

Adam Sandler.

"Só Achas Graça Aos Esquisitos, Pá!" VII

Alexandre Pinto.

Scouting For Boys

Nos dias em que vivíamos muito e o sol nos corava éramos tão bonitos. Nunca fomos tão bonitos como quando nem a noite nos vencia.

Queluz, Avenida António Enes

Muitas décadas antes de nós, os serviços postais do país viram-se na necessidade de ordenar a morada de cada família. Com o adensar da concentração humana não chegava já um apelido, um locativo, um brasão - muita gente junta tornava difícil a circulação da mala do correio. Antes das placas de madeira, azulejo ou chapa, a chuva e o rio eram referências para o funcionário ou arrematante da correspondência postal; para seu governo sabia apenas que, em todas as terras, a sequência de números respeitava o curso das águas.

Desço a avenida que desci centos e centos de vezes. Enquanto vou, esqueço-me de olhar as portas dos prédios para ver se tudo mudou, porque estou em todas as vezes que da estação corri atrasada para a reunião,para a missa, para os copos; porque estou em todas as vezes que cheguei de um acampamento em Belas, com mochila às costas, suja, cansada, com febre, contente.
Hoje é dia das mentiras.

Coisas Que Só A Mim Apoquentam IX

"How elastic our stiff prejudices grow when love once comes to bend them."

Herman Melville, Moby-Dick or The Wale, 1851.

Trem-Lag IV

Lá pelo Cartaxo toca uma vaca polifónica; o dono, triunfante, atende.