a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

quarta-feira, 30 de março de 2005

Nessa Epocha Era Bem Diferente VIII

S[erviço da] R[epublica]

Barquinha, 22 de Maio de 1926

Ex.mo Governador Civil do Distrito de Santarem

Não tendo residencia na séde[sic] de concelho, tendo, por isso, que percorrer a pé uns sete quilómetros todos os dias, e avizinhando-se a época de mais intenso calor, tornando-se-me, por estes motivos e atendendo à minha idade e pouca saúde, impossível manter a assiduidade que o lugar de administrador requere[sic].

Pensei em alternar os dias de comparencia[sic] na administração, mas isso é uma falta que enfraquece o moral do Administrador para se impôr, quando, porventura, se torne necessário.

Pelos motivos expostos, vem rogar se digne conceder-lhe a demissão do lugar de Administrador do Concelho de Vila Nova da Barquinha e pede creia que apenas aqueles motivos que o levam a solicitar de V.Exª. a referida demissão, aquele que, com os seus agradecimentos e a maior consideração, a V.Exª. deseja

Saude e Fraternidade

O Adm.or. Interino do Concelho,

Manoel d’Oliveira

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1926), Cópia do Ofício Nº 231.

Passa A Outro E Não Ao Mesmo

Constipação? Tosse? Dor de Garganta? Fisherman’s Friend, sabor Original Extra-Forte. Como no creme para as mãos, os senhores de flanela salgada é que sabem. Recomendado pelo senhor da corneta.

Anos 80 Bem Medidos

Entro no mini-mercado à procura de uma garrafa de água de 0,75l sport e vejo, a meio da prateleira do meio, uma pacote de SuperGorila Mentol.

Não se pode arranjar um chupa-chupa Mouro? Uma saia de ganga em bico? Uma última tarde a brincar à Guerra Fria? Um número das SuperAventuras Marvel?

Mas um pacote de leite do dia arranja-se, não se arranja? Talvez Ovomaltine? E um ovo estrelado em Vaqueiro?

terça-feira, 29 de março de 2005

Serrania

A Primavera é a única que não desiste desta serrania. Tão decadente e tão triste, o seu mikado de pinheiros queimados nos quais ninguém toca. Daqui a umas poucas semanas estará quase bonita, floribunda de esteva, tojo e carqueja.

Bichos II

Ele perguntou:

Vicente? Como o corvo? – e eu ainda não tinha lido Torga. Mesmo assim, amizade instantânea.

Bichos I

A meio da tarde baldei-me a História Contemporânea de Portugal e fiz a linha de metro, da Cidade Universitária até ao Saldanha. Pela primeira vez na vida fui sozinha ao cinema. Queria muito ver A Barreira Invisível (Terrence Mallick, 1998), que agora lembro como um poema comprido sobre a natureza dos bichos. Saí à rua quase de noite e acho que era Junho, porque tudo era o lilás dos jacarandás da 5 de Outubro, indiferentes a mim e aos restantes passantes.

sexta-feira, 25 de março de 2005

Strictu Sensu

Para quem é cristão, o Tríduo Pascal é the real deal. Paixão. Ressurreição. Mandamento Novo. Vamos a isso.

Aniversários II

Parabéns, mano. Fazes-me a falta de um braço.

Aniversários I

Parabéns, já atrasados, ao Fora do Mundo. Estou um bocado Páscoa.

Animismo

Quando a minha melhor amiga era apenas a minha vizinha de cima, íamos juntas e a pé para a escola primária. Enquanto fazíamos o nosso pequeno troço de Rua Direita, era habitual eu distrair-me com tudo e tropeçar nas pedras que encontrávamos pelo caminho. Ela não se ria dos tropeções, que eram a rotina, mas de me ouvir por vezes pedir desculpa àquilo em que tropeçava.

quinta-feira, 24 de março de 2005

Entente

Bilhetes de comboio, lenços de papel. Marcadores de livro e do dia a fugir. Em casa, luto com a minha letra pela custódia da página onde parei.

Páscoa

Por razão que a minha parentela nunca soube explicar, há várias gerações que usamos a palavra Páscoa para designar - e irritar - toda a pessoa vagarosa. Até aos doze, treze anos, eu era Páscoa a todas as refeições.

quarta-feira, 23 de março de 2005

Erros Favoritos II

Racionalizar > Racionar

His Music

Dez anos depois, no site promocional do próximo Festival de Edimburgo, Zbigniew Preisner conta a história do princípio:

The soundtrack to The Double Life of Veronique, for example, features a concerto credited to one Van den Budenmeyer - a mysterious, previously undocumented composer, actually concocted by Kieslowski and the composer. ""Kieslowski originally wanted to use some of Mahler's music,"" Preisner explains, ""but this proved too expensive to licence. So he asked me to compose something original in Mahler's style, and we were looking for the name of a composer - something to be taken seriously as 'proper' music ... Afterwards, we got thousands of questions: who was this Van den Budenmeyer? Suddenly, he began appearing in music encyclopaedias. At one point, someone wanted to take me to court accusing me of stealing his music! (...)""

Main Stream / Bank Flow

Esqueço que pelas margens também corre água.

Composição

Começou o ano. As ruas estão pontilhadas de flores rosadas. Há sol e algum calor. Há pessoas bem-dispostas e vestidas às cores. Há passarinhos nos ninhos e muita tensão venatória.

Ser Muito Classe Média

Explicação única para o facto de me espantar com a existência (persistência?), numa pequena cidade deste país, de uma ama formalmente fardada passeando um rebento Classe A. Menina, olhe as pedras! veja onde vai com a bicicleta…

O Tejo III

Vai mais cheio, o rio, como nos dias em que o Zêzere lhe trouxe neve derretida. Agora o sol, depois um aluvião de cinzento; o sol outra vez.

segunda-feira, 21 de março de 2005

A verdade é que quando alguém que admiramos liga ao que dizemos nos sentimos validados. Felizes.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Meias

Só a propósito de meias poderia escrever-se um tratado. Vamos ao essencial. As meias são todas filhas do nylon e netas do carvão, mas há-as também arraçadas das fibras que nascem nos campos. Variam segundo densidade (medida em deniers, não faço ideia porquê), cor e comprimento, e têm por função teórica a protecção total ou parcial das pernas da mulher, ou, em alguns casos, do homem. Os artistas que fazem a coisa mais bem feita são, a léguas, os italianos. Os portugueses não chegam lá, mas não são nada maus, e não ficam a dever em qualidade – talvez apenas em…hype? – aos franceses ou aos espanhóis.
Destaco, por ordem crescente de valor comercial, as mais corriqueiras sub-categorias: mousse, vidro, licra (com as sub-sub-categorias licra-vidro, licra-seda e voile), algodão e lã. Podem ser pézinhos, soquetes, mini-meias, meias-liga (aderentes e não-aderentes) e meias inteiras (isto soa àquele livro da Adília Lopes), ser transparentes ou opacas, lisas, com relevo ou com padrão. Há até as que têm intuitos medicinais – de descanso, ou contenção de varizes.
A sub-categoria collant de homem, peça inteira que, por convenção, acaba abruptamente onde começa a peúga, é cada vez menos vendida, seja por razão do aquecimento global do planeta ou da própria circulação sanguínea do varão luso. Como o género masculino não é lá muito barroco em relação à roupa interior, collant de homem é a sub-categoria mais fácil de definir: existe apenas num tipo (lisas, opacas e a imitar a lã) e três cores (castanho-escuro, azul-escuro e cinzento escuro; alvíssaras a quem encontrar verde-escuro ou – cromo dificílimo – castanho-claro); têm ainda saída para quem:

a) trabalha nos turnos da noite e madrugada;

b) trabalha numa mina, numa câmara frigorífica ou exposto aos elementos;

c) pratica caça ou pesca desportiva;

d) detesta ceroulas, mas tem frio nas pernas à mesma.


Sou de parecer que as mulheres portuguesas se dividem entre as que usam saias e as que não usam saias, mais do que as que usam saltos altos e as que não usam saltos altos. Daqui decorre que a mini-meia (para calça) e a meia inteira (para saia) sejam as mais procuradas. Sublinho o facto de que apesar de servirem para proteger as pernas, as meias mais procuradas são as de licra, transparentes e frias como o caraças. Para os menos versados nas “meias de verão”, o pézinho é expressão mais ridícula da meia de mulher: consiste apenas num bocado de malha cor-de-pele (disponível nas versões mousse, vidro ou licra) que cobre a parte do dito pé que está tapada pelo sapato.A supracitada cor-de-pele é um dos quebra-cabeças de qualquer vendedor da especialidade: as clientes habituais [viva o comércio tradicional, viva] fazem questão em que quem as atenda decore a designação eufemística correspondente ao seu gosto pessoal, muitas vezes equivalente apenas de forma imaginária ao seu tom real de pele. Exemplos: as branquinhas pendem muitas vezes para o bronzeado Duna, ao passo que as muito morenas optam pelo deslavado London; em chegando as andorinhas, dispara a procura do acastanhado Antílope.

Presumo que num mercado conservador como o português o best-seller continuará a ser – por muitos e bons anos – o tom Muskade. Um espírito menos poético teria baptizado este tom de Castanho Médio ou mesmo Neutro. Como não tenho o savoir-être comercial da minha patroa/mãe, o Muskade deixou-me em mais que uma ocasião perto de perder a compostura. Não é fácil ser-se adulta, quando alguém nos pede um ou dois pares de collants licra-seda Mostardo, Moscardo ou Noz-Moscarda.

O Maravilhoso Mundo da Roupa Interior – Introdução

A singularização do que cada pessoa usa para cobrir o corpo não é desejo moderno. No Portugal medieval já havia gente a tecer múltiplas variantes de burel, saragoça, estopa. Agora vivemos num mundo de produção, promoção e compra massificadas, mas continuamos a escolher e adaptar a nossa roupa segundo critérios profundamente individuais, muitas vezes contra-conforto, contra-moda e contra-razão. A existência de um pequeno negócio de família proporcionou-me, ao longo de anos, o contacto com o mundo da compra e venda de roupa interior. Como vendedora-amadora, tive sempre tanta dificuldade em memorizar a multiplicidade de produtos que o mercado oferecia, quanto de adivinhar o gosto das pessoas que me apareciam pela frente. É que ninguém – nem mesmo em matéria de roupa interior – é óbvio.

Palavras Em Desuso IV

Escroque -

Policia de Investigação Criminal de Lisboa

Of. Nº. 8937

Serviço da Republica

Ex.º Senhor

Governador Civil do Distrito de Santarem

Tendo-se evadido duma enfermaria do Hospital de S. José o prêso Edwin Fuller Heath ou Edward Fuller ou ainda Perci Gordon Lenox, subdito britanico, casado, escroc internacional, falsificador de cheques e passaportes, crimes estes pelos quaes se encontra pronunciado no 4º Juizo de Investigação Criminal d’esta Cidade, e ainda por se tratar d’um individuo perigosissimo, cuja captura se torna absolutamente necessaria, já para o referido Heath ser julgado, já ainda por se tratar d’um individuo cuja extradissão[sic] foi pedida pelo Governo Britanico ao nosso Governo, roga-se a sua imediata captura e comunicação telegrafica a esta Policia.

Saude e Fraternidade

Lisboa, 7 de Novembro de 1925

O Director

(a) A. Teixeira de Azevedo

* Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida – 1ª Secção, (1925), Cópia do Ofício Nº 8937.

Nessa Epocha Era Bem Diferente VII

"Administração do Concelho de Abrantes


Serviço da Republica

Abrantes, 17 de Novembro de 1928

Ex.mo Governador Civil do Distrito de

Santarem

Tenho a honra de informar V.Exª. de que neste concelho não existem desempregados de qualquer industria, porquanto desde que tomei posse havia de facto muitos desempregados que eu empreguei; instando para isso junto das emprezas a sua colocação o que felizmente consegui. Mais informo V.Exª. que qualquer desempregado neste Concelho, vem apresentar-se a esta administração onde lhe é distribuido consoante os lugares que consigo obter o respetivo[sic] emprego, e quando aparece, desempregados de concelho estranho é-lhe[sic] entregue o dinheiro necessario para a passagem ao seu conselho[sic], porquanto neste concelho não existem vagas em qualquer ramo da industria ou oficio, ficando assim respondida a circular Nº 824 de 16 do corrente, desse Governo Civil.

Saude e Fraternidade

O Adm.ºr do Concº.

João [ilegível] Jr.

*Cf. Arquivo Distrital de Santarém. Administração Geral Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Correspondência Recebida, Of. Nº 1349, 2ª Secção.

domingo, 20 de março de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam VIII

Depois de uma ventosa volta pelo Parque das Nações, fui ver quem vê montras do centro comercial até às seis e meia, estaciona numa le Corbusier e saca do termo, olhando os outros passar.O domingueiro - esse bicho loboantuniano - apoquenta-me.

sexta-feira, 18 de março de 2005

Introdução À Filologia

Moritz-Maria von Igelfeld seria o académico típico, não fosse a sua incauta curiosidade impeli-lo mundo adentro, à pala de congressos de Filologia mais ou menos Românica. Os encontros da especialidade, aborrecidos e mais herméticos que uma tupperware, dão ao inacreditavelmente alto autor de Portuguese Irregular Verbs oportunidade de palmilhar por aí, em busca de novidade.
Estou fã instantânea de mais esta personagem de Alexander McCall Smith. Só um professor-doutor poderia inventar um professor-doutor em termos. The 2 ½ Pillars Of Wisdom (London: Abacus, 2004) oferece a quem tiver a mais vaga relação com o mundo universitário diversão garantida, par de uma sensação de vingança platónica sobre todos os universitários que nos torturaram com as suas esquisitices. Na língua-pátria já correm as aventuras dessa outra personagem do caneco, Mama Ramatsowe, chefe da Agência Nº 1 de Mulheres Detectives do Botswana (pelo menos três dos cinco livros da série foram editados pela Presença).
O que é que se podia esperar de um zimbabweano-escocês? O inesperado.

quarta-feira, 16 de março de 2005

Amor Ao Trabalho

É bonito ver alguém exercer o seu ofício com amor, que é o mesmo que dizer com perfeccionismo, brio, inteligência, ponderação e emoção. Tendemos a achar que certas vocações que têm mais ciência que outras, mas enganamo-nos. Todas têm o que investimos nelas. Mais que receitas, The Kitchen Sessions, o programa com Charlie Trotter que passa actualmente na SicMulher, revela aos gourmets e gourmands menos especializados um chefe de cozinha que, no fundo, não passa de um intelectual consequente. Pasmo ao verificar que há quem conheça tantos vegetais, animais e minerais, e se dedique a estudar as suas qualidades e infindáveis possibilidades de combinação. Trotter executa, explica, prova, sugere. E adjectiva como ninguém. Sei perante o tipo de pessoa que estou quando ouço utilizar os adjectivos "pungente", "lúdico" ou "chão".

sábado, 12 de março de 2005

Anselmo

Um dos aspectos nos quais não sou uma rapariga do meu tempo é o seguinte: tenho HORROR à fama noticiosa. Nos meus pesadelos estou a ser entrevistada por uma jornalista da TVI (uma qualquer, toda a redacção ao mesmo tempo, etc...) no meio da rua, perseguida, flasheada por um paparazzo a cada esquina, tudo por causa de um qualquer acontecimento escandaloso, criminoso ou prestigioso. Depois acordo e fica tudo bem.
De acordo com este auto-perfil psicológico não posso, ainda que com atraso, deixar de empatizar com Anselmo (o apelido será Fonseca ou Meireles, malta?), o rapaz que, perante 20 microfones da comunicação social lusa, recusou declarar o seu apelido "para não ser gozado" pelos amigos e vizinhos (ESTAVA LÁ A TELEVISÃO, que lhe filmou a CARA, será que ele não reparou?).
Já me estou a ver: matrícula na mão em direcção a uma loja; uma velhota a vigiar-me por detrás do cortinado de crochet e a confundir-me com um saudita; eu a ser delatada às forças de segurança eborenses, deliciadas com a hipótese de pôr em prática o que aprenderam no curso básico anti-terrorista de há quinze dias; o ajuntamento final de pessoas e minha viatura ...aaaa... vintage... a ser zelosamente detonada.
Empatizei, empatizei, Anselmo, mas não me ria tanto desde a primeira série do Duarte & Companhia!

sexta-feira, 11 de março de 2005

Português Partido VII


Oniosa
, adj. f. (et. obscura)– 1. Hipersensível 2.Queixosa. 3. Dorida.

Português Partido VI

Quincado, adj. m. (et.obscura) – 1. Qualidade do que está gasto. 2. Amolgado. 3. Roído.

quarta-feira, 9 de março de 2005

Coisas Que Só A Mim Apoquentam VII

Porque é que a língua inglesa, em termos de pop-rock, é cantada com sotaque universal?

Novidades

Atenção aos novos links, malta.

Uma Afirmação, Mais Que Um Voto

"Voltando-se Jesus e vendo que eles O seguiam, disse-lhes: que buscais vós? Eles disseram-Lhe: Rabi - que quer dizer Mestre -, onde moras? Ele respondeu-lhes: Vinde e vede.(...)"
João, 1, 38-39.
É um feliz aniversário, o da Voz do Deserto.