a vida depois da vida / eco em museu / canção-vitória / letra empoada / melhor que nada / é memória

quinta-feira, 30 de dezembro de 2004

2005

Aos meus amigos do Presente e Futuro:

A passagem de ano serve-me, sempre e apenas, para fazer das doze passas ex-votos de saúde e alegria. A meu favor e ao de todo vós, queridos comparsas de viagem. Eu estou ansiosa pelo que aí vem, e vocês?

Um feliz 2005.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2004

Feliz Natal

Somos de hoje e daqui. Por isso passamos assim, entre luzes e fogos-de-artifício, a celebração do aniversário do menino-Deus.
Valorizar a simplicidade e a humanidade desta celebração requer mais devoção à vida que a maior parte de nós está disposta a (ou consegue)dar. Eu estou entre as pessoas que amam infantilmente o Natal, e não tenho dúvidas que é o menino Jesus que dá a verdadeira prenda.

Feliz Natal.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2004

Pé-Posto

Eis o meu outro transporte preferido: eu própria.
Especialmente eficaz quando outros veículos me falham, particularmente feliz quando me conduzo por querer.

sábado, 18 de dezembro de 2004

Palavras Em Desuso III

Zeloso –

"Serviço da Republica



Santarem, 18 de Setembro de 1918.

Exmº. Snr. Secretario de Estado do Interior

Lisbôa

Junto envio a V. Exc.ª o requerimento do Oficial dêste Governo Civil cidadão Júlio Cezar dos Santos Araujo; devo confirmar que é com pezar meu e do Exmº. Governador Civil efectivo Dr. Ramiro Guedes, que o faço embora reconheça áquele cidadão o direito que assiste a quem ha 37 anos tão bons serviços tem prestado no exercicio do seu cargo.
Não se trata de um funcionário de qualidades vulgares e por isso eu julgo cumprir o meu dever informando V. Exc.ª de que este oficial cumpriu sempre com a mais elevada isenção todos os serviços de que foi encarregado e bem mereceu um cooperador de lealdade incontestada. Largos serviços prestou nêste Governo Civil como organisador consciente consiente disciplinador honesto, gosando da afeição dos seus subordinados; cumprindo sempre escrupulosamente os seus deveres de funcionario, por isso eu tenho a honra de propor a V.Exc.ª para que o mesmo seja publicamente louvado em diploma especial que, por ser justissimo, mostre bem claramente como o Governo da República sabe honrar os que desveladamente, tão bem como ele, souberam servir o seu País.

Saude e Fraternidade
O Governador Civil Substituto” *

* Vide ARQUIVO DISTRITAL DE SANTARÉM. Arquivo Público. Administração Central Desconcentrada. Fundo do Governo Civil do Distrito de Santarém. Livro de Correspondência Expedida, 3ª Secção, Nº 2 (14 de Janeiro de 1918 a 24 de Outubro de 1919), Cópia do Ofício Nº 478.

Nenhum laço me liga ao Sr. Araujo à beira da aposentação, a não ser a admiração pelo que ele parece ter sido. Filetes do ofício, documentos destes.

O Tejo II

Às oito da manhã está um avieiro no seu bote, em pé, à procura do recheio do rio. Não há mais nada à tona, a não ser o reflexo difuso do sol que sobe.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2004

Português Partido V

Ando numa

Deceinação, s. f. (? de deceinar > L. de + cinisi ?). 1. Lavagem de meadas para as despojar da calda da barrela. 2. Acto próprio de quem é teimoso. 3. Estado de obsessão.

com isto do blog.

O Tejo

É de manhã e está um rio por cima do rio. Uma longa meada de bruma guarnece o Tejo, de Xira para montante. A História assoreou-o aos poucos, e custa agora figurá-lo larga e concorrida estrada do poente peninsular. Nasci a sul e vivo a norte da sua boca larga, acho que sou da terra dele.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2004

O Verdadeiro Trem-Lag : A Vidinha Na Malinha

Vinha eu solavancando lezíria afora, a pensar que não tinha visto nada de interessante para postar. Entre um comboio e outro confiro o computador (tic), os sacos de compras de Natal (tic) e ... e ... a ausência de malinha (t...). Onde está a minha malinha? Incredulidade. Irritação. Ahhhhhhhhhhhhhhhhh!
Depois de um muito simpático funcionário da CP ter contactado o revisor do comboio e nada de malinha, depois do funcionário me ver engasgada e me oferecer gentilmente 1 euro de chocolate e nada de malinha, desisti e segui para casa com o meu mísero bilhete (o de comboio, o de Identidade, onde estaria?). O Pânico. A Imaginação: um gatuno a rodar a chave na porta da minha casa; um larápio a usar o meu humilde Visa até ao osso.
Quase a chegar ao meu destino encontro a minha melhor amiga e uso o seu telefone para contactar quem me diz estar uma malinha no Samouco, ai, em Alcântara-Terra. Intacta e com a vidinha toda lá dentro. Encontrada num banco ou no chão em que alguém a esqueceu. Eu. A que confere três vezes se fechou o gás.
A culpa, obviamente, não foi minha. Sofri uma enorme pressão por parte do Sr. José Eduardo Agualusa, que, não me resta dúvida, escreveu O Ano Em Que O Zumbi Tomou o Rio com o propósito de me distrair dos afazeres de passageira. Vá lá que a cabala não prestava senão, com aquele protagonista chamado "Palmares", nunca mais punha os olhos na minha querida malinha.

Grandatotó.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2004

Trem-Lag II

Na casa do chefe da estação de Santarém há um pinheiro iluminado que espreita para fora da janela da sala, e há um descarado estendal de roupa a baloiçar na fachada; na casa do chefe da estação de Queluz- Belas não há pinheiro iluminado, estendal descarado ou janela, não há casa do chefe da estação.

terça-feira, 14 de dezembro de 2004

Trem-Lag I

Estou a trabalhar entre os arredores de Lisboa e o centro de Santarém. No leva-e-traz diário dos comboios suburbano, regional e o intercidades, vou tentando adaptar o metabolismo. É que no meu transporte favorito cada linha é uma linha: a senhora que se apeia no Monte Abraão tem a "Nova Gente" a espreitar da malinha; o rapaz que entra na Ribeira de Santarém ostenta a "Nova Burladero" debaixo do braço.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2004

Isto Não É Para Quem Pode, É Para Quem Kerr

A :2 está neste agora a transmitir As Minas de Salomão, de Compton Bennet e Andrew Marton (EUA,1950, C, '120m), filme da Metro-Goldwyn Meyer adaptado da aventurosa história da autoria de H.R. Haggard. Eu confesso que a Deborah Kerr - se têm lata pronunciem lá, em voz alta e à janela, Déborááááááááhhhh Khhháááááár - sempre me impôs respeito. Com ela apenas consegui até hoje ter em comum o ligeiro estrabismo, a ligeira pudicícia e muito ligeira queda para a teatralidade. Não sou ruiva, sou obtusamente morena (com excepção de sete unidades brancas, o meu cabelo é preto-preto). Grrr. Sempre quis ser assim, enevoada, vitoriana, linda e rija. Engano-me todos os dias e digo-me que lá chegarei, mas não sei não... Salomão nem hesitaria: cortaria de alto a baixo o meu-eu comum e o meu eu-estrela, e obrigar-me-ia a escolher em três segundos por um dos dois. Cobardolas, entre o meu eu-toda e o meu eu-comum, sinónimo do meu-eu camuflado, escolheria o mais discreto. Eca, que nojeca.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2004

Iluminura

Quase todos estes lugares encheram o meu coração e limparam os meus olhos.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2004

Belas & Amarelas

Anteontem vi um mau filme. Toma! para mim, e castigo para todos os que vão ao cinema na disposição de ver uma história levezinha. Para lá de que Bridget (ou, como acertadamente diziam as tailandesas do filme, Be-Shit) Jones II é filme desengraçado e desnecessário, nada mais me ocorre. Só por causa do vazio mental (sim, a história é levezinha como éter) com que de lá saí, a minha primeira blogcrítica fílmica transformar-se-á, a partir deste preciso momento, numa epi-reflexão sobre as casas de banho desse interestelar espaço comercial incrustado no estádio do SCP, meu garboso clube.
A pessoa entra, não é? Vai beber um café, uma cerveja, um cházinho. Se se é rapaz, ao fim de vinte minutos vai-se à casa de banho; se se é rapariga, ao fim de oito minutos vai-se à casa de banho. Quando se entra no dito recinto, asséptico (os leões são como os gatos, muito, muito limpinhos...), ESBUGALHA-SE OS OLHOS, pisca-se três ou quatro vezes, e depois lá se faz o que quer que seja. Faz-não-faz, fixa-se o chão e pensa-se, de onde vem todo este monocromatismo, completamente contrário ao resto do edifício que o embrulha? O que deu no arquitecto? O que deu no designer de interiores? Enquanto se lava as mãos e olha à volta, o dilema instala-se, sob a forma de isto é um tributo ao Miró ou ao Tarantino?

segunda-feira, 6 de dezembro de 2004

Palavras Em Desuso II

Omnívoro - Indivíduo que, por gula, motivação religiosa, inércia cultural ou afirmação identitária, faz questão de incluir na sua dieta alimentos de origem animal, vegetal e mineral.

domingo, 5 de dezembro de 2004

Coisas Que Só A Mim Apoquentam VI

Havia mesmo musgo em Belém?
Presépio sem musgo é presépio?

Antes Da Ordem Do Dia

Mais gente passou a cruzar os Quatro Caminhos a bordo da InterUrbana: um irmão andarilho, um velho e silencioso amigo, um novo amigo. Senhores passageiros, é um prazer ler-vos.

sábado, 4 de dezembro de 2004

O Senso Do Ridículo

Leio o Expresso porque em minha casa sempre se leu o Expresso. A partir dos 14 anos passei a comprar outros jornais e revistas, mas este, a acompanhar o queijo fresco e o pão-de-espera do almoço em família, esteve sempre presente. Continua a estar, mesmo quando não é (ou não tem) lá grande coisa.
Hoje, coisa inédita, tive de refrear o impulso de o pôr de imediato no papelão. Porquê? Porque o senso do negócio tem de existir, mas o do ridículo também. 890 gramas de JORNAL para 810 gramas de PUBLICIDADE EM BRUTO (não estou sequer a contar com o famoso saco) é proporção de cortar a sede informativa a qualquer um.


sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Há Lá Frase Pior?

Esperava mais de ti.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

Conservação e Restauro

Com sessenta e seis anos, assisto neste dia gelado às comemorações do 9º Centenário de Portugal. Sempre é verdade: com a idade, a pessoa passa a comover-se por tudo e por nada, e o nada é neste caso a recente tradição de se cantar o hino da Restauração a capella.
Na sua IV República, o país está perto de largar a vergonha de ser como é. Espanta-me como tudo parece já normal; ainda não passaram vinte anos desde que o grupo de políticos, jornalistas e cidadãos mais ou menos desconhecidos se montou no mito dos "quarenta conjurados" e convenceu os eleitores a mudar de governo, em favor da Nova Constituição. A coisa dos 40 Lusos pegou, para espanto de todos os analistas (descontando os d' O Faccioso). Continuamos democratas, passámos a presidencialistas; continuamos periféricos, mas somos high-key atlantists; continuamos diletantes, mas fazemos agora gala do nosso pragmatismo afonsino.
Quem diria que o casamento entre uma leonesa e um borgonhês ia dar nisto?

Quem Olhar o Foie Gras Saberá:

  • que o Governo não dura muito;
  • que o estado civil do Tom Cruise não dura muito;
  • que a depilação, em geral, não dura muito.